A pedofilia não está no museu

A pedofilia não está no museu

Morris Kachani

23 Outubro 2017 | 13h12

Por Paula Forster

“A minha formação inicial é na área artística. Fiz o meu mestrado e doutorado em História da Arte, nos Estados Unidos. Realizei mais de 50 exposições, dirigi duas instituições públicas: o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, do qual sou fundador, e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, que é um dos grandes museus do país, com um perfil enciclopédico e um acervo que percorre meados do século XIX até a arte contemporânea. Fiz algumas exposições grandes, como a 10ª Bienal do Mercosul, em 2014. E a exposição posterior a essa foi justamente o ‘Queermuseu’”.

Apresenta-se assim Gaudêncio Fidelis, que esteve em São Paulo na terça-feira 17, para participar de um debate sobre ‘Arte Queer’, na Casa do Baixo Augusta, localizada na esquina da Rua da Consolação com a Rua Rego Freitas. Cerca de uma hora antes do evento começar, conversei com ele sobre a exposição “Queermuseu, cartografias da diferença na arte brasileira”, que abriu ao público no Santander Cultural, em Porto Alegre, no dia 15 de agosto.

“Muito bem aceita”, diz Gaudêncio sobre o período curto de 26 dias em que a mostra esteve em cartaz. Ele apresentou números expressivos: nos treze primeiros dias, “Queer” atingiu 27 mil visitantes e a estimativa era de que 85 mil pessoas ainda passassem por ali até o dia 08 de outubro, data programada para o encerramento.

No entanto, uma onda de críticas, capitaneada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), fez com que a exposição fosse cancelada no dia 10 de setembro, pelo Santander Cultural. Quatro das 263 obras foram alvo das críticas, que afirmavam que elas faziam alusão à pedofilia, zoofilia e blasfêmia.  São elas: Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas”, da série “Criança Viada”, da artista Bia Leite, “Cenas de Interior II”, de Adriana Varejão e “Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva”, de Fernando Baril.

Nosso bate-papo girou mais em torno das representações destas obras e sobre a construção dos discursos e críticas que censuraram a exposição.

“É inacreditável que diante de uma pintura cujo tema é a colonização do Brasil, a gente disfarce e fale de outras coisas que são mentiras”, argumenta Gaudêncio.

“A exposição foi criada para discutir racismo, sexismo, preconceito. Tem uma diversidade de manifestações artísticas tratando disso, mas nenhuma dessas discussões foi trazida a público”, acrescenta.

Cena de Interior II, de Adriana Varejão

“Você não pode pegar uma pintura que é sobre a colonização no Brasil e dizer que ela é uma pintura sobre zoofilia. É simples assim. As pinturas de Adriana Varejão se chamam “Cena de Interior”, porque são cenas, no tempo e no espaço, das mazelas e das contribuições culturais e sociais da colonização do país.”

“Aí eu quero dizer uma coisa para você: as pessoas acham que a escravidão no país foi o que? Que ela foi um paraíso? Que não houve exploração? Que não houve os atos mais hediondos que possa se imaginar? O processo de escravidão, com o perdão da palavra, é um holocausto. E aí as pessoas querem que uma pintura que fale sobre a colonização do Brasil, não fale sobre os atos sexuais, por exemplo, que os afrodescendentes foram submetidos diante da dominação branca. O quê que as pessoas querem que fale? É muito difícil a gente propor uma discussão dessas, na hora em que as pessoas não querem ouvir. Isso não é um diálogo. Isso é um processo autoritário.”

Criança Viada, de Bia Leite

“Estas são obras que falam sobre o bullying, sobre as violências que as crianças e pré-adolescentes sofrem nas escolas. Como você vai dizer que isso é uma obra sobre pedofilia? As frases que estão na pintura são os xingamentos que essas crianças recebem.”

Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva, de Fernando Baril

“A imagem de Cristo com Shiva, é uma pintura interessante que fala sobre o sincretismo das religiões e a cultura pop. A extrema direita não aceita o sincretismo, não aceita a convivência com outras religiões. Não esquecendo, inclusive, que nós estamos em um Estado laico. Quando você não aceita a diferença, você não pode aceitar uma pintura como a de Fernando Baril, que traz duas religiões: a cristã e a hindu. O grande problema destas obras é que elas falam da realidade brasileira.”

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Antes de mais nada, o que significa “queer”?

“Queer” é uma palavra de origem inglesa, que surge no século XIX e significa “estranho”/ “diferente”. Em um determinado momento, o termo adquire um caráter pejorativo e é utilizado para definir os homossexuais. Na década de 90, mais especificamente nos Estados Unidos, a comunidade LGBT se reapropria da palavra “queer” de forma positiva, como forma de liberação, porque o termo consegue contemplar mais comportamentos do que a sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans). Ele engloba outros comportamentos que venham a adquirir outras denominações.
A heterossexualidade é a norma instituída pela sociedade, com o intuito de regular o comportamento e estabelecer o que é certo e errado, considerado normal ou desviante. Como se tratam de regras comportamentais e jurídicas estabelecidas e regulatórias, o que foge a esta regra é considerado anormal e desviante. Como a heteronormatividade é baseada em uma sociedade patriarcal e branca, todos os comportamentos que fogem a essa regra são considerados inaceitáveis e criminalizados, em maior ou menor grau.

Isso envolve a discussão sobre identidade de gênero?

Hoje a biologia mostra que as manifestações que dizem respeito à questão de gênero tem diversas influências. A genitália não corresponde à definição de gênero. Quando a gente fala em gênero, gosto de falar em expressão e identidade de gênero, porque a gente trata de forma menos binária – o masculino e 0 feminino.

O “queer” é um movimento?

Não, “queer” não é um movimento. É uma perspectiva de experiência da vida que está fora da normatividade. Eu acho que as pessoas têm um pouco de dificuldade de entender isso. Aquilo que estaria fora da norma, às vezes é visto com maus olhos. Mas é importante entender que o desvio é outro caminho que a gente toma. Acho que não se pode dar exemplos do que é ou não é queer. Também não há necessidade, na minha opinião, de explicar de maneira tão didática o que é queer, pois a palavra já consta no vocabulário do brasileiro.

A exposição foi criada com que propósito?

A exposição foi criada como uma plataforma de abertura de diálogo em torno destas questões de gênero, de expressão. Nela, nós temos muita diversidade de manifestações artísticas que falam de racismo, de sexismo, do preconceito. Tem um universo inteiro de questões como essas tratadas nesta exposição, mas nenhuma delas é trazida a público por esses grupos de extrema direita. Eles não querem falar disso. Eles inventaram uma mentira para manipular a opinião pública.

Sobre essa polêmica toda em relação à exposição…

Não adianta você gritar feito um doido, como a extrema direita vem fazendo, e querer transformar uma obra no que ela não é. Olha a loucura que nós estamos vivendo. Você entra em uma exposição de 263 obras e escolhe quatro, apenas quatro, e transforma isso em uma plataforma de mentira, calúnia e difamação, de teor moralista para pregar isso no imaginário público de quem não viu a exposição.

Vamos falar um pouco das obras que geraram a polêmica… O que é a obra Cena de Interior II?

A pintura da Adriana Varejão é uma pintura histórica. Ela já tem alguns anos, a gente não precisa esperar 50 anos para uma obra ser histórica. É uma obra sobre a colonização do Brasil, sobre a dizimação da colonização no Brasil. Você tem que entender uma coisa muito simples: você não pode transformar uma garrafa em um copo; você não pode transformar uma cadeira em uma mesa. Você não pode pegar uma pintura que é sobre a colonização no Brasil e dizer que ela é uma pintura sobre zoofilia. É simples assim. Aquelas pinturas chamam “Cena de Interior”, porque são cenas, no tempo e no espaço, das mazelas e das contribuições culturais e sociais da colonização do país.

Aí eu quero dizer uma coisa para você, as pessoas acham que a escravidão no país foi o que? Que ela foi um paraíso? Que não houve exploração? Que não houve os atos mais hediondos que possa se imaginar? O processo de escravidão, com o perdão da palavra, é um holocausto. E aí as pessoas querem que uma pintura que fale sobre a colonização do Brasil, não fale sobre os atos sexuais, por exemplo, que os afrodescendentes foram submetidos diante da dominação branca. O quê que as pessoas querem que fale? É muito difícil a gente propor uma discussão dessas, na hora em que as pessoas não querem ouvir. Isso não é um diálogo. Isso é um processo autoritário.

São quatro cenas de sexo nesta tela…

Uma coisa que nunca podemos perder de vista é que nós não estamos falando de realidade. Nós estamos falando de arte. Assim como existem livros, existe literatura científica e ficcional escritas sobre isso, existem também pinturas, como sempre existiram na história da humanidade. As artes falam sobre as mazelas também, não falam apenas das maravilhas do mundo. É inacreditável que diante de uma pintura que fale sobre a colonização do Brasil, a gente disfarce e fale de outras coisas que são mentiras, como se a colonização não tivesse existido, como se as mazelas e os crimes hediondos – a gente não falava em crimes naquela época, porque não havia a Constituição de Direitos, mas eram crimes – não tivessem existido.

E as duas obras de Bia Leite, que foram acusadas de pedofilia?

São obras que falam sobre o bullying, sobre as violências que as crianças e pré-adolescentes sofrem nas escolas. Como você vai dizer que isso é uma obra sobre pedofilia? Aquelas frases que estão na pintura são os xingamentos que essas crianças recebem. Você precisa parar diante da obra, seja você a pessoa que pratica o bullying ou a pessoa que não o pratica, e tomar consciência sobre a violência que as crianças sofrem no momento que elas mais precisam de apoio psicológico, de estrutura, de educação, para crescerem como adultos saudáveis e produtivos para a sociedade. Mas é nesse momento que elas sofrem a maior violência. A pintura aborda um assunto que é um tabu, porque também ninguém quer falar sobre essa violência.

Bom, a pedofilia existe e…

A pedofilia existe e a gente sabe, todo mundo sabe, que ela não está no museu. Ela está dentro das famílias e no universo público. E as famílias, nem todas, mas muitas vezes sabem e consentem o que está acontecendo. Isso é preciso ser dito para a sociedade brasileira de uma vez por todas: pedofilia, que é um crime, não está no museu.

Está dentro de casa…

Exatamente! E, inclusive, a gente sabe que a pedofilia está em pessoas que muitas vezes estão no nosso bairro, nas nossas ruas, convivendo nas instituições que nós conhecemos. Eu não quero demonizar nenhuma delas, inclusive não quero demonizar a família, mas a pedofilia seguramente não está no museu.

O MBL que foi um dos movimentos que criticou a exposição, falou para o blog que haviam duas razões para o boicote: o investimento de dinheiro público e a exposição ser voltada para crianças…

É uma mentira. O que está no projeto é que não tem classificação de faixa etária. É muito diferente de dizer que essa exposição foi planejada para crianças. Sobre dinheiro público, utilizado via Lei Rouanet, ele não é somente meu, seu, e muito menos do MBL, que se acha o dono do dinheiro. Ele é de toda a sociedade brasileira. Não pode ser o MBL e todos seus seguidores reacionários que vão decidir o que os cidadãos brasileiros podem ou não ver. Agora, o quê está em jogo nesta narrativa que o MBL construiu?

Você diz do boicote?

É. Eles chamam de boicote, mas é censura. Nós temos que esquecer que censura é só aquele papelzinho que se assinava em um escritório na época da ditadura. Censura é quando eu impeço você de ver alguma coisa, por qualquer forma que seja. O boicote faz uso de armas pacíficas ou meios pacíficos para atingir um objetivo. Eles fizeram ameaças de morte às pessoas, várias delas a mim. E, depois do fechamento da exposição, aos funcionários do Santander. Aliás, é mentira que o Santander fechou a exposição, porque recebeu ameaças. Elas vieram após o fechamento.

Em relação à atitude do Santander…
O Santander cometeu um crime, que nunca mais será esquecido, diante da arte brasileira. Ele executou a censura. Nenhuma instituição privada está eximida de responsabilidade pública e eles utilizaram a lei do incentivo. Devolveram o dinheiro, mas não faz diferença, porque o sentido de uso foi aplicado. E tem outra coisa: eles são uma instituição cultural, com 20 e poucos anos de existência. Eles têm uma responsabilidade diante do povo brasileiro. Você difama as obras que você pediu emprestadas para uma exposição – porque na nota eles condenaram as obras, quando disseram concordar que elas não eram apropriadas. Eles nunca se manifestaram em defesa dos artistas e da exposição. Eu acho que o Santander deve fechar. Ele não tem mais nenhuma contribuição para dar para a sociedade daqui para frente. Prestaram um desserviço. Como instituição, o Santander deve primar pela democracia.

A exposição ficou aberta por 26 dias. Como que foi esse período?

Ela foi estrondosa e muito bem aceita! Nos primeiros treze dias, atingiu 27 mil visitantes. A projeção que tínhamos feito era de que ela atingiria cerca de 85 mil. Isso para uma cidade como Porto Alegre, e mesmo para São Paulo, é muito público. Até achei que isso era um estranhamento, porque exposição não é para ser um lugar de consenso, ela é para ser um lugar de dissenso, um lugar de diálogo, de debate.

Você acha que deveria ter uma classificação de idade?

A questão da criança ir ao museu… Um museu faz parte da escola, é um lugar de aprendizado. Nenhum de nós, nem eu, que sou um especialista inclusive, entro em um museu com a expectativa de entender tudo o que está lá. Não sou eu que estou dizendo que não precisa de classificação de idade. O Ministério Público foi lá e reafirmou isso. O que eles fazem é uma sugestão de que talvez pudesse ter havido alguma indicação, mas eles dizem que não há essa necessidade. O incidente que aconteceu no Museu de Arte Moderna (MAM), na cidade de São Paulo, é diferente, tanto é que ele tinha indicação.

Diferente em que sentido?

A exposição no MAM tinha indicação. Você não pode comparar uma pintura de um Cristo, que é uma pintura acadêmica, sob o ponto de vista formal e sob o ponto de vista da representação, com um nu, por exemplo. Mas no MAM, em São Paulo, havia um aviso – não uma censura – que permitia a escolha e nesse caso cabe aos pais, na minha perspectiva, escolher o que querem para os seus filhos.

A exposição que entrou agora em cartaz no MASP, aqui em São Paulo, sobre a história da sexualidade colocou uma censura de 18 anos. O que você acha disso?

Não vi a exposição ainda. Antes de opinar quero vê-la. Posso dizer, entretanto, que não há previsões na legislação vigente, nem no Estatuto da Criança e do Adolescente, sobre classificação indicativa para as artes visuais. Vejo iniciativas, como a do Ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, de colocar restrições a obras de arte, como algo que certamente irá desencadear um processo de censura. Os critérios nas artes plásticas não poderiam funcionar como no teatro e no cinema, em que se estabelece padrões objetivos de julgamento.

Vamos retomar a discussão… A gente falou aqui sobre a obra da Adriana Varejão, da Bia Leite… Queria que você falasse um pouco da obra de Cristo…

A imagem de Cristo com Shiva, de Fernando Baril, é uma pintura interessante que fala sobre o sincretismo das religiões e a cultura pop. Acontece que, de novo, a gente tem que falar das mesmas coisas. A extrema direita não aceita o sincretismo, não aceita a convivência com outras religiões. Não esquecendo, inclusive, que nós estamos em um Estado laico. Quando você não aceita a diferença, você não pode aceitar uma pintura como a de Fernando Baril, que traz duas religiões: a cristã e a hindu. O grande problema destas obras é que elas falam da realidade brasileira.

Por que?

Porque nós estamos à beira de uma eleição em 2018, que será extremamente disputada. Existem no meio deste processo pouquíssimas convicções. Muito poucas destas pessoas estão falando com convicção de suas crenças. Inclusive as pessoas que estão falando, também não viram a exposição. Isso é uma loucura. Em pleno século XXI, muita gente está falando de uma exposição que nem viu.

Liberdade de expressão…

Não só liberdade de expressão, mas liberdade de escolha, que é bem diferente. Isso é a mesma coisa que dizer que roupa você pode vestir, que música você pode ouvir, se você pode ir a um shopping no fim de semana, se você pode andar com determinadas pessoas.

As pessoas acham que liberdade de expressão é um artista pintando. Não. Liberdade de expressão é eu ter direito de me expressar em uma sociedade livre e isso só existe em uma sociedade democrática. Agora, veja uma coisa que está no discurso destes grupos de extrema direita, alavancados pelo MBL: que liberdade de expressão tem que ter limites. Quando eles invocam isso, eles querem dizer o seguinte: você não pode se expressar como artista. É isso que está em jogo.

Quero aproveitar para chamar a atenção para um incidente que aconteceu em um debate que participei sexta-feira que foi interrompido por membros do MBL, os mesmos que em apenas dois dias atacaram a exposição do Santander resultando em seu fechamento. O debate teve que ser abreviado. Acho que é importante divulgar isso porque eles já fecharam a exposição, e agora querem fechar os debates. Amanhã tenho uma palestra na UnB em Brasília e eles já estão se armando para fazer a mesma coisa.