‘Conhecendo a verdade, ela nos libertará’

‘Conhecendo a verdade, ela nos libertará’

Morris Kachani

02 Abril 2018 | 11h57

FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

É sempre bom ouvir a Marina Silva. Ela pode não ser a candidata dos sonhos, sua fala pode soar difusa e abstrata, mas tentar compreender os fenômenos da vida política brasileira a partir de seu olhar ajuda um pouco mais, a esclarecer as coisas.

Ela, que sempre aparece com alguma chance de disputar o segundo turno nas pesquisas. Que já esteve com o passarinho na mão em 2014, e viu ele voar.

Que em outro momento representou efetivamente o novo na política brasileira, que se cercou de gente de gabarito como o economista Eduardo Giannetti, que já deu bronca em Lula e FHC.

Memorável aquela colocação dela, feita em 2013, que até hoje continua atual: “Está na hora de o presidente sociólogo e o presidente operário conversarem. Se foi possível Fernando Henrique conversar com ACM, se foi possível Lula conversar com [José] Sarney, [Fernando] Collor, Renan [Calheiros], Jader Barbalho e Eduardo Cunha, por que não é possível conversarem dois ex-presidentes da República para que possamos viver os últimos suspiros da polarização?”.

A recente saída dos deputados Alessandro Molon e Aliel Machado, da Rede para o PSB, enfraqueceu um pouco a candidatura de Marina. Foi uma baixa de peso. Pelo notório trabalho que eles têm feito no Congresso e pelo fato de que com a defecção, Marina perde o direito de participar dos debates eleitorais na TV e no rádio, porque deixa de possuir o mínimo de cinco deputados em sua base.

Ciro Gomes andou a paquerando para ser sua vice. Também se falou sobre uma chapa com Joaquim Barbosa.

Por fim, recentemente houve um post esquisito de Marina associando a série O Mecanismo da Netflix, à morte de Marielle.

Um dos meus oráculos um dia me disse, “eu não voto na Marina pois sua convicção religiosa é um grande ponto de interrogação, para um ateu como eu”.

Tudo isso a brava repórter Paula Forster passou a limpo com a própria Marina, em entrevista exclusiva para este blog.

*

“Quem é que fica feliz com uma pessoa com a trajetória do Presidente Lula, com um ex Presidente da República vivendo uma situação como essa? Agora, nós temos que ver o funcionamento das instituições: empresários ricos, políticos poderosos, quem quer que seja. A lei tem que ser para todos. Não podemos ter dois pesos e duas medidas”.

“O problema é que esses partidos (PT e PSDB) se estagnaram, colocaram o projeto de País, de discussão dos programas de políticas públicas como projeto de poder e trocaram o ideal de Nação por projetos de eleição. E isso tem um preço, o preço da estagnação. Hoje, eles precisam se reinventar.

Eu quero muito que esses partidos recuperem os seus princípios, recuperem a contribuição viva que já deram no passado”.

“Se você quiser perguntar sobre o que eu acho de uma situação em que lideranças políticas, como Lula, como Aécio Neves, como Serra, como Palocci, como Dilma, como tantos outros que estão envolvidos em graves problemas de corrupção… se você quiser perguntar o que eu acho do Presidente da República estar escondido dentro do Palácio para não ser investigado, do Moreira Franco, do Padilha, dos mais de 200 deputados, que estão escondidos dentro do Congresso Nacional para não serem investigados… Sobre isso eu posso falar: isso é o sistema corrupto, é uma corrupção institucionalizada que vem sendo operada por todos os espectros políticos da política tradicional, infelizmente”.

“Eu nunca vi Temer fazendo nenhuma crítica ao governo da Dilma, portanto ele é parte da crítica que nós temos hoje desde a sua origem. Ele não legitimou as coisas que ele se dispôs a fazer”.

“Eu acho que o Brasil pode surpreender a todos nós. Eu acredito nisso, tanto é que estou saindo candidata pela terceira vez. Eu acredito profundamente que dessa vez a vitória não vai ser nem da violência e nem das velhas estruturas. Será da postura do cidadão”.

“Eu sou evangélica da Assembleia de Deus, já fui quase freira, inclusive”.

“Sou contra o aborto e tenho dito isso desde 2010. O que eu não faço é satanizar as pessoas que têm uma posição diferente da minha. O que é que nós queremos? Que ninguém possa ter uma gravidez indesejada. Obviamente que acredito que ninguém deva fazer o aborto como uma forma de evitar, como um método contraceptivo. Eu sou contra por convicções filosóficas, como muitas pessoas são, independente de questões religiosas”.

“Eu acho que o Brasil – graças a Deus, ou pelo menos eu espero – já esgotou a fase da mentira, da hipocrisia. Eu acredito na tese de que ‘conhecendo a verdade, ela nos libertará’”.

“Eu vi se repetir com ela – Marielle – a mesma coisa que eu vi fazerem com Chico Mendes e a irmã Dorothy, que foi tentar matá-la duas vezes. Eliminaram o seu físico e depois eliminaram – ou estão querendo eliminar – a sua honra, a sua história, a sua memória. E isso é o que há de mais cruel”.

*

Como afinal você vai entrar no cenário das eleições deste ano? Existe a chance de se lançar como vice do Ciro Gomes, ou se aliar ao Joaquim Barbosa?

Nós lançamos minha pré-candidatura no dia 2 de dezembro (2017), depois de eu fazer uma reflexão muito apurada se sairia ou não candidata por uma terceira vez. Uma vez feito o anúncio da minha pré-candidatura, é o que será a minha participação no processo eleitoral de 2018.

Então, esse convite pelo feito pelo Ciro Gomes não vai ser aceito, nem essa possível aliança com o Joaquim Barbosa que saiu na imprensa esses dias?

Eu serei candidata à Presidência da República. E isso não impede que eu dialogue com outras candidaturas. Eu tenho muito respeito por todas elas do campo democrático. No momento difícil pelo qual estamos atravessando, em que se beira a uma crise institucional com vários problemas de corrupção e de desrespeito às instituições, de desrespeito à democracia, a minha participação nas eleições vai ser exatamente para oferecer uma alternativa que não seja a do campo da arrogância política nem do autoritarismo político, nem da conivência com a corrupção e nem das atitudes que levam a que algumas candidaturas possam gozar de privilégios, inclusive, do fundo partidário, do tempo de exposição na televisão e do privilégio de ter espaços generosos em prejuízo de outras que são igualmente representativas.

Sobre a saída dos dois deputados federais da base da Rede Sustentabilidade, dois quadros representativos, Alessandro Molon e Aliel Machado… foi motivada por algum estresse? Gerou alguma instabilidade para o partido?

A Rede é um partido radicalmente democrático. Inclusive, trabalhamos com a ideia de consenso progressivo, até porque a nossa existência é muito recente, temos apenas três aninhos de idade, e sabíamos que tínhamos que nos constituir como um partido que representasse o novo. Nós não temos a cultura política dos partidos tradicionais, nem de esquerda, nem de direita, nem de centro. Dentro da Rede, temos a liberdade de decidir, tanto é que os nossos parlamentares que tiveram divergência com a posição da Diretoria da Rede – como foi o caso do deputado Molon, contrário ao pedido de impeachment para Michel Temer – sempre tiveram respeito e acolhida da direção, por entender que eles tinham direito de manifestar a sua posição. Então, não teve estresse, teve respeito. As pessoas são livres.

Na Rede, a gente trabalha com o exercício da militância disponível, nós somos um partido programático, zelamos pelo nosso programa, que não é somente literário. Ele está expresso em nossa visão de política, de partido, de sociedade. Procuramos manter um equilíbrio, em termos de participação nos órgãos decisórios do partido, tanto é que sempre há uma participação da juventude, nós não temos o monopólio dos cargos de direção por aqueles que têm maior popularidade ou que, por ventura, tenham mandados no executivo ou no legislativo.

Mas você acha que gerou uma instabilidade para a sua campanha a saída dos deputados para o PSB? Porque agora a Rede não conta com o número mínimo de cinco representantes no Congresso que lhe assegura o direito de participar dos debates eleitorais na TV e no rádio.

Não, porque nós preferimos trabalhar com o que é realidade. Não queremos criar nenhuma inclusão de força e nem trabalharmos com algum tipo de ilusão, com o que não é realidade. Respeitamos a decisão dos deputados.

Na Rede, não temos uma cultura de satanizar as pessoas que saem do partido, diferentemente de uma tradição autoritária da esquerda tradicional, em que não existe ex-filiado, só existe traidor e inimigo. Não temos essa cultura. Temos a mesma relação de amizade e de respeito por esses parlamentares, que não deixam de serem as pessoas valiosas que sempre foram e necessárias para melhorar a qualidade do congresso, só porque agora estão em outro partido do campo democrático – com que, inclusive, até bem pouco tempo tínhamos alianças. Então, manteremos o diálogo do mesmo jeito. Nossa aliança sempre é prioritariamente programática, reforçando a ideia que temos defendido desde 2010 de que está surgindo uma nova forma de fazer politica.

Esses movimentos que estão surgindo no Brasil – e não somente no Brasil, mas em vários lugares do mundo – tem nos procurado para fazer alianças. Já fizemos aliança com o Agora, com o Acredito, com o Brasil 21 e com o Frente Favela Brasil de São Paulo. A Rede já nasce com a ideia de um partido em movimento, obviamente que respeitando a política institucional, respeitando a necessidade de fortalecer mandatos com características democráticas, em defesa do ser humano…

Quando você menciona a esquerda tradicional, me vem a pergunta: o que você acha do PT hoje?

Eu acho que nós estamos vivendo uma estagnação que atinge todos os partidos do espectro ideológico, que não foram capazes de se reinventar. A crise é uma estagnação dos partidos tradicionais – PT, PSDB – que foram partidos que ajudaram a atualizar a política na década de 80, na década de 90. Hoje, eles estão estagnados, porque entraram na lógica daquilo que eles mesmos criticavam. Obviamente que isso que aconteceu com eles é um alerta para nós da Rede. Dizem que sábios são aqueles que aprendem com os erros dos outros e estúpidos aqueles que não aprendem nem com seus próprios erros.

Esses partidos, que no passado deram uma contribuição para melhorar a qualidade da política – o PT, por exemplo, ajudou na criação de novas formas de participação social e eu, inclusive, jamais teria qualquer chance de atuação em partidos tradicionais, como o Arena e o PMDB. O problema é que esses partidos se estagnaram, colocaram o projeto de País, de discussão dos programas de políticas públicas como projeto de poder e trocaram o ideal de Nação por projetos de eleição. E isso tem um preço, o preço da estagnação. Hoje, eles precisam se reinventar.

Do ponto de vista político, eu não acredito na ideia de que um partido único dê conta da complexidade política do Brasil e nem de lugar nenhum do mundo. Eu quero muito que esses partidos recuperem os seus princípios, recuperem a contribuição viva que já deram no passado. Hoje, eles precisam, com certeza, de um período sabático – de pelo menos uns quatro anos – para poder revisitar os seus estatutos e se reencontrar com os ideais que os levaram a surgir. Acho que a melhor forma de se fazer isso, e quem pode fazer isso, é a sociedade brasileira. Eu não acredito, em hipótese alguma, que a visão que criou o problema vai resolver o problema. As práticas que criaram o problema – e hoje está bem nítido o que aconteceu com o PT, PSDB, PMDB, DEM e tantos outros – não podem resolver o problema. Só a sociedade pode, dando um basta na situação de que quem ganha a eleição não é o cidadão, quem ganha a eleição são as velhas estruturas: do dinheiro, do marqueteiro, da agressão, do abuso do poder econômico. A sociedade precisa ter uma vitória sobre essa estrutura e eleger alguém que ela possa dizer: ‘esse daqui foi eleito, não por causa do dinheiro ou do marqueteiro, mas porque é fruto da minha vontade e, portanto, deve satisfação única e exclusivamente ao cidadão’.

Como repercutiram para você os tiros disparados durante a caravana de Lula nos últimos dias?

Nós conquistamos a nossa democracia a duras penas. A violência política será uma das piores mazelas para essa crise que nós já estamos vivendo. Estamos no fundo do poço na crise econômica, na crise social e agora voltamos a ter 13 milhões de desempregados, por todos esses problemas de corrupção…

Nós vamos estar em um poço sem fundo se transformar as eleições em um espaço de violência política, que possa ameaçar a nossa democracia. A sociedade deve estar cada vez mais alerta. Qualquer partido que sabe o quanto é importante a democracia não deve aceitar nenhum tipo de oportunismo em relação àqueles que usam a democracia para propagar ideias autoritárias e antidemocráticas. Quem é antidemocrático, autoritário e acha que pode resolver as coisas na base da violência deve assumir este discurso, mas sem macular a democracia. Para participar do processo democrático, precisa respeitar as instituições e a democracia. Acho que a sociedade brasileira tem que dar um basta nos oportunistas que a utilizam para propagar o autoritarismo e a violência.

E o que você acha da figura do Lula?

Ah, eu acho que a gente não pode fazer um debate personalizando desse modo, não é? Acho que nós temos coisas muito mais importantes para discutir neste momento. Se você quiser perguntar sobre o que eu acho de uma situação em que lideranças políticas como Lula, como Aécio Neves, como Serra, como Palocci, como Dilma, como tantos outros que estão envolvidos em graves problemas de corrupção… se você quiser perguntar o que eu acho do Presidente da República estar escondido dentro do Palácio para não ser investigado, do Moreira Franco, do Padilha, dos mais de 200 deputados, que estão escondidos dentro do Congresso Nacional para não serem investigados… Sobre isso eu posso falar: isso é o sistema corrupto, é uma corrupção institucionalizada que vem sendo operada por todos os espectros políticos da política tradicional, infelizmente.

Se a gente personalizar a corrupção em uma pessoa é porque a gente não quer encarar o problema da corrupção. Acho que o que o Brasil está mostrando hoje é mais do que a corrupção de uma pessoa, é a corrupção de um sistema, onde o Lula, o Aécio, o Michel Temer, o Padilha, o Renan Calheiros, o Collor, o Romero Jucá… todos estão envolvidos.

E a próxima pergunta é justamente sobre o Temer… o que acha da gestão dele?

A minha posição sobre ele é de um governo sem credibilidade, sem legitimidade. Não tem credibilidade, porque ele se elegeu junto com a presidente Dilma, dizendo que o Brasil era um país maravilhoso. Eu nunca vi Temer fazendo nenhuma crítica ao governo da Dilma, portanto ele é parte da crítica que nós temos hoje desde a sua origem. Não tem nenhuma credibilidade.

E não tem legitimidade, porque tudo que ele está fazendo, ele não anunciou quando ele era candidato. Ele não legitimou as coisas que ele se dispôs a fazer – reduzindo o direito dos trabalhadores, dizendo que para se aposentar precisa de 49 anos de contribuição, de que para fazer jus à aposentadoria por tempo de serviço você teria que trabalhar durante 25 anos consecutivos (isso não tem cabimento, porque ninguém consegue trabalhar 20 anos consecutivos. Todo mundo sabe que os empregos são sazonais), dizendo que uma mulher pode trabalhar em condições insalubres desde que tenha um atestado do médico, não combatendo os privilégios da reforma da Previdência, deixando aos setores que tinham condições de se mobilizar todos os privilégios e atingindo tão somente aqueles grupos que não têm força de mobilização. Então, na verdade, o debate das reformas – que deve ser feito e encarado com senso de responsabilidade, transparência e democracia – foi tão somente usado para dar um tipo de sobrevida ao Presidente da República, que precisava sinalizar para o mercado de que iria fazer algum tipo de entrega… coisa que não fez, porque não tem credibilidade e nem legitimidade.

Você acha que o Brasil está ficando mais conservador? Acha que existe um risco do Bolsonaro ser eleito?

Eu acho que o Brasil pode surpreender a todos nós. O povo brasileiro tem uma capacidade incrível de surpreender até a si mesmo. Eu acredito nisso, tanto é que estou saindo candidata pela terceira vez. Eu acredito profundamente que dessa vez a vitória não vai ser nem da violência e nem das velhas estruturas, será da postura do cidadão. Com certeza depois de tudo que aconteceu – com 13 milhões de desempregados, com os péssimos serviços que temos em saúde, com o caos da segurança pública – a sociedade vai dar um basta a tudo isso e vai chegar à conclusão de que não dá para pensar em mudar e não mudar. É a terceira vez que a população vai ter a chance de pensar em mudar. Dessa vez não é só pensar, é mudar. E eu reitero: a visão que criou o problema não vai resolver o problema.

Uma curiosidade pessoal: qual que é a sua fé? As crenças religiosas se entrelaçam com as pautas sociais e políticas? Já ouvimos eleitores que não votam em você por conta do assunto religioso.

A minha fé é pública e é de conhecimento público. Nós vivemos em uma democracia, as pessoas têm liberdade de expressão e o direito à liberdade de expressão previsto na nossa Constituição é para todas as pessoas. Eu sou evangélica da Assembleia de Deus, já fui quase freira, inclusive. Hoje eu sou convertida à fé evangélica, mas eu tenho muito respeito pelos meus irmãos católicos, tenho respeito pelas outras crenças, de quem tem origem afrodescendente, de quem tem origem em outras tradições religiosas e tenho respeito também por aqueles que não crêem.

Afinal de contas você não está na política como líder espiritual, mas para defender os interesses dos cidadãos e das cidadãs e todos eles têm iguais direitos perante a nossa Constituição, seja cristão, seja judeu, seja espírita, seja de religião de matriz africana, qualquer que seja, e até aqueles que não creem. Não imagino que as pessoas deixem de votar em função de você acreditar ou não em Deus. O presidente Lula é católico e nunca vi ninguém tendo preocupações, porque ele acredita em Deus…

Então, na verdade é um receio de que as crenças influenciem em decisões de pautas públicas como o casamento LGBT, o aborto… por isso pergunto: você acha que a sua crença religiosa influencia nesse debate público?

Se houver a compreensão correta de quem quer que seja de que somos um Estado laico e de que a nossa Constituição assegura os direitos das pessoas e de que elas têm a liberdade e o livre arbítrio de viver em conformidade com suas convicções, não. Não vejo porque isso. Os direitos civis das pessoas são todos assegurados e preservados em conformidade com as leis vigentes no nosso País. Todas as pessoas são portadoras de direito, independentemente da crença, da condição econômica ou da cor da pele, qualquer que seja a circunstância.

Certo, mas nas eleições de 2014 surgiu uma polêmica – me corrija se eu estiver errada – sobre propostas da sua candidatura que foram alteradas, como apoio ao casamento LGBT e criminalização da homofobia, depois de uma postagem no twitter do Silas Malafaia. Pode comentar sobre isso?

Eu acho bom, porque você me dá a oportunidade de esclarecer duas inverdades. Em primeiro lugar, o programa não retirou a questão do combate a qualquer forma de preconceito. Isso não é verdade. Houve um erro de publicação do programa em relação à questão da energia nuclear e da publicação de um texto que havia chegado como contribuição do movimento LGBT e que foi publicado sem nenhuma mediação com todas as outras contribuições que haviam chegado. A única correção que foi feita foi essa e em relação à energia nuclear. Não foi para retirar a questão do combate à homofobia, em hipótese alguma, isso não é verdade. Não tem nada a ver com qualquer interferência externa. Foi uma decisão da própria coordenação do programa, independentemente de qualquer orientação minha.

Então, vocês continuam apoiando o casamento LGBT e apoiando a criminalização da homofobia…

Continuamos defendendo os direitos da população LGBT e o combate a qualquer atitude discriminatória. É só verificar no programa que, inclusive, tratava melhor do que o programa da Dilma e de outras candidaturas.

Aproveitando, acho que também é uma oportunidade de esclarecer a opinião em relação ao direito ao aborto, uma questão sempre polêmica…

Eu sou contra o aborto e tenho dito isso desde 2010. Aliás, tenho dito isso desde sempre, se acompanhar a minha trajetória no Congresso Nacional. O que eu não faço é satanizar as pessoas que têm uma posição diferente da minha. Obviamente que na questão do aborto, eu defendo que se faça um debate sem a satanização dos que são contra e dos que são a favor. Defendo que se faça um plebiscito para que o País possa fazer esse debate considerando aquilo que todos queremos. O que é que nós queremos? Que ninguém possa ter uma gravidez indesejada. Obviamente que acredito que ninguém deva fazer o aborto como uma forma de evitar, como um método contraceptivo. Nenhuma mulher deseja realizar o aborto e o que nós temos que ter são políticas públicas para que se tenha cada vez menos gravidezes indesejadas. E claro que já tem aquelas situações que estão previstas na lei, em relação ao estupro, em relação ao risco da mãe e das crianças que têm problemas encefálicos.

Em relação ao aborto, eu sou contra por convicções filosóficas, como muitas pessoas são, independente de questões religiosas. Obviamente que por minhas crenças religiosas eu não tenho uma posição favorável e eu acho que tem que ter políticas para evitar a gravidez indesejada. Não defendo que uma mulher que faz o aborto deva ser tratada como caso de policia. Ela tem que ser acolhida, amparada, porque já é uma situação excessivamente traumática para qualquer pessoa, e não caberia tomar uma atitude de prender uma pessoa que já esta passando por uma situação difícil.

Para você, qual o candidato mais forte que poderá enfrentar?

Essa decisão quem vai tomar é o povo, essa resposta só quem dá é o povo. Única convicção que eu tenho – e que inclusive aprendi com a minha fé – é que nem sempre os “Golias” são vencedores.

Concorda com a prisão do ex-presidente Lula?

Mais uma vez vamos evitar a “fulanização”. Eu concordo que a lei seja cumprida. A Lei Ficha Limpa e a decisão do Supremo que permite as prisões de segunda instância, é uma realidade que vem sendo aplicada no Brasil, e não pode mudar a realidade em função das pessoas, por mais ilustre que ela seja, por mais que a gente lamente. Quem é que fica feliz com uma pessoa com a trajetória do Presidente Lula, com um ex Presidente da República vivendo uma situação como essa? Agora, nós temos que ver o funcionamento das instituições: empresários ricos, políticos poderosos, quem quer que seja. A lei tem que ser para todos. Não podemos ter dois pesos e duas medidas. Isso não é uma lei para o Lula. É a Lei da Ficha Limpa para a sociedade brasileira, que deve ser cumprida com todas as pessoas, independentemente de ser popular ou impopular.

Algumas pesquisas indicam que se Lula por preso, você pode enfrentar Bolsonaro em um segundo turno. Como enxerga este cenário?

Eu acho que ainda é muito cedo. Estamos no começo desse processo. Eu não tenho tanta certeza de que será o Bolsonaro que irá para o segundo turno comigo. Vamos esperar o povo tomar as suas decisões. As pesquisas são importantes e é importante que sejam feitas. Mas o processo democrático é sempre surpreendente e eu estou convicta de que essa é uma eleição em que eu vou participar dela literalmente para oferecer a outra face, a face de falar com transparência, o que eu penso e no que eu acredito. Eu vejo que muitos, na época das eleições, têm um discurso para cada situação: se se reúne com os empresários faz um discurso para o mercado, se se reúne com os religiosos, faz um discurso para os religiosos, se se reúne com os movimentos mais a esquerda, faz o discurso para a esquerda. Eu não, eu prefiro falar o que eu acredito para que as pessoas, democraticamente, possam fazer as suas escolhas, sabendo exatamente em quem estão votando e porque estão votando. Eu acho que o Brasil – graças a Deus, ou pelo menos eu espero – já esgotou a fase da mentira, da hipocrisia. Eu acredito na tese de que ‘conhecendo a verdade, ela nos libertará’.

Bom, acho que não podemos deixar de falar da morte de Marielle. Queria escutá-la sobre essa morte brutal…

É o retrato da barbárie que está acontecendo no nosso País, infelizmente. Eu recebi com muita tristeza o que aconteceu. Eu não a conhecia pessoalmente, mas é algo que chocou a todos nós, porque na verdade ela assumiu ali um lugar dos que já tiveram a sua vida ceifada no anonimato.

Eu vi se repetir com ela a mesma coisa que eu vi fazerem com Chico Mendes e a irmã Dorothy, que foi tentar matá-la duas vezes. Eliminaram o seu físico e depois eliminaram – ou estão querendo eliminar – a sua honra, a sua história, a sua memória. E isso é o que há de mais cruel. Porque às vezes nos choca quando alguém é agredido fisicamente, é eliminado fisicamente. Às vezes, muitos têm a mente cauterizada e até a ética relativizada, quando se vê as pessoas sendo assassinadas em sua honra, em sua ética e massacradas pelas Fake News. E eu mais do que ninguém vivi isso das Fake News em 2014. Graças a Deus, está havendo uma consciência maior. Mas temos que ficar alertas.

O episódio de Marielle só nos alerta para uma coisa: é preciso tratar a segurança pública não apenas como um caso de polícia, mas como um caso de justiça, justiça econômica, social, cultural, de criar igualdade de oportunidade para as pessoas viverem com dignidade, de fortalecer a democracia, de não ter nenhum tipo de conivência com a impunidade. Porém não podemos ter uma visão de justiça como vingança, mas como instrumento de reparação.

Gostaria de saber se quer comentar sobre a polêmica postagem postada em sua rede social, que compara a série inspirada na Lava Jato “O Mecanismo” com a morte de Marielle…

Para mim não é uma polêmica. Postei um texto – que faz menção ao meu artigo publicado no Valor Econômico – junto com uma arte (era uma foto da vereadora Marielle Franco com os dizeres ‘sangue no mecanismo’). Essa arte, de fato, remetia ao filme, e não trazia uma ideia do “Mecanismo” como uma categoria sociológica, que era o meu entendimento. E como o filme traz outros aspectos – não tem verossimilhança e tem liberdade criativa – achei que as críticas em não fazer nenhuma ligação da vereadora com o filme eram procedentes.

Portanto, em respeito à memória de Marielle e também ao filme, resolvemos retirar a imagem e manter o texto da postagem, em que me refiro a um artigo de José Padilha, que mostra uma categoria sociológica muito relevante.

Ele fala em um mecanismo criminoso existente desde que elegemos os nossos dirigentes. Eu acho que é uma categoria sociológica que precisa ser investigada e, obviamente, que se não tiver mais esse nome de ‘mecanismo’ em função do filme, terá outro, que é o da corrupção institucionalizada. Eu me referia a isso. Essa corrupção institucionalizada leva à destruição de vidas, leva ao que aconteceu e que se traduz também na violência.

Eu queria saber quem faz parte do seu círculo hoje… Guilherme Leal, Eduardo Giannetti, Neca Setubal ainda fazem parte do seu círculo?

Olha, meus amigos continuam meus amigos e eles participam do processo político de acordo com a sua vontade. O Giannetti é meu amigo e está me ajudando no programa de governo, esteve comigo agora mesmo em um seminário em que iniciamos um programa de governo, e vai continuar ajudando, como economista, como filósofo, como pensador da realidade brasileira. A Neca e o Guilherme continuam meus amigos e cada um continua contribuindo, a sua maneira, para o processo político brasileiro. Ela como educadora e ele como alguém do processo socioambiental que criou, inclusive, uma instituição para ajudar a melhorar a qualidade da política de forma mais transversal…

Mas eles estão trabalhando diretamente na sua candidatura como o Giannetti?

Eles tomarão a decisão deles no momento em que acharem. O Guilherme já tem essa decisão de que ele não vai se envolver com partidos políticos, e isso ele disse desde 2011, quando saímos do PV. Não é novidade. Guilherme disse que aquela era a primeira e a última vez que ele iria participar. A Neca é uma educadora, ela deu uma contribuição partidária, mas o trabalho dela não é no campo partidário e ela tem o direito de retomar as suas atividades não partidárias.