Cabala, dinheiro e arte

Cabala, dinheiro e arte

Morris Kachani

08 Agosto 2017 | 08h51

“É bem mais longa que um braço a distância que vai do coração ao bolso.”

(trecho do livro “A cabala do dinheiro”)

O acordo, que em última análise dá valor ao dinheiro, só pode existir enquanto houver nele crença e fé
Foto: FABIO MOTTA/AGENCIA ESTADO/AE

 

Por Tracy Segal

Há mais de uma década a TV Brasil transmitia o programa Sem Censura, e a pergunta que rodou a mesa de convidados foi: “qual a sua religião?”, ao que a atriz Clarice Niskier, que estava divulgando sua peça “Buda”, responde: “Budista Judia”. Um tempo depois um fax de uma telespectadora de nome D. Lea foi lido ao vivo pela apresentadora Leda Nagle, dando uma bronca na atriz: “ou você é budista, ou é judia, você tem que escolher”.

Assim me contou o rabino Nilton Bonder, que também estava na mesa divulgando seu livro “A Alma Imoral”, e que veio em defesa de Clarice contra uma D. Lea provavelmente alarmada à frente da TV. Clarice se encantou com a atitude do rabino que explicou a D. Lea que o budismo faria dela uma melhor judia: “era um programa nacional e eu brinquei: você se queimou com a D. Lea.”

Isso despertou interesse em Clarice para ler o livro de Bonder sobre a transgressão da alma. Ali começava um encontro artístico e espiritual. Clarice nem imaginava, mas sua vida sofreria uma reviravolta com a montagem do monólogo “A Alma Imoral”. A peça é um sucesso há onze anos, e, hoje, ela diz que se divide em AAI (antes da alma imoral) e DAI (depois da alma imoral) numa analogia ao calendário cristão.

“O que eu achei novo, foi um homem da religião expondo a transgressão como algo sagrado. Isso eu achei revolucionário. Meus diretores de teatro, filósofos,  falarem sobre a transgressão era algo que se podia esperar, mas um rabino falar que tanto a obediência quanto a desobediência habitam o terreno do sagrado, que a transgressão está no campo do divino, era surpreendente”, me contou Clarice Niskier.

Conversei com ambos. O rabino encontrei no Centro Cultural Midrash, no Leblon, Rio de Janeiro, e Clarice num café no bairro do Humaitá na mesma cidade. A ideia de cruzar estas cabeças veio por conta da dobradinha se repetir na montagem da peça “A Cabala do Dinheiro”, uma livre adaptação do livro homônimo escrito pelo rabino, em que Clarice, diferente da “Alma Imoral”, dirige ao invés de atuar.

A peça está em cartaz no Teatro Eva Herz às terças e quartas, e divide o espaço com a “A Alma Imoral” aos sábados e domingos no mesmo teatro (sempre lotadas as sessões).

Clarice Niskier me diz que o teatro é seu templo, mas o encontro com Nilton Bonder a fez rever os laços com a religião: “antes eu era uma budista judia, hoje sou uma judia budista”. Ao ser perguntada sobre Deus responde: “Eu sou do time que acredita em Deus. É um time, uma paixão. Não sei explicar. Como diz Clarice Lispector, “Não se pode dar uma prova de existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.” Mas eu sempre tive uma tendência a acreditar”, reflete a outra Clarice, a Niskier.

A conversa com o rabino Nilton Bonder trilhou pela “A cabala do dinheiro”,  e a necessidade de desmontar os conceitos de mercado e dinheiro que estão na base da sociedade ocidental – para ele o dinheiro é só um instrumento, e prosperidade não é a ideia publicitária de riqueza com excesso de luxo, mas a vida na Dinamarca, onde o cidadão paga altos impostos e tem a dignidade garantida.

“O  dinheiro foi um instrumento da civilização humana, como a internet é hoje, um instrumento para trocas. O grande sonho – a gente pode até dizer que é errado – era sair da natureza e ir para o mercado, porque o mercado era um mecanismo aparentemente mais sofisticado de troca. A gente diz que o dinheiro é vil, mas na natureza as coisas só se matam, a selva é violentíssima”, me conta Bonder.

“A Cabala do Dinheiro” foi escrito por Nilton Bonder na década de 90, e é um best seller como alguns de seus 21 livros publicados. No livro ele recorre ao pensamento milenar  judaico para expor a relação entre o processo civilizatório e o nascimento do mercado, o quanto estão imbricados a espiritualidade e a prosperidade. Um exemplo é a narrativa da trajetória do dinheiro desde o escambo – uma galinha por um saco de farinha -, passando pelas moedas de metal precioso até chegar ao papel moeda, um pedaço de papel impresso no qual se projeta valor num acordo de confiança, uma moeda que os rabinos chamam de zuzim, cuja tradução significa circulante:  “O acordo, que em última análise dá valor ao dinheiro, só pode existir enquanto houver nele crença e fé.  (…) Não é por acaso que encontramos em várias moedas da família dos zuzim (sem valor em si), como no dólar, a estranha inscrição In God We Trust (em D’us confiamos), uma versão da palavra AMEN (um acróstico em hebraico da frase El Melech Neeman – o Soberano que é confiável), que dá fé a um pedaço de papel pintado.”

Abaixo a entrevista com o rabino Nilton Bonder:

O que te motivou a escrever “A cabala do dinheiro”?

Quando escrevi o livro eu fiquei preocupado, achei que as pessoas poderiam fazer uma conexão equivocada do tipo: o rabino escreveu um livro sobre dinheiro.

Você pode demonizar o dinheiro, os judeus foram demonizados muitas vezes. É que os judeus são uma tribo esquisita, mas na verdade os judeus sempre foram uma tribo de ponta, os judeus são capitalistas e comunistas, eles ajudaram a inventar o comunismo e o capitalismo. Viveram muitas vezes num lugar muito desafiador de sustento, eram minorias, foram perseguidos, por isso são um bicho sobrevivente, e o bicho sobrevivente tá muito atento aonde está o sustento. Numa época em que a igreja proibia os judeus a terem uma terra, e toda economia era agrícola, os judeus começaram a ser tornar seres urbanos, e entraram no comércio. Ninguém queria ficar no comércio, era porcaria, só ferrado fazia isso.

A história interna judaica tem uma relação com o dinheiro, que não tem nada a ver com o estereótipo. Nos textos antigos, o Mishná, os rabinos tinham muita preocupação para que o dinheiro não fosse usado de maneira equivocada, e que não fosse uma forma de exploração do outro. Havia uma relação ética com o dinheiro, a tradição cristã herda essa ideia da proibição dos juros, da usura, isso é uma discussão que vem da tradição judaica como uma discussão da religião, eles codificaram isso com conceitos super interessantes.

O que me motivou muito a escrever o livro é que eles [os rabinos] têm muita clareza de que a prosperidade não é problema. Ao contrário, a prosperidade é a busca do ser humano por aperfeiçoamento. Dinheiro não quer dizer nada se não tiver sustentabilidade.

Eu venho do pensamento judaico, uma sapiência judaica dessa tentativa de gerir a existência. A palavra espiritual não cai nesse lugar da religião, a espiritualidade é um olhar pra a vida. Eles [os rabinos] leram o livro da vida, a tradição judaica leu a vida inteira.

O acúmulo do dinheiro não gera a desigualdade?

Favorece. Mas o que eu acho mais grave é que as pessoas acham que o acúmulo é riqueza.  O que é sustento? Tem a ver com a palavra sustentabilidade. Tanto é que os nossos corruptores que juntaram dinheiro para seus netos e bisnetos, vivem hoje com medo, pois vivem em um lugar sem educação. Não tem sustento, o que se tem é um gelo que derrete. Tem uma falsa solidez. Vítimas de uma riqueza falsa.

O que é a prosperidade?

A prosperidade é a transformação da selva em mercado de tal maneira que eu sou rico no lugar mais seguro pra ser rico. Se sou rico só no meu bolso eu posso ser roubado ou investir na coisa errada, e se eu me ferrar ferrou, acabou.

Quem é rico hoje?

Os países nórdicos como Holanda e Dinamarca.  Eles pagam impostos altíssimos, e estão ricos, mas não no dinheiro do bolso. A prosperidade é uma sociedade que  ao invés do cidadão colocar o dinheiro no banco no próprio nome, cria áreas coletivas onde a prosperidade saiu da casa dele, foi para o quarteirão, para o bairro, para a cidade, para o país. É onde eu contribuo para uma sociedade, que é tão organizada, que nenhum dinamarquês é falido.

Mas isso ainda é muito distante da gente?

O mundo avançou muito – claro que tem gente morrendo e uma desigualdade estúpida–, mas ao mesmo tempo nunca foi tão pouco desigual na história da humanidade. O mundo nunca teve tão poucos conflitos e tanta possibilidade de alimentar. Lembrando ainda que a gente aumentou em número a população, e hoje se vive mais. A finitude da vida é o que faz as pessoas quererem acumular, estimula o individualismo ao invés da coletividade. Mas o sonho inicial era outro.

Você já curtia teatro antes do encontro com Clarice?

Hoje tenho uma relação muito forte com o teatro, no Midrash a gente privilegia muito o teatro. O teatro é um lugar muito interessante que consegue manter a profundidade de um livro e o dramático, o teatro é o contato com o humano. Os ritos religiosos são uma dramaturgia. Todo rito religioso comove as pessoas, é uma dramatização do sagrado e do mundano.

Como é a sua parceira com a Clarice na Alma Imoral?

Ela se aproximou de minha literatura com muita verdade, apesar dela ser judia esse era um espaço que ela não parecia ter interesse. E construiu uma coisa bem sucedida,  a resposta maior é o impacto. As pessoas se referem [A Alma Imoral] como algo que apoiou elas em certas decisões – que é na contracultura da religião, como rabino –, como pessoas que me agradeceram por terem se separado. No nosso mundo se separar bem separado, tem a mesma sacralidade que se casar bem casado.

O que achou da montagem da peça “A cabala do dinheiro”?

Acho extremamente propício falar deste assunto. De como o dinheiro é só um instrumento. Eu falei pra Clarice que enquanto a “Alma imoral” propõe o rompimento, em que a traição pode ter um valor positivo a todos, como inovação e evolução, aqui temos um processo de desmonte do dinheiro como o vilão da história e o aparecimento desta coisa fundamental da confiança que constrói civilização e mercado.

O que estamos vivendo hoje no Brasil?

O Brasil hoje tá com cara de selva. A selva é o horror. Se você quebrar o pé e não conseguir se mexer vão vir te assaltar, mas sempre foi barbárie na natureza. A organização vem da tentativa de promover prosperidade, onde a riqueza era o sonho. Percebemos que a capacidade de intercâmbio, de troca, era fundamental para que a espécie humana se fortalecesse diante dos desafios, das outras espécies e da sobrevivência. Antes se vivia pela troca, agora é a troca pelo dinheiro. Você deveria ver no dinheiro confiança.

O que é o mercado?

A palavra mercado foi sequestrada para representar o bem estar da moeda, eu não trato o mercado isolado do dinheiro, o mercado não é isso. O neoliberalismo força o mercado a parecer que é o mercado do dinheiro, quando o mercado é o do sustento, do bem estar social. Se você tomar medidas para salvaguardar o valor do dinheiro sem se preocupar com o bem estar social, esse dinheiro vai valer menos, não vai trazer prosperidade.

Essas ideologias são visões de mundo diferentes. Essas sociedades que progridem não são partidárias. Claro que existem pessoas sem senso social, que não tiveram educação de valores, e a gente tem uma quantidade enorme de bandidos rondando nosso sistema. A sociedade precisa se sentir irmanada e não partidarizada.

A gente na percepção de escassez, o  que faz? Você fica mais bicho.  Todo ser humano, toda espécie viva vai fazer isso. Os ratinhos na escassez se comem uns aos outros.  Civilização é gerar abundância e prosperidade, é ela que traz a paz. Se errar na mão e achar que é conforto e luxo, e fizer o que as elites fizeram, acabam com as cabeças cortadas. A civilidade está atrelada a educação, educar é entender o que é prioritário. Uma pessoa civilizada é a que consegue manter o animal dentro dela. É necessário uma educação cívica, coletiva, mas que a gente ainda tá muito longe dela.

Por que o título “A Cabala do Dinheiro”?

Cabalar quer dizer receber, eu recebi dos meus mestres, da minha tradição. É um ensinamento nível PhD, faixa preta. A Cabala pra mim significa olhar todas as coisas em todas as dimensões. As camadas são: literais, metafóricas, alusivas  e secretas. O desmanche da realidade em quatro dimensões*. Ninguém e nada existe separado. Eu quis usar esta palavra pra fazer uma ressonância magnética do dinheiro e revelar as várias camadas. Pra mim é uma ressonância magnética do dinheiro.

 

Mundo literal (Assiá)- esfera material, é onde utilizamos a lógica, onde se dá a preocupação com o ganho minimizando os custos, economizando também a relação com o tempo.

Mundo metafórico (Ietsirá) – esfera emocional, o mundo interno onde ocorre o cruzamento entre as oportunidades e nossa estrutura emocional.

Mundo Alusivo (Briá) – esfera do mérito, tanto pessoal quanto da herança de vida dos nosso antepassados. Nessa esfera que o sustento se dá e o mercado surge. O mercado é a evolução por meio das gerações que aperfeiçoaram o processo de troca.

Mundo secreto (Atsilut) – esfera espiritual. O fazer destituído de qualquer expectativa de ganho. A conexão com o divino como sendo uma manifestação de Suas próprias emanações.