Christian Dunker: como cultivar a sobrevivência psíquica em tempos de crise
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Christian Dunker: como cultivar a sobrevivência psíquica em tempos de crise

Morris Kachani

10 de maio de 2021 | 16h26

“Claro que há uma melancolização que é mais genérica e que é produzida, por uma certa forma, de poder. É uma melancolização cuja enunciação é assim, “você não pode nada, os políticos são todos iguais, os seres humanos são assim mesmo”, então você aceita a condição de adversidade, de pequenez. É uma melancolia que serve para as coisas continuarem como estão”.

“O niilismo é quase que uma tentativa de dizer assim: já que não temos perspectiva, já que não temos futuro, o passado também não pode ser lembrado. Vamos glorificar a ideia de que há um vazio atual, que há uma ausência de propósito e com isso a gente trata as nossas decepções. O niilismo é no fundo uma maneira de você olhar para as coisas, reduzindo um poder ilusivo que a gente coloca nelas e reduzindo o efeito colateral de ressentimento pela decepção. Se nada te foi prometido, o que você recebe é lucro”.

Assista à entrevista: https://youtu.be/ML0c3P5jWAg

Estamos passando por uma fase de melancolia, mas a depressividade em si pode ser saudável. Aliás, é preciso separar as coisas. Existe uma certa depressividade do ponto de vista clínico e uma outra, que é própria do luto, que impõe a introspecção e pode fazê-lo enxergar melhor o que tem diante de si.

Este é o terceiro episódio da entrevista com o psicanalista Christian Dunker, professor titular de psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP.

“Em uma situação de perda, de perda de horizontes, de perda de planejamentos, em uma situação de redução de liberdade – estamos privados, dentro de casa -, em uma situação de redução da diversidade, de estímulos, a libido das pessoas se deflaciona a olhos vistos. O que seria esperado do ponto de vista psíquico? Uma certa depressividade não do ponto de vista clínico – aquela que põe o sujeito para baixo em uma auto-avaliação crítica e permanente. Mas é a depressividade própria do luto, do “puxa, vou me recolher, vou para minha introspecção, vou retificar a minha experiência psíquica porque isso é necessário para eu enxergar melhor o que eu tenho diante de mim e fazer essa travessia”

“Acho que em uma situação como a que a gente vem passando, a formação de uma certa calosidade para/com o mundo, para/com o outro e um retorno para a auto-afeição, ela é uma boa saída, ela é uma saída interessante, ela é uma saída compatível com a sobrevivência psíquica. Isso está dado em todas as narrativas, em todos os perfis que a gente espera de alguém que leva um tombo da vida”

“É que como tem tanta depressão usada no sentido clínico de fracasso, isolamento, solidão, coisa que você deve evitar, perigosa, vai terminar em suicídio, a gente não consegue mais ver o que o psicanalista francês Pierre Fédida chamava de “o bom uso da depressão”. A depressividade em si é saudável”

“Nós precisamos de humor, está aí o Paulo Gustavo, para fazer alegoria dessa grande travessia. Nessa condição o humor pode fazer toda a diferença entre você levar a sério a sua depressão e você fazer um bom uso dela”

“A guerra não é a pandemia. Isso aqui não é a Segunda Guerra Mundial. Ainda que eu queira que o Tribunal de Nuremberg chegue rápido para essas pessoas, nós não estamos no Terceiro Reich, as condições são outras. Esse é um fascismo à brasileira, não tem bigodudo, tem alguém muito menos, vamos dizer assim, “hábil” no comando. Mas essa ideia de que você está vivendo um processo que outros viveram e que outros viverão depois de você, te inscreve em um arco histórico mais longo. Muito importante você não achar que isto é só você e sua família, esta semana, este mês, quatro semanas, que não aguenta mais”.

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