As narrativas negras, segundo Lázaro Ramos

As narrativas negras, segundo Lázaro Ramos

Morris Kachani

22 Agosto 2017 | 09h38

Por Tracy Segal

Estou no casarão do grupo de teatro Nós do Morro, de onde se vê o céu da favela do Vidigal, colorida por pipas empinadas margeado pelo mar. À minha frente se descortina uma palestra para cinquenta e um alunos negros, selecionados para o “Laboratório de narrativas negras para audiovisual”, que faz parte da programação da FLUP (Festa Literária das Periferias) deste ano. Para a abertura do laboratório foi convidado o ator Lázaro Ramos, que atualmente é roteirista e protagonista da série da TV Globo “Mister Brau”, além de ser um dos atores de maior reconhecimento no Brasil e um empreendedor bem sucedido.

A  sala lotada de jovens, que vieram para ouvir sobre o mercado audiovisual e a criação de narrativas. Todos atentos à fala do ator, todos felizes por terem sido selecionados para esta oficina que durará três meses e representa uma boa oportunidade no mercado audiovisual.

A apresentação de Lázaro Ramos seria uma clássica apresentação motivacional não fosse o detalhe de que não é possível ignorar a história na qual este presente foi forjado, e, apesar de não sabermos, neste momento, neste mesmo sábado dia 12 de agosto de 2017, na outra América, na cidadezinha de nome Charlottesville uma militante de direitos humanos, Heather Heyer  de 32 anos, foi morta por atropelamento doloso durante um embate contra uma passeata pela supremacia branca, em um contraprotesto contra o absurdo de em 2017 ainda se acreditar em supremacia branca. Uma horda de homens brancos raivosos em defesa da estátua do general Robert E. Lee, um escravagista vencido na guerra da secessão, gritava pelas ruas da pacata Charllotesville. Esse evento chocou o mundo, piorado pelo fato do atual presidente dos EUA Donald Trump resistir a retaliar o movimento pela supremacia branca, que incluía entre seus participantes integrantes do  KluKlux Klan. Qualquer semelhança com a série de sucesso Handmaid`s  Tale é mera coincidência.

Dito isto, neste mesmo planeta, nessa sala do casarão do Nós do Morro, sem termos a menor ideia do que acontecia no outro Hemisfério, a fala de Lázaro Ramos deixa bem claro que está ali para uma palestra sobre dramaturgia, sobre empreendedorismo e sobre mercado. A sua agenda é motivacional, avisa que vai falar das redes positivas e dos esforços do coletivo, diferente da fala – que segundo ele em geral é convocado – de cunho sociológico atrelado ao lançamento de seu livro “Na minha Pele” da editora Objetiva, que é um relato pessoal atravessado pela questão racial.

Lázaro então apresenta algumas regras básicas sobre dramaturgia: Não se guiar pela falta – pelo que supostamente o mercado quer – mas pelo próprio desejo de contar uma história, ter conhecimento do arco dramático e por último saber quem é o seu protagonista. Regras que se encontram em qualquer manual de dramaturgia – seria ingênuo não fosse o fato de em seguida ele exibir um episódio da série do Netflix “Master of none” de Aziz Ansari que subverte praticamente todas essas regras, principalmente a ideia de protagonismo. A série é marcada por uma horizontalidade, por uma quebra da estrutura hierárquica – tanto na centralidade do protagonista na narrativa quanto na importância social dos personagens, que são representantes de minorias: latinos, negros, imigrantes, deficientes auditivos e profissionais de empregos periféricos (porteiros, atendentes, taxistas, balconistas).

Após a exibição do episódio, que por sinal é sensacional, ele abre para as perguntas dos alunos. Eles estão ávidos por contar suas histórias e entender por onde vão se abrir essas vias que por tanto tempo estiveram impedidas, num país onde a meritocracia é um mito alimentado pelas elites privilegiadas, num país onde os números de mortes da juventude negra ultrapassam números de guerra. Lázaro é logo sabatinado sobre a questão racial atrelada ao mercado audiovisual, são todos aspirantes a esse mercado.

A tentativa de manter a agenda positiva é abalada a todo momento, e a importância das novas narrativas com personagens que fujam aos estereótipos traz à tona uma realidade longe do ideal. Lázaro tem consciência de sua posição privilegiada neste mercado, posição que conquistou por inúmeros fatores, entre eles sua formação no grupo de teatro bando Olodum:

“Eu vim do bando Olodum, que nunca me deu limite. Fui Sancho Pança, fui Puck de ‘Sonhos de uma noite de verão’, fui quem eu quis ser. Esse processo criativo fez com que eu não me atraísse por certos personagens, mesmo precisando pagar meu aluguel. Eu sempre me incomodei em fazer personagens que carregavam armas, como se isso fosse seu talento natural, como se fizesse parte de seu estilo e de seu corpo. Primeiro optei intuitivamente, e depois decidi que não faria personagens com arma na mão, em que essa arma fosse um conforto. É uma imagem muito forte e que tem muitos significados.”

Entre os apoiadores deste laboratório está a Ford Foundation, e seu coordenador no Brasil hoje é Atila Roque, que por anos esteve à frente da Anistia Internacional, e como estava na plateia por conta do evento de abertura, foi convocado a falar : “ eu tô há muito pouco tempo do lado dos financiadores. Eu tô conversando internamente, de um lugar de privilégio, de poder… não de mudar as coisas, mas na verdade o poder de indução. Quando você abre oportunidades pra outras narrativas, outras histórias, você permite outras formas de imaginar o mundo. Que no fundo é disso que estamos falando. Como criar um ambiente pra que a imaginação possa florescer em todos os caminhos, e não só a partir de um ponto de vista, que é hoje a dramaturgia na TV e no cinema no Brasil, carregados com uma só história. Quando a gente pensa a questão da negritude, da raça, o que a gente tá precisando é de mais rolezinhos em todas as esferas, arrombar algumas portas. Por que quem está no lugar de privilégio não vai sair sem que alguém arrombe alguma porta.”

Surge entre os alunos um ávido defensor de super-heróis que cita a série “Luke Cage” da Marvel/Netflix , que tem um protagonista negro. Ele quer saber se personagens negros do universo fantástico podem ser aceitos por aqui? E reforça que tem vontade de se ver representado fora do contexto conhecido como dos personagens de Cidade de Deus. Lázaro cita Gilberto Gil na resposta: “Gil disse: o povo sabe o que quer, ele só não quer o que não sabe”. E então afirma que o “não” já está aí, é preciso ampliar o “sim”. Ao que emenda para o aluno de roteiro: “Eu ficaria muito feliz se você me chamasse pra fazer um personagem nesse filme.” Entre risos animados pela liberdade de temas que se apresentam à sua frente, pelas possibilidades ilimitadas de novas narrativas, os fios são puxados e surge uma questão sobre a colonização das ideias do qual o imaginário atual é composto, Lázaro reflete concordando: “eu queria fazer história com esquilo. Eu não entendia que não tinha esquilo na Bahia, de tanto que eu via esquilo nos desenhos”.

Quanto à forma de contar essas histórias, Lázaro fala de um cuidado com o discurso militante na boca do personagem, algo que fique forçado e afaste o espectador: “ eu quero ser escutado, a militância já está em mim. Falar de preconceito e racismo é incômodo, por isso é necessário achar uma porta de entrada. O que não podemos é silenciar, isto sim é uma violência”.

O encontro que durou cerca de duas horas foi pontuado pela urgência de novas vozes e novas escutas. Lázaro fez questão de não deixar que o objetivo de gerar novas produções artísticas se esvaísse no pessimismo, “eu acho que a arte é a maior arma que esse grupo tem, as histórias que vão ser contadas vão inspirar pessoas, despertar reflexões, o poder da arte e da palavra não podem ser subestimados. Vocês são promotores de conhecimento e de ações, sem precisar usar outras armas, que às vezes são necessárias em alguns momentos históricos”

Ao final muitos elogios à figura carismática do ator, mas sua réplica não o deixa perder de vista os companheiros de lutas: “eu tenho me policiado muito. As pessoas tem me colocado muito num lugar de referência, de quem merece receber elogios, e isso me alegra. Mas eu preciso estar atento para o fato de que esses elogios vem de uma compreensão de que somos um grupo e uma coletividade, e precisamos nos fortalecer como coletivo, porque nós conseguimos criar uma voz de reaproximação. Essa voz está acompanhada de vozes que propiciaram este momento.” E nessas vozes ecoam sem dúvida vozes e dores, como a da D. Diva que Lázaro conheceu na FLIP este ano, e que já ampliou nosso imaginário com sua fala bela e dolorosa, em que a parte exemplifica o todo, uma história pessoal escondida nas margens, a trajetória de uma super-heroína brasileira. Quem não viu pode visualizar no youtube a fala de D. Diva.