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Aos neófitos da Bolsa, uma introdução por Mauro Halfeld

Morris Kachani

16 de março de 2020 | 10h30

Mauro Halfeld ficou conhecido pela coluna que mantém na CBN sobre finanças pessoais e investimento, e pelos cinco livros a respeito que escreveu. Ele concedeu esta entrevista ao blog, por e-mail.

O número de brasileiros que investiam na Bolsa em 2018 era 800 mil. Saltou para 1,5 milhão em 2020. Este pânico causou dano profundo na psicologia do pequeno investidor que descobriu a Bolsa recentemente em busca de mais retornos… O que dizer para este pequeno investidor?

Que toda criança leva tombos quando está aprendendo a andar. Ela chora, aprende a tomar mais cuidado e persiste. Os adultos também precisam aprender a agir assim quando investem em renda variável porque é provável que o modelo econômico com Selic alta não se sustente mais no Brasil. E com juros baixos, a renda variável vai ser importante de novo.

Corretoras como a XP e inúmeros fundos de investimento e empresas de pesquisa cresceram neste âmbito, e nunca passaram por um abalo desta magnitude. Como imagina, ou espera, que reagirão?

Espero que sejam intelectualmente justos e que reconheçam eventuais erros ou exageros. Eles são importantes no processo de educação do investidor brasileiro.

Gostaria que comentasse sobre o lado emocional de quem perde na Bolsa. Esta é a primeira grande crise na era das redes sociais e das fake news.

As redes sociais devem contribuir para aumentar a velocidade da queda da Bolsa. Esta crise já reflete isso. O Ibovespa caiu com extrema rapidez e pode se levantar um pouco mais rápido do que fazia no passado.

Havia uma bolha? Ela estourou?

No Brasil não. Mas na Nasdaq e certamente no Mercado de crédito corporativo nos EUA, Europa e Ásia, sim.

Parece que estamos no meio desse processo de deflação dos ativos cujos preços esticaram demais. Mas há muito nevoeiro na pista e não dá para ter certeza. O novo coronavírus criou um desafio médico que é muito diferente das crises com origem em fatores econômicos que vivemos no passado.

Defina por favor o que seria o comportamento de manada, e em que medida ele tem (in)coerência.

Errar sozinho é muito doloroso e pode significar a perda de seu emprego e da sua reputação se você for um profissional de Mercado. Por isso a maioria prefere andar em cardumes ou manadas ainda que isso signifique aceitar algumas incoerências. Mas num momento de virada do Mercado as emoções ficam muito intensas se você está no meio da manada.

O que significa o dólar a R$ 5 para o brasileiro comum? Em outras palavras, na medida em que o real desvaloriza assim exponencialmente, nosso poder aquisitivo também se liquefaz, certo? Há um ano, se eu tivesse 100 mil reais, compraria mais de 26 mil dólares. Hoje, menos de 20 mil…

Sim, mas há um outro lado. Com raras exceções, desde o início do Plano Real, em 1994, o Brasil manteve o real muito forte e os juros muito altos. Isso provocou uma intensa desindustrialização do país. O Brasil cedeu milhões de empregos para a China e vai levar muitos anos para que possamos reverter o processo. Em particular, prefiro morar num país em que os juros sejam baixos e o dólar seja caro. Penso que isso seja mais racional do que sucatear a indústria e a infraestrutura do país só para comprar brinquedos, roupas e passagens internacionais. Diante disso, acho perfeitamente aceitável pagar R$ 5 pelo dólar.

Na sua entrevista de hoje, você recomenda parcimônia com a renda variável. Porém, para se alterar o perfil de uma carteira com renda variável, digamos, para uma de renda fixa, muitos fundos de investimento exigem prazos de resgate de 30 a 60 dias. Mesmo nestas condições, você acha interessante resgatá-los?

O pequeno investidor só deve aplicar em fundos assim se tiver convicção nos seus objetivos de longo prazo. Mas se ele se arrepender no meio do caminho, pode pensar em resgatar  esse capital em partes, suavemente.

Arriscaria dizer qual será o fundo desse poço? Ou até quando vai a turbulência?

Esta crise vai até a descoberta de uma nova vacina ou até que se tenha informações confiáveis de que o número de mortes e de novos contágios está em acentuado declínio.

Onde aplicaria seu dinheiro em uma semana como essa?

Em fundo DI, Tesouro Selic e um pouco em fundo cambial.

Li um texto hoje dizendo que o risco embutido no sistema global não pode ser subestimado. Mas nem tudo nesta crise é global. As condições políticas locais, que poderiam amortecer nossa queda, a estão acelerando. Concorda com essa visão?

Não sei se entendi sua pergunta, mas concordo que existe uma grande ameaça de uma nova crise no Mercado de crédito. Desta vez o foco não estará nos financiamentos imobiliários, mas sim no financiamento a corporações. Com juros baixos, grandes empresas se endividaram demais nos últimos dez anos. Muitas empresas precisarão ser socorridas ou vão virar pó nos próximos meses. E isso pode criar um efeito dominó no sistema financeiro. Se isso acontecer, teremos uma continuação do filme de horror que assistimos em 2008.

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