As lições de Mozart Neves

As lições de Mozart Neves

Morris Kachani

28 de janeiro de 2019 | 08h35

O educador que reunia todas as credenciais para ser ministro mas infelizmente não foi nomeado

Foto: Juan Guerra

Assim como milhares de brasileiros, fiquei tremendamente desapontado quando Jair Bolsonaro des-convidou Mozart Neves Ramos para o cargo de ministro da Educação, em novembro último, dando ouvidos para a bancada evangélica, em um imbroglio no qual o desconhecido Ricardo Vélez Rodríguez acabou levando a melhor.

Ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-secretário da Educação daquele Estado, Mozart, que atualmente é diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, é um dos profissionais mais respeitados no setor.

Promoveu nas escolas pernambucanas uma das mais bem-sucedidas reformas educacionais do país. Também já liderou o projeto Todos pela Educação, uma iniciativa de empresas para resgatar a qualidade do ensino no Brasil.

Nesta entrevista, Mozart diagnostica os principais desafios educacionais do país daqui para frente. Um percurso que começa pela alfabetização, pedra angular de tudo. Hoje, 55% das nossas crianças ao final do terceiro ano do ensino fundamental, já com nove anos de idade, não sabe ler, escrever ou contar adequadamente.

Há outros desafios no processo de aprendizagem, claro. É preciso lembrar que de cada cem crianças que começam no primeiro ano do ensino fundamental, apenas 50 delas chegam no ensino médio. E, dos alunos que concluem o ensino médio, apenas 7 de cada 100 aprenderam o que seria esperado em matemática. Em língua portuguesa, apenas 28. Esses números estão estagnados desde 1999.

Hoje, temos 13 milhões de analfabetos funcionais…

As estatísticas podem ser desalentadoras, mas Mozart, sempre propositivo, mais parece um gladiador lutando pela redução da desigualdade de condições para os alunos brasileiros de todas as regiões.

Ele propõe uma estratégia que passa pela valorização do professor – não apenas seu salário, mas sua própria formação, ambos defasados. E também pela profissionalização da gestão com resultados, uma vez que triplicamos o custo-aluno desde 2000 e seguimos praticamente estagnados.

Inevitavelmente, ao longo da conversa falamos também sobre o episódio em que quase assumiu o Ministério da Educação: “Não fui cogitado. Fui convidado, mesmo. O que me deixou mais triste em todo esse processo, foi quando o próprio Bolsonaro disse que o convite foi fake news”.

E como certos aspectos relacionados ao tema da educação se tornaram uma espécie de fetiche entre os partidários governistas, decidimos desfiá-los um a um.

Sobre escola sem partido: “na prática, cada escola é muito a cara do seu diretor e de seus professores. Não podemos deixar de reconhecer que há escolas com posicionamento político diferente do governo. A pergunta é: isso é a larga maioria? Pra mim, não. Não podemos fazer de exceções e de casos – seja de escolas ou professores – uma regra para que agora fiquemos em um amplo debate com a sociedade daquilo que não é maioria ou o mais importante”.

Sobre ‘ideologia de gênero’: “O Brasil é um país muito diversificado. Eu acho que devemos respeitar os ritos e valores de cada pessoa. Eu não posso querer que uma pessoa pense igual a mim. Eu acho que tem uma complexidade, que os livros didáticos, por exemplo, não podem ter algum tipo de homofobia. Cabe à escola, de alguma maneira, contribuir para o processo de uma convivência sadia, de respeito mútuo”.

Sobre escolas militares: “Você não vai resolver o problema de educação no país colocando todas as escolas públicas como militares. Primeiro, porque seria impossível do ponto de vista de custo. Segundo, do ponto de vista de gestão; terceiro, por conta dos processos seletivos”.

Sobre Paulo Freire: “Excluir Paulo Freire é simplesmente não ter uma visão sistêmica de mundo e não compreender que a beleza se encontra na diversidade e, principalmente, na capacidade de ter até mesmo uma visão oposta para uma escolha”.

Sobre o próprio ministro Vélez Rodríguez, com quem se encontrou na semana passada: “Não conhecia o novo ministro. Milito na gestão da educação desde 1990. Ninguém conhecia”.

Qual diagnóstico é possível desenhar, sobre o estado atual de nossa educação?

Devemos focar em cinco grandes eixos desafiadores para avançar a educação no país, tanto do ponto de vista da qualidade como da equidade. Vale a pena examinarmos os exemplos que vêm de fora, mas principalmente, o Brasil tem muito o que aprender com o próprio Brasil.

Qual seria o primeiro grande desafio?

O primeiro grande desafio da educação brasileira passa a meu ver por algo que é olhar pelo retrovisor, ou seja, para algo do passado para a larga maioria dos países que estão no topo da educação mundial, mas que aqui infelizmente ainda é muito presente, que é o desafio da alfabetização das nossas crianças na idade certa, aos 7 anos. No modelo atual, 55% das nossas crianças ao final do terceiro ano do ensino fundamental, já com nove anos de idade, não sabem ler, escrever ou contar adequadamente.

Nesse sentido, o governo atual até sinaliza essa questão de enfrentamento da alfabetização de maneira correta. O que me preocupa é que está olhando apenas por um método, um modelo de alfabetização. Eu não acho que necessariamente tenha que ser olhado um método específico – o fônico, no caso.

O mais importante é que o professor alfabetizador esteja preparado e bem informado para que alfabetize adequadamente as nossas crianças no tempo certo, dando-lhes a chance de prosseguimento aos seus estudos com muito mais possibilidades de aprendizagem.

Esse seria o segundo eixo, a formação dos professores, a valorização da carreira do magistério. E não estou me restringindo a salário, ainda que seja verdade que o salário continue sendo um desafio em nosso país para atrair jovens para a carreira.

Quanto ganha um professor?

Se a gente for comparar com outras profissões, a diferença salarial de um professor no início da carreira com a de outros profissionais – médicos, engenheiros, etc. – é de apenas 11%. Entretanto, com o passar do tempo, observa-se um alargamento desse hiato, chegando a uma diferença de 43%. Esse é um estudo do IBGE.

O desafio não é o salário de partida, é o plano de carreira.

Tirando a questão salarial, como está o nível de preparo dos professores?

Aí nós temos dois grandes desafios. Primeiro, a maioria dos jovens no país não quer seguir a carreira do magistério. E aqueles que a seguem, em geral saem muito malformados da universidade. A universidade, infelizmente, está muito distante da educação básica. Essa é uma crítica que eu faço.

Tem trabalhos muito bem feitos que mostram o distanciamento da realidade do chão de escola com a formação dos nossos professores nas universidades, que é muito teórica.

Nós temos bons professores na educação básica. Eu acho que eles deveriam fazer parte do corpo docente das licenciaturas para trazer esse cheirinho da escola às universidades e, principalmente, o trabalho que é feito na educação básica para os futuros professores. Isso poderia inspirar e motivar os alunos que estão nas licenciaturas.

E o terceiro desafio?

A questão da gestão. Quando a gente fala, por exemplo, da experiência bem-sucedida do Ceará em alfabetização, falamos de um conjunto de ações que passam pela formação de alfabetizadores, um sistema de avaliação que mostra quantos alunos efetivamente estão sendo alfabetizados, material didático produzido. Mas, ninguém fala num ponto que é muito relevante nesse processo.

A redistribuição do ICMS no Ceará para os municípios não é com base no número de alunos matriculados, mas sim com base no número de alunos alfabetizados. Isso faz com que os prefeitos ganhem um nível de compromisso e de responsabilização muito maior do que aqueles prefeitos de outros Estados que recebem a redistribuição do ICMS apenas pelo número de alunos matriculados.

A profissionalização da gestão e a responsabilização por resultados deveria ser uma política importante para se chegar a um outro patamar naquilo que eu considero o maior dos desafios, que é a questão dos baixos índices de aprendizagem no Brasil.

A cada cem crianças que começam no primeiro ano do ensino fundamental, apenas 50 delas chegam no ensino médio. E, dos alunos que concluem o ensino médio, apenas 7 de cada 100 aprenderam o que seria esperado em matemática. Em língua portuguesa, apenas 28. Esses números estão estagnados desde 1999.

Não fizerem nada para melhorar?

Tudo foi feito: mais formação, mais dinheiro… Pra você ter uma ideia, em 2000, o custo-aluno do ensino básico, medido pelo INEP, era em média R$2.100 por ano. Em 2017, está na ordem de R$6.300. Nós triplicamos o financiamento da educação básica e a aprendizagem continua absolutamente estagnada.

Somente colocar mais dinheiro sem cobrar dos gestores dados mais eficientes e mais proficientes, não vai resolver. Tem que ter consequência.

Melhoramos apenas nos anos iniciais do ensino fundamental, do primeiro ao quinto ano, que é onde a complexidade é menor e há praticamente um professor por turma. É a única etapa do ensino em que o Brasil realmente melhorou.

O problema volta no sexto ano, onde passa-se a ter um professor por disciplina e não mais por turma. E aí o Brasil se perde. Não temos uma tecnologia, vamos chamar assim, que dialogue com a escola que o adolescente no Brasil esperaria. O jovem quer uma escola que dialogue com seu mundo, que faça sentido pra ele, e o Brasil não tem isso. Quando começa essa quantidade enorme de disciplinas e professores que não estão preparados para ensinar aquelas disciplinas, aí a coisa se complica, aí o país não consegue avançar.

Como estamos de analfabetismo funcional?

O pleno funcional, temos aproximadamente 13 milhões de pessoas nesta situação. Temos 13 milhões de pessoas assim.

Resumo da ópera: apenas metade dos alunos que iniciaram na educação básica concluem o ensino médio. Dessa metade que chega, a larga maioria chega com baixos índices de aprendizagem, o que compromete a própria qualidade do ensino superior. E, pasmem, a evasão no ensino superior está entre 40 e 50%. Seja por reprovação, seja porque o jovem não se identificou com aquele curso.

Então a gente tem problemas lá na pedra angular, que é a alfabetização, mas que se estendem até o segundo nível de ensino no Brasil que é o superior.

Nada melhorou? Nem o ensino superior melhorou? Pelo menos em termos de quantidade de cursos oferecidos.

Ele melhorou na expansão, que se deu via setor particular, não foi via setor público. Mas, os índices de aprendizagem medidos pelas habilidades e pelo próprio INABE, que é a instituição que mede o ensino superior, avaliam que ainda é muito baixo o nível de qualidade de ensino. Em parte, em decorrência desses alunos que já chegam no ensino superior despreparados.

Como você enxerga a questão de escola privada e pública?

As nossas melhores particulares estão no nível das mais fracas dos principais países que estão no topo da educação mundial. Então você tem colégios como o Bandeirantes, o São Bento, que são muito bons; mas são em número muito pequeno e, naturalmente, com o custo muito mais elevado do que aquele da educação pública.

Então, eu diria que o desafio não está apenas no ensino público, mas sim na própria educação brasileira.

É que você falou em desigualdade no começo de nossa conversa.

A desigualdade a que me refiro é pela questão sócio-econômica.

Em 2003, a diferença entre os mais ricos e mais pobres era da ordem de 20 pontos tanto em português como em matemática, nos primeiros anos do ensino fundamental. Isso equivale praticamente a um ano de escolaridade a mais.

Quando a gente vai para 2013, estes 20 pontos se tornam 43 pontos. Os mais pobres melhoraram a média, como comentei o Brasil só melhorou nos primeiros anos do ensino fundamental. Só que os mais ricos melhoraram muito mais. Então, a desigualdade aumentou.

Na Finlândia, uma criança que estuda na terra de Papai Noel, na Lapônia, ou estuda na capital Helsinque, elas vão ter a mesma sorte futura do ponto de vista educacional, elas vão ter uma escola equânime do ponto de vista de aprendizagem. Assim como Singapura e outros países que estão no topo da educação mundial – Japão, mesmo Alemanha…

O Brasil precisa fazer um esforço para o aumento de qualidade em termos de aprendizagem, de eficiência – para que um número maior de crianças chegue ao final do ensino médio -, e ao mesmo tempo reduzir a desigualdade.

Você falou em cinco eixos. Qual seria o quinto?

Trabalhar mais por território, e não por município. Trabalhar nas regiões – principalmente naquelas mais desfavorecidas do ponto de vista sócio econômico, como Norte e Nordeste.

Um dos grandes problemas da educação brasileira é a questão da descontinuidade das políticas públicas. Muda o prefeito, muda tudo. Muda o governador, o ministro; muda tudo. Estamos vendo isso agora. Eu acho que precisa ter uma agenda de continuidade das políticas públicas que estão funcionando, e daí eu entendo que devemos trabalhar com evidências, acabar com o achismo na educação brasileira para o país avançar.

E trabalhar por meio de território, no que a gente chama de regime de colaboração entre municípios, pode ser uma estratégia muito importante para avançar mais rapidamente na educação.

Quando você olha o território, você amplia a colaboração entre municípios, principalmente em regiões muito pobres. Não há como você passar dinheiro para 5.570 municípios, onde mais da metade desses municípios vivem exclusivamente da redistribuição de ICMS e do Fundeb.

Falta massa crítica. Gente pra fazer projeto. Falta gente pra pensar como alocar corretamente o dinheiro da educação. Não adianta botar mais dinheiro em prefeitos que não têm uma visão estratégica da educação.

Deveria ser uma política coordenada pelo ministério da educação, para que o financiamento fosse pautado em territórios e promovendo a colaboração entre municípios, de tal maneira que a gente pudesse evitar essa descontinuidade, porque nesse caso a política não seria do prefeito, seria do território.

Diga-se de passagem, já tem várias experiências bem-sucedidas no país. Até hoje tem vários arranjos funcionando no Brasil, sem uma participação direta do Ministério da Educação que a meu ver deveria ter esse olhar diferenciado, de financiamento para territórios, e não municípios diretamente.

Exemplos?

Trabalhar em rede, né? A pós-graduação de química da Federal de Pernambuco, é uma referência. Quando a Federal do Rio Grande do Norte quis montar uma pós em química, a Capes orientou para que este curso fosse incubado pela pós de Pernambuco. Foram dois ou três anos fazendo mentorização, pegando o que foi bem feito. Hoje, Natal está melhor que Recife.

Tem várias experiências no país que a gente pode tomar como pistas para ampliar e fazer a coisa certa. Não precisamos ir pra Harvard necessariamente, nem pra Singapura, nem pra Finlândia.

O Brasil tem coisas muito boas, positivas. Você vai em Cocal dos Alves, que é uma cidadezinha lá do interior do Piauí, com resultados fabulosos. Tem muitos municípios iguais a Cocal dos Alves que estão um desastre. Ora, se Cocal dos Alves conseguiu, por que não usar o que foi feito ali como exemplo de partida?

Acho que o Brasil precisa aprender com o Brasil.  Municípios que estão próximos entre si geograficamente, um que deu certo e outro em que a educação está um desastre.

Precisamos saber respeitar os aspectos culturais de cada região, de cada território. O importante é ver naquele ambiente geográfico o que está funcionando. Precisamos de incentivo para que as escolas colaborem entre si.

Trazendo à tona algumas discussões atuais: existe essa história das escolas serem partidarizadas? Isso é uma realidade? Como avalia a ideia de escola sem partido?

A gente sabe que as escolas são agrupadas em torno de uma rede de ensino. Mas, na prática, cada escola é muito a cara do seu diretor e de seus professores. Não podemos deixar de reconhecer que há escolas com posicionamento político diferente do governo, por exemplo. Mas, cabe ao secretário descosturar essa imagem. E existe o diálogo.

A escola tem que ser apartidária pela própria Constituição. Às vezes a escola não tem nenhum problema com o governo, mas tem um professor que tem uma visão muito crítica. Tem aí vários vídeos gravados. A pergunta é: isso é a larga maioria? Pra mim, não. Resolvemos isso empoderando o diretor e, principalmente, tendo dentro do projeto pedagógico da escola a clareza da questão da laicidade em relação ao ambiente escolar, seja política ou religiosa. A escola é para a educação e desenvolvimento pleno das pessoas e não deve ter viés ideológico.

Mas, não podemos fazer de exceções e de casos – seja de escolas ou professores – uma regra para que agora fiquemos em um amplo debate com a sociedade daquilo que não é maioria ou o mais importante. O dia tem 24 horas, a energia é finita; se você botar muita energia nisso, deixa de atacar todos aqueles problemas de desafios que nós colocamos anteriormente.

Eu visualizo um certo embate atual entre a religião e o que alguns estão chamando de ideologia de gênero. Como mediar essa situação?

O Brasil é um país muito diversificado. Eu acho que devemos respeitar os ritos e valores de cada pessoa. Eu não posso querer que uma pessoa pense igual a mim. O importante é que haja o respeito mútuo do ponto de vista do desenvolvimento pleno das pessoas.

Estamos diante de uma situação em que se terminou colocando como bandeiras políticas problemas que são atuais e que tendem a crescer. Esse embate não é só no Brasil. É só olhar a questão do bullying e tantas outras que são mais recentes. Eu acho que tem uma complexidade, que os livros didáticos, por exemplo, não podem ter algum tipo de homofobia. Cabe à escola, de alguma maneira, contribuir para o processo de uma convivência sadia, de respeito mútuo. Um bom diretor, empoderado, formado, consegue fazer com que todos tenham uma plena convivência. Principalmente se ele traz a sociedade, as famílias no processo de aprendizagem.

Você está falando de respeitar a diversidade, é isso?

É. Não tem como pensar, principalmente em um país de tamanho geográfico tão diverso como o Brasil, numa linearidade. Isso não existe.

E se discutir isso em sala de aula faz sentido.

Desde que o professor não queira impor a sua maneira de pensar. Tem que ser um elemento de reflexão, em que cada jovem possa, a partir daqueles ensinamentos, ter autonomia de escolha a partir do seu projeto de vida.

Essa coisa de usar o exemplo das escolas militares, tem algum senso?

No Brasil, a gente sempre teve conjuntos de escolas com características próprias. Por exemplo, os colégios de aplicação são um modelo vinculado às universidades federais. É ruim? Não, pelo contrário. Os melhores colégios do país nas avaliações tradicionais são os colégios militares, colégios de aplicação, algumas escolas técnicas que têm o ensino regular. Mas é importante observar que, de partida, nessas escolas há um processo seletivo dos alunos. E o per capita do custo por aluno nessas escolas é em geral maior do que de uma escola pública.

Eu acho que os colégios militares atendem a uma complexidade de diversidade que tem no Brasil. Eu não acho ruim ter o colégio militar, assim como não acho ruim ter colégios de aplicação ou do sistema S, que fazem parte da diversidade de educação no Brasil.

Mas você não vai resolver o problema de educação no país colocando todas as escolas públicas como militares. Primeiro, porque seria impossível do ponto de vista de custo. Segundo, do ponto de vista de gestão; terceiro, por conta dos processos seletivos.

Como pernambucano, como toca pra você esse achincalhamento do Paulo Freire?

Acho que a obra de Paulo Freire tem que ser respeitada. É uma obra que mudou a cabeça de muitos professores, não só da área de educação. Ela contribuiu para a reflexão da educação no mundo. Não é à toa que os livros de Paulo Freire foram traduzidos para muitos outros países. Eu acho que toda e qualquer coisa exacerbada para um lado ou para outro, termina excluindo a melhor parte, que é o conjunto de toda uma obra.

Excluir Paulo Freire é simplesmente não ter uma visão sistêmica de mundo e não compreender que a beleza se encontra na diversidade e, principalmente, na capacidade de ter até mesmo uma visão oposta para uma escolha. Permitir as escolhas às pessoas é fundamental para que a gente não tenha um país com uma única maneira de pensar. Paulo nos ajuda a pensar de maneira diferente, e cada pessoa tem que escolher seu caminho.

Você falou sobre lugares que são vanguarda da educação. Fale um pouco sobre eles.

Temos Finlândia, Singapura, Coréia do Sul. Mas não precisamos ir muito longe, podemos falar sobre Portugal, um país mais próximo de nós.

Portugal fez uma belíssima reforma curricular, e depois um belíssimo programa de formação de professores. É o único país que melhorou no ranking PISA de 2000 pra cá, continuamente.

Você pode perguntar: o que une esses países de culturas tão diferentes, mas que têm resultados tão positivos na educação? Em primeiro lugar é o valor à educação que esses países dão. Isso passa, principalmente, pelo valor e respeito à figura do professor.

Eu acho que o que esses países têm em comum, não obstante suas diferenças culturais e políticas, é o fato de que a figura do professor tem uma valorização e respeito social absurdo.

Se um professor entra em um restaurante na Finlândia, ele é aplaudido. Eu vi isso.

Esse ministro da educação que assumiu, já era conhecido seu?

Não. Eu milito na gestão da educação desde 1990. Ninguém conhecia. Eu acho que ele tinha uma atuação mais ligada à Escola Superior de Guerra, alguns municípios; ele era consultor.

Como você sabe, meu nome foi ventilado para assumir o ministério. Houve um convite, na verdade. Mas depois teve uma reação da bancada evangélica, o que faz parte de política, e o Vélez foi convidado.

Me encontrei com ele essa semana. Eu tomei a iniciativa de procurá-lo, até para mostrar que pra mim a preocupação maior é com a educação das crianças e jovens, e não com essas questões da política.

Mas eu não o conhecia. Ninguém conhecia, na verdade. Ele tinha uma atuação mais pontual num determinado segmento educacional.

E qual foi sua impressão dele nesse encontro?

Foi muito atencioso comigo, chamou outros membros da equipe. Anotaram tudo que eu estava dizendo. Eu entendo que ele está num momento agora mais de escuta.

O Ministério da Educação é um transatlântico. Tem que apertar os botões certos para que ele vá na direção correta. Isso vai exigir não somente escutar, mas também se cercar dos melhores assessores que ele puder. Eu acho que esse vai ser o desafio dele.

Eu li que dois ou três dos assessores são seus ex-alunos de Juiz de Fora, sem a menor experiência, uma coisa assim…

Não os conheço também.

Conheci o presidente da CAPES, o Anderson Ribeiro Correia, e tive uma ótima impressão. Ele foi diretor do ITA, gostei muito dele. O resto eu não conheço, então não vou julgar. Mas eu acho que toda endogenia é muito ruim. Acho que você tem que trazer o melhor que existe de cada área do ensino superior, da educação básica, da CAPES, dos financiamentos. As melhores pessoas, que já mostraram serviços de qualidade em prol da educação brasileira.

Endogenia?

Por exemplo, um programa de pós-graduação onde todo o corpo de professores vem de uma mesma escola de formação, é muito endógeno. Eu acho que assim a gente perde a riqueza do conhecimento plural.

Foi uma escolha que ele fez, talvez por entender que assim teria mais chances de estruturar o trabalho no MEC.

Eu não faria dessa maneira, eu buscaria uma pluralidade de pessoas com competência e experiência conhecidas no campo da educação.

Como você viveu todo esse processo?

Eu sou muito tranquilo. Só fiquei um pouco tenso na véspera, por conta de todo o movimento. Sinceramente, eu não esperava a reação tão positiva da larga maioria dos brasileiros de diferentes setores, diferentes Estados. Uma chuva de mensagens tão positivas. Isso me assustou, não imaginava um apoio tão grande.

A bancada evangélica tinha um outro candidato para o MEC que era de Brasília, que era vinculado ao ensino superior privado. Eles tentaram empurrar via bancada essa pessoa. E aí, eu acho que o Bolsonaro, ao mesmo tempo que estava pressionado pela bancada evangélica, que é importante pra ele – o Malafaia e todos os outros deputados – ao mesmo tempo, ele vendo a reação positiva do país em relação ao meu nome, foi buscar o Vélez.

Acho que, nesse sentido o Bolsonaro tomou a decisão certa enquanto gestor, buscando um terceiro e não atendendo ao apelo da bancada.

Então, na mesma quinta-feira que eu ia à Brasília para combinar com ele o anúncio da semana seguinte, ele foi buscar o Vélez lá em Juiz de Fora e o anunciou na própria quinta-feira à noite, como uma maneira de estancar a sangria. São coisas do Brasil.

Bom, agora a gente tem que torcer pra dar certo.

Como eu disse, as crianças e os jovens não podem ser penalizados por determinadas situações. Por isso que eu estou procurando, como disse a Vélez, dar o meu melhor. Podem contar comigo, porque essa sempre foi minha causa.

Eu fiquei tão feliz quando soube que você estava sendo cogitado. Achei que estávamos indo para o rumo certo…

Não fui cogitado, fui convidado mesmo. Foi durante aquela semana de novembro do feriadão entre Proclamação da República e dia da Consciência Negra. Eu estava em Recife com a minha família, curtindo a praia de Boa Viagem, relaxando, quando eu recebo a ligação pra ir a São Paulo. E aí veio o convite formal.

Mas então, houve todo esse processo.

O que me deixou mais triste em todo esse processo, foi quando o próprio Bolsonaro disse que o convite foi fake news. Isso me deixou muito triste, quando o vi na Globo News falando isso. Mas eu preferi o silêncio. Acho que há certas horas em que o silêncio fala mais do que qualquer declaração.