“A pergunta que muitos cristãos têm feito é se Bolsonaro é cristão”
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“A pergunta que muitos cristãos têm feito é se Bolsonaro é cristão”

Morris Kachani

25 de junho de 2020 | 18h49

Por Isabella Marzolla

“Seus atos e falas na presidência nunca foram considerados alinhados com valores cristãos que são o amor, o respeito, a compaixão, a tolerância e o pluralismo. O cristianismo de Bolsonaro já tem sido denunciado por diversas igrejas, lideranças e organizações cristãs como terrivelmente equivocado”.

“O evangelicalismo é hegemonizado ou é controlado pelo fundamentalismo; abraçar o discurso fascista é uma das tentações mais frequentes”.

“O evangelicalismo é bastante diverso e não se alinha a essas vozes midiáticas e de direita que sequestraram a expressão “nós evangélicos” para defender interesses bem específicos, muitas vezes ligados a espaços de poder no governo, sem mencionar os ligados a seus empreendimentos midiáticos.

Essa cartilha moral ensinada em muitas igrejas preconiza o padrão heteronormativo e binário da família nuclear, deixando de fora desse padrão as famílias monoparentais, homoafetivas, além de múltiplas configurações familiares existentes na sociedade. Não há um diálogo avançado e maduro entre as igrejas evangélicas sobre como tratar os milhares de lares com formações familiares fora
desse padrão heteronormativo.

O problema é que esses discursos são manipulados pela direita e extrema-direita, para avançar pautas anti-direitos humanos, em flagrante contraste com a tradição evangélica no país que sempre foi defensora da laicidade, da promoção e ampliação de direitos”.

“O que é novo não é propriamente o uso dos espaços de culto para fim eleitoral, mas o retorno ao fechamento em torno de um discurso ideológico que demoniza e estigmatiza as esquerdas”.

“Religião e política nunca andarão separadas porque o discurso religioso é parte das práticas sociais que informam a política, para o bem ou para o mal”.

“Formalmente temos um estado laico, mas precisamos nos perguntar o que significa isso quando a educação nas escolas não pode tratar de gênero e sexualidade, ou quando o racismo religioso destrói um terreiro de matriz africana, ou diante do avanço das escolas domiciliares no Brasil, ou ainda sobre a indicação de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”.

Apesar da crise, do esvaziamento do governo e da perda de capital político, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) continua contando com a aprovação de alguns milhões de brasileiros – 33%,
de acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha.

Uma parte considerável dessa base é composta por segmentos evangélicos.

Em 2018, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, os evangélicos pretendiam dar 48% dos votos válidos para o capitão reformado, contra 39% da média geral. Bolsonaro amealhou apoios entre as grandes lideranças evangélicas do país —do bispo Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de
Deus) ao pastor José Wellington Bezerra da Costa, que lidera o Ministério Belém, ao maior braço daquela que é a maior denominação evangélica do Brasil, a Assembleia de Deus.

Nenhum grupo social com peso relevante teve uma visão tão positiva do presidente quanto esses fiéis, na atual crise sanitária.

Em abril, entre os evangélicos, que representam quase um terço da população, 41% consideravam ótimo ou bom o desempenho de Bolsonaro em relação ao surto da Covid-19. Para os católicos, que são metade dos brasileiros, essa aprovação é de 31%.

Para analisar este contexto, entrevistamos Flávio Conrado, antropólogo, com pós-doutorado pela Universidade de Montreal (Quebec), ativista de direitos humanos, organizador da coletânea “Reimaginar a Igreja no Brasil: 40 Vozes Evangélicas” (Novos Diálogos, 2017) e secretário executivo da Aliança dos Batistas do Brasil.

Mesmo com a crise política atual, o presidente mantém uma base de cerca de 30% de aprovação por  arte da população, que desde o início permanece fiel ao presidente. Essa base é composta por uma parcela de evangélicos, como por exemplo da Igreja Universal, de Edir Macedo, aliado próximo do presidente. Quem são esses evangélicos e por que eles se identificam com Bolsonaro?

Os evangélicos que se identificam com Bolsonaro foram atraídos pelo seu discurso “pró-família” e “anticorrupção”, assim como pelo de renovação política e recuperação econômica pós-governos do
PT. Uma grande parte dos evangélicos, assim como uma grande parte da população brasileira,  identificaram portanto no Bolsonaro a possibilidade da saída das crises política e econômica dos últimos governos e a contenção dos avanços das políticas públicas de direitos humanos, especialmente para segmentos minoritários, lidas por uma parte das lideranças evangélicas como ameaças ao padrão
heteronormativo de família que elas defendem.

Mas entre os evangélicos, como apontam as pesquisas, são os mais escolarizados e de mais alta renda, assim como brancos e do sexo masculino, os seus maiores apoiadores. Agora, é importante afirmar que lideranças como Edir Macedo e outras que estão alinhadas através da Frente Parlamentar  evangélica, constituem uma base pragmática e fisiológica, que também concederam e negociaram apoio ao Temer, à Dilma, ao Lula, ao FHC e ao Collor, para ficarmos apenas no período recente de redemocratização.

Assim, os evangélicos que dão apoio a Bolsonaro são muito diversos e respondem a estímulos que vão desde o discurso de campanha do Bolsonaro até interesses relacionados a pautas morais ou até a interesses muito venais, capitaneados por suas lideranças, normalmente travestidas na ideia de que a proximidade ao poder contribuiria para tornar ou manter o país moralmente cristão.

Existem diferentes correntes no evangelismo. Uma carta intitulada “O governante sem discernimento aumenta as opressões – Um clamor de fé pelo Brasil” afirma que o governo federal “atenta contra a vida humana ao invés de praticar a justiça e compaixão pelos pobres”, que foi assinada por 34 organizações e movimentos evangélicos, pede o afastamento de Bolsonaro da presidência, defende o isolamento social na pandemia, apoia a ciência e pede que igrejas fiquem com as portas fechadas.

Esse documento, assim como outros divulgados em diferentes momentos, são expressões da divisão que está presente no evangelicalismo desde os anos 1950. Há igrejas, lideranças e organizações evangélicas que representam outra perspectiva a respeito da interação com o Estado brasileiro e,  obviamente, divergem da concepção majoritária do que representa o governo Bolsonaro, especialmente neste contexto de pandemia.

É muito importante que se dê voz a esse segmento representativo do evangelicalismo porque ele é bastante diverso e não se alinha a essas vozes midiáticas e de direita que sequestraram a expressão “nós evangélicos” para defender interesses bem específicos, muitas vezes ligados a espaços de poder no governo, sem mencionar os ligados a seus empreendimentos midiáticos.

Essas 34 organizações e movimentos são apenas uma amostra do que está presente no conjunto do evangelicalismo, mesmo no que se identifica como pentecostal ou neopentecostal. Nesse sentido, faríamos bem em envolver esse segmento que não se identifica com a direita no debate público com mais frequência.

A defesa da família tradicional brasileira e do “cidadão de bem” são ideais e marcas absolutas do discurso populista de Bolsonaro, desde as eleições até hoje. O que é a “família” e o “cidadão de bem” no imaginário da maioria dos evangélicos?

É importante afirmar de saída que essas construções morais não são válidas para a totalidade de igrejas e lideranças evangélicas, para quem a ética familiar e cidadã se constroem por uma diversidade de perspectivas teológicas, em diálogo com as ciências e as humanidades.

Mas para uma parte expressiva de evangélicos, que se percebem ou são percebidos como conservadores, tanto o ideal de “família” quanto o de “cidadão de bem” inscrevem-se no imaginário moral como parte de um conjunto de regras que regulam o que seria um “bom cristão” ou uma “boa família cristã”. Essa cartilha moral ensinada em muitas igrejas preconiza o padrão heteronormativo e
binário da família nuclear, deixando de fora desse padrão as famílias monoparentais, homoafetivas, além de múltiplas configurações familiares existentes na sociedade. Não há um diálogo avançado e maduro entre as igrejas evangélicas sobre como tratar os milhares de lares com formações familiares fora desse padrão heteronormativo. No limite isso leva a um descompasso, assim como vemos na Igreja Católica, entre o que as instituições defendem e o que vivem e experimentam criativamente os fiéis.

Já o “cidadão de bem” é essa ideia que se comunica muito bem com a moralidade cristã que se constrói como cumpridora de deveres sociais e familiares, que está em dia com suas obrigações perante a lei e o Estado. Assim, o “cidadão de bem” evangélico também se opõe a todo tipo de comportamento “corrupto” ou “ilegal”, muito associado ao discurso veiculado na sociedade sobre o “bandido” e o “marginal”, oposto ao “trabalhador”, ao “cidadão que paga seus impostos”.

O problema é que esses discursos são manipulados pela direita e extrema-direita, para avançar pautas anti-direitos humanos, em flagrante contraste com a tradição evangélica no país que sempre foi defensora da laicidade, da promoção e ampliação de direitos.

Alguns ensinamentos religiosos universais como, “Façam aos outros o que querem que eles façam a vocês” e “Ame o teu próximo como a ti mesmo” poderiam servir como amparo em tempos sensíveis como estes. Em algumas falas do presidente – “Não sou coveiro”, “E daí” – sobre o número de mortes por coronavírus, esses ensinamentos não parecem ser contemplados. Bolsonaro é um bom cristão? E o que a sua base religiosa deve pensar sobre isso?

Me parece que há uma percepção cada vez mais clara de que não correspondem a autodenominação cristã do presidente e suas declarações absurdas, especialmente as proferidas nesse momento de crise sanitária. Na verdade, a ideia de que Bolsonaro é cristão foi sendo acentuada bem recentemente na sua carreira política, a partir de alianças na Câmara dos Deputados com a Frente Parlamentar Evangélica. Ele se diz católico, mesmo tendo sido batizado por um pastor assembleiano, o então presidente do PSC, Everaldo Pereira, no rio Jordão, em Israel, partido pelo qual Bolsonaro pretendia
concorrer à presidência.

A pergunta que muitos cristãos têm feito é se Bolsonaro é cristão. Nesse sentido, seus atos e falas na presidência, assim como as que eram tornadas públicas durante seus mandatos como deputado, nunca foram considerados alinhados com valores cristãos que são o amor, o respeito, a compaixão, a tolerância e o pluralismo. O cristianismo de Bolsonaro já tem sido denunciado por diversas igrejas, lideranças e organizações cristãs como terrivelmente equivocado.

Na Aliança de Batistas pelo Brasil, da qual você é secretário executivo, há uma carta que afirma zelar por algumas liberdades essenciais, entre elas, a “livre interpretação da Bíblia”. O que seria a livre interpretação da Bíblia?

A “interpretação da Bíblia” é um princípio caro à Reforma Protestante do século dezesseis. Batistas, como outros grupos cristãos livres da época, foram dos defensores mais ardorosos desse princípio.

A livre interpretação da Bíblia preconiza que ninguém, especialmente as instituições religiosas, tem a última palavra em definir quais são as verdades bíblicas de modo final e absoluto. Interpretação bíblica se faz sempre como resposta da fé num determinado contexto e em comunidade, que pode se estender desde a comunidade local reunida para o estudo das Escrituras à comunidade global de cristãos que buscam discernir os “sinais dos tempos” e relacioná-los com as Escrituras.

Alguns pastores e padres em cultos e missas orientaram nas eleições de 2018 em quem votar e ainda repercutem discursos e orientações ideológicas para seus fiéis. Pode existir fascismo nas igrejas?

O uso de cultos e missas como veículos de propaganda eleitoral não é novo. No caso das igrejas evangélicas se tornou mais presente a partir dos anos 1990 como estratégia de algumas igrejas pentecostais para eleger seus próprios candidatos, no caso de candidaturas proporcionais, e candidatos que atendessem ou estivessem alinhados a seus interesses e pautas, no caso de candidaturas majoritárias. O que é novo não é propriamente o uso dos espaços de culto para fim eleitoral, mas o retorno ao fechamento em torno de um discurso ideológico que demoniza e estigmatiza as esquerdas.

O discurso integralista católico e as alianças entre igrejas evangélicas/protestantes entre diferentes formas de autoritarismo, como o Nazismo alemão ou as ditaduras latino-americanas, demonstram que lideranças religiosas e suas instituições podem ser cooptadas pelo discurso fascista ou alguma de suas formas. No caso evangélico ele se dá por uma afinidade eletiva com o discurso teológico fundamentalista, que é extremamente complicado o ponto de vista teológico. O evangelicalismo é hegemonizado ou é controlado pelo fundamentalismo, abraçar o discurso fascista é uma das tentações mais frequentes.

Religião e política devem “andar separadas”? O Estado brasileiro é laico de verdade, como diz a Constituição?

Religião e política nunca andarão separadas porque o discurso religioso é parte das práticas sociais que informam a política, para o bem ou para o mal. É legítimo numa democracia, ademais, que
pessoas religiosas participem do debate público trazendo suas razões e valores para o diálogo.

O que não pode existir, e isso também é bastante protestante como princípio, é tentar impor o monopólio religioso sobre a expansão das demais formas de crença e não crença, como já foi o caso na nossa história, ou que os valores de um determinado segmento religioso, ainda que majoritário, sejam adotados como projeto de imaginação política ou moral para o Estado brasileiro, como algumas vozes
nesse governo muitas vezes expressam.

O arranjo de laicidade que o Brasil experimenta foi forjado nas relações de privilégio e acesso ao poder que grupos religiosos construíram na disputa, ao longo da nossa história, pela alma da nação brasileira, e essas disputas estão aí vigentes, sempre repostas pelos deslocamentos posicionais no campo religioso ou pelas alianças que se constroem com os governos de plantão. Formalmente temos um estado laico, mas precisamos nos perguntar o que significa isso quando a educação nas escolas não
podem tratar de gênero e sexualidade, ou quando o racismo religioso destrói um terreiro de matriz africana, ou diante do avanço das escolas domiciliares no Brasil, ou ainda sobre a indicação de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”.

Quem são os evangélicos que estão com o Bolsonaro e quem são os que não estão?

Não existe um alinhamento estritamente denominacional ao Bolsonaro. As linhas de corte entre lideranças e igrejas pentecostais e neopentecostais em contraposição a igrejas e lideranças históricas não impediram que ambos os segmentos se alinhassem com a candidatura Bolsonaro e seu governo. Eu diria que quanto maiores os interesses em ter acesso ao poder e ocupar espaços públicos para resolver pendências fiscais ou se beneficiar de verbas e privilégios públicos, mais alinhado e servil ao Bolsonaro. As lideranças que foram ao Palácio do Planalto orar com o presidente no início de junho estão nesse grupo.

As organizações que lançaram o manifesto Clamor de Fé ao Brasil também se encontram espalhadas pelo espectro evangélico, com membros de igrejas históricas e pentecostais, e até neopentecostais, mas se colocam antagônicas ao projeto autoritário do presidente. Grupos que reúnem igrejas ecumênicas como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC têm também se posicionado na mesma direção.

Quais igrejas não estão obedecendo o confinamento?

As mais alinhadas ao governo Bolsonaro resistiram em um primeiro momento a fechar seus templos mas logo em seguida foram se dobrando às evidências das altas taxas de infecção e letalidade da COVID-19. Na medida em que as prefeituras e governos estaduais afrouxam as restrições de quarentena, as igrejas que são mais sensíveis ao discurso negacionista e colocam ênfase em estruturas
caras e cultos diários para arrecadação de recursos estão retornando com mais rapidez a reabertura de templos.

Existiria um preconceito ou estigma que vai se cristalizando no setor progressista com relação à cultura evangélica?

Eu vejo exatamente o contrário. Vejo os setores progressistas tentando dialogar com a cultura evangélica de alguma maneira. Estou de acordo que ainda não de modo satisfatório, mas começam
a ser identificadas lideranças jovens e grupos organizados que atuam nas bases e espaços periféricos para se dialogar, numa perspectiva de compreensão sobre os evangélicos e suas lógicas de atuação. Talvez ainda muito focados no tempo eleitoral, mas pouco a pouco parece que as esquerdas estão fazendo um esforço de desvelar o fio de Ariadne da multiplicidade de igrejas e suas formas de atuação na sociedade brasileira.

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