A necropolítica, segundo Safatle: “gerir a população é definir quais são as franjas que podem ser exterminadas, sem dolo, sem luto, sem nada”
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A necropolítica, segundo Safatle: “gerir a população é definir quais são as franjas que podem ser exterminadas, sem dolo, sem luto, sem nada”

Morris Kachani

21 de julho de 2020 | 16h33

Com Isabella Marzolla

Assista à entrevista: https://youtu.be/jjy41FUYVVs

A função primeira do Estado brasileiro, historicamente, é organizar uma guerra civil não declarada contra uma parte do seu povo.

A democracia no Brasil nunca existiu direito.

A polícia e o Exército – o Estado como um todo -, existem para defender os grupos com maior capacidade de espoliação, dentro de uma herança colonialista que nunca se desfez.

Uma estrutura de sujeição psíquica. Corpo e poder.

A experiência da morte não é a mesma para todos.

Em resumo, é importante que o Estado tenha medo do povo, e não que o povo tenha medo do Estado.

Bem vindo à necropolítica, apresentada aqui pelo filósofo Vladimir Safatle, professor da USP.

“É preciso entender como se define o fato da morte em uma sociedade. A morte não é a mesma para todos. A experiência da perda não é exatamente idêntica. Porque você tem de fato uma espécie de duplo destino, e um horizonte em que estruturas de poder aparecem para parcelas significativas da população, não como forma que vai organizar as formas de vida, mas que vai definir as condições da morte. A substância ética de um povo é definida pela maneira como ele lida com a morte”.

 “A sensibilidade da experiência colonial permite uma compreensão mais clara do que significa morrer. O significado da experiência escravagista e como ela define duas formas de sujeitos, e como um grupo cai na condição de coisa. Gerir a população é definir quais são as franjas que podem ser exterminadas, sem dolo, sem luto, sem nada. O núcleo arcaico da vida social permaneceu entre nós. Temos setores da população que vivem em um tempo arcaico”.

 “Essa dinâmica colonial permanece, principalmente nos países que vão se transformar em um laboratório da experiência neoliberal. O colonialismo não passa, ele transmuta em uma outra relação. Você fortalece as demandas individuais. Só que para isso, você passa por uma despolitização social. Você precisa eliminar uma parcela da população que não dialoga com este modelo, usando o poder do Estado. É um sistema social de grande espoliação econômica, de grande espoliação psíquica e de grande violência política”.

 “A primeira imagem do neoliberalismo na América Latina é o palácio de La Moneda pegando fogo. É assim que o neoliberalismo é inaugurado no continente”.

 “Que tipo de democracia é essa que organizou largas populações exteriores ao estado de direito? Democracia brasileira, essa que tentamos implementar depois do fim da ditadura – o máximo que conseguimos fazer foi uma democracia geograficamente sitiada. Ela vai até Higienópolis, Perdizes. Em São Miguel Paulista nunca existiu essa democracia. E nem poderia existir em um país que tem polícia militar. A polícia militar é uma aberração em si. Existe um fundo falso do que nós chamamos de democracia”.

 “A função primeira do Estado brasileiro, historicamente, é organizar uma guerra civil não declarada contra uma parte do seu povo. O Estado brasileiro nasceu para isso. É uma história de chacina, de desaparecimento. Esta é a forma de gestão do Estado brasileiro. A sociedade brasileira é nascida do latifúndio escravocrata, e essa experiência permaneceu. O Estado age como um Estado colonial. A pandemia desrecalca uma matriz fundamental de funcionamento da sociedade brasileira”.

 “As Forças Armadas no caso brasileiro são muito exemplares. Não são um ator de imposição da ordem, são um ator da produção do caos. Elas são parte do problema. As Forças Armadas sempre foram as forças de defesa dos grupos de maior capacidade de espoliação da riqueza”.

 “A gente estabilizou em 1000 mortes por dia. Em qualquer país do mundo, isso é visto como um problema de comoção nacional. Na Itália era uma comoção completa. Aqui é completamente normalizado. Uma sociedade que se baseia nesse grau de indiferença, ausência de solidariedade e de desigualdade, não tem como funcionar”.

 “Não faz parte da tradição política brasileira, o questionamento das suas próprias Forças Armadas. Nem no setor da esquerda. Qual era a função pós ditadura militar que a gente poderia esperar? Era pelo menos a depuração das Forças Armadas. Não só de todos seus elementos que participaram de golpes, tortura, assassinato, estupro, ocultação de cadáver. Não só eles estão todos preservados, como também a ideologia das Forças Armadas. Ela não foi depurada. Ao contrário, as Forças Armadas passaram 30 anos sem oferecer um mea culpa para a sociedade brasileira em relação à ditadura militar que durou 20 e poucos anos. Então o resultado hoje é esse, o Brasil atualmente é o país da América Latina que corre o maior risco de um golpe militar”.

 “A Lei da Anistia não foi um pacto da sociedade brasileira. Foi uma imposição. A Anistia é a maior farsa da história brasileira. Valeu para um lado só”.

 “O caso carioca é um caso exemplar. No morro do Fallet, a polícia entra no morro, para segundo eles perseguir traficantes. Prendem 15 pessoas em uma casa, todos jovens com menos de 25 anos, e assassinam essas pessoas a faca, depois colocam os corpos em sacos pretos, em caminhonetes e ficam em cima dos corpos com a arma na mão, como se tivessem saído de um safári. Foi alegado legítima defesa. Tudo isso demonstra não só o grau absurdo de crueldade que a violência policial representou mas também o tipo de recado do Estado que é dado a população: É assim que nós matamos seus filhos. Isso é um princípio de governo, não é um deslize de violência, não é algo fora da curva, é o normal. Nós naturalizamos o necroestado”.

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