A carta de exílio de Jean Wyllys
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A carta de exílio de Jean Wyllys

Morris Kachani

01 de abril de 2021 | 17h04

Exilado desde 2018, quando decidiu deixar o Brasil por receber constantes ameaças de morte, no mesmo ano em que sua colega de partido Marielle Franco (PSOL-RJ) foi assassinada, Jean Wyllys vive atualmente em Barcelona, na Espanha.

Dedica seu tempo a uma pesquisa de doutorado cujo tema é: “a articulação das fake news com discursos de ódio e os impactos desses discursos nos processos eleitorais e modo de vida das minorias”, na Universidade de Barcelona. E, nos momentos livres, à criação de desenhos e ilustrações. Ele se descobriu um artista autodidata no meio do caminho.

 

Como você tem vivido o exílio? Poderia traçar uma cronologia desde que saiu do Brasil, até aqui, sobre por onde esteve, o que fez, e sobretudo, uma crônica dos pensamentos e sentimentos que lhe ocorreram a respeito de nosso país?

Você tem saudade? No âmbito pessoal, como está sua vida?

Há um tipo de saudade que nem mesmo as novas tecnologias da comunicação conseguem amenizar. Eu sinto essa saudade, ainda mais acentuada pela interrupção dos abraços imposta pela pandemia de COVID-19. Mas a saudade é distinta da nostalgia.

Conte um pouco sobre as ameaças que recebia e que o fizeram deixar o país. Talvez a sua decisão tenha sido o prenúncio de um novo ciclo – hoje temos muitos opositores do governo sendo presos ou sofrendo intimidações judiciais.

Está tudo muito bem documentado nos relatórios da CIDH da OEA e da União Parlamentar Internacional sobre meu caso. Nas diferentes denúncias que eu fiz. E no noticiário nacional e internacional que cobriu minha saída para o exílio. Eu já intuía que a violência que me obrigou a sair do país – mas também a Márcia Tiburi e Debora Diniz, e que põe em risco, há anos, também a vida de Lola Aronovich – iria se estender a outras pessoas, inclusive a jornalistas da imprensa comercial. Seria questão de tempo.

Tratava-se, trata-se e sempre se tratou de fascismo.

Mesmo que à época em que já acusávamos este fascismo fôssemos tratados como “exagerados”. Claro, ninguém estava vivendo o que eu estava vivendo, poucos se importavam e para muitos era conveniente não ver o que eu estava mostrando. Eu só lamento que tenha sido sempre assim na história.

Que acha do Sergio Moro?

Medíocre, autoritário, corrupto e odioso, como toda personalidade fascista. E por isso mesmo um barro ruim do qual se pode esculpir ídolos de mentira para adoradores à sua imagem e semelhança.

O Brasil hoje responde por ¼ das mortes de covid no mundo, e não há uma política nacional coordenada para enfrentar a pandemia. Além da tristeza, e talvez impotência, o que pensa sobre esta fase crítica que estamos passando? Em que medida ela desmascara as mazelas do país?

A pandemia de COVID-19 tem sido manejada por esse governo como uma forma de gestão da pobreza

(a eliminação dos sujeitos não produtivos na perspectiva do capitalismo neoliberal) e de extermínio de minorias étnicas, como os povos indígenas e quilombolas.

Trata-se de um governo nazista – e já não se pode mais negar isto –

que só pode se erguer com a cumplicidade de uma classe dominante egoísta e predatória, de setores da classe média e dos trabalhadores identificados mais ou menos conscientemente com o racismo, o classismo e a homofobia sob os quais se forjou isso que chamamos nação brasileira. Parafraseando o verso de Carlinhos Brown, o Brasil não é só cor-de-rosa e carvão: o Brasil sempre foi antes de tudo verde e amarelo, ou seja, identificado o último refúgio dos canalhas: a patriotada fascista supremacista branca fundamentalista cristã e heteronormativa.

Você escreveu em 2019 o livro “O que será: A história de um defensor dos direitos humanos no Brasil”; como é possível tentar dialogar com pautas mais conservadoras/tradicionalistas como as defendidas pelo governo atual?

Como assim dialogar com a agenda desse governo? Se há dez pessoas numa mesa, um fascista se senta e ninguém se levanta, então, há onze fascistas na mesa. Meu livro é um claro alerta do que seria. Mas ele também é o mapa do que será, do que pode ser, porque o fato de eu estar aqui é a prova viva de que, sim, podemos fazer outros destinos para nós, individual e coletivamente.

Se arrepende do episódio do cuspe na cara? Poderia rememorá-lo, a partir da perspectiva de hoje? Agiria de outra forma, se pudesse hoje?

Eu não me arrependo de nada do que fiz até agora. Estou do lado certo da história. Sempre estive. E quero estar. Minha decência e coerência são meus tesouros ao lado de minha fome de conhecimento e de justiça.

Como enxerga os militares ocupando tantos cargos de chefia neste governo? Só nas estatais, são 92…

Este é um governo militar. E um governo que mostra quão competentes são os militares no poder. E um governo que desmoraliza as Forças Armadas, que deveriam se reservar a seu papel constitucional e não se converterem em inimigas do povo que lhes sustenta.

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes completou três anos domingo passado. A investigação do caso trouxe à tona diversas informações sobre o submundo do crime no Rio de Janeiro, mas não solucionou algumas das principais dúvidas sobre os homicídios.

Das três perguntas mais importantes — quem matou Marielle e Anderson, quem mandou matar Marielle e por que motivo —, apenas a primeira começou a ser respondida.

A que atribui esta situação?

Os assassinatos de Marielle Franco e de Anderson Gomes fazem parte de uma ruptura democrática que começa com a conspiração para o golpe de 2016, da qual fizeram parte os veículos da imprensa comercial. Nessa conspiração, a direita tradicional se misturou com setores do crime organizado para perpetrar o golpe contra o PT. Solucionar o assassinato de Marielle significa colocar luz sobre como se deu essa conspiração, quem dela participou, como participou e como se deu a partilha do poder usurpado, e quais suas consequências para as esquerdas e para a democracia.

Quais suas expectativas com relação a 2022?

Não posso dizer o que é ideal. Só posso dizer que a injustiça contra Lula deve ser reparada. Que ele é superior moralmente aos seus algozes.

Lula é o único candidato capaz de vencer o genocida em 2022.

Um genocida que foi eleito graças à injustiça cometida contra Lula e ao apoio de setores que agora traçam falsa equivalência e falam em “polarização”. Não há outro candidato de centro além de Lula. E traçar falsa equivalência entre ele e o genocida é só mais uma forma mal-disfarçada de seguir cometendo injustiça contra Lula e apoiar o genocida.

Você tem esperanças?

Eu sou um ativista. Quem é ativista espera menos acontecer: faz a hora.

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