Clóvis de Barros Filho: desvendando a solidariedade (e a falta dela) em tempos pandêmicos

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Clóvis de Barros Filho: desvendando a solidariedade (e a falta dela) em tempos pandêmicos

Morris Kachani

27 de junho de 2020 | 12h37

“Não estar engajado em uma luta por melhor distribuição de condições de vida no nosso país é dar prova de uma alienação inaceitável”

Por aqui no Brasil, já atingimos a marca de 1 milhão de pessoas infectadas e mais de 50 mil mortos. E um ministério da saúde caducando, há um mês e meio sem um titular pra chamar de seu.

É um tempo de recolhimento, de introspecção, e também de doar o melhor de si. Ou pelo menos, deveria ser.

O tema desta entrevista é a solidariedade – ou a falta dela.

Clóvis de Barros Filho, jornalista, é mestre em ciências políticas pela universidade Sorbonne, professor da ECA, orador e palestrante especializado no tema da ética.

“A pandemia mostrou que podemos ser muito mais solidários do que normalmente somos, mas também mostrou que poderíamos estar sendo e ter sido muito mais solidários do que fomos e somos”.

“Nessa pandemia a gente viu de tudo. Gente virando noite cuidando de gente e gente super faturando em cima de gente. ‘Quando a farinha é pouca, o meu pirão primeiro’ – diz um provérbio nordestino, trazendo o que o ser humano tem de pior”.

“A solidariedade pode decorrer de afetos – quando você se alegra com a alegria do outro, e entristece com a tristeza do outro. O problema é quando a alegria do outro te entristece, ou quando a alegria do outro te entristece…”.

“O outro aspecto da solidariedade é de natureza moral propriamente. Não se trata de um sentimento que me move. Mas sim um sentido de vida e de convivência”.

“A solidariedade poderia ser transmitida através da educação na escola, oferecendo reflexão sobre justiça, convivência, valores, a necessidade genuinamente de considerar o outro na hora de toma decisões sobre sua própria vida, e programas de educação afetiva. Estes programas deveriam ser considerados, quando a solidariedade claudica. Se tivéssemos uma formação mais moral mais adequada e se tivéssemos uma preparação para os afetos, certamente teríamos pessoas mais inquietas e preocupadas com a sorte dos outros, uma sociedade menos egoísta e tacanha”.

“Eu acho que as questões éticas em geral no nosso país estão dramaticamente ausentes dos nossos currículos escolares. Tendo dado aula de ética durante 35 anos, posso dizer que existe entre os jovens uma ignorância particular a respeito de todo um conjunto de pensamentos ligados à filosofia moral e à ética propriamente dita. Existe um problema de formação que é conceitual mesmo”.

“A gente passa 4 anos estudando literatura, 3 anos de biologia, 1 ano de citologia, 12 anos de matemática, 3 ou 4 de física e química. É lindo, é maravilhoso. Mas quanto tempo dedicado a questões propriamente ligadas à ética? Esse que deveria ser um tema transdisplicinar, está rigorosamente excluído dos currículos e entregue a improvisos”.

“É possível encontrar em nosso país, eu diria mais do que em outros onde vivi, pessoas concernidas pelas demais, de forma muito genuína e sincera. Vi e participei de várias iniciativas de voluntariado na quarentena de gente preocupada em distribuir comida, máscaras, palavras de consolo, em falar sobre a gravidade da situação. Pessoas espiritualmente maravilhosas que usaram sua experiência para viver a sorte de outras”.

“Não sei se em países do primeiro mundo há com tanta ênfase essa disponibilidade, esse carinho e atenção. Essa disposição é ainda mais notável entre aqueles que têm pouco, e compartilham o pouco que têm. Naturalmente que tem muita gente que tem muito e compartilha. Apenas é mais fácil de perceber quando pessoas que têm muito pouco, se dispõem a dividir o muito pouco que têm”.

“Não estar engajado em uma luta por melhor distribuição de condições de vida no nosso país é dar prova de uma alienação inaceitável. Por essas e por outras se nos falta formação escolar, se nos falta lucidez, conhecimento, sobra em coração, sobra em afetividade e empatia”.

“A solidariedade é sempre mais ampla que a filantropia. Até porque se manifesta em gestos, olhares, apoios. Mas por detrás da filantropia pode haver genuinamente manifestações de profunda solidariedade. Claro que há um milhão de motivações ideológicas, e muitas delas são relacionadas a quem dá. Questões de culpa, de construção identitária, de parecer generoso onde ser generoso é socialmente aceitável. Mas vejo por trás da filantropia sim, muita solidariedade. Que vai das pessoas mais abastadas às mais humildes”.

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