Coronavírus coloca Trump em desvantagem e Biden cada vez mais viável
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Coronavírus coloca Trump em desvantagem e Biden cada vez mais viável

Morris Kachani

23 de março de 2020 | 12h43

Por Isabella Marzolla

Eric BARADAT / AFP   e  REUTERS/Kevin Lamarque

Tudo parecia indicar uma reeleição de Donald Trump, no pleito marcado para novembro deste ano. A economia americana ia bem, com uma taxa de 3,5% de desemprego – a menor em 50 anos – e o processo de impeachment de Trump, que resultou em sua absolvição pela maioria do Senado, fez o nível de aprovação de seu governo subir 6 pontos (45%), em dezembro.

Mas em apenas duas semanas, o cenário mudou completamente.

A pandemia que até o momento [desta reportagem] já registrou 353.771 casos e mais de 15 mil mortes causadas pelo novo coronavírus (COVID-19), chacoalhou a economia mundial e afetou as prévias das eleições americanas.

Até a manhã de hoje os Estados Unidos contam com mais de 33.018 casos e 428 mortes decorrentes do surto de coronavírus no país.

A resposta tardia do governo americano à crise de saúde foi bastante criticada e explorada pelos adversários políticos, Sanders e Biden. Trump passou semanas minimizando a ameaça antes de declarar emergência nacional, na sexta-feira (13/03), sendo que o primeiro caso do COVID-19 nos EUA foi no dia 20 de janeiro.

Porém, ao contrário de Bolsonaro, Trump mudou de atitude. Em pronunciamento na terça-feira (17/03), informou as medidas que seu governo vai tomar em resposta à pandemia e explicou as dificuldades que o país vai enfrentar com uma economia paralisada.

As medidas incluem o envio de um pacote de 1 trilhão de dólares à Câmara, que prevê licença médica paga, seguro-desemprego e outros benefícios para trabalhadores afetados pela pandemia. Trump também embarcou em uma guerra de narrativa com a China, estigmatizando a pandemia ao se referir a seu agente causador como sendo o “vírus chinês”. E publicizou o cloroquina, medicamento que supostamente poderia agir no combate à doença.

Do lado democrata, temos na disputa o senador Bernie Sanders, auto-definido socialista, e o ex-vice-presidente do governo Obama, Joe Biden, um centrista.

Para entender como o coronavírus está influenciando as prévias americanas, conversamos com Vinicius Vieira, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Oxford e professor no MBA de relações internacionais da FGV.

Como o coronavírus vai afetar o discurso de cada pré-candidato?

A essa altura, para o Sanders conseguir ultrapassar o Biden, é impossível. Oficialmente ele ainda está na disputa, só que é muito difícil que ele consiga reverter a vantagem do Biden. Tem claramente hoje um espírito mais centrista e não necessariamente apenas entre os democratas – há também aqueles republicanos que se opõem ao Trump e vêem no Biden uma chance mais viável de derrotar o atual presidente.

Temos que pensar em como que o coronavírus impacta a parte dinâmica da campanha. Acho que boa parte das primárias fica um pouco de lado, inclusive em alguns casos em que houve mobilização para adiamento das votações -Ohio considerou adiar, mas acabou votando no dia 17, por exemplo.

Também é importante lembrar que tanto o Trump, quanto o Sanders e o Biden, são do grupo de risco, uma exposição deles a grandes comícios vai ser bastante complicada. Mas considerando que teremos um período de pico do coronavírus nos EUA agora, daqui a três meses, quando começarem as campanhas eleitorais, a pandemia já vai estar controlada; é o que os modelos estatísticos sugerem.

E o impacto para, o que eu diria, a elegibilidade dos candidatos, é de que há claramente uma desvantagem para o Trump. É aquela questão, por mais que a pandemia seja algo que foge do controle completo dos governos, quando há uma crise econômica de qualquer natureza a conta geralmente acaba caindo sobre eles. Então essa é uma desvantagem que o Trump não imaginaria até duas semanas atrás. Ainda mais porque os EUA demoraram para dar uma resposta à pandemia. Isso pode ser explorado politicamente e pode gerar uma raiva por parte dos eleitores, dependendo do número de mortos – ainda mais se houver mortes significativas nos Estados em que Trump ganhou as eleições de 2016; Wisconsin, Michigan, Florida e Pensilvânia.

Esses Estados do Rust Belt (cinturão de ferrugem), são regiões relativamente empobrecidas e com população de faixa etária mais elevada, o que aumenta o risco de casos fatais da doença. Então, talvez essas pessoas, não tenham acesso a um sistema de saúde tão robusto quanto o de outros Estados.

Esta já é uma grande desvantagem para o Trump e uma grande vantagem para o Biden, porque o Biden tem um perfil capaz de atrair um eleitor que lá em 2016 não quis votar na Hillary Clinton por estar cansado de “políticos com a imagem da Hillary”, políticos que supostamente são populistas e partidários das políticas identitárias, e que teriam deixado a classe trabalhadora branca americana distante. Foi esse processo que garantiu a migração dos votos e a vitória de Trump, um “novo político”, nas últimas eleições.

E a economia?

Outro ponto que vai impactar negativamente o atual presidente é a situação da economia. Uma economia em que a recuperação se dava principalmente através de empregos mais vulneráveis, de baixa qualidade. Em uma crise dessas, o cara que tinha arranjado um “emprego” precarizado, como motorista de uber, entregador, garçom, vai perder o emprego. O sistema americano não tem nenhuma cláusula, nenhum esquema nacional analógo à nossa CLT. Essas pessoas vão perder seus postos de trabalho e perder renda. Isso gera, naturalmente, um descontentamento nas urnas e Joe Biden vai explorar isso.

Em meio a uma crise global de saúde, uma questão forte que surge no debate público é a falta de um sistema único de saúde nos EUA.

A plataforma do partido democrata, acho que o governo Obama expressou isso muito bem, era dar origem a um projeto de sistema único de saúde. Há boatos de que o Roosevelt pretendia fazer isso, era a obra inacabada dele. A ideia dos EUA terem justamente uma cobertura universal de saúde.

Mas no caso do Biden eu duvido que ele venha fazer algo dessa maneira ou pelo menos ele não vai prometer isso na campanha. Isso porque ele tem medo de afugentar aquele eleitor republicano. Muitos americanos às vezes se opõem a uma intervenção grande por parte do Estado por uma questão filosófica.

A base americana tem uma suspeita muito grande sobre o Estado, qualquer poder do Estado sobre o indivíduo é visto, inclusive por alguns setores democratas, como uma interferência excessiva na vida das pessoas. E o Biden precisa desses votos mais centristas, desse pessoal que não está feliz com o Trump mas que ao mesmo tempo não é a favor de um Estado grande, e sim de um Estado enxuto. Ao contrário aliás, do que o Sanders propõe.

Bernie Sanders tem como um dos pilares de sua campanha, o programa Health Care For All.

A ideia de Health Care For All é associada ao socialismo, a uma revolução, ainda que não o seja. Eu pessoalmente não acho “comunista”. É algo que um país como os EUA poderia oferecer ao seus cidadãos. Mas as pessoas, novamente, vêem esse tipo de ação do governo como uma espécie de intromissão do Estado em suas vidas.

Entre o Trump e o Sanders – que se define como um socialista democrata – muitos centristas, no dia da eleição (3 de novembro), iriam preferir ficar em casa, favorecendo a reeleição do republicano, Donald Trump.

Mas se o candidato democrata– como tudo indica – for o Biden, ele teria capacidade de atrair esse eleitor centrista, que eventualmente está infeliz com Trump no poder.

O Biden tem um perfil conciliador e o Trump vai tentar correr atrás do prejuízo, do coronavírus.

O Trump está correndo para ver se essa vacina funciona…

Seria um grande trunfo na campanha. Mas de pouca valia no curto prazo, porque aqueles que sofrem economicamente não se deixam seduzir apenas por melhorias na saúde. Ademais, não é uma vacina ainda, mas um remédio para os convalescentes.

Apesar de ainda estarmos nas prévias, o cenário é mais favorável a Donald Trump ou a Joe Biden?

O Biden tem boas chances, a grande questão é chamar o eleitor branco da classe trabalhadora, que o Trump conquistou. Se o Biden conseguir virar esse jogo, ele se torna presidente, ainda que com uma margem pequena de votos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.