A psicanálise avança nas periferias de São Paulo
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A psicanálise avança nas periferias de São Paulo

Morris Kachani

29 de março de 2022 | 13h20

Em 2018, quatro jovens mulheres de São Mateus se juntaram para formar a PerifAnálise, coletivo da zona leste que se propõe deslocar a psicanálise do centro para a periferia da cidade, proporcionando um atendimento pioneiro à população local.

Fundamentalmente, como diz Jefferson Santos Pinto, que viria a se juntar ao grupo depois, a originalidade deste trabalho é “não tentar salvar a periferia”.

“O propósito é ser um psicanalista da periferia para a periferia, que não cede do seu desejo e sustenta as suas próprias questões”.

A vivência deste coletivo foi o tema desta entrevista concedida por Jefferson.

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=g9pusjEsyfk&t=8s

“A psicanálise é só mais um dos elementos de saúde e bem-estar na periferia. Antes da psicanálise existe o hip hop, existe a várzea, existe o campinho, o parque, a pipa, o domingo, as festinhas de casa e a feira. Eu acho que todos esses pontos trazem um lugar de troca. Óbvio que tem uma hierarquia imposta pelo socioeconômico, pelo capital – quem tem mais fala mais ou tem o direito a falar mais, mas existem esses lugares de troca, da fofoca, do futebol de quarta, do botequim”

“O sofrimento psíquico é humano. Na periferia existe uma sociabilidade que faz sofrer de formas específicas. A igreja, por exemplo, é algo que você vai ver em todo quarteirão – todo quarteirão tem uma igreja e um botequim. E as pessoas sofrem tanto na igreja quanto no botequim. Elas tentam encontrar uma “salvação” tanto na igreja quanto no botequim”

“Importante dizer que as pessoas estão na periferia não porque querem, mas porque não podem estar em outros lugares. Os recursos econômicos são escassos e tem uma desorganização, que é a governabilidade que existe para desorganizar – o córrego a céu aberto, o saneamento básico precário, transporte público caótico. A miséria traz pobreza e vice-versa. Os assédios que a periferia sofre, a própria violência, muitas vezes vem do próprio Estado”

“Talvez a originalidade seja a de a gente não tentar salvar a periferia. No máximo o que fazemos é se ocupar enquanto primeira pessoa a escutar outras pessoas”.

“Eu acho que a originalidade está também em chegar ao público que não conhece, como eu também não conhecia e tive que fazer uma graduação para poder conhecer a psicanálise. E aí vamos pensando o quanto a psicanálise é restrita. Ela é restrita a um grupo bastante seleto na sociedade, que tem os bens da humanidade, nesse caso inclusive acesso a saúde mental”

“Periferia não é só um espaço. Quando você olha para a sociedade também existem “periferias” e um centro dominante, um discurso moral dominante. Eu sou um homem negro na periferia e isso já me coloca em determinados lugares que são também periféricos.

Tem um discurso que muitas vezes domina os outros, inclusive faz do outro seu objeto de gozo. Existe uma moral dominante e um discurso que vai se tornando hegemônico, mas só para certos grupos sociais”

“Nesse ponto a gente começa a pensar que existem periferias subjetivas, periferias discursivas que se engessam e um discurso dominante que é engessador”

“Quando a pessoa chega [na clínica], ela chega com uma identificação normalmente. ‘Ah, eu gostaria que um homem negro me escutasse’. É um ponto no vínculo de confiança para a pessoa chegar na clínica, se eu consigo escutar algumas dimensões psíquicas da vida dela que geralmente não são escutadas”

“Eu vivi grande parte da minha vida no extremo leste, para se chegar até o Mackenzie onde me graduei eram duas horas de ida e duas de volta. Quando comecei a fazer minha análise, era em Pinheiros, então mais longe ainda, imagina ficar rodando a cidade por oito horas para você ter a formação, para ter um atendimento, para você se sentir bem, ter saúde mental. Essa contradição já faz a gente pensar que não teria sentido levar o PerifAnálise para o centro”

“A psicanálise é muito exclusiva. Quando eu entrei no Sedes Sapientiae para fazer a especialização, as pessoas que eu via parecidas comigo ou carregavam uma arma ou um saco de lixo”.

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