Criolo: “Sociedade não precisa entrar nesse túnel não, olha para o céu”

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Criolo: “Sociedade não precisa entrar nesse túnel não, olha para o céu”

Morris Kachani

07 de julho de 2020 | 10h43

Por Isabella Marzolla

Grajaú, São Paulo, 1975.

Kléber Cavalcante Gomes, filho de um ex-metalúrgico e uma professora cearenses, aos 11 anos escreve seu primeiro rap, trazendo à luz suas “subjetividades” dentro do arquétipo da cultura black de resistência. O traço melancólico o acompanha desde então.

Trinta e seis anos depois, em 2011 lança o “Nó na Orelha”, considerado o melhor álbum nacional daquele ano pela revista Rolling Stone, com o melhor single do ano, “Não Existe Amor em SP”, uma das músicas mais conhecidas de Criolo. Naquele ano ele decide aposentar o “Doido” de seu nome artístico, que fazia mais sentido nas rinhas e batalhas de rap que ajudaram a construir seu “Eu” atual.

Em 1º de outubro de 2018, veio a música e o videoclipe “Boca de Lobo”, que trazia uma retrospectiva do ano e reflexão política do Brasil. O clipe foi indicado ao Grammy Latino de 2019 como melhor vídeo em versão curta na categoria geral.

Agora, no ano da pandemia, Criolo está produzindo uma série de projetos musicais e humanitários. Criou seu próprio canal de streaming, o Criolo TV, onde recebe convidados para aprender e refletir sobre a cultura e arte popular brasileira, e no mês de maio iniciou a parceria com o grande Milton Nascimento, um “ser lindo e iluminado”, para produzir o EP “Existe Amor em SP”, com justamente, a regravação da música “Não Existe Amor em SP” e do single de Milton, “Cais”. O lucro do EP é revertido para famílias em situação de vulnerabilidade social na pandemia.

Criolo conversou com Inconsciente Coletivo na semana passada, em uma entrevista em que falou de racismo estrutural, das angústias do povo, e da arte. Um papo que traz reflexões ao “nosso Buda” interior, se tivermos um.

Todos os dias o povo tá mostrando seu som e promove mudança para o melhor, entende? Isso já está acontecendo, o povo já está falando: “sociedade não precisa entrar nesse túnel não, olha para o céu, olha para os lados, olha para quanta coisa linda somos capazes de fazer, não entra nesse túnel que vocês criaram que é um lugar claustrofóbico, que dá medo, é escuro e frio, onde ficamos perdidos, sem nossos sensores e nossas sensações de equilíbrio, de lugar, de se é dia ou noite e esperamos alguém nos mostrar um pontinho de luz e todos correm para lá.”

A arte é transformadora porque ela vem de um lugar muito especial de cada indivíduo. Eu entendo que cada ser humano tem sua construção, seu desejo, sua força, que é o tanto do seu “Eu” e o tanto desse coletivo que o cerca. Então a arte promove você perceber que está vivo, que você deixa sua marca, seu momento, seu olhar na história. Isso é de extrema importância.

O termo “distanciamento social” é um distanciamento físico, porque o social já existe.

A vida do jovem negro já foi lançada à sorte simplesmente por ele ser negro.

Existe a pandemia da maldade, existe a pandemia de normalizar atrocidades, assim como tentam normalizar o racismo. Dizer que ele não existe, criar uma série de situações para colocar povo versus povo. Mais uma vez a antiga história se repete.

O racismo para o homem negro é a pauta de todo dia, para o homem branco não.

O simples fato de você pensar diferente, de que roupa você usa, de quem você quer beijar, como você quer explicitar o seu amor já é um problema, existe uma série de coisas que automaticamente te transformam em um alvo.

Vão achar todos os tipos de adjetivos, todos os tipos de colóquios para diminuir essa dor e diminuir a questão. E vão botar o simplismo nos estigmas estabelecidos.

Quando você vive em uma massa humana em que a preocupação principal é a sobrevivência, isso molda totalmente o seu emocional.

Quando a gente cresce em um ambiente hostil como o Brasil, a angústia vem junto. Como não ter angústia? Quem está preocupado com a gente? As histórias que vivi com a minha família… Como eu posso enxergar a tristeza daquele que eu não vejo? Por isso precisamos gritar. A gente vai vivendo nessa panela de pressão gigantesca e parece que se você não gritar, se você não fizer algo muito gigante ninguém vai olhar para você, porque essa normalização o transforma em um ser invisível.

Você começou uma parceria com Milton Nascimento agora na pandemia chamada “Existe amor em SP”, com a regravação da canção “Não Existe Amor em SP”. Existe ou não existe amor em SP?

Essa resposta vem na proporção da urgência de cada momento de como a cidade respira e se reflete sobre realidades. Existem pessoas que têm empatia e pessoas que não têm. Agora, esses por quês é que são o grande lance.

Essa pandemia externaliza um número maior de pessoas a esse “novo”; do quanto a cidade pode ser acolhedora e do quanto a sociedade pode ser cruel com o seu cidadão.

Existem ações e pessoas que desenvolvem esse desejo solidário e mais humano porque já vem de outras referências ou do seu coração, do mesmo jeito que há pessoas que estão apáticas por alguma situação da vida ou de sua história, e não percebem a necessidade dessa troca mais afetiva, desse olhar mais humano.

A gente percebe o quanto a cidade se reconstrói, se redescobre, proporcionando coisas tão especiais. E percebemos o tanto de pessoas que não querem essas transformações, e que querem essa construção de progresso só para o seu grupo.

Você acredita que a pandemia e o vírus nos trouxeram uma “mensagem”?

A sociedade é acometida por uma desgraça que assola a todos, propondo-lhe uma doença que não tem cura e que te leva de um jeito muito rápido. O vírus traz só isso.

Agora o modo como cada um recebe as emoções que isso lhe perpassa, corta seu corpo – e para quem acredita em alma –, chega na sua alma e te faz refletir sobre você, seus valores e sua sociedade. É diferente. Isso é como cada um percebe seu olhar no espelho.

É uma sensação da chegada da morte, uma sensação de impotência diante de algo novo e que se apresenta e que você não tem poder. Isso mexe com o seu emocional, isso faz com que você enxergue ou não o mundo de modo diferente, faz com que você consiga perceber uma construção de sociedade e a fragilidade que é manter tudo isso acontecendo do jeito que está.

Essas sensações que visitam nossa alma e coração de um modo muito bruto são residências emocionais e fazem cada um lidar com esse “novo” [normal] e buscar suas próprias investigações.

Você acha que iremos sair mais conscientes e empáticos da pandemia?

Como as pessoas vão sair a gente não sabe, mas nós entendemos o tamanho do que está acontecendo.

Quando você é visitado por uma transformação de cotidiano que não parte de você, de que você não é dono, como por exemplo essa “parada no tempo”, dessa parada na “roda viva” e percebe que não tem como conduzir, isso é muito mais forte.

Sabe aquela brincadeira de criança em que você pega um pneuzinho ou uma roda em um ferro velho e uma vara e fica brincando com a rodinha? A criança faz daquilo um brinquedo, esse círculo que gira e ela tenta conduzir. A brincadeira é achar o equilíbrio daquela roda viva que está a tantos passos à minha frente, em que eu tento não me perder. E quando eu não tenho nada disso, como eu faço?

Não dá para saber como as pessoas vão sair, mas existe uma massa global se questionando e questionando a sociedade que nós construímos. Talvez isso cause algum tipo de impacto. Agora, o que vai ser desse impacto vão ser as construções de empatia, de afetos, ou entender a importância do que anda faltando e procurar mudar essa realidade.

De que forma a arte resiste nesse momento da história do nosso país?

A arte é transformadora porque ela vem de um lugar muito especial de cada indivíduo. Eu entendo que cada ser humano tem sua construção, seu desejo, sua força, que é o tanto do seu “Eu” e o tanto desse coletivo que o cerca.

Até que chega o momento sublime do encontro total do seu “Eu”, que pulsa de um jeito mais forte, e que considera suas energias de bagagem de vida, bagagem cultural, de estrutura e de construção de pensamento.

Então a arte promove você perceber que está vivo, que você deixa sua marca, seu momento, seu olhar na história. Isso é de extrema importância.

A gente sempre quer se sentir vivo, a gente sempre quer se sentir parte de um todo e perceber que podemos mudar as coisas para melhor, que conseguimos desenvolver coisas lindas e especiais.

Por exemplo, nós [Criolo e Milton Nascimento] tivemos o “Existe amor em SP”, nós pegamos toda a energia do nosso encontro, todo o amor, toda a amizade que a gente tem e fizemos um registro musical sublime.

A gente transformou isso tudo e reverberou em afeto. Vamos transformar isso em um grande abraço e tentar construir algo.

É natural, na vida você tem uma lista de necessidades, uma lista de conduta e uma lista do seu “Eu” na hora em que você “bate o cartão”. Mas depois que começa a partida, é o seu “Eu” que guia o seu chute na bola.

O que você pensa sobre os movimentos antiracistas e antifascistas nas ruas brasileiras? O seu colega, o Emicida, se opôs ao movimento de sair às ruas literalmente nesse momento da pandemia. Qual a sua posição?

Toda luta por igualdade é de extrema importância, e a luta contra o racismo é de total importância.

Eu acho que o Emicida nos coloca para pensar em que ações tomar, de que modo lidar, sobretudo em uma situação pandêmica.

A sociedade brasileira tem algumas questões de construção que normalizam uma série de situações, dentre elas o racismo.

A gente vai vivendo nessa panela de pressão gigantesca e parece que se você não gritar, se você não fizer algo muito gigante ninguém vai olhar para você, porque essa normalização o transforma em um ser invisível.

O Emicida só quer que menos pessoas morram porque ele não aguenta mais ver o povo morrendo. As pessoas que foram às manifestações também não aguentam mais ver o povo morrendo.

Parece que as pessoas não percebem o tamanho do racismo. A vida do jovem negro já foi lançada à sorte simplesmente por ele ser negro. E falar isso incomoda tanto algumas pessoas que não conseguem entender, ou entendem, e viram as costas para essa realidade, para o quanto isso é real, porque elas enxergam do ponto de vista em que elas vivem.

Isso é fato histórico de como tudo “isso aqui” [Brasil] foi construído. O simples fato de você pensar diferente, de que roupa você usa, de quem você quer beijar, como você quer explicitar o seu amor já é um problema, existe uma série de coisas que automaticamente te transformam em um alvo. Mas a cor da pele, ela vem ligada – quando falamos de um racismo estrutural – à formação da sociedade brasileira, isso mexe com a política, com a economia. Foram 300 anos de escravidão.

E no meio de uma pandemia, uma população que já é alvo se “joga” mais uma vez e luta contra o medo da morte para gritar “parem de nos matar”, encarando a possibilidade da morte vezes dois. Vezes dez, vezes mil. Vezes um bilhão.

Vão achar todos os tipos de adjetivos, todos os tipos de colóquios para diminuir essa dor e diminuir a questão. E vão botar o simplismo nos estigmas estabelecidos.

O ser humano é descartável no Brasil pandêmico?

Existe a pandemia da maldade, existe a pandemia de normalizar atrocidades, assim como tentam normalizar o racismo, dizer que ele não existe, criar uma série de situações para colocar povo versus povo. Mais uma vez essa antiga história que se repete.

Aqui no Brasil o currículo tem que vir com foto, e isso diz muito.

Qual a ideia por trás do Criolo TV?

É uma tentativa de aprender coisas juntos, de refletir. Eu tenho esse desejo de sempre ter conversas necessárias, mil coisas que estão acontecendo urgentes e emergentes, e poder ter espaço para falar sobre isso. Ouvir algumas pessoas é mágico.

Eu lembro de uma professora de história, quando ela passou um documentário para mim em 91 ou 90, “Ilha das Flores”. Nossa, aquilo mudou minha perspectiva. E mesmo eu morando numa pobreza, em um barraco, em um sofrimento danado, eu tinha catorze para quinze anos de idade e caramba, meu Pai do céu, aquilo mexeu comigo demais. Então a “visita” de ter pessoas falando coisas assim é transformadora.

Em uma outra semana eu assisti um documentário, que está no DVD dos Racionais, sobre a raça negra em São Paulo e a importância dos bailes black como lugar de construção. Eles eram pontos de encontros de dança e pontos de encontro políticos, de você saber como estava a “quebrada” do outro irmão e o que eles estavam fazendo para melhorar. As pessoas se fortaleciam nesses encontros porque tinha uma troca de ideias.

Assisti “O Menino e o Mundo”, com a trilha sonora dos Barbatuques e do Emicida e o filme sobre o Nelson Triunfo.

O canal é um espaço de expressão, de cultura e de irmandade. A gente “tá no baguio” bem antes de algumas esferas da sociedade chegarem no “baguio”, mas todos são bem-vindos. Quando a luta é para desenvolver a nossa energia em comunhão contra o racismo, estamos todos aí. Vamos juntos.

Você assistiu o Silvio Almeida no Roda Viva, do dia 22 de junho?

Uma pessoa incrível e que só foi no Roda Viva agora, por quê? Há quantos anos esse pensador já poderia ter sido convidado para o Roda Viva? O racismo para o homem negro é a pauta de todo dia, para o homem branco não. O racismo é pauta emergencial no Brasil desde sua existência.

Eu me incomodo com quem quer por povo versus povo, isso é uma crueldade. Isso não se faz.

Vamos ver se quando passar isso tudo, essa pauta vai continuar. Como o próprio Silvio falou, não existe democracia com racismo. Nunca vai existir país enquanto existir desigualdade social.

Em entrevista para o Bial, junto com Milton Nascimento, você disse que “Os homens são quebráveis e a arte é eterna”.

A gente tem muita coisa para aprender e aquilo de bom que a gente constrói pode ficar para sempre. A arte sempre dá um jeito de mostrar para o mundo as nossas possibilidades, e isso é eterno.

Quando você escuta a voz da Elis Regina, você vai se emocionar. A gente fica até sem ar quando escuta a voz de um Milton Nascimento, Margareth Menezes, Alcione. Você vai sentir uma coisa passando.

Ou quando vai aos blocos afros e ouve a força das vozes daquelas mulheres negras que cantam suas histórias e perpetuam a energia da força preta brasileira, você nunca vai se esquecer. É isso que mantém a cultura viva, isso que mantém vivo o conjunto de subjetividades que fazem com que você automaticamente se depare com o jeito de encarar a vida.

No lançamento do seu álbum “Nó na Orelha” em 2011, você disse em uma entrevista para a Trip: “sempre fiz tudo por amor ao rap e por uma vontade muito grande de contribuir. Eu cantava porque tinha necessidade de expressar uma dor que eu sentia, e ela perdura até hoje.” Que dor é essa? Você ainda a carrega?

Quando a gente cresce em um ambiente hostil como o Brasil, a angústia vem junto. Quando você tem um pai tão amoroso e maravilhoso como o meu e vê ele viver em uma pressão… Dependendo do lugar que entro, o segurança vai seguir meu pai ou eu, pela nossa cor. Então não tem como a angústia ir embora.

Quando você vive em uma massa humana em que a preocupação principal é a sobrevivência, isso molda totalmente o seu emocional. “Tem que bater cartão, filhote”.

Dependendo do período em que você viveu, se alguém te para na rua e você não está com a carteira assinada, pode ir para a cadeia, você é um vagabundo, “pode bater na cara dele”. Como não ter angústia? Quem está preocupado com a gente? Histórias que vivi com a minha família.

Aproveitando a referência de um de seus álbuns; em tempos como estes precisamos “convocar nosso Buda”. Qual o seu?

Todos temos dentro de nós uma força muita linda de gerar amor, que nem sempre é alimentada. Quase sempre somos testados.

A gente nunca sabe quando “convocamos nosso Buda”, mas falar sobre fortalecer o nosso emocional e essa sensibilidade que passa, saber que eu tenho que alimentar aquilo que eu tenho de positivo, já é uma maneira de fomentar nossas esperanças.

Uma reflexão minha, que eu tenho pensado muito. O termo “distanciamento social” é um distanciamento físico, porque o social já existe. Como uma sociedade permite que pessoas vivam abaixo da linha da pobreza? Já permitiram. Um país que permite que as pessoas morram na fila do hospital público e ainda diz que a culpa é do próprio povo.

Como eu posso enxergar a tristeza daquele que eu não vejo? Por isso precisamos gritar.

Há uma luz no fim do túnel para os brasileiros?

É um longo caminho.

Todos os dias o povo tá mostrando seu som e promove mudança para o melhor, entende? Isso já está acontecendo, o povo já está falando: “sociedade não precisa entrar nesse túnel não, olha para o céu, olha para os lados, olha para quanta coisa linda somos capazes de fazer, não entra nesse túnel que vocês criaram que é um lugar claustrofóbico, que dá medo, é escuro e frio, onde ficamos perdidos, sem nossos sensores e nossas sensações de equilíbrio, de lugar, de se é dia ou noite e esperamos alguém nos mostrar um pontinho de luz e todos correm para lá.”

Tem algo a acrescentar, acha que disse tudo?

Acho que eu não disse nada e só tenho a agradecer.

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