Christian Dunker: as semelhanças entre Saudades e Realengo, e as diferenças com Suzano e Columbine
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Christian Dunker: as semelhanças entre Saudades e Realengo, e as diferenças com Suzano e Columbine

Morris Kachani

07 de maio de 2021 | 17h02

“A gente é ensinado que a vida vem com coisas que não têm sentido. O sujeito entra em uma pré-escola em uma cidade de 5 mil habitantes, esfaqueia crianças de 1 ano, assassina professoras que estão consagrando a sua vida a cuidar de bebês e você diz: “qual o sentido maior de tudo isso?”, não tem. Tem que viver com o niilismo filtrado, o niilismo reduzido a esse grão de não sentir”

Assista à entrevista: https://youtu.be/WyMNXFTbmgE

“O fenômeno de Columbine, que é um fenômeno que se repete com uma frequência grande nas escolas ou em prédios públicos americanos, em que você tem 1 ou 2 atiradores que entram e disparam de forma aleatória assassinando pessoas, ele realmente não é equivalente disso que a gente teve em Saudades e até onde eu posso entender esse é um evento relativamente raro no Brasil. E a pergunta é, por que será que ele é tão raro?”

“Essa tragédia retoma a tragédia de Realengo [no Rio de Janeiro] que aconteceu quase 15 anos atrás. Você tem ali provavelmente uma pessoa que tem uma dificuldade maior, uma dificuldade clínica, delirante, sujeita a uma condição de adversidade muito ruim que é a ausência de tratamento, recolhimento e ensimesmamento. Então começa a haver uma circularização das ideias de vingança que vão ganhando mais e mais força, que vão se ocupando de personagens do passado que não são mais as pessoas que estão lá. É um evento que você tem um grande equívoco em ação. Essa pessoa [o assassino] estava querendo falar com outras pessoas e infelizmente tinha lá uma professora, uma criança que estavam “meio no caminho” e, bom, acabaram pagando com a vida por isso”

Na segunda rodada de nossa conversa com o psicanalista Christian Dunker, professor em psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP, explicando o inexplicável: um olhar sobre a tragédia em Saudades, que deixou 3 bebês e 2 educadoras mortas a facada.

“Se você quer realmente enfrentar isso [essas chacinas] vamos falar de saúde mental. Vamos falar de saúde mental em rede, vamos falar de investimento em saúde mental para que aquela pessoa que sai fora da escola, que não está falando com os outros, que está sozinha em casa, possa ser abordada por uma prática de escuta. Nesses casos a gente sabe que se esse sujeito tivesse alguém para conversar ele não faria o que ele fez. Ele teve que ficar anos sem que ninguém pusesse uma palha. Imagina a convicção delirante que a pessoa precisa ter para fazer isso. Ela precisa estar em um nível de certeza que você só pode comparar com a de um suicídio, em casos realmente graves”

“Mesmo a tragédia de Suzano [no Estado de São Paulo], a gente tinha um coletivo, um coletivo, a ideia de que “eu e você estamos juntos nessa fantasia, nós vamos brincar e aí vocês vão ver”. Tinha uma estrutura lúdica na perda da realidade. Em Saudades é diferente, estamos falando de um ressentimento, de uma raiva vingativa com algo que se passou naquele lugar anos atrás, como o caso de Realengo que eu tive a oportunidade de estudar; uma briga de escola 40 anos atrás que deu naquilo”

“O bullying acaba sendo um trauma sob o qual a gente opera, um trauma acumulativo que você vai colocando outras coisas em cima e que no final fica uma “Torre de Pisa”. Mas não é suficiente o bullying para fazer algo assim. O fio decisivo é como a pessoa lida com uma contrariedade, uma decepção, uma situação em que ela se sente exposta ao ridículo, com todo mundo rindo e você sendo o pobre coitado. No fim, essa condição de vítima desajeitada é a condição adolescente”

“No fim, essa condição de vítima desajeitada é a condição adolescente”

“É uma especulação, mas muitos crimes contra crianças muito pequenas estão ligados a maus tratos, desamores, abandonos. Sentimentos do tipo, todo mundo teve um pai, uma mãe legal, amorosa, todo mundo era amado para caramba e eu não. E aí esses bebês se tornam símbolo desse amor recebido e eu não”.

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