Christian Dunker: milícias da alma e hipermedicalização à espreita
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Christian Dunker: milícias da alma e hipermedicalização à espreita

Morris Kachani

27 de janeiro de 2021 | 10h10

“As sequelas psíquicas da pandemia são e serão realmente dramáticas como a gente nunca viu. Tem gente que argumenta que nós vamos enfrentar o maior desafio da espécie humana em termos de saúde mental”

Assista à entrevista: https://youtu.be/Au0yjJhJcb0

O Brasil é campeão latino-americano em ansiedade, e segundo lugar em depressão, especialmente nas grandes metrópoles.

A pandemia acelerou, intensificou modalidades de sofrimento. Os dados são incertos, mas aparentemente aumentou a produção de sintomas e piorou a condição clínica daqueles que já estavam vulneráveis.

É dentro desse contexto que a reforma psiquiátrica brasileira, que representa um avanço na política pública de saúde mental, pede socorro. Um projeto de desmonte que está em curso, conhecido como ‘revogaço’, por propor justamente a revogação das medidas provisórias que blindam a reforma psiquiátrica, aguarda a assinatura do presidente Bolsonaro.

Ninguém imaginou que existiria um governo que fosse acabar com as políticas de saúde mental.

Quais as implicações? Grosso modo, a volta ao protagonismo dos hospitais psiquiátricos e da
medicalização excessiva, em detrimento das ações comunitárias de acolhimento e assistência social, alinhadas com uma prática comum nos países desenvolvidos.

Christian Dunker, psicanalista, é professor titular do Instituto de Psicologia da USP, youtuber e autor de diversas obras, como “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica” – vencedor do Prêmio Jabuti na categoria de melhor livro em Psicologia e Psicanálise de 2012 -, e “O Palhaço e o psicanalista”, com Cláudio Thebas.

“O ‘revogaço’ nos leva de volta ao moralismo em saúde mental, porque assim poderá reduzir o número de pacientes, renomeando-os como “pobres” ou como “bandidos”.

É no fundo um ataque contra quarenta anos de pessoas pensando, brigando, se dedicando a um assunto; mal ou bem foi o que a gente conseguiu criar”

“Philippe Pinel argumentava que o doente mental era antes de tudo, um cidadão; sendo um cidadão ele era um sujeito; e sendo sujeito ele era sujeito da razão e que a razão podia ser recuperada. É aí que começa a conversa.

O que a gente está enfrentando é um retorno anterior ao Pinel, em que a loucura era uma experiência moral, e isso em grande medida pela ofensiva de um novo tipo de cristianismo, o cristianismo neopentecostal, que tem uma estrutura muito compatível com uma empresa e que tem interesse em organizar e captar almas para o seu projeto, estabelecendo no fundo que transtorno mental é um
problema relativo a crenças, a fé, a que tipo de adesão de pensamento você tem.

As religiosidades têm um papel importante na nossa vida psíquica. Mas voltar a caracterizar o doente mental e lhe dizer que o que precisa é ter mais Cristo na sua vida, isso é milícia da alma. Isso é o que a gente está enfrentando com a regressão das pautas morais com o governo e especificamente no combate à implantação da reforma psiquiátrica brasileira”

“A crise é anterior. Ela está marcada por um reconhecimento progressivo de uma abordagem hegemônica, nos últimos 40 anos, de excesso de diagnóstico. Então a gente pega as edições do manual da DSM, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, e em menos de 30 anos surgiram mais de 100 “novas doenças”.

Nesses últimos 40 anos houve a criação de um grande consenso, uma espécie de “pax romana”. “Vamos criar entidades clínicas que sejam meramente descritivas, então não vamos levar em conta a etiologia, as hipóteses causais, a psicodinâmica, aquilo que causa as doenças mentais, mas vamos nos focar em descrições”. Com isso os grandes quadros foram se segmentando e o número de diagnósticos foi aumentando.

A gente viu que os medicamentos são muito eficazes para transtornos de humor, antidepressivos, e isso deu a ideia de que realmente poderíamos sanear as pessoas que sofriam com isso, com essas medicações. A gente vê que esse medicamentos diminuem o sofrimento, mas não atacam as causas. Assim, temos pessoas que cronicamente consomem antidepressivos sem que isso de fato se integre em um plano clínico. A maior parte das prescrições psiquiátricas são feitas por não-psiquiatras. Temos um quadro de desagregação das estratégias de tratamento e enfretamento público e a rarefação de
investimentos concentrados.

Anos atrás um psiquiatra do HC fez uma pesquisa para descobrir os “normais”, ou seja, aqueles que não estavam nas categorias do DSM, e ele chegou a um número que vai de 7 a 10% da população (risos)”

“No momento em que a reforma psiquiátrica começou a se capilarizar, viu-se que era caro, e reduziu-se o investimento. Hoje você tem os CAPS, os postos de atendimento em hospitais privados e públicos, muitos investimentos, que é caro. Então desistir e revogar as mais de 100 portarias, é barato. Isso está em cima da mesa do Bolsonaro. E vão entregar a gestão disso para hospitais que vão vender ficha, que vão agir por produtividade. Esse era o estado de coisas que vigoravam antes da reforma psiquiátrica, quando a saúde mental era um grande negócio”

“Um marco [da saúde mental] foi 2001, com a Lei Paulo Delgado, que instituiu uma substituição ao antigo sistema asilar; Barbacena – 60 mil mortos, Juquery – 30 mil internos, Juliano Moreira – 20 mil internos. Isso fazia parte de um modelo. A gente teve esse período em que a loucura era o oposto da condição de sujeito, é o anti-Descartes. O “penso, logo existo” só serve para quem não é louco ou
para quem está dormindo e sonhando”.

“Claro, existem quadros específicos em que o eletrochoque se mostrou funcional. Só que a hora que você libera, você libera também o uso punitivo. Por exemplo, em Barbacena, a cidade ficava sem luz quando eles distribuíam os eletrochoques, no fim do dia, para amansar as pessoas. Camisa de força, as duchas de água fria. Tudo isso tinha que ser substituído por outra coisa que é a integração da pessoa que tem o transtorno mental com a família, retorno e vinculação ao trabalho, rede psicossocial de atenção, ou seja, todo mundo que está em volta da pessoa, desde família a professor, médicos, amigos, às vezes até o cachorro que vive na rua com a pessoa, às vezes aquela comunidade flutuante à qual ela pertence.

Esse é o tratamento moderno de saúde mental, que é olhar para o território e dizer: “quais são os recursos que nós temos aqui, para conseguir manter o cuidado, escuta, prevenção?”. Isso implicou sair desse movimento hospitalocêntrico e ir para uma capilarização da saúde mental. O paciente pode passar o dia lá, mas ele não dorme lá”

“Tem uma pesquisa famosa que diz que se você é pobre, você tem 40% a mais de chance de ser diagnosticado como esquizofrênico do que se você é rico. Vão vir outros diagnósticos, outros destinos, outras carreiras psiquiátricas.

Você tem uma sobreposição de elementos. Por exemplo, se você tem violência sistêmica agindo sobre uma pessoa, isso tende a piorar todos os sintomas que ela tem. Ou se você tem falta de amparo e rede protetiva, você vive seu sofrimento mental de forma individualizada, ligada a culpa, vergonha, acha que não pode falar disso, acha que isso é um problema moral, acha que isso é falta de educação que
sua família não deu”

“A Associação Brasileira de Psiquiatria notoriamente é conservadora. Mas quando se anunciou o “revogaço”, surgiu o “Manifesto dos Mil” – mil psiquiatras dizendo, “olha, não concordamos com isso, isso é equivocado, isso não faz sentido com as estratégias mais avançadas para saúde mental’.

A gente tem setores conservadores ligados a interesses no negócio da saúde mental. O negócio está migrando para outras áreas mais lucrativas. A gente tem as religiões organizadas, a gente tem as organizações sociais – algumas são ótimas, estão ligadas a pesquisa –, mas várias são meramente empresas. E a gente tem uma batalha com os planos de saúde há pelo menos vinte anos, porque os planos de saúde desenvolveram e agiram na psicologia dizendo: “olha, os tratamentos longos não são
bons; psicodinâmica, Jung, Freud, isso não funciona. Temos agora a psicoterapia breve, em que a gente cura muito mais, mais rápido, são 15 sessões no máximo. Então a gente vai cobrir isso e não vai cobrir aquilo”. Hoje as pesquisas mostram que a terapia breve funciona só brevemente”

“É raro a gente encontrar alguém que não esteja se dopando para aumentar a performance ou para aguentar a pressão. Trabalhando hoje em uma grande empresa foi se criando um super dimensionamento de demanda de desempenho que a pessoa só consegue executar com suplementos, vitamínicos e anímicos”

“A gente tem cálculos da Organização Mundial de Saúde (OMS) de quantos dólares você recebe de volta quando você investe um dólar em saúde mental, considerando que a depressão é a segunda maior causa de afastamento, considerando custos laborais e de sustentação de instituições de apoio. Então há uma previsão de quanto você deveria investir para obter esse retorno.

O Brasil há dez anos estabilizou os investimentos e agora caiu, ele deixou de cumprir o que seria o esperado para a gente implantar um sistema de saúde mental com as pretensões que são do SUS; integral, gratuito e universal. Poucos países do mundo se propuseram um desafio desse tamanho, nenhum com a dimensão geográfica do Brasil.

Então foi uma aposta alta que no meio do caminho parou, porque nós precisávamos do desenvolvimento do país para continuar”

“O psiquiatra conservador historicamente está associado com a ideia de que transtornos mentais são doenças neurológicas. No fundo é curioso, é como se eles advogassem a própria dissolução da categoria. O psiquiatra no fundo trata de doenças de uma parte do corpo, do cérebro e do sistema nervoso. Um psiquiatra mais conservador vai entender que todo o resto são epifenômenos, então as relações, os afetos e as palavras são subjetivos. Está ligado muitas vezes a sistemas conservadores de reprodução e produção de poder, hospitais muito disciplinares e verticalizados”

“As crianças “pagaram o pato”. Eu lembro de um ano, não sei se foi 2014 ou 2015, em que o consumo de metilfenidato no Brasil aumentou 800%. O metilfenidato é um estimulante, parentado com a cocaína, e que começou a ser administrado em massa para problemas de aprendizagem. Hoje a gente tem um perfil muito ruim, daquela criança que é precocemente medicada. Com cinco anos começa no metilfenidato, com doze e treze vai para a depressão e daí tem o antidepressivo, depois vai para a
faculdade e tem uma descompensação de humor e você coloca um regulador de humor e quando está na faculdade aumenta a depressão. Daí você pergunta, você diz “o que aconteceu?””

“Colocam a loucura, por exemplo, como algo que tem a ver com o “outro”, um “outro” perigoso, violento. A loucura não é violenta, ela só é violenta quando você ataca ela, silencia ela, trata a pessoa mal. Essa associação entre loucura e crime é totalmente fruto de um estigma. A loucura também não é uma questão de inteligência”

“Eu convidaria o presidente a se escutar. No fundo é isso que a gente faz com qualquer pessoa, escutar a aderência e a insistência com que temas ligados à saúde mental aparecem no discurso do presidente. Isso estava lá desde o início, quando surgiu a figura do “esquerdopata” e isso continua, com ele chamando aqueles que se preocupam com a covid-19 de “histéricos”, que não precisam ter essa
“neurose”. Teve também o episódio do golden shower… São diagnósticos que a gente ouviu do presidente. Então considerando esses diagnósticos, a gente nota um interesse discursivo da presidência em termos de saúde mental. Eu acho que ele devia aprofundar isso. Ele devia se perguntar se ele não queria ser um psicólogo, e para isso, é sempre bom começar com uma terapia. Eu o convidaria, depois de ter terminado o mandato, para que cursasse psicologia ou se sentasse no meu divã”

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