Christian Dunker: Paulo Gustavo nos ensinou a olhar para a nossa vulnerabilidade com humor
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Christian Dunker: Paulo Gustavo nos ensinou a olhar para a nossa vulnerabilidade com humor

Morris Kachani

06 de maio de 2021 | 21h51

“A vida e a trajetória do Paulo Gustavo vai entrar naquele lugar que de certa forma a gente estava precisando, de grande metáfora para o processo de enlutamento brasileiro. A gente tinha números, curvas, disputas, mas esta é aquela vida que representa todas as outras que você acompanhou no dia a dia, na luta dele. Ademais, é um homem que fazia papel de mulher, é uma indeterminação de identidade, pode ser qualquer um que se coloca ali como “dona Hermínia”. E mais, é um papel que convoca humor, mas que convoca aquela mãe, especialmente as iídiche mama, que a gente tem vergonha porque elas se metem, tudo em nome do máximo amor; elas são divertidas, mas nos envergonham. Por que elas nos envergonham? Porque elas lembram da vulnerabilidade que um dia a gente sofreu enquanto criança. Bom, o que a gente precisa nesse momento? Exatamente disso, olhar para a nossa vulnerabilidade com humor. Ele [Paulo Gustavo] conseguiu fazer isso, convocar a vulnerabilidade, convocar o humor e convocar a indeterminação de identidade”.

“Ele [Paulo Gustavo] conseguiu fazer isso, convocar a vulnerabilidade, convocar o humor e convocar a indeterminação de identidade”

Assista à entrevista: https://youtu.be/AOwQu0FJ3xk

Quem são nossos heróis? Estranho assistir a escolha da Juliette no BBB, enquanto durante o intervalo dos milionários comerciais, aparecia o boletim jornalístico dando conta da partida de Paulo Gustavo. Também chama a atenção o estrondoso sucesso do reality dos confinados, em um tempo de confinamento. Foi preciso consultar o oráculo do psicanalista Christian Dunker, professor titular em psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP, generoso parceiro deste canal.

“Antes o Big Brother era como se fosse uma metáfora do mundo. Era como nosso mundo só que era outro mundo, cem uma distância apaziguadora, em que você podia rir da própria miséria sem se dar conta de que estava rindo de si mesmo.

O que aconteceu com esse Big Brother é que ele entrou em uma relação muito anímica com a nossa vida; ele é o mundo onde todos estamos. Estamos todos confinados, então vira uma extensão da sua casa. Eu “perco a distância do programa”. Isso é muito perigoso pelo potencial de perda de ficcionalização, de perda de metaforização”

“[A Karol Conká] foi a maior rejeição da história do Big Brother. É um exemplo de cancelamento no sentido técnico do termo; Velocidade, ódio e inversão do amor no seu contrário. Me parece que tem a ver com a ambiência de polarização, do que ela conseguiu representar para a esquerda e para a direita. É um momento em que a gente está adquirindo e construindo uma conversa de, vamos chamar assim, condições vulneráveis, condições interseccionais e de sofrimento; isso está se capilarizando no Brasil”

“O caso da Karol Conká conseguiu mostrar para as pessoas que existe uma complexidade difícil de ser abordada, quer dizer, uma mulher negra, nascida na periferia, mas que consegue se tornar famosa, rica, reconhecida. Esse trajeto já é símbolo. E aí ela ofende um bissexual que está mais na periferia e que não fez esse trajeto dela, Ele é ela no passado só que em outra chave, porque é um homem. mulher-homem, vamos ler nessa chave, ou rica-pobre ou homossexual-heterossexual ou arrogante-humilde ou religiosa-não religiosa”

Ela é ao mesmo tempo um indivíduo contra o coletivo, contra as forças de coletivização e aquele indivíduo que se destacou daquele coletivo, mas que hoje o renega. Isso acho que acertou precisamente no que me parece ser um dos caldos de cultura mais importantes para a gente entender a polarização antes de Lula e Bolsonaro”

“A gente teve muitas pessoas mudando de classe social, da pobreza para a classe média, da classe média para os remediados, dos remediados para a classe rica. O Brasil passou a exportar milionários. Milionários que levaram quedas. Isso é um estopim para a “guerra”, porque você cresceu, mas você deixou para trás a sua família, culpa, ressentimento, raiva. Arrogante, não reconhece seu passado. Ah, você subiu porque tem privilégios. Ah você desceu porque não tem privilégios. Essa complexidade está vindo e começa a ter uma competição por qual história a gente vai contar, quem são nossos heróis?”.

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