A receita Bresser-Pereira para o Brasil
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A receita Bresser-Pereira para o Brasil

Morris Kachani

26 de agosto de 2020 | 16h43

Por Morris Kachani e Isabella Marzolla

“O pobre do Guedes e seu neoliberalismo não vão levar o Brasil a grande coisa. Ninguém tem confiança na economia brasileira e neste governo”

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=DQdrIOftF9Q

Entrevista com Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex- Ministro da Fazenda no governo Sarney e da Administração Federal e Reforma do Estado, e da Ciência e Tecnologia, nos governos FHC, professor
da FGV, e editor da ‘Revista de Economia Política’, principal publicação de artigos acadêmicos na área.

Com seu bom humor de sempre, o professor apresenta o seu jeito de olhar a economia brasileira
sob a perspectiva de uma política desenvolvimentista.

Até que ponto é cabível a comparação entre o presidente Jair Bolsonaro e a ex-presidente Dilma Rousseff, pelos dois ameaçarem furar o teto de gastos para adotar medidas consideradas populistas?

Não me parece razoável comparar uma política respeitável que cometeu erros, como foi o caso de Dilma Rousseff, com um político inqualificável como é Bolsonaro. Mas é verdade que Dilma foi irresponsável do ponto de vista fiscal nos seus dois últimos anos do primeiro mandato. Foi populista fiscal como agora Bolsonaro está tendendo a ser.

Parece existir uma corrente desenvolvimentista dentro do governo Bolsonaro, em torno do programa Pró-Brasil. Esse desenvolvimentismo dialoga com a sua visão?

De fato, quando o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, propôs investimentos na infraestrutura de R$ 30 bilhões, ele se revelou um desenvolvimentista. Os desenvolvimentistas competentes entendem que está correto estabelecer um teto para os gastos do Estado, mas distinguindo o teto da despesa corrente do teto de investimentos públicos. Ambos devem corresponder a uma porcentagem do PIB ao invés de ser esse monstrengo que temos no Brasil: um teto real que ignora o crescimento da população, seu envelhecimento, e o crescimento do PIB.

Para o investimento público podemos ter uma meta. Eu sugiro 5% do PIB. Quando o Brasil crescia muito, ente 1966 e 1980, o investimento público foi de 7 a 8% do PIB (no pico, em 1974, chegou a 11% do PIB). No ano passado foi de apenas 2,26% do PIB. Este baixo investimento público é uma causa
fundamental da quase-estagnação da economia brasileira desde 1980 e da recuperação insatisfatória depois da recessão de 2014-2016.

Sobre rentismo…
“O aumento do poder dos rentistas se dá em detrimento da diminuição do poder dos empresários e dos grandes gerentes”

“No pós-Segunda Guerra, houve a substituição dos empresários pelos rentistas, os herdeiros que vivem da propriedade de títulos. É uma mudança na classe dominante, quer dizer, a classe dominante de empresários eram pessoas que estavam voltadas fortemente à produção, um capitalismo dinâmico, uma coisa boa; agora quando essa classe passa a ser os rentistas, eles são pessoas ociosas”

“Os rentistas vão se associar aos financistas. Os financistas na minha visão são hoje, fundamentalmente, jovens brilhantes formados em faculdades americanas e inglesas, que fazem seus PhDs. Eles são os chamados “intelectuais orgânicos” dos rentistas, os ideólogos do mercado livre e dos
interesses de um sistema econômico de um capitalismo financeiro rentista. De repente começou a se falar do mercado como um agente político importante, que acha isso e aquilo”

Liberalismo…

“Eu sou contra uma política liberal que não quer que o Estado não intervenha em nada na economia. Sou muito crítico do liberalismo, defendo o desenvolvimentismo responsável, do novo desenvolvimentismo. O liberalismo é uma ideologia que atende aos interesses dos rentistas, e os rentistas não são só minoria, são uma parte importante da classe média”

“As empresas querem investir, mas não vêem oportunidade/demanda, a isso se soma um processo de grande aumento da desigualdade social, então a capacidade dos trabalhadores e da classe média de consumir cai, gerando um capitalismo em dificuldade, como o que vivemos hoje”

“Depois do fracasso do Plano Cruzado e dos que comandaram a transição democrática, veio Collor. Com o Collor veio uma abertura comercial radical, uma abertura financeira radical e o Brasil passou a ser um regime de política econômica liberal, e é até hoje. Os petistas ficam bravos comigo quando eu
falo isso, mas eles não conseguiram mudar isso”

E governo Bolsonaro…

“Nós estamos nessa profunda recessão e o governo não fez absolutamente nada. Eles apenas propuseram reformas, uma que saiu foi a da previdência, que era muito necessária, mas que não fez um “céu de brigadeiro”, que o governo dizia que faria”

“Privatizações podem ser profundamente decepcionantes porque elas não implicam em novos investimentos na infraestrutura”

“O fato de não estar havendo privatizações é porque realmente não existem grandes possibilidades de lucro para as empresas. Houve uma retração do capital no mercado financeiro internacional, está saindo capital do Brasil, os investimentos na bolsa caíram, os investimentos diretos caíram e não é porque o governo adota uma política contra o capital externo. É porque ninguém tem confiança na economia brasileira e neste governo”

“O Lula teve sorte com o boom de commodities, e ele deixou a imagem do Brasil boa demais, melhor do que a realidade. Hoje nós temos uma realidade de uma economia que vai mal, ela cresce muito pouco, o mercado interno não funciona e temos um governo que não inspira confiança em absolutamente ninguém. Então o pobre do Guedes e seu neoliberalismo não vão levar o Brasil a grande coisa”.

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