União gasta R$ 4,6 milhões por ano com prédio deteriorado
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União gasta R$ 4,6 milhões por ano com prédio deteriorado

Primeiro arranha-céu do Rio, edifício "A Noite" é escorado por estacas; despesas são com manutenção e vigilância

Luciana Nunes Leal

04 Março 2015 | 10h53

Quando foi inaugurado, em 1929, o edifício “A Noite”, primeiro arranha-céu da América Latina, com 22 andares, era ponto de atração de cariocas e turistas, que subiam ao mirante para ver a cidade de vários ângulos. Passados 85 anos, o prédio projetado pelo francês Joseph Gire, arquiteto do Hotel Copacabana Palace e do Palácio Laranjeiras, é o retrato do abandono.

Sem dinheiro para investir na restauração, a União, dona do imóvel, gasta, em média, R$ 388 mil mensais, ou R$ 4,6 milhões por ano, com vigilância e manutenção mínima do prédio. As despesas são pagas pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), que ocupava 18 andares do prédio.

Prédio construído em 1929 foi totalmente esvaziado em 2012. Foto: Fábio Motta/Estadão

Construção de 1929, na Praça Mauá, foi esvaziada em 2012. Foto: Fábio Motta/Estadão

No 21º andar, funcionava a Rádio Nacional, onde, nos anos 1940 e 1950, se apresentavam as grandes estrelas da Era do Rádio. No auditório escuro, restam pedaços de equipamentos de luz, algumas cadeiras. Os corredores, ainda com fotos dos ídolos da época, são a parte preservada em meio a pisos e tetos caindo aos pedaços.

Os elevadores ainda funcionam e funcionários do INPI trabalham na transferência dos documentos que estão guardados no edifício. A previsão é que os arquivos sejam totalmente removidos até o fim do primeiro semestre. Em 2014, a estrutura metálica da escada externa teve de ser trocada, para evitar que alguma parte caísse. Pequenos reparos na fachada também são feitos para evitar acidentes.

Parede de fotos de ídolos dos anos 1950 é o que restou da Rádio Nacional Foto: Fábio Motta/ Estadão

Galeria de ídolos dos anos 50 é o que restou da Rádio Nacional Foto: Fábio Motta/ Estadão

No entanto, não há previsão para a execução de uma obra de recuperação que permita a retomada do funcionamento do edifício onde, entre 1929 e 1937, funcionou o jornal A Noite. Além da Rádio Nacional, empresas e restaurantes ocuparam o célebre endereço, na Praça Mauá, ponto de ligação entre o centro e a zona portuária. Com o esvaziamento da região, nos anos 1970, período em que a cidade começou a se expandir para a zona oeste, a praça e sua construção mais marcante começaram a se deteriorar. Os últimos a deixar o prédio foram funcionários da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), em 2012.

Atualmente, a Praça Mauá é um canteiro de obras, com o Museu do Amanhã em construção e várias intervenções da prefeitura para reformulação da paisagem, depois da derrubada do Viaduto da Perimetral. O edifício “A Noite” destoa do cenário, com estacas de madeira que seguram a estrutura. No imponente saguão, agora vazio, funcionários de uma empresa terceirizada se revezam na vigilância. Do lado de fora, moradores de rua dormem sob o teto precário.

O prédio, que era preservado apenas por um decreto municipal de 2000, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2013. No ano anterior, o INPI havia lançado edital para fazer o projeto de reforma geral e teve que adequar às regras do tombamento. Neste intervalo, o dinheiro acabou.
“Em 2013, após adequações no projeto básico a ser licitado, o INPI teve restrições orçamentárias que impediram o prosseguimento. As obras nunca foram iniciadas, estando o Instituto na fase de planejamento das ações”, informou a assessoria do INPI.

Saguão tem apenas vigilantes contratados pelo INPI Foto: Fábio Motta / Estadão

Saguão tem apenas vigilantes contratados pelo INPI Foto: Fábio Motta / Estadão

Na prefeitura, a expectativa é que investidores privados tenham interesse no edifício, quando forem concluídas as obras de revitalização da Praça Mauá. O interessado teria de se adequar às normas do tombamento, preservar a fachada e as características do prédio, que marcou o início da verticalização do Rio de Janeiro. Até a construção do arranha-céu, os edifícios do centro não passavam dos oito andares. O INPI disse ter planos de voltar ao antigo endereço. “Uma vez recuperado o prédio, o objetivo do INPI é reocupá-lo, salvo se houver decisão governamental em outro sentido, já que o edifício pertence à União”, respondeu a assessoria do instituto.