A ética do quilombo
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A ética do quilombo

Morris Kachani

30 de novembro de 2021 | 09h49

Em meio à distopia brasileira, surge a ideia do “aquilombar-se” – resgate dos saberes tradicionais afro-diaspóricos em territórios capazes de acolher os indesejados em uma ética libertária e de resistência

Entrevista com Emiliano David, psicólogo e psicanalista, mestre em Psicologia Social PUC-SP. Integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e membro do Grupo de Trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

“A vida nos quilombos tem sido uma vida que visa uma tendência emancipatória, ali eles comem o que plantam, o que colhem, ali acordam os diversos – mesmo aqueles que não necessariamente ali nasceram ou que não necessariamente têm inscrição sanguínea ancestral. É um espaço que visa o comum, mas que visa o comum na diferença.

Então é um espaço que afirma as diferenças para a construção de um comum. Porém, essa perspectiva de comum, ela é uma perspectiva que tem sido compreendida de modo ameaçador. E isso faz com que esses povos tenham vivido uma forte repressão e de perda de direitos, ao longo do espaço e tempo. Por isso também, é um espaço de resistência, existência, manutenção e reedição de saberes”

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=qEfMys3bZPM&t=48s

“Na prática, uma São Paulo aquilombada, seria quebrar a lógica da “ponte para cá, e da ponte para lá”. Seria quebrar a lógica de uma cidade dividida por um rio, mas tomar o rio na perspectiva afroindígena, onde o rio não é divisão, onde o rio é união, passagem”

“O aquilombar-se não é circular entre os seus. O aquilombar-se é circular entre “todos nas diferenças”. Então a perspectiva ética de um aquilombamento é a perspectiva do passante. Do contrário a gente vai cercear, do contrário a gente vai aglutinar.

Mesmo hoje, os quilombos mais urbanos da cidade de São Paulo – como o Terça Afro – todos esses espaços estão propondo a circulação de corpos negros e negras, que de alguma forma têm tetos e paredes de vidro.

Então esse filósofo, que é o Achille Mbembe, ele nos lembra que as populações negras, africanas sempre circularam, que é o que ele chama de “ética do passante”. Então, essa ética do passante  [significa] livre circulação”

“Nos “tempos manicomiais” em que estamos, estar em “parafuso” é sinônimo de saúde”

Para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), “o termo quilombo é uma categoria jurídica, visando assegurar a propriedade definitiva às comunidades negras rurais dotadas de uma trajetória histórica própria e relações territoriais específicas, bem como ancestralidade negra relacionada com o período escravocrata”.

Mas de acordo com a psicologia social o quilombo significa muito mais do que uma “propriedade” com “ancestralidade negra”, que pode ser definido através de diferentes contextos.

Para Abdias Nascimento – autor de “O Quilombismo” – poderia ser definido como um sistema econômico que fosse adequado a um meio brasileiro dentro de uma perspectiva coletiva e igualitária. A utopia de uma sociedade sem preconceitos e que oferecesse direitos e políticas equitárias para todas e todos.

Infelizmente essa não é a realidade no Brasil, onde o Estado e seus direitos básicos parecem atender apenas uma minoria, que não a negra ou periférica. 75% dos mais pobres são negros, segundo levantamento realizado em 2018 pelo IBGE, que apontou como pretos e pardos trabalham, estudam e recebem menos que os brancos no país.

Na pandemia morrem 40% mais negros que brancos por coronavírus no Brasil (levantamento da CNN Brasil), talvez graças ao sucateamento do Sistema Único de Saúde – do qual 80% da população negra é dependente.

Além da falta de recursos básicos, igualdade de oportunidades, desigualdade econômica e violência, há ainda a tentativa de anulação por completo dessa população com políticas de branqueamento, especialmente no campo da saúde mental, da psiquiatria, com a contínua associação do negro à loucura, que é secular no Brasil.

Para suprir a distopia brasileira, surge a ideia de “Aquilombar-se”, que para Emiliano David, “é um resgate dos saberes tradicionais para a descolonização das práticas terapêuticas; para isso é necessário trazer pelo contexto da reforma psiquiátrica as teorias, os ensinamentos africanos e afro-diaspóricos, afro-índigenas, para combater o epistemicídio”

O Instituto AMMA Psique e Negritude é uma organização não governamental cuja atuação é pautada pela convicção de que o enfrentamento do racismo, da discriminação e do preconceito se faz necessariamente por duas vias: politicamente e psiquicamente.

Foi fundado em 1995 por um grupo de psicólogas, ativistas, comprometidas e familiarizadas com o enfrentamento político, com a constatação de que somente a via política não é suficiente. Desde então, o instituto tem buscado por meio de formação e prática clínica, identificar, elaborar e desconstruir o racismo e seus efeitos psicossociais.

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“O aquilombamento não é um termo forjado por mim, obviamente. É um conceito que acompanha as discussões de toda a temática racial, em especial da população negra, por muitos anos. Tiveram uma série de mulheres, pesquisadoras, pensadores e também militantes, que trabalhavam com esse tema. Talvez a novidade das minhas pesquisas, em termos desse conceito, foi associá-la a dimensão da saúde mental, em especial no âmbito da reforma psiquiátrica, da luta antimanicomial”

“O aquilombar-se dentro da saúde mental só foi possível porque eu trabalhei por muitos anos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPES), que são serviços, grande parte deles, que trabalham no âmbito da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial. São serviços substituíveis aos hospitais psiquiátricos. E eu fiquei pensando, a ética de um CAPES é uma ética libertária, ela visa que as pessoas possam circular em liberdade, em especial aqueles que estão em sofrimento psíquico severo, que exige um tipo de cuidado nessa ordem, mas que não são presas, institucionalizadas.

E que os territórios pudessem acolher aqueles que são chamados de anormais, aqueles que ninguém quer lidar, os loucos, as loucas. E essa ética já existia, não era uma ética nova no Brasil, essa ética já existia nos quilombos, os quilombos eram espaços que vislumbravam liberdade, que tinham uma ética libertária, que já acolhiam os indesejados. A ética dos quilombos pode ser compreendida à luz da reforma psiquiátrica”

“Quando a gente olha socialmente, politicamente, raça é determinante no Brasil. Ela interfere, organiza, classifica. Até [é presente] em discussões que temos discutido muito na atualidade; contaminação, internação e morte. Quando você faz um recorte por raça e cor nos dados da Covid-19, você vê como raça organiza as situações, então é evidente que raça organiza os territórios”

“Se a gente pega a cidade de São Paulo, ela é uma cidade organizada racialmente. Se você pega determinados bairros como, os bairros mais centrais, na zona norte o bairro de Santana, na zona sul o bairro de Moema, na zona oeste o bairro de Perdizes ou mesmo Pinheiros. E o oposto também, na zona norte o bairro da Brasilândia, na zona sul o bairro do Grajaú, na zona Leste o bairro de Itaquera. Se você fizer um recorte racial, pode brincar com o IDH, quais são os bairros que possuem quadra poliesportiva, teatro, cinema?

Mesmo na contemporaneidade, mesmo nos territórios urbanizados, raça organiza os territórios, que dirá então em um território tradicional”

“Uma São Paulo aquilombada é uma São Paulo por vir, de um tornar-se, de um devir negro. Essa São Paulo que precisa se compreender negra. (…) Em números absolutos, São Paulo é a cidade com o maior contingente de negros e negras, pessoas que se autodeclaram pretos e pardas do Brasil, quando a gente pega em números absolutos.

Contudo, existem territórios em São Paulo que são “nórdicos”. Os “escuros” circulam nesses territórios quando esses territórios estão escuros. Essas populações [de negros] continuam trancadas nas “novas casas grandes”, podemos fazer esse paralelo”

“A colonialidade sempre precisou construir esse tipo de paradigma. O paradigma saúde e doença, normal e anormal, sanidade ou loucura. A nossa sociedade está organizada assim, ela é classista, ela é racista e xenofóbica”

“A gente vai ter que racializar para desracializar. A todo tempo vamos racializar para desracializar, topar a diferença para propor o comum, é um tipo de dança, de relação, que não é fixa, desde a sua concepção, por isso ela é usada”

“A herança do período escravocrata está para todos nós. Em geral, olhamos essa herança a partir apenas de um ponto, de quem foi escravizado, como se a subjetividade de quem escravizou não tivesse sido impactada”

“No consultório eu não atendo apenas negros, a gente está em uma chave das relações raciais. E as relações raciais estão no campo das diferenças mais uma vez. Então nos interessa muito [no consultório] não escutar apenas negros, mas os brancos, as brancas e tantos outros grupos étnico-raciais. E compreender também, que o que é passado, ensinado, herdado, de geração a geração, também está nos grupos que escravizaram, que dominaram”

“Para se matar a população negra, embora a gente saiba que há um genocídio em curso e que acontece com balas, mas nem precisaria atirar, basta continuar sucateando o SUS, porque uma população que é SUS dependente, se você sucatear o SUS, ela não tem acesso à saúde”  

“Eu não perco a esperança pela dinâmica de luta. Eu sempre ouço que é uma utopia acabar com os negros no Brasil, essa utopia sempre esteve vigente no Brasil, ela inclusive já foi oficial com as políticas de branqueamento, hoje essa política não está legislada, mas ela está em curso. Contudo, nessa lógica de tiro, o tiro saiu pela culatra, porque esse país não embranqueceu, esse país “empreteceu””.

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