Claudia Costin: Escolas só devem fechar em último caso
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Claudia Costin: Escolas só devem fechar em último caso

Morris Kachani

05 de fevereiro de 2021 | 09h58

“Não dá para a gente ficar insensível à destruição do presente e do futuro de uma geração; em tempos de pandemia, a educação deveria ser sempre a última a fechar”

Assista à entrevista: https://youtu.be/nXlqvt7TC08

“É elitista quem propõe que as escolas públicas não reabram mesmo que tenham condições. Tem que ser uma volta segura, mas alguém tem que prestar atenção no que está acontecendo com os mais vulneráveis e fazer o que a Europa e a África fizeram. Eu visitei muitas escolas na África e as estruturas deles são muito piores que as nossas, mas eles tiveram que preparar as escolas para um retorno mais seguro possível. Eu não gosto desse discurso pseudo-progressista e na prática elitista, de que nunca estamos prontos o suficiente para incluir e na prática excluindo um grande número de crianças e jovens que não terão futuro”

“Uma coisa que os países europeus fizeram, e que a gente não fez, foi que mesmo em lockdown, ou quando o lockdwon não é absoluto, eles mantiveram as escolas abertas para os mais vulneráveis. Se você olhar para o que acontece hoje na Inglaterra, fizeram duas semanas de fechamento de tudo, mas as escolas estão abertas para quem está em situação de vulnerabilidade ou não tem equipamento. Portugal também. Então o que nós precisamos é olhar para o fato de que a escola só deve fechar em último caso, e mesmo que feche, temos que ficar atentos a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade extrema, porque para essas não tem outra solução, Para essas, é extremamente urgente que as escolas reabram”

“Há dados sobre o aumento de suicídios, de ansiedade, de crianças sofrendo violências doméstica e sexual, dentro de casa. Porque a escola pública funciona também como um sistema de proteção à infância; por exemplo, quando chegam casos de violência sobre a criança, normalmente foi na escola que foi constatado”

“É urgente colocar os professores como grupo prioritário no processo de vacinação”

“Eu acho que o Brasil não se saiu mal dentro do que dava para fazer, levando em conta que não tivemos coordenação federal feita pelo Ministério da Educação”

“A Bélgica fez um estudo que mostrou que os três meses sem aulas que eles passaram vão impactar anos na vida futura dessa geração. Imagine nós [o Brasil] que ficamos um ano letivo inteiro sem aulas e com uma conectividade muito menor do que a Bélgica. Nós vamos pagar um preço muito sério”

“O segundo setor que mais desempregou foi educação; houve muito professor que perdeu o emprego com a quebra de escolas particulares. Muito triste o que estamos vivendo, com a quebradeira que houve”

Em uma decisão longe de ser consensual, nas últimas semanas, governo e prefeitura de SP determinaram a reabertura das escolas com 35% das atividades presenciais.

Professores, pais de alunos, donos de escola, especialistas em políticas públicas e os próprios alunos se digladiam diante de uma montanha de argumentos consistentes a favor e contra a medida.

Talvez os exemplos do que se tem feito pelo mundo, e não apenas nos países ricos, ajudem a iluminar a questão. É bom pontuar que o Brasil foi um dos países onde as escolas ficaram fechadas por mais tempo no ano passado – 40 semanas, para ser preciso, contra uma média mundial de 20 semanas, de acordo com levantamento da Unesco.

A situação é dramática, com um impacto muito sério, especialmente entre a população mais vulnerável.

Em um contexto de recrudescimento da pandemia e novas cepas do vírus circulando por aí.

E então, que fazer? Manda os filhos pra escola? Reabre a escola?

Claudia Costin dirige o centro de excelência e inovação em políticas públicas educacionais da FGV-Rio. Foi diretora global de educação do Banco Mundial, e ex ministra da Administração (governo FHC).

“Eu acho que quem tem que dizer qual é o momento certo [para abrir as escolas] são os epidemiologistas. Para quem é da educação cabe discutir como abrir e em que condições. Observando o que vem acontecendo em países com bons sistemas educacionais e vivendo outro momento de pandemia, o que parece estar acontecendo é que eles tomaram a decisão de abrir e fechar as escolas na medida em que o sistema de saúde, especialmente as UTIs e centros de emergência, precisam que as “coisas se desafoguem”, mas dentro de uma proposta em que a educação deveria ser sempre a última a fechar. Porque até do ponto de vista sanitário a escola funciona como um centro para divulgar boas recomendações. Entre pediatras e epidemiologistas, isso é quase um consenso”

“Outros países, inclusive da África, ficaram muito menos tempo que o Brasil com as escolas fechadas. Isso tem várias explicações. A meu ver a principal, é que nós não temos uma coordenação nacional da resposta educacional ao covid-19. O Ministério da Educação se furtou a esse papel. Não houve diálogo com o Ministério da Saúde, muito menos com as instâncias inferiores. No começo, preferia guerra ideológica em relação às universidades a cuidar da resposta educacional à pandemia. Agora, está fazendo, só que muito pouco”

“Um negacionismo se deu por parte do governo federal, especialmente pelo presidente. A população e os professores ficaram muito inseguros: “É para fechar ou não? Como que a gente evita contágio?”. Nesse contexto todo, houve quem assumiu o papel do Ministério da Educação com uma postura protagonista, inclusive não só em relação a que momento a abrir, mas também em relação a aprendizagem remota, que foi o CONSED (Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação) e a própria sociedade civil. Houve uma combinação de mídias na resposta educacional à covid”

“Eu gosto de lembrar do caso do Maranhão, um dos estados mais pobres, em que 61% dos alunos estavam acessando sistematicamente a plataforma digital na rede estadual, portanto Ensino Médio, dos seus celulares. Foi usado também televisão para fins educacionais – e televisão é uma mídia que o Brasil já sabe usar – e rádio. E o que me chamou a atenção foi que mesmo em áreas de muita vulnerabilidade se usou grupos de WhatsApp. Além disso, cadernos foram enviados para as residências dos alunos que não tinham conectividade. Evidentemente um grupo grande não teve acesso [a tudo isso] mas a cobertura foi muito maior do que a gente teria imaginado. 82% dos municípios tiveram alguma forma de resposta educacional à covid-19 e todos os estados desenvolveram suas estratégias, alguns mais tarde do que outros. Mas funcionou melhor do que eu teria imaginado, sem o MEC”

“Nas áreas de maior vulnerabilidade os pais não estão dentro de casa, eles estão na rua tentando buscar alguma fonte de renda. Não estão em teletrabalho podendo ajudar [os filhos], lembrar dos horários, acordando a criança. A conectividade é mínima. Então muitas atividades foram assíncronas, com um caderno pedagógico que precisa ser preenchido e um horário que passa a aula na televisão ou no rádio”

“A criança pequena ou até um adolescente às vezes ainda não tem autonomia suficiente para isso, então não vamos mascarar a realidade, as perdas para as crianças e jovens e para o futuro é imensa. É bom lembrar que o Brasil é um dos países que tem maior desigualdade educacional entre os que participaram do PISA; é o segundo mais desigual das 79 economias que fazem parte do levantamento. O último PISA foi pré-pandemia e imaginar que isso [a pandemia] não tenha aprofundado brutalmente as desigualdades educacionais é a gente “tapar o sol com a peneira”. Importante colocar sentido de urgência na volta”

“Por outro lado, no período da pandemia era para terem sido feitas obras nas escolas para deixá-las mais seguras, porque mesmo com a vacina nós não vamos conseguir vacinar toda a população a curto e médio prazo, ainda mais com as campanhas contra a vacina que vêm acontecendo. Não existe vacina para criança ainda. Então obras nas escolas eram necessárias para garantir maior ventilação, ampliar a quantidade de banheiros, garantir que todas tivessem os EPIs, e transporte escolar com distanciamento. Muitos municípios fizeram, outros não, lembrando que teve mudança de prefeito nesse tempo”

“Pra piorar vamos ter que conviver com as escolas abrindo e fechando constantemente. Desconfio que vai ser isso daqui pra frente, para os próximos anos. Escola vai ter que aprender a lidar com ensino híbrido”

“Não há como haver distanciamento social em turmas de 40 alunos. Então vamos ter que dividir – é uma questão logística muito complexa e nós estamos com um governo federal que não é muito ligado a logística apesar do discurso. Vamos ter que dividir as turmas em bolhas, como fez a Alemanha, em grupos de 3 que passarão uma parte da semana em casa enquanto outros têm aula na escola. Vamos ter que dividir turmas e escalonar o processo de retorno. Além de transmitir ao vivo as aulas para quem ficar em casa”

“Apesar da desigualdade educacional ter se aprofundado, não é que as crianças da classe média sofreram nada.  A pandemia mostrou pra todos o que significa ter homeschooling. Um adolescente precisa ter convivência social porque a sua identidade se constrói muitas vezes num processo de conflito com seus genitores, porque ele precisa descobrir quem ele é e para isso precisa conviver em um ambiente seguro com outros amigos. Até essa abertura ainda tímida de escolas, eles foram afastados do convívio. A ansiedade aumentou bastante, e em casa ficou tenso para todos. Por mais que a casa tenha qualidade e haja condições, não é o ambiente ideal. Há muitos adultos descontando ansiedade nas crianças ou ansiosos com os filhos”

“É nas crises que a humanidade mais evoluiu. Houve avanço científico com a gripe espanhola. Na pandemia também está havendo avanços em várias áreas de conhecimento inclusive na educação. , Os professores foram obrigados a se reinventar, estão atuando nas plataformas digitais. Tudo mudou. Se tivermos boas políticas educacionais na volta às aulas, poderemos construir uma educação diferente para este novo período”

“Vamos caminhar para o ensino híbrido, disso não tenho dúvida. No mundo do trabalho tecnológico não basta saber o uso da tecnologia, é importante os professores mostrarem a resolução de problemas com criatividade. Não basta dar uma aula expositiva. Não é mais o ensino do “não aprendeu, eu reprovo. Hoje com as plataformas e inteligência artificial ficou mais fácil identificar o gap educacional de cada aluno. Personalizar processos de ensino é possível com o auxílio de tecnologia, dá para pensar nisso”

“Nós vamos ter que trabalhar questões midiáticas com os alunos e professores, desde como navegar com segurança nas redes sociais e construir uma cidadania digital bem preparada, como saber separar fato de opinião. São as competências do século XXI”

“Sou otimista, vamos conseguir reconstruir. Hoje o clima no país, não é só que está polarizado, ele está repleto de ódio. E a educação não está distante desse ódio. Infelizmente os professores estão se agredindo mutuamente, há um diálogo extremamente agressivo no ambiente de saúde, de educação, em toda a sociedade. O tecido da sociedade está esgarçado e repleto de ódio. Acho que esse ódio vai refluir um pouco”

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