Christian Dunker: como curar um negacionista
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Christian Dunker: como curar um negacionista

Morris Kachani

23 de novembro de 2020 | 09h45

“O enlutamento coletivo não foi. Não houve nenhum esforço do poder público, pelo menos no Brasil, para incentivar e para reconhecer as mortes. E já foram 165 mil. Isso vai terminar mal, não tem como. Como psicanalista, você vê encrenca lá na frente”.

Assista à entrevista: https://youtu.be/2KgjJ8rRi84

“A classe média tem um narcisismo todo próprio. Foi formada em ambientes protetivos como condomínios, escolas fechadas, clubes, shopping centers. É muito difícil cultivar para uma subcultura desse tipo, a ideia de que tem que se preocupar com todo mundo. Não é você e seu grupo. Estas pessoas estão acostumadas a viver em estado de exceção em relação à lei. A lei é pra quase todo mundo. Mas pra gente, tem uma convenção local, e ela diz mais ou menos que tudo bem frequentar festa, clube, cinema”.

“A reabertura das escolas foi um fator politizado de maneira bizarra. Covas não deixa abrir, mas não porque ele é contra. É por saber que vai ter que pôr agua, comprar álcool em gel, testar todo mundo, providenciar vans para os professores. A maior parte das escolas em São Paulo são precárias”.

“As praias e os bares têm na prática muito menos controle e disciplina do que uma escola, onde a pessoa vai aprender a se proteger e ensinar a família sobre o risco. Na Alemanha e na França as escolas continuam abertas porque se entende seu papel profilático. Aqui, virou golpe. Saúde é sempre assim, é cara. Melhor dizer que é perigoso”.

“Nosso exército (de profissionais da saúde) está zoado. Em primeiro lugar, porque morreram mesmo muitos enfermeiros e médicos. Em segundo lugar, muita gente pediu pra sair. Porque trabalhava com pouca proteção e jornadas longas. As equipes foram se deteriorando porque a vida no covidário é um negócio bizarro”.

Desta vez, Inconsciente Coletivo recebeu o psicanalista Christian Dunker, para uma conversa sobre a Segunda Onda. Qual seria seu impacto sobre a psique das pessoas, a esta altura do campeonato?

E então enveredamos pelos “ingredientes” do bolo: negacionismo, exaustão, narcisismo dos abastados, desgaste das equipes de saúde e omissão das autoridades públicas – de Bolsonaro a Covas. É, como se diz, a tempestade perfeita, dentro de um contexto psíquico.

Mas há aspectos positivos; o papel da psicanálise ganha reconhecimento por parte da comunidade científica, que historicamente a relevou a uma segunda categoria. E não são poucos os que ganharam 3 ou 4 horas por dia de vida, ao invés de ônibus.

A maior parte porém, segundo o psicanalista, “está preparando o bote, saindo da caverna à procura de um culpado”.

“O negacionismo do presidente tem um aspecto positivo, pelo menos. Durante anos a psicanálise foi execrada como um saber de segunda categoria, uma pseudociência. Jogamos na segunda divisão da ciência mundial. Mas saiu um artigo na The Lancet semana passada, reconhecendo a importância da psicanálise como sendo a primeira linha de conhecimento a ter descrito os processos negacionistas, e a atividade que mais ajudaria a tratar o negacionismo, no contexto da pandemia”.

“Toda teoria psicanalítica da psicopatologia está apoiada em processos de negação. É uma patologia. Os tais mecanismos de defesa que negam a angústia, o conflito, a diferença. São negações diferentes do que não usar máscara? No fundo it’s all about that. A negação é uma tentação”.

“A segunda onda é motivada por uma consciência dos lugares diferenciais que as pessoas ocupam com relação ao covid. A consciência de que o risco não é o mesmo para todo mundo. Tem gente que acha que se pegar, melhor ainda, porque hoje a letalidade é menor, porque conta com recursos para pagar o
tratamento, porque sua idade não é letal. Esquecem que no fundo podem afetar outras pessoas, que vai aumentar a carga viral no ambiente”.

“Trato tanto médicos, psicólogos e psicanalistas, quanto internados. Todos me dizem uma coisa muito bonita. De que no fundo estão fazendo algo para o qual não foram treinados pra fazer, com uma delicadeza subjetiva que tem o poder de transformar a pessoa.
Por exemplo, um senhor entubado que não consegue falar com a família lá fora. Ele quer falar coisas decisivas, sobre herança, amor e ódio. Ele conta isso pro psicólogo, e o psicólogo vai e divide com a família, que chora e ri, reformula e pensa, e manda a mensagem de volta. Esse leva e traz nos expõe a uma intimidade nua e crua. São os heróis da psicologia”.

“A coisa mais complicada é tirar a roupa. Você está super cansado, moído, com vontade de sair. Mas tem um procedimento que não é simples. Primeiro a luva, depois vira etc. E se errar, pegou. Demora um tempo e o risco é altíssimo. Muitos pegaram assim, por conta do cansaço”.

“A segunda onda não é absolutamente elástica. Tem o fator tempo. Acho um erro de discurso de política pública, não dizer que tem uma vacina chegando e pedindo para as pessoas segurarem um pouco. O que nossas autoridades simbólicas estão fazendo? Estão jogando futebol. E isso e péssimo, incentiva a divisão subjetiva”.

“A pulsão de morte se torna mais destrutiva quando se separa e independiza da pulsão de vida. A melhor situação é quando se tem o entremear entre morte e vida nas relações. É preciso admitir o conflito, admitir que somos feitos de uma mescla de poderes de união e desunião. Quando entorta? Quando por idealização a pessoa só busca a pulsão de vida e evacua a de morte. E daí a pulsão de morte se vinga, de forma devastadora. A famosa positividade tóxica da internet, por exemplo. Vai nessa, que a pulsão de morte vai bater à sua porta daqui a pouquinho”.

“As pessoas estão exaustas sim. Por trabalhos psíquicos diferentes. Por luto, por trauma, ou por outro nível de angústia além do razoável. Há também os que estão interpelados por quantidade de trabalho… porque do outro lado veio o desemprego. Muita gente virando fim de semana no afã do
hipertrabalho. Vai zoando. A noite e o dia parecem estar no mesmo ciclo, a pessoa não consegue mais sonhar direito. Tudo zoado”.

“Tem muita gente que ganhou por exemplo 3 ou 4 horas de vida ao invés de ônibus. A pessoa pode ler, ouvir música, ficar com os parentes que nem sabia quem eram. Tem muita gente que se reaproximou do parceiro ou da parceira, descobriu que tinha filho… muitas coisas bacanas; deprimidos e fóbicos sociais deram uma baixada por que não precisam mais se forçar em encontrar outras pessoas todo dia. Agora curtem a distante fala na telinha e controlam, se quiserem fecham seu microfone. Percentualmente as pessoas que estão se dando bem na pandemia são uma parcela minoritária, mas existem e não são poucas. Agora, a maior parte está preparando o bote, saindo da caverna à procura de um culpado”.

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