Contardo Calligaris: a psicanálise e a explosão de Beirute
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Contardo Calligaris: a psicanálise e a explosão de Beirute

Morris Kachani

18 de agosto de 2020 | 15h21

Assista à entrevista: https://youtu.be/yuBhQnIfD90

Alguns dos meus leitores já sabem, os amigos de cor e salteado, que sou um árabe libanês judeu paulistano da gema, não necessariamente nessa ordem dos fatores identitários.

A verdade é que nunca soube o que vinha na frente. Os sentimentos de pertencimento e desenraizamento se confundem, ciclicamente.

Sou de Beirute, nascido em 68. Mas a mim nunca foi concedida a cidadania libanesa. Judeu, era considerado um cidadão de segunda classe. Não fomos reconhecidos ou melhor, fomos reconhecidos pela metade. E ainda assim, amamos com devoção aquela terra que é tão fértil e poética.

Já em São Paulo, que nos acolheu tão abertamente, vivemos através do Jornal Nacional o espanto da Guerra Civil que transformou Beirute em um queijo suíço. E Israel? Sabemos que Israel, no nosso íntimo, é nossa terra.

E de repente ocorre uma explosão que destrói metade de Beirute. Isso nos obriga a pensar: qual o significado desta explosão? Em termos subjetivos? Em termos objetivos? E onde entra o Brasil, contaminado não apenas pelo vírus, mas por um ciclo maldito de necropolítica e negacionismo?

Escolhi o psicanalista Contardo Calligaris, ele também imigrante, mediterrâneo, estrangeiro e na minha intuição, camusiano, para revirar este baú, como se fosse realmente uma consulta psicanalítica. Eu, o buscador das verdades. Ele, o oráculo de Freud.

“O Líbano foi um dos lugares em que conviveram milagrosamente o islã e o cristianismo, entre os anos 50 e 70. Um espaço de tempo em que dava para vislumbrar o que o Oriente Médio poderia ter sido”.

“Cristãos são jihadistas tanto quanto os muçulmanos; são religiões decididas a passar a ferro e fogo quem não se converter”.

“Fundamentalismo ainda é uma questão no Brasil”.

Não faço nenhuma diferença entre fundamentalismo evangélico e fundamentalismo islâmico.

“Eu parei com essa palhaçada há um tempo. Acho que um grande número de nossos evangélicos seriam felizes em criar um Estado evangélico parecido com um Estado islâmico. O fundamentalismo como tal é um dos nossos futuros possíveis”.

“Se o mundo daqui pra frente vai se parecer com a Síria dos últimos 7 anos ou o Líbano dos anos 50 a 70, é uma questão em aberto”.

“O comércio pode ser altamente civilizador. O Líbano foi um pouco isso. Porque na hora de você comercializar uma mercadoria você “esquece” que o outro é judeu, muçulmano, cristão, quem está comprando”.

“Antigamente, viajávamos de carro pelo Oriente com meu pai. Mas o mundo ficou menor. Hoje você não atravessa as fronteiras impunemente”.

“Em 2005 precisava decidir se ficava em NY ou se voltava a Sp. Decidi Sp, por várias razões. Achava que que minha vida seria mais animada aqui. E está sendo. Mas hoje em dia se pudesse fazer aquela escolha com sabedoria retroativa, provavelmente reconsideraria. Com muita tristeza, porque tenho muito carinho pelo Brasil, pelo que o Brasil poderia ser, e que me parece cada vez mais difícil”.

“Eu tenho uma alergia não a Israel, que eu acho um país tão mágico. Mas considero que não tem como criar um Estado moderno que seja confessional. Aí tem uma dificuldade de estrutura muito grande porque também não tem como imaginar que Israel não seja um Estado judeu. Mas é possível pensar que judeu não é apenas religião, e sim uma herança histórica. Talvez seja possível pensar em uma nação judaica que não se identifique com a religião judaica. Isso faz sentido porque acho que judaísmo é muito mais que religião”.

“Os árabes de Jerusalém Oriental com quem conversei e foram muitos, o que é  engraçado é que eles não trocariam a cidadania israelense por nenhuma outra do Oriente Médio. Isso é um fato curioso. Devem se sentir cidadãos de segunda classe em Israel, mas não trocariam a cidadania israelense. Será que isso é bom sinal? Não sei. Eu tenho a sensação de uma tremenda necessidade original e originária do Estado de Israel. Acho que existiu uma necessidade histórica da criação de um Estado judeu depois da Segunda Guerra, e acho que essa necessidade é imprescindível”.

Manter os palestinos como eternos refugiados não foi uma decisão apenas fundamentalmente de Israel.

Vejo a responsabilidade do Egito no manejo de Gaza e da Jordânia, que depois da Guerra de 67 optou por esse caminho”.

“Um judeu de Berlim em 1920 ia dizer que era alemão judeu ou judeu alemão? Um judeu de Túnis completamente integrado ia dizer que era judeu tunisiano ou tunisiano judeu? A grande questão é que o mundo árabe não é necessariamente só um mundo muçulmano. Uma coisa boa seria que os sentimentos identitários não passassem necessariamente pela religião”.

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