As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Amós Oz e a infantilização da humanidade

Morris Kachani

02 de maio de 2019 | 11h04

Você pega um livro, romance, contos, e o lê, e na página 24 perde a respiração: mas esta sou eu, como é que a escritora sabia? Ela não me conhece. Não está apenas falando de mim, está realmente falando de meus segredos, que não revelei a ninguém. Este é um tipo de dádiva. 

O trecho acima faz parte de “Do que é feita a maçã”, obra recentemente lançada pela Companhia das Letras, que consiste em uma compilação das dezenas de horas de conversa entre o escritor israelense Amós Oz, falecido em dezembro de 2018, e Shira Hadad, editora de seu romance “Judas”.

É um livro pequenino e tocante, dividido em seis capítulos/ conversas, permeadas de franqueza e calor humano.

Voltando ao trecho mencionado na abertura deste post, parece que vivi a dádiva da página 24, quando percorri o texto abaixo…

Eu ando com medo. Principalmente do aumento do fanatismo em todas suas formas. Desesperado não, pois não sei o que vai acontecer. Podem acontecer coisas terríveis, mas podem acontecer coisas boas, coisas que ninguém está imaginando. Em minha vida, quase todos os acontecimentos que mudaram a realidade foram inesperados. Súbitos. A Guerra dos Seis Dias. A do Yom Kippur. A visita de Sadat e a paz com o Egito. O colapso do comunismo. Os acordos de Oslo. O assassinato de Rabin. A destruição das Torres Gêmeas em Nova York. E a evacuação dos colonos israelenses de Gaza. Cada um desses acontecimentos foi repentino. Não estou desesperado porque sei que viver é como dirigir um carro cujo para-brisa está totalmente coberto e você só tem os retrovisores mostrando o que ficou para trás. Nós sabemos apenas o que já aconteceu, não o que nos espera adiante.

 Até mesmo quando alguma coisa ou alguém faz meu sangue ferver, eu já não sinto aversão. Pessimismo, sim. Muito frequentemente acho que o futuro não vai ser bom. Por exemplo, esse negócio de que seu filho vai crescer num mundo cujo linguagem é do SMS. Que as pessoas, se lerem literatura, só lerão textos curtos, e que essa monumental lavagem cerebral que nos faz o publicitário dirá a elas o tempo todo: jogue fora tudo que tem, compre coisas novas. Já agora há muitas pessoas que dizem: “Quem precisa do passado? Ele não nos interessa. Para que saber quem foi Herz, ou Ben Gurion, ou Shakespeare? Só o que é novo tem valor”. Isso não é um bom presságio. E principalmente não sou otimista quando vejo, em muitos lugares do mundo, a vitória de uma direita impregnada de ódio e cheia de medos, e em contraposição muita esquerda banal, ingênua, que odeia o regime estabelecido, hostil aos fortes e aos hegemônicos onde quer que esteja. E o cobertor que eu estendo sobre todas essas coisas, começando do apagar do passado e terminando nos processos políticos que acontecem agora, o grande denominador comum à direita simplista e à esquerda ingênua é que a política e as comunicações estão se tornando ramos da indústria do entretenimento. Os problemas parecem gags e as soluções, mensagens de SMS, e a vida, um truque. Estou falando de uma metódica infantilização da humanidade.

Então percebo que a aflição é da mesma natureza e global, e que talvez bastaria trocarmos os eventos israelenses pelos brasileiros – para ficarmos nos mais recentes, 2013, 7 X 1, a facada, e teríamos um texto pronto sobre nossa realidade.

Um pouco antes, eu já havia passado por outra sensação dadivosa…

Nunca vi no Parlamento, mesmo quando no Parlamento havia grandes oradores, não vi um parlamentar da facção contrária à do orador se levantar para dizer: “Ouvi seu discurso e ele abriu meus olhos, e percebi que você tem razão”. Isso nunca aconteceu. Há centenas de volumes no Diário do Parlamento, mas esta frase você não vai encontrar lá. Nem nos tribunais. Em todos os anais de tribunais do mundo inteiro não aconteceu uma única vez que um advogado de defesa ou um promotor tenha se levantado ao fim do discurso do outro causídico e dito: “Ouvi as palavras de meu ilustre colega e me convenci de que tem razão e eu simplesmente estava totalmente enganado”.

Honestamente, sempre me fiz essa pergunta, e de certa forma ela compõe a essência deste blog, que é a de entrevistar as pessoas em busca de alguma conciliação e entendimento, de estimular a reflexão, nestes tempos bicudos de polarização. Muitas vezes, e já são algo como 100 entrevistas em quase dois anos de trajetória, soaram ingênuas, pueris ou exacerbadamente otimistas algumas perguntas que fiz a meus interlocutores, fossem eles políticos, juristas, artistas, pensadores, dentro deste espírito, de reconhecer uma outra argumentação ou de que talvez estivessem simplesmente enganados.

E para finalizar este post, um tema delicado. Só que desta vez sem reproduzir um trecho, deixando uma curiosidade no ar, de forma a estimular você leitora ou leitor a quem sabe adquirir o livro e melhorar um pouco as estatísticas das vendas nas livrarias, que caíram 30%.

Há um capítulo inteiro sobre sexualidade e descoberta, e Oz, que não compactua com Simone de Beuavoir e outros e outras sobre a alegação de que não há nenhuma diferença em nenhum aspecto entre homens e mulheres, alerta para um certo cheiro de fanatismo que fareja no ar, alimentado por uma raiva legítima que se acumula por gerações: “quando essa poeira assentar, tanto as mulheres como os homens talvez possam se olhar com mais nitidez do que se olham hoje. Eu já não verei isso, mas espero que meus filhos e netos, sim”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: