Aprenda mandarim através de um download no seu cérebro
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Aprenda mandarim através de um download no seu cérebro

Morris Kachani

11 de fevereiro de 2021 | 10h18

Entrevista com Silvio Meira, engenheiro eletrônico, mestre em informática e PhD em computação pela universidade britânica de Kent, professor da Universidade Federal de Pernambuco, co-fundador do hub Porto Digital, membro dos conselhos da CI&T, MAGALU, MRV, BBCE, TEMPEST, AREZZO e YPÊ.

Assista à entrevista: https://youtu.be/4MQHe7phgkI

“Uma universidade moderna é exatamente igual à Universidade Al Quaraouiyine, no Marrocos [na cidade de Fez], que foi a primeira universidade do mundo, de 859. Se a gente entrar numa sala de aula hoje vamos ver a mesma coisa que estava acontecendo em 859. A universidade se perdeu. E a universidade se perder fez com que as escolas como um todo se perdessem. A gente continua fazendo as coisas nas escolas como basicamente a gente fazia nos mosteiros da Idade Média. Alguém tem autoridade sobre o conhecimento de alguma coisa e vai lá dizer o que sabe para a sala e depois a sala vai ter que regurgitar o conteúdo em provas e testes”

“Na prática o sistema educacional não prepara as pessoas para a vida. A maioria dos formados, em qualquer área e universidade do mundo, é formado em fazer provas e é isso que eu acho que vai mudar. Nós precisamos resgatar o espírito das escolas de Aristóteles e Platão, que eram escolas de debate, diálogo e problematização do universo ao nosso redor”

“Computacionalmente, nós não somos competição para a inteligência artificial. Mas quando a gente olha para a inteligência combinada com alguma autonomia e socialização, isso muda. Uma inteligência artificial em particular pensa da mesma maneira que uma pessoa, mas só em alguns aspectos. Vão evoluir? Vão evoluir muito e eu esperaria nascer daqui a 200 anos para ver o que aconteceu. Eu acho que já teremos descoberto como as pessoas aprendem mandarim. Seria muito bom se daqui a 200 anos a gente descobrisse que as pessoas aprendem mandarim por download”

“O que a covid causou foi uma aceleração de pelo menos cinco anos na penetração digital de quase todos os mercados. Estou falando de educação a saúde, do varejo, de alimentos e bebidas, de autonomia, de absolutamente tudo. E no meio disso não foi lançada nenhuma nova tecnologia. Essa é a grande mudança. A mudança são as mudanças de comportamento de pessoas. Os mecanismos que a gente está usando aqui nesta conversa [Zoom], por exemplo, já existiam antes e as pessoas que não usavam. Os mecanismos de compras digitais já existiam antes”

“Tem uma pesquisa que foi realizada em 2019 que mostrou que o tempo mediano das pessoas estabelecerem novas hábitos é de 66 dias. As pessoas já estão se acostumando ao ambiente digital”

“Do ponto de vista digital, a gente está 50 anos à frente da Revolução Digital que foi ali nos anos 70 com os primeiros microprocessadores, e 25 anos da eclosão da internet comercial, em 95. O impacto direto disso na vida das pessoas começou a acontecer nessa década, com as redes sociais se tornando protagonistas da infraestrutura do relacionamento humano. Se a gente comparasse com uma novela estaríamos nos primeiros capítulos, quando os personagens estão sendo apresentados”.

“O mundo figital não começou agora, ele começou lá em 2005, tem 15 anos. O que aconteceu foi que as empresas, a partir de 2010, perceberam uma coisa que Churchill já dizia: ‘vocês me desculpem, mas eu vou atrás dos meus seguidores’. Essa década de 2020 vai ser a década da transformação digital nas empresas”

Do jeito que as coisas andam… será que em algum momento seremos afinal tragados pelas redes sociais e pela inteligência artificial, se é que já não estamos sendo?

Muita calma nessa hora. Se a gente comparasse com uma novela estaríamos nos primeiros capítulos, quando os personagens estão sendo apresentados.

Uma das pedras fundamentais da modernidade são os três Cs – Complexidade, Caos e Contradições. Em algum momento aprenderemos a lidar com esta dinâmica, e a dominaremos.

Silvio Meira compartilha nesta entrevista seu olhar visionário sobre tecnologia da informação e o impacto na economia, na política e na educação.

“Uma das pedras fundamentais da modernidade são os três Cs – Complexidade, Caos e Contradições. Nós perdemos a capacidade de explicar o mundo que a gente está vivendo porque as coisas que temos ao nosso redor são caóticas, fazem parte de sistemas que têm até explicitações matemáticas razoavelmente simples, mas que quando você muda alguma condição de contorno ou alguma parte do contexto, o comportamento do sistema muda tão dramaticamente que nem parece o mesmo sistema funcionando no mesmo contexto”

“A gente começou a viver num mundo onde você ‘puxa os futuros para o presente e não carrega os passados para o futuro’. É o que eu nominei seguindo a “Theory U”, que é a ideia de que o ‘futuro vem do futuro, não vem do passado através do presente; ele vem do futuro e através do presente ele se torna passado’. A maioria das performances que a gente vê são performances que vieram do futuro e não do passado. Essa é uma dinâmica estranha para a vasta maioria das pessoas. Esse mundo não é um mundo trivial. É um mundo de complexidade, caos e contradições”

“A ciência e o conhecimento são coisas extremamente complexas, sofisticadas e sujeitas a mudanças de paradigma. Então a ciência que você usava para entender a Segunda Guerra Mundial, tanto no mundo tecnológico quanto no socioeconômico, ela não se aplica mais em boa parte e nós temos um problema com isso. A vasta maioria das pessoas foi treinada com aquela ciência “lá atrás” para entender o mundo agora e é por isso que os cientistas têm tanto debate sobre coisas que poderiam ser extremamente simples e que a maioria da população não está preparada para entender. Quando a ciência era feita em laboratórios, universidades e seminários, isso era uma coisa. Hoje a ciência está na ribalta, literalmente. A ciência chegou na mesa do café da manhã, do bar, do almoço e nas redes sociais, obviamente”

“A gramática do ser humano transcende muito. Já houve uma época, lá nos anos 1600, que você podia ter pessoas que tinham um comando ou domínio de todo o conhecimento disponível na terra, através de uma rede de correspondência e troca de cartas. Então você imagina isso no meio do século XVII, um cientista numa cidade no norte da Alemanha que tinha relacionamentos globais pois ele tinha correio – ‘então se há alguma coisa para saber, eu sei’. E hoje as únicas pessoas que sabem alguma coisa, ou que dizem saber alguma coisa pelo menos, são as pessoas que não sabem quase nada”

“Se você publicou uma foto sua numa rede social ou numa página é muito provável que isso nunca vai ser esquecido. O seu comportamento digital está sendo gravado à medida que você está fazendo coisas; você faz uma busca aqui, e isso vai levar a anúncios a serem mostrados para você ali. Se você chama um transporte compartilhado no celular, fica um rastro no mapa de onde você saiu e onde foi, quanto tempo você ficou lá até pedir o próximo carro. Então o seu rastro digital está gravado no que podemos chamar da “internet mais profunda”. Não é a deep web, é uma internet que você não vê e não sabe o que está gravado, você não consegue nem pedir para que deixe de existir nesses ambientes”

“A humanidade foi montada na base do esquecimento: aos poucos você vai paliativamente esquecendo as coisas que aprendeu. A legislação europeia que garante esse esquecimento [na internet] e começa a ser aplicada agora, tem se mostrado útil para diminuir a explicitação do implícito digital”

“Tem uma coisa fundamental para a gente entender que é se você chegar para todo mundo que lê e propaga fake news e dizer para fazerem um curso para ver como é que o mundo funciona, já terão uma visão de mundo onde aquilo [as fake news] são verdades independentes da realidade ao redor. A gente se perdeu, na minha opinião, em sentimentos. Nós deixamos que sistemas, como o Facebook, que dependem do tempo que as pessoas passam dentro do sistema, do engajamento, mostrem propaganda e usem seus algoritmos para criar bolhas de informação viciosa ao redor. Mostrando para essas pessoas só o que elas querem ver. Quando você solta essa tecnoeconomia sem nenhuma regulação, acontece isso”

“O Facebook admitiu que 60% das pessoas que estão em grupos extremistas dentro da plataforma entraram nesses grupos por recomendação do algoritmo do próprio Facebook. A gente desconectou um passado ingênuo das redes sociais com um futuro dramático das redes sociais”

“Quando a gente olha para a inteligência artificial, estamos olhando para a inteligência artificial de propósito específico que resolve uma certa classe de problemas computacionais, os quais a mente humana também resolve, e um bocado de outros problemas que a mente humana não resolve na velocidade da inteligência artificial. Então quando você tem uma inteligência artificial que é capaz de jogar xadrez e derrotar seres humanos de maneira sistemática, que é o caso de hoje, é impossível você ganhar de uma inteligência artificial mediana dentro de um smartphone, e se você tiver um supercomputador é impossível você jogar se o jogo for bom, porque os jogos são totalmente dominados algoritmicamente. Quando olhamos para essa faceta da inteligência artificial computacional é óbvio, que se você tem computadores, que têm dezenas de bilhões de unidades computacionais que funcionam em uma velocidade por unidade computacional muito maior do que os neurônios, computacionalmente nós não somos competição para a inteligência artificial”

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