Alexandre Frota: “o que Bolsonaro faz hoje é pornografia política”
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Alexandre Frota: “o que Bolsonaro faz hoje é pornografia política”

Morris Kachani

13 de setembro de 2019 | 15h46

“(Bolsonaro) é inconsequente, ingrato, não é preparado, tem mostrado isso, e não tem interesse em se preparar. Muitas vezes é autoritário”

“Todo mundo quer ser legal, politicamente correto, ambientalista, todo mundo quer salvar o mico-leão-dourado, quer proteger Amazônia, é contra o lixo no mundo, mas as pessoas praticam muito pouco as ações que pregam ao mundo”

“Eu não tenho referência política”

“Nessa briga da TV Globo com o Bolsonaro, não haverá vencedores”

“FHC é um grande político, foi um grande estadista, conseguiu colocar o Brasil no caminho do crescimento sustentável e no radar mundial de investimentos. Foi o primeiro presidente, de fato, liberal. O dia que ele me conhecer, acho que vai mudar a imagem que possa ter a meu respeito”

“A Cultura no governo Bolsonaro não existe”

“A Ancine passou a ser um problema do Bolsonaro. Por ele, terminaria com o cinema nacional, ainda mais sendo o assessor dele para audiovisual o ideológico, Beato Salu, mais conhecido como Ernesto Araújo, o chanceler”

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Ninguém imaginava que o ex-ator global, ex-Casa dos Artistas, ex-pornô Alexandre Frota surpreendesse pela atuação no Congresso e na articulação política, em sua atual encarnação como deputado. Frota foi importante interlocutor de Paulo Guedes na tramitação da reforma da previdência na casa. No começo do governo, considerava-se homem de confiança de Bolsonaro. Esteve em sua casa no dia da posse, e vinha sendo cogitado para se transformar no homem forte da política cultural. De adorador de Bolsonaro, porém, em poucos meses Frota se transformou em persona non grata, culminando com a ruidosa saída do PSL, há quase um mês, rumo ao PSDB.

Esta entrevista foi concedida, por incrível que pareça, por whats app. Foram mais de 30 minutos de gravação, captados entre um intervalo e outro de sua agitada agenda na semana. Hoje por exemplo, segundo sua assessoria, o dia começou com visita ao governador João Doria, sem hora para acabar. De tal maneira que Frota não encontrou tempo para responder às perguntas adicionais que suas gravações inspiraram. Vai assim. 

Com Gabriel de Campos

Você já disse que “o mundo está chato, muito mimimi, tudo é processo, tudo é politicamente incorreto”. Poderia explicar melhor?

Realmente, o mundo está chato. Tudo é assédio, tudo é apologia, tudo é racismo. Ninguém pode falar absolutamente nada, todo mundo quer processar todo mundo, resolver na justiça. Hoje, você é interpretado de diversas maneiras e da maneira como querem, todo mundo quer arrancar um dinheiro seu. Então, o mundo está chato, esse mundo politicamente correto. Muitas vezes é preciso pensar muito para poder se expressar. É chato, cheio de mimimi, de disse me disse, muita fofoquinha, um mundo em que as pessoas falam muito, se mostram muito, mas realizam pouco. Todo mundo quer ser legal, politicamente correto, ambientalista, todo mundo quer salvar o mico-leão-dourado, quer proteger Amazônia, é contra o lixo no mundo, mas as pessoas praticam muito pouco as ações que pregam ao mundo.

Mas por exemplo, o presidente e o ministro da economia disseram que a primeira dama da França é feia. Isso não é chato mesmo?

Eu achei extremamente grosseiro, um erro, mas não vou comentar essa falta de respeito com a primeira dama francesa. É nessas horas que eu falo que o presidente deveria se manter calado e se colocar no devido lugar de presidente.

Como você enxerga a intervenção de Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, na Bienal do

Livro, ao pedir o recolhimento de revistas em quadrinhos com um beijo homossexual?

O Crivella errou, ele tem que ser prefeito, não tem que ser bispo. Tem que ser prefeito. Errou ao enviar fiscais da prefeitura, policiais armados, para oprimir e fazer repressão por causa de livros, independente do local, mas ainda assim era uma Bienal, então eu condeno essa atitude dele.

Na mesma semana, João Doria mandou recolher material didático estadual citando “ideologia de gênero”. Isso também é chato? (o material explica os conceitos de sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero. Trecho: “Podemos dizer que ninguém ‘nasce homem ou mulher’, mas que nos tornamos o que somos ao longo da vida, em razão da constante interação com o meio social.” ) 

Olha só, na minha visão são coisas completamente diferentes. A gente precisa aprender a separar respeito à diversidade de ideologia de gênero. O governador João Doria sempre respeitou a diversidade, agora, o que não se pode é um livro didático entregue em escolas, para  menores, que fala que as crianças nascem sem sexo. Isso está errado! Não está no currículo escolar do estado, tampouco há base científica para isso. Escola é para ensinar o português, a matemática, geografia e outras matérias do currículo. A população foi pega de surpresa diante de uma situação dessa. A maioria das pessoas que conheço, pelo que ouvi, concordou com isso, só uma pequena parcela ruidosa ficou gritando sobre esse tema. Eu tenho uma filha de sete meses, eu e minha esposa fomos várias vezes ao médico, e fizemos a ultrassonografia para saber o sexo do bebê, se era menina ou menino. Não conheço ninguém que vai fazer uma ultrassonografia e “olha, a criança não tem sexo”, não conheço. Ou nasce menina, ou nasce menino. Agora, a partir de uma certa idade, com a vivência da pessoa, ela vai fazer a opção sexual dela, mas a apostila dizia que as crianças nascem sem sexo, isso está errado. Isso está errado!  

Como se define ideologicamente e politicamente?

Eu me defino um cara livre, verdadeiro, autêntico, que fala a verdade que muitos gostariam de falar e não falam. Meu propósito é trabalhar para o Brasil, é trabalhar nas pautas e questões de interesse do povo brasileiro, sem conchavos, sem armações. Vou sempre votar de acordo com o que acredito ser o certo para mim e para melhorar a vida do povo brasileiro.

Quem são suas principais referências e exemplos do mundo da política?

Eu não tenho referência política.

O senhor já admite arrependimento por ter votado e ajudado a eleger Jair Bolsonaro. Por que? O que mudou nele desde a chegada à presidência?

O meu arrependimento é óbvio, ajudei a eleger uma pessoa que não cumpre com suas promessas, com seu papel como presidente, deixando a desejar, trabalhando só para sua bolha, aqueles seus seguidores radicais. Infelizmente é isso e já disse muitas vezes, se soubesse que ao votar no Jair Bolsonaro estaria votando no Olavo de Carvalho, não teria votado nele.

Eu e muitos brasileiros votamos no Bolsonaro, justamente para não corrermos o risco da esquerda voltar ao poder, com a esperança de um país mais honesto, justo, próspero. Em um item eu acertei, a esquerda não voltou ao poder, mas em todos os outros, errei. O Bolsonaro tem nos decepcionado, cada dia que passa, com as coisas que fala, principalmente.

Como enxerga hoje o PSL, a partir da perspectiva do PSDB? 

Eu torço para que o PSL acerte, para que as pessoas ali sejam felizes, todo partido tem bons e maus políticos, mas torço ainda mais para que possam se empenhar a cumprir o que prometeram.

Como visualiza a presença de Edir Macedo e de Silvio Santos no desfile de 7 de setembro, e ninguém da Globo?

Eu não vejo nada de mais nisso. Primeiro, eu gosto muito de ver a participação de toda sociedade em atos cívicos, de pessoas públicas como eles. O país precisa retomar sua autoestima, e isso começa com apoio popular e de todos. Sobre a ausência da TV Globo, nessa briga da emissora com o Bolsonaro não haverá vencedores. Mas não enxerguei problema nenhum em ver Silvio Santos de um lado, Edir Macedo do outro no palanque. O palanque é do Bolsonaro, ele convida quem quiser.

Qual sua opinião sobre FHC?

Eu ainda não conversei com o Fernando Henrique Cardoso, mas ele faz parte desses 30 anos do PSDB. É um grande político, foi um grande estadista, conseguiu colocar o Brasil no caminho do crescimento sustentável e no radar mundial de investimentos. Foi o primeiro presidente, de fato, liberal. Enfrentou a oposição para privatizar empresas que hoje todo mundo quer privatizar. O dia que ele me conhecer, acho que vai mudar a imagem que possa ter a meu respeito.

E sobre Joice Hasselman? Votaria nela para a prefeitura de São Paulo?

Tenho muito respeito, sou amigo pessoal da Joice, mas, hoje, meu candidato é o Bruno Covas, o candidato do meu partido, do PSDB. Meu voto será nele, é por ele que eu vou trabalhar.

Defina a deputada Carla Zambelli.

As ações dela já dizem o que se pensar dela.

Pessoalmente, como você definiria Jair Bolsonaro?

Inconsequente, ingrato, não é preparado, tem mostrado isso, e não tem interesse em se preparar. Muitas vezes é autoritário.

Você tinha papel importante na estratégia para o setor de Cultura do governo. Em que pé fica isso com a sua saída? O que este governo está propondo em termos de Cultura?

A Cultura no governo Bolsonaro não existe. O Osmar Terra não é preparado para tomar conta da Cultura do Brasil, infelizmente. Ele é bom para outras coisas, mas para a Cultura do país, não. Agora, temos aí um secretário, um tal de Ricardo Braga, que ninguém sabe de onde veio direito, veio do mercado financeiro, mas qual o currículo dele? O que fez para a Cultura do país? Aonde ele investiu? O que produziu, dirigiu, escreveu? Nada, absolutamente nada. A Cultura no país não existe no governo Bolsonaro. Fez uma maquiagem na Lei Rouanet, as leis de incentivo continuam funcionando e não puniram aqueles que usufruíram delas. Uma série de coisas erradas, em um país que respira cultura, de norte a sul. Infelizmente, estamos assistindo a um momento muito ruim da Cultura do país.  

Outro papel importante seu era como articulador político do governo no Congresso. Que nota você dá para a articulação política deste governo?

Esse Governo não tem articulação. Esse Governo, infelizmente, fala muito de “velha política”, mas não mostra o que é a “nova política”.

A Ancine está paralisada e o Estado parece disposto a selecionar os temas dos filmes daqui em diante. Isso é censura ou não? Bruna Surfistinha foi citado como exemplo. Tivemos ainda o caso da publicidade do Banco do Brasil. 

A Ancine passou a ser um problema do Bolsonaro. Por ele, terminaria com o cinema nacional, ainda mais sendo o assessor dele para audiovisual o ideológico, Beato Salu, mais conhecido como Ernesto Araújo, o chanceler.

O que você assiste, ouve e consome de cultura? Assistiu a Bacurau?

Eu gosto muito de documentário, assisto a todo tipo de jornalismo, gosto de teatro, de cinema, é isso.

É possível estabelecer alguma relação entre pornografia e política? E entre um reality show, como Casa dos Artistas?

Entre pornografia e política, sim. O que o Bolsonaro faz hoje é pornografia política de baixo nível, basta ver o que ele tem feito para emplacar o filho na embaixada dos EUA, ou para esconder o Queiroz, proteger o outro filho, que é senador, e por aí vai. 

Quanto a reality show e política, não há comparação, mas, muitas vezes, aquilo tudo já é um reality show, aquele circo montado que se tornou a Câmara dos Deputados.

Qual será o futuro deste governo, em sua opinião? 

O Brasil pode contar comigo, pois eu vim para não passar despercebido nessa legislatura, ainda que os ativistas radicais do bolsonarismo, entre ameaças e xingamentos, falem muito, os covardes virtuais, eu adoro, eles não me esquecem. 

 

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