A conselheira de Huck

A conselheira de Huck

Morris Kachani

08 Dezembro 2017 | 08h56

Por mais que tenham sido publicadas diversas reportagens a respeito, para mim pelo menos, não estava muito claro ainda, de que matéria-prima é feito o Agora!, o movimento que ganhou mais notoriedade nestes últimos tempos por contar com a participação ativa e ilustre de Luciano Huck.

Com este propósito, procurei a Ilona Szabó, que participou da criação do Agora!, que existe desde 2016 e hoje conta com 90 membros. Foi uma conversa ilustrativa ao cabo da qual compreendi se tratar de um think tank, que advoga por uma espécie de globalização mais inclusiva. Arredia a rótulos, Ilona se nega a situar o movimento no espectro polarizado das direitas e esquerdas.

“Se estivéssemos nos Estados Unidos, seria democrata, isso não existe aqui no sentido do liberalismo progressista. Eu sou uma liberal extremamente preocupada com questões sociais, então não quero uma economia fechada e tampouco restrições em liberdades importantes.”

“Dá pra viver em um lugar bacana onde você vai continuar tendo o privilégio que sua educação te deu, que a renda de seu patrimônio te dá, mas sem que isso custe muitíssimo pras pessoas que não tiveram o mesmo acesso que você. Então tem que abrir mão de alguma coisa”.

Sua própria trajetória talvez seja ilustrativa. Antes de mais nada, pela faixa etária – Ilona tem 39 anos e cercou-se de uma turma que faz parte dessa mesma geração, como Carlos Jereissati, Ronaldo Lemos, Humberto Laudares, Patrícia Ellen e tantos outros.

Egressa de uma família de classe média metade húngara metade brasileira, Ilona se formou em relações públicas internacionais, trabalhou por quatro anos em bancos de investimento, depois fez um mestrado na Suécia e passou a trabalhar na ong Viva Rio, entre outras atividades.

Especializada em segurança pública e política de drogas, Ilona também trabalhou com FHC e com Fernando Grostein, irmão de Huck, na concepção do filme Quebrando o Tabu. Hoje ela também toca o Instituto Igarapé, engajado na promoção de políticas públicas no hemisfério sul, com especial atenção para o tema da construção da paz em situações de conflito.

Foi uma hora e meia de conversa. Estávamos em uma mesa na área externa da Kopenhagen, na Vila Madalena. O mais curioso é que só fui tocar no nome do Luciano Huck no final da entrevista. E, para meu espanto, ele apareceu neste preciso momento. Nem me ocorreu de convidá-lo para participar da entrevista. Parecia, como quase sempre, um pouco apressado. Dali eles sairiam para um almoço. Luciano nos cumprimentou, falamos um pouco da vida, e então ele partiu para dentro da loja, enquanto finalizávamos a conversa. Ao longe, observava a cena que se repete pelo Brasil, das pessoas – no caso, as balconistas – tirando fotos a seu lado.

Ficou a promessa do Luciano, de conceder uma entrevista a este blog, no momento oportuno.

*

“Obama e Michele, pra mim são um casal que se desse para passar um mês aprendendo com eles, eu dava tudo pra passar, pra sugar ali. Sou humanista, minha ideologia é muito mais essa que política.”

“Nunca fui de seguir na linha das políticas de identidade. Eu sou mulher e vou defender as mulheres sempre, mas eu não me rotulo nem participo ativamente de fóruns feministas, porque acredito de verdade que as causas que de fato a gente precisa estar se unindo para enfrentar, elas transcendem as políticas de identidade.”

“O abismo social que vivemos tem relação com fatos do passado, seja a escravidão ou a condição das mulheres. São escolhas históricas que criaram estes bolsões, que hoje a gente trabalha digamos para conter, muito mais do que para integrar.

Se eu não enxergar isso, nunca vou poder viver em um país onde minha filha possa brincar na pracinha tranquila e eu sem medo. Nunca vou poder fazer isso. E eu amo meu país. Não quero precisar ir embora daqui. Porque eu posso. É um horror dizer isso, porque eu tenho a opção de ir, mas e quem não tem?”

“Esta história de que rouba mas faz, de que não é muito certo mas é meu amigo, que é uma ótima pessoa pra você conversar no bar… o não-comprometimento com os valores mais básicos da cidadania, de você relevar tudo em nome do cara ser bacana, de você jogar bola, etc, levou a gente onde a gente chegou, no Rio de Janeiro.”

“Se você me perguntar se algum dos nomes que estão aí para 2018 me animam, eu acho que nenhum deles construiria a agenda que a gente quer.”

“A gente teve uma geração pós ditadura que trabalhou muito para criar instituições e colocar o país no âmbito das democracias minimamente estruturadas. Mas que delegou a questão política, um sistema que não era permeável, que se encastelou e trabalhou um projeto de manutenção de poder. E daí vários grupos que poderiam trabalhar pelo bem público, acabaram trabalhando por privilégios específicos. É preciso romper práticas, mas também romper gerações.”

“O Luciano está ajudando a formar um grupo de comunicação, o desafio é como mostrar nosso ouro. E o que ele fala, e vive repetindo, é que conselho ajuda e exemplo arrasta.”

“Gostaria que de fato as pessoas que tiveram privilégio e acessos a oportunidades, se unissem para construir as melhores políticas públicas, com a perspectiva de que ou a gente nivela pra todo mundo -e vai ter sempre desigualdade mas num nível diferente-, ou a gente não vai conseguir ter uma vida segura, uma vida onde tem convivência pacífica.”

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Antes de mais nada, quem é você?

Eu sou uma brasileira mas muito cidadã do mundo até pelas origens, até pelo meu casamento, pois sou casada com um canadense, tenho uma filha canadense brasileira, e sou neta de húngaros de um lado, e espanhóis com cafuzos e portugueses de outro. Então por mais que ame meu país,  sempre fui muito curiosa com o mundo.

Você trabalhou no mercado financeiro, não?

Saí de Friburgo, onde nasci, e fiz um intercâmbio que mudou bastante minha vida. Fui morar na Letônia aos 17 anos, e isso corroborou minha visão de mundo de que gostava de várias tribos, não de uma só.

A Letônia na época era uma sociedade em transição, metade da população falava letão, metade russo. Foi o ano em que estavam derrubando estátua, mudando nome de rua, e eu não queria falar com apenas 50% da população. Tive que aprender os dois idiomas, falo melhor o letão do que o russo – o russo aprendi em mesa de bar mas só o basicão.

Mas afinal consegui me conectar com gente muito diferente de mim, e também encarei desafios. Por exemplo, era fresca pra comer, e lá não tinha quase nada disponível, um frio danado.

Enfim, aquilo foi bastante formativo de minha visão de mundo.

Quando voltei ao Rio, comecei a faculdade e acabei sendo contratada para ser estagiária de câmbio no banco Marka. Buscava um posto de trainee em uma multinacional, e por acaso pintou mercado financeiro.

No banco começaram os questionamentos. Sempre tive a história do social, sabia que era de classe média, e que havia gente com muito mais dificuldade. E foi muito chocante, no banco eu perguntava quem conhecia favela ou quem me levaria a visitar comunidades, e ninguém aparecia. Eram mundos que não cruzavam. E então eu comecei a pensar que eu posso, dentro do incômodo que tenho com relação a desigualdade, insegurança e violência, usar minha energia.

Que pensa do mercado financeiro?

Fiquei 4 anos. Primeiro, fui estagiária de câmbio, depois fiz o back office de tesouraria internacional do Icatu. Com toda honestidade o que acho, é que nas discussões sobre desigualdade é preciso incluir o mercado – e mercado não é uma entidade, são pessoas,  mas pessoas que têm uma vida muito privilegiada, mas muito mesmo. Se você quer discutir o Brasil que vai ser bom pra todo mundo, faz parte as pessoas do mercado entenderem quais privilégios elas têm nessa sociedade. Para mim o mercado tem que sentar sabendo que tem parcela de responsabilidade nessa discussão. Todo mundo vai ter que abrir mão.

Como você se posiciona politicamente?

Não sou de uma tribo só, acredito numa economia conectada, sou uma cidadã que gosta de viajar e de acessar as coisas mais básicas, realmente acho que é um desperdício fechar fronteiras e achar que temos respostas e soluções para tudo. Acredito em uma espécie de globalização mais inclusiva, acredito realmente nas trocas, não sou nacionalista.

Para facilitar, se estivéssemos nos Estados Unidos, seria democrata, isso não existe aqui no sentido do liberalismo progressista. Eu sou uma liberal extremamente preocupada com questões sociais, então não quero uma economia fechada e tampouco restrições em liberdades importantes.

Seria uma mistura de Lula e FHC.

Sim, se você for pensar no que os dois têm de melhor, sim. Quando penso na polarização do Fla-Flu, direita-esquerda, acho que tem coisa boa dos dois lados. Respeito as ideias dos dois líderes.

Que achou das manifestações de 2013?

Achei fantástico em 2013 as pessoas irem pra rua, tinha um sopro de mobilização, do despertar de uma sociedade que eu vejo ainda pouco engajada, que espera as coisas caírem do céu ou do Estado provedor.

Como assim?

Nada é escrito em pedra. A sociedade tem que monitorar o que está funcionando em termos de políticas públicas, avaliar se vale a pena continuar, até onde for necessário. Não é a gente escrever em pedra e ir criando na nossa sociedade os puxadinhos dos privilégios. Temos vários sistemas como o tributário, previdenciário e tantos outros que vão beneficiando grupos e a gente não faz revisão porque o Estado se comporta como se fosse direito adquirido. Não é direito adquirido.  O compromisso da sociedade civil mobilizada é acompanhar a evolução dessas políticas.

Se dependesse apenas de você, o que gostaria que acontecesse daqui pra frente no Brasil?

Gostaria que de fato as pessoas que tiveram privilégio e acessos a oportunidades, se unissem para construir as melhores políticas públicas, com a perspectiva de que ou a gente nivela pra todo mundo -e vai ter sempre desigualdade mas num nível diferente-, ou a gente não vai conseguir ter uma vida segura, uma vida onde tem convivência pacífica.

Consegue nomear com quem seu pensamento se alinha?

É um pouco o que estamos fazendo no Agora!, e em todas redes das quais tenho participado: uma curadoria de várias pessoas que a gente admira, de diversas áreas estratégicas, que se junta e cria relações de confiança, onde ego, emoções e ideologias são menos importantes que objetivos comuns.

Eu vejo o Brasil com as melhores pessoas, de diferentes cores, matizes e origens, pessoas que querem se comprometer com o outro. Trabalhar apenas para você é muito fácil. Meu preenchimento vem de um impacto maior, é uma coisa de empatia pela humanidade. Sou humanista, minha ideologia é muito mais essa do que política.

Quais seriam suas referências culturais?

Graça Machel e Mandela, por exemplo. Obama e Michele, pra mim são um casal que se desse para passar um mês aprendendo com eles, eu dava tudo pra passar, pra sugar ali.

Trabalho em um tema muito difícil, muito porque acho que sem segurança, não há liberdade.

São várias redes que você construiu, então…

Tô construindo, nada você faz sozinha, as redes a gente constrói junto. Me especializei em temas da agenda de segurança pública e criminal. Pela Viva Rio, através do Rubem Cesar, coordenei na época a história de aprovar a lei de controle de armas. A gente fez toda uma mobilização para passar a legislação. Desta campanha tirei um baita aprendizado quando encontrei o que hoje chamo de meus quatro Ps – padre, pastor, polícia e político. Passei alguns anos nessa engrenagem e entendi o que era política lato sensu no Brasil.

Ainda passei pela Comissão Latina sobre Drogas e Democracia, onde pude ver após um longo processo, um ex-presidente como Cesar Gaviria, sair do discurso duro sobre combate e erradicação, para uma postura oposta. Ele, que perdeu uma irmã e foi vítima de vários atentados na Colômbia.

Qual o seu desafio hoje?

O desafio para mim hoje é me desarmar. Eu digo às vezes que eu preciso armar o espírito pois eu lido hoje com muito homem, muita agressividade, violência. E ao longo dos anos também fui endurecendo o discurso e as respostas, correndo o risco de ir pro campo errado. Meu maior desafio pessoal hoje é como me preparar melhor para enfrentar a agressividade do discurso de violência sem reproduzi-lo.

É muito machista o mundo?

É. Mas enquanto mulher, e aí tem uma coisa, nunca fui de seguir na linha das políticas de identidade. Eu sou mulher e vou defender as mulheres sempre, mas eu não me rotulo nem participo ativamente de fóruns feministas, porque acredito de verdade que as causas que de fato a gente precisa estar se unindo para enfrentar, elas transcendem as políticas de identidade.

Muitas vezes, para eu chegar nos grupos e falar sobre política de drogas, demora muito tempo para eles se abrirem. E são justamente os grupos mais afetados. Sejam jovens negros ou mulheres negros, pessoas da periferia. Então quanto mais se segrega em políticas de identidade, a meu ver o que importa e nos afeta se enfraquece na nossa luta. Tenho muito clara a batalha, divido com estes grupos as mesmas causas, mas sem me fechar em um lugar de fala determinado, porque acredito em diálogos mais amplos.

As cotas nesse sentido, como transitam para você?

Temos um passivo histórico.  O abismo social que vivemos tem relação com fatos do passado, seja a escravidão ou a condição das mulheres. São escolhas históricas que criaram estes bolsões, que hoje a gente trabalha digamos para conter, muito mais do que para integrar.

Temos que trabalhar melhor a perspectiva histórica e entender que o acesso à oportunidade é muito diferente dependendo do lugar de origem, da cor e sobrenome –tem pesquisa mostrando que seu sobrenome te liga a ganhar mais ou menos, por exemplo. Hoje quem mata, morre ou tá preso, tem muito dessa linha histórica.

Se eu não enxergar isso, nunca vou poder viver em um país onde minha filha possa brincar na pracinha tranquila e eu sem medo. Nunca vou poder fazer isso. E eu amo meu país. Não quero precisar ir embora daqui. Porque eu posso. É um horror dizer isso, porque eu tenho a opção de ir, mas e quem não tem?

O que você acha da situação do Rio?

Muito triste. Mas não vale só lamentar. Tá tudo tão ruim que não adianta só reclamar. Tem que pensar no que fazer.

Chegou onde chegou porque o Rio é uma província, moro lá mas não sou da cidade, não faço parte do clube dos cariocas, lá existem clubes. Esta história de que rouba mas faz, de que não é muito certo mas é meu amigo, que é uma ótima pessoa pra você conversar no bar… o não-comprometimento com os valores mais básicos da cidadania, de você relevar tudo em nome do cara ser bacana, de você jogar bola, etc, levou a gente onde a gente chegou.

Foram décadas de negligência das comunidades carentes, a histórica opção por privilegiar a Guanabara. E a beleza natural entorpece, então é muito melhor ir pra praia do que para uma reunião numa rede que está tentando mudar políticas publicas rs

Então tem uma coisa de que a cidade joga contra, os atrativos são muitos para você praticar seu lado bon vivant a um custo barato, não precisa ter muito dinheiro para ter o que a cidade te oferece. Mas… olha onde a gente chegou. Houve uma relação muito permissiva dos cariocas com o que estava errado, eticamente todo mundo sabia que existia corrupção e roubalheira.  A elite sempre teve relações que lhe interessavam, então teve um grau de responsabilidade, de quem tinha privilégio com essa situação.

Quando falo que hoje tem que ter os empresários, o mercado, a sociedade discutindo solução, todos têm que entender que pra ter algo melhor é preciso abrir mão disso tudo, tem que limpar estes puxadinhos, e dizer, dá pra viver em um lugar bacana onde você vai continuar tendo o privilégio que sua educação te deu, que a renda de seu patrimônio te dá, mas sem que isso custe muitíssimo pras pessoas que não tiveram o mesmo acesso que você. Então tem que abrir mão de alguma coisa.

E a formação do Agora!, como se deu?

O Agora! vem de um incômodo compartilhado. A gênese se deu quando Leandro Machado, Patrícia e eu estávamos em um evento fora do Brasil, no Fórum Econômico Mundial.  A representação do Brasil nos envergonhou.

Lideranças de países que até pouco tempo eram muito menos expressivos, foram muito mais assertivas e importantes que nossa representação. Nosso pares traziam senadores ministros etc, gente de liderança no setor público, e na nossa rede de brasileiros não havia ninguém. Então pensamos, tem algo muito errado. Toda nossa geração com raras exceções, não se engajou no setor público. Raras exceções. Ou vem de um clã político, ou prestou concurso para o ministério público por exemplo, engolindo um monte de sapo. Mas a maioria se fez fora do setor público.

E então surgiu o desafio, como engajar nossa geração na política pública com o objetivo de juntar essas inteligências, pessoas que tivessem uma trajetória que a gente admirasse em temas que a gente achava que são prioritários para uma nova visão de país e agenda.

Quem são estas pessoas?

São pessoas que vêm de diversas origens, eu sou do interior do Rio, Leandro é do interior do Mato Grosso do Sul, a Patrícia vem do Campo Limpo e faz uma trajetória muito diferente da maior parte de sua família e consegue romper uma série de obstáculos para chegar a ser sócia, agora ex-sócia, da Mc Kinsey. Como tem também um Carlinhos Jereissati que é um cofundador, um cara que vem de família rica, executivo que constrói seu patrimônio. São fazedores, o nosso perfil era de membros que tivessem um valor muito compartilhado. Podem ser empresários, ou gente setor social, do serviço público. Fazedores dispostos a comprometer um tempo a serviço da vida pública, tentar achar esses consensos mínimos, que mesmo sendo mínimos, podem ser transformadores.

Existe um traço comum entre os fazedores?

A diversidade é muito ampla. Há lideranças sociais, como a Priscila do Todos pela Educação, o Humberto Laudares que é assessor econômico do senado, o André Barrense, gestor público que agora está no Google Campus, Beto Vasconcelos, que foi secretário em vários governos Lula e Dilma, e hoje tá na advocacia. Tem o Caio, super advogado, que fez negociação de delação da Odebrecht, tem enfim literalmente de tudo.

São 90 membros?

  1. Começamos em um grupo coordenador de 7, que formou 50 cofundadores. Depois chegamos a 90. E já temos uma lista. A gente tem 5 estratégias e a mais importante é escutar. Entender que posso ser o melhor formulador de politica pública do mundo, mas que preciso estar resolvendo os problemas.

Quais são as 5 estratégias?

Escuta, Pensa, Mobiliza, Fala e Atua. Temos cinco grupos de trabalho estratégicos, e dez grupos de trabalho temáticos.

Isso é o bacana essa é a liga se você quiser colocar no jargão, dos liberais e progressistas do grupo: todos concordam que a redução da desigualdade é o problema chave que precisa resolver, e que nenhuma reforma que a gente propuser pode ir contra isso. Nossos temas são segurança pública, educação, saúde, cidades humanas, cultura, reforma do Estado, desigualdade, emprego, empreendedorismo, inteligência tecnológica. E sustentabilidade, gerar riqueza a partir da preservação do patrimônio.

Como se fossem ministérios.

Tipo ministérios. Eu enquanto uma das idealizadoras posso dizer, a ideia seria de preparar um grupo que possa ser um time de sonhos de um gestor público decente.

E quem seria esse gestor público?

Se você me perguntar se algum dos nomes que estão aí para 2018 me animam, eu acho que nenhum deles construiria a agenda que a gente quer. Por que não? Porque a maior parte das nossas lideranças hoje não está disposta a continua jogando pra plateia, continuam preocupados ali, se um endurece outro endurece, se um amolece outro amolece, estão ainda infelizmente na lógica do marqueteiro que pode dizer o que repercutiu bem ou mal. O que a gente acredita e sonha, é experimentar situações bem sucedidas.

Onde há situações bem sucedidas, no Brasil de hoje?

Tem gente da nova geração, tem prefeitas, como por exemplo a Paula Mascarenhas de Pelotas, Raquel Lira de Caruaru, antes o Eduardo Leite que estava fazendo um trabalho em Pelotas também. São experiências que não podem ser perdidas por falta de continuidade.

Que geração é essa?

Vamos dizer aí, dos 70 até os 80. A gente teve uma geração pós ditadura que trabalhou muito para criar instituições e colocar o país no âmbito das democracias minimamente estruturadas. Mas que delegou a questão política, um sistema que não era permeável, que se encastelou e trabalhou um projeto de manutenção de poder. E daí vários grupos que poderiam trabalhar pelo bem público, acabaram trabalhando por privilégios específicos. Incluem desde empresários a outros setores. O pensamento que nos trouxe até onde nos trouxe. É preciso romper práticas, mas também romper uma geração.

Por exemplo, não temos aqui no Brasil, como em outros lugares do mundo, esta preparação de novas lideranças. Estive em Portugal, lá eles sabem quem será a ministra das relações exteriores daqui a dez anos, está ali sendo treinada, aquele quadro vira. Aqui não existe esta generosidade de ter mentores.

Que achou desta história do Luciano Huck?

Achei uma ótima oportunidade. E continuo achando. O Luciano entrou no grupo porque é um dos fazedores desta geração, preocupado e engajado com questões para além do trabalho dele.

Quando o Luciano começa a falar sobre renovação política, em abril, a gente tava bombando no Agora!. Foi o momento em que o Agora! começou a se questionar, e se alguns membros também quiserem ser candidatos?

Começamos a olhar para as pessoas com perfil mais público de nossa geração, e que pudessem nos ajudar nessa tradução pra sociedade, porque a gente fala uma linguagem mais técnica – não conseguimos chegar em todas as casas, é um desafio que temos.

Por exemplo, como falar de segurança atendendo aos medos, anseios e raiva que as pessoas sentem. Isso pra mim precisa desses tradutores. E Luciano é uma dessas pessoas.

Fomos bater um papo, não necessariamente para ele entrar no grupo, se pensava em se candidatar ou não. A gente achou nele e em nós, as mesmas perguntas, absolutamente a mesma conexão.

Foi meio mútuo, passei os temas da agenda e ele falou, tem só uma coisa que tá faltando explicitar, que é tecnologia e governo, como é que a gente cria escala e não perde tempo. É um tema transversal, temos o Ronaldo Lemos no grupo. O up foi visível. Foi super bacana. Então teve aí um match de afinidades e numa estratégia de que não é só com o Luciano, a gente quer trazer outras pessoas públicas, a gente até deu um tempo depois do que aconteceu com o Luciano. Mas tem outras conversas muito legais acontecendo.

O Luciano segue engajado.

Super engajado. E pra dizer a verdade nada mudou. Óbvio que houve uma avalanche de confusão, algumas informações trocadas, o grupo ganhou visibilidade.

Houve dissidências também.

A gente vai comprar boas brigas e discussões fundados no melhor conhecimento, pra mim muita gente vai entrar e sair, isso é natural de acontecer nos grupos.

No que o Luciano está colaborando?

No momento ele está organizando um evento de tecnologia, está na curadoria dele junto com o Ronaldo. Estamos formando um grupo de comunicação, o desafio é como mostrar nosso ouro, e o que ele fala, e vive repetindo, é que conselho ajuda e exemplo arrasta.

Conselhos ajudam, exemplos arrastam.

Sim, exemplos práticos têm mais apelo no sentido de trazer mais gente.

O programa dele na TV, você tem uma avaliação crítica?

Olha vou ser honesta, não assisto TV aberta. Então o que eu sei é muito da construção de trocar ideia. Curto muito os quadros que trabalham temas difíceis como refugiados, a maneira como são abordados. Mas sabia que ia ter uma desconfiança.