Benjamin Moser: 100 anos depois, Brasil precisa de Clarice Lispector mais do que nunca
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Benjamin Moser: 100 anos depois, Brasil precisa de Clarice Lispector mais do que nunca

Morris Kachani

21 de dezembro de 2020 | 10h31

“A Clarice é a pessoa que chega na festa e não conhece ninguém, é a pessoa que está meio perdida no mundo, com celular sem bateria, que está achando um caminho. Ela se definia como uma tímida ousada”

Crédito: Acervo Paulo Gurgel Valente

Assista à entrevista: https://youtu.be/Q51L5DsN2NM

“Não é uma escritora; é uma igreja, é uma seita. A gente ‘quer ser junto com ela”

Um judeu americano de 44 anos, que se diz casado com Clarice Lispector e com Susan Sontag, só poderia mesmo fazer parte do rol de convidados ilustres deste canal, sugestivamente chamado Inconsciente Coletivo. Jeito de dizer: Benjamin Moser na verdade é o autor da aclamada biografia da escritora brasileira, e da controversa biografia da ensaísta e ativista americana.

“Eu convivo com Clarice diariamente como se eu fosse casado com ela. Ela está na minha casa, no meu computador, no meu WhatsApp e no meu email, eu tô com ela todo dia, ela não é de certa forma uma pessoa estranha para mim; estou falando de uma pessoa como se fosse de minha família.

Em comparação com a Susan Sontag, é um espírito mais sossegado, mais de paz, ela não traz muitos problemas. A Susan traz. Uma é sossegada e a outra é muita caótica. Assim que eu me sinto com essas duas esposas”, comenta o ‘marido’.

“Fiquei muito triste em não poder estar no Brasil, particularmente no Recife, onde ela cresceu, para comemorar o centenário de Clarice”, conta Moser.

“Centenário é uma coisa muito importante porque justamente, a obra e a pessoa sobreviveram até 100 anos! A maioria não chega a tanto assim, todo mundo já está esquecido. Mas ela [Clarice Lispector] alcançou isso, e é um momento de preparar os alicerces do segundo século e estimular mais pessoas a conhecerem sua obra”

Percorrendo o fio do judaísmo, chegamos na barata, que protagoniza a obra clássica de Franz Kafka (“A Metamorfose”) e a igualmente clássica “A Paixão segundo G.H.” de Clarice Lispector. Como um díptico, um complementaria o outro, em uma interpretação mais ousada.

Este é o ano do centenário dela, Clarice Lispector. Prestamos uma homenagem a esta corajosa mulher que um dia encarou a esfinge do Egito e reportou: eu não a decifrei, mas ela também não me decifrou.

“A Clarice é incrivelmente judia. Eu acho que quem é de família judia reconhece ela como uma tia. Eu reconheci que ela era judia, pela minha família, através do humor dela. Ela tem uma visão bastante negra da história e do ser humano, uma coisa de quem sabe que a vida não é fácil, de quem sofreu muito, de quem foi discriminado. O avô dela foi assassinado por ser judeu, a mãe dela foi estuprada por ser judia, seu pai reduzido a uma pobreza horrível em outro continente do outro lado do mundo. O judaísmo é mais uma voz”

“O maior escritor judeu depois de Kafka, sem pensar muito no assunto, é ela. “A Paixão segundo G.H.” tem a mesma barata de Kafka [A Metamorfose], a mesma coisa horrível, o mesmo nojo do mundo, o mesmo choque e o mesmo desejo, mas ela não vai “entrar no castelo físico no sentido de Kafka, mas ela elege um castelo interior, e dentro dessa vida sem graça, de merda, ela acha uma esperança, uma salvação, que ela chama de O Deus, que é essa coisa divina, que perpassa o mundo, que nos estimula, que nos unifica a planta, ao cachorro e a barata. Essa força vital é muito real, feliz e leve nela”

“Eu acho que Clarice era feminista de uma geração que já tem 100 anos, então a palavra [feminista] não era a mesma para ela, mas sua contribuição para as mulheres foi muita. Não tem muitos países cujo grande autor é uma mulher; em geral são homens.

Foi a primeira pessoa no Brasil e no mundo – quase – a descrever a vida de uma dona de casa de classe média que fica em um prédio no Leblon. Isso não era literatura no Brasil e nem em outro país. Em geral, a vida da mulher não havia sido explorada da forma que a Clarice fez; velhas se masturbando, por exemplo”

“Acho que o Brasil hoje, do jeito que está, precisa dela mais do que nunca. Porque o Brasil perdeu a autoconfiança que tinha, de quando eu publiquei esse livro [a biografia Clarice, de 2009]. O Brasil estava no auge, bombando tudo e depois deu no que deu. Agora o Brasil perdeu a força emocional de acreditar no futuro, a ideia de que o país possa dar certo. Isso é muito ferido”

“São os artistas que estimulam a nossa vida, que nos fazem pensar, a sentir mais, e isso não depende do país de origem, isso é universal”

“A escrita dela é uma coisa interior, virada para dentro, mas que também tem um efeito exterior muito importante. A cabeça gera a beleza, não o físico”

“Ela não chegou a ser famosa em sua vida, era essencialmente um fenômeno de “Higienópolis até Ipanema”, uma coisa da classe cultural, do eixo Rio-São Paulo, com algumas exceções pelo Brasil, mas não era famosa do jeito que está agora”

“Em 1944, Clarice foi visitar a esfinge e falou: “eu não a decifrei, mas ela também não me decifrou”. Na época ela era menina, tinha 23 anos, e enfrentou esse monumento. Se você quer falar da inspiração que eu tenho nela, é justamente por essa coragem. Tudo no início da vida dela era contra, mas ela achou alguma força dentro de si que a segurou e a fez chegar nessa maestria e ser um dos grandes símbolos do Brasil moderno”

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