Sérgio Abranches: crise da pandemia pode levar a escalada autoritária
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Sérgio Abranches: crise da pandemia pode levar a escalada autoritária

Morris Kachani

24 de março de 2020 | 13h19

Foto: Wilton Junior

Sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de, entre outros livros, “Presidencialismo de Coalizão – Raízes” e “Evolução do Modelo Político Brasileiro”, teme que a instabilidade sirva de pretexto para que Bolsonaro radicalize as ações de GLO (Garantias da Lei e da Ordem), e acabe levando a um aumento do autoritarismo e do controle militar na sociedade. “Ele já fez isso agora, com a MP em que reduz a resposta à lei de acesso a informação. Ele não quer ser obrigado a dar informação para a população”.

Aqui os principais trechos da entrevista. E a seguir, a íntegra da conversa.

“A recessão é inevitável, e a crise social também parece ser, porque o governo não sabe ou não deseja, atingir a população mais vulnerável. É muito difícil que não haja um aumento considerável da insatisfação social. Esse é o pano de fundo que vai dar a dinâmica da política daqui pra frente”.

“A qualidade de um governo tem efeito sobre o avanço da doença e isso é percebido pela população. Bolsonaro já desarticulou o grau mínimo que reunia toda a direita em torno de um projeto político que ele estava representando”.

“Doria está aproveitando os erros do Bolsonaro e o vazio deixado por Bolsonaro, e mostrando que tem uma postura mais estadista e solidária com a população. E assim vai ocupando o espaço da centro direita, que está ficando vazio”.

“Se os pobres ficarem sem capacidade de abastecimento formal, seja porque chegam depois dos ricos ou porque não têm dinheiro suficiente e a economia não está rodando, com certeza a gente vai ter uma convulsão social”.

“Temos uma esquerda completamente desarticulada, no Brasil e no mundo. Faltam propostas novas, estamos no século 21 e a esquerda parece continuar propondo ideias do século 20. É preciso se criar uma nova via progressista, redistributivista, igualitária e libertária. É preciso se libertar dos cânones da esquerda tradicional porque essas soluções não fazem mais sentido. No caso brasileiro, vivemos uma situação sem uma oposição vocal forte, com proposta para catalisar essa insatisfação. Essa insatisfação portanto tende a ser mais desordenada, sem uma liderança”.

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Antes de mais nada, gostaria de ouvir uma visão sua de contexto sobre os panelaços que estão acontecendo.

Os panelaços são um sinal antecedente, eles mostram uma insatisfação crescente que já atingiu um nível a partir do qual as pessoas se sentem motivadas a se manifestar claramente. Em circunstâncias normais, ao panelaço se seguem as manifestações de rua. Com a quarente imposta pelo coronavírus é provável que isso não aconteça. Então a tendência é os panelaços se intensifiquem daqui para frente.

Este é um processo em que Bolsonaro vai perder forte e rapidamente todo apoio que tem. Ficará apenas apoiado pelos mais fanáticos e radicais. Com a inevitável recessão e a crise social decorrente inclusive da falta de ação do governo, ele vai perdendo cada vez mais o apoio.

E a população idosa?

Li em uma pesquisa mostrando que dos 35% que o apoiavam, o maior percentual era do pessoal mais velho, com mais de 65 anos. Esse é o pessoal mais vulnerável ao surto epidêmico. Há um temor crescente nessa faixa etária, e à medida que não aparece uma ação efetiva pra conter isso, a frustração só vai aumentar.

A recessão é inevitável, e a crise social também parece ser, porque o governo não sabe ou não deseja, atingir a população mais vulnerável, sem cadastro nenhum, esse pessoal que só com uma renda universal mínima poderia ser alcançado. É muito difícil que não haja um aumento considerável da insatisfação social. Esse é o pano de fundo que vai dar a dinâmica da política daqui pra frente.

Os panelaços começaram nos bairros de classe média.

Pois é, porque nos bairros de classe média a informação chega primeiro, e Bolsonaro teve muito apoio nessa classe média. Mas esse apoio está se desfazendo. E essa tendência vai chegar nas classes mais populares. Aqui no Rio, em vários bairros de classe média baixa, tipo Meier e São Gonçalo, teve muito panelaço. Isso vai se espalhar, é uma consequência inevitável da insatisfação crescente.

Quem são as pessoas que estão batendo panela?

Com certeza tem uma parte da classe média que votou no Bolsonaro e está batendo panela. Porque Bolsonaro frustrou parte de seu eleitorado, ele não entregou o que prometeu. Prometeu acabar com corrupção mas cultiva o nepotismo, e os problemas econômicos, que ele prometeu solucionar, pioraram e vão piorar mais ainda.

Qual a parte da população que ainda está com ele? São os soldados, os policiais. Esse pessoal que concorda com medidas que não têm nada a ver com a área econômica, como porte de arma ou repressão mais forte no contexto da violência urbana.

Mas mesmo nessa camada Bolsonaro tende a perder apoio progressivamente, por causa da crise econômica.

A classe média que abandonou Bolsonaro é a classe média de funcionários de mais alta renda que votou nele e agora aparece frustrada com sua incompetência.

Quando essa gente abandona o governo e começa a bater panela, é sinal de que?

Desde o começo de sua gestão, uma das questões é a viabilidade da duração do governo Bolsonaro. Todas as possibilidades montadas com um modelo mais analítico, indicariam que ele não tem chance de finalizar o governo. Mas o problema é que os modelos não estão funcionando, nós vivemos uma situação muito inédita e singular.

A polarização de 2018 fugiu completamente do esquadro das polarizações anteriores, sobretudo da polarização PT-PSDB. Com esse excepcional agravamento da crise econômica e social, tudo indicaria que as condições de governabilidade estão se esgotando.

Fala-se em perda irreparável do capital politico.

Sem a menor sombra de dúvida, essas perdas não são recuperáveis, elas são derivadas da frustração com a incompetência, com a ineficácia e a inépcia. Tem um problema de estrutura de personalidade e de governo. Não tem volta.

Por outro lado, quando há uma crise econômica de qualquer natureza a conta geralmente acaba caindo sobre os governos, não?

Sem dúvida. Mas há reações de governo mais eficazes que outras. Compare-se os EUA com a Itália, por exemplo. Na Itália, foi apenas no décimo sexto dia após a centésima morte que se adotou o confinamento. Nos Estados Unidos, não. E no décimo oitavo dia os EUA ultrapassaram a Itália, em termos proporcionais.

Isso mostra que alguns tipos de ação governamental têm efeito sobre o volume do contágio.

Nos EUA o sistema de saúde está totalmente despreparado para emergências coletivas. Ele é totalmente privatizado. Veja o caso da Alemanha, que tem adotado medidas mais eficazes e precoces. Seu desempenho é melhor que Itália e EUA. Ou seja, a qualidade de um governo tem efeito sobre o avanço da doença e isso é percebido pela população.

É verdade que a queda da atividade econômica tem efeito direto sobre a popularidade de um governo. Mas veja, os governadores dos Estados estão agindo melhor do que o presidente, e as pesquisas mostram que a população entende isso, porque ela aprova mais os governadores do que o presidente.

É um desalinhamento da direita, portanto.

 Bolsonaro foi se isolando inclusive da centro direita mais gelatinosa e difusa que forma o centrão do Congresso, e ao mesmo tempo houve um atrito com a centro direita mais organizada, representada por Maia e Doria. De fato Bolsonaro já desarticulou o grau mínimo que reunia toda a direita em torno de um projeto político que ele estava representando.

Doria tem ganhado protagonismo.

Doria sabe fazer isso muito bem, ele está aproveitando os erros do Bolsonaro e o vazio deixado pelo Bolsonaro, e mostrando que tem uma postura mais estadista e solidária com a população. Doria divulgou o exame dele, coisa que Bolsonaro nunca fez. Ele explica medidas que seu governo está tomando, e conversa com a população de uma forma mais cordial.

Bolsonaro não, com ele é sempre aquela coisa tensa, ofensiva, ele odeia os jornalistas. Acaba criando oportunidade para lideranças como o Doria ocuparem o espaço da centro direita, que está ficando vazio.

Há risco de convulsão social?

Corremos esse risco sim. Especialmente se o abastecimento ficar comprometido, sobretudo com relação à população mais pobre. Porque o problema não é sé ter oferta e volume de produção, o problema é a capacidade distribuitiva que permita acesso de todos a comida.

Muitos estudos sociológicos mostram que quando você tem uma crise grave, desse tipo que estamos vivendo, as pessoas entram com o medo de ficarem desabastecidas. Tem uma corrida dos ricos aos supermercados, que acabam comprando muito mais do que são capazes de consumir. Essa estocagem dos ricos faz com que não sobrem alimentos para os pobres. Isso produz em alguns casos tragédias como acontecem na Etiópia recorrentemente, de mortes em massa e tal.

Se acontecer coisa semelhante aqui no Brasil, se os pobres ficarem sem capacidade de abastecimento formal, seja porque chegam depois dos ricos ou porque não têm dinheiro suficiente e a economia não está rodando, com certeza a gente vai ter uma convulsão social.

Nos já tivemos isso nos anos 70, situações de desabastecimento que produziram saques. No Plano Cruzado também. Isso é mais ou menos inevitável, porque o desespero acaba levando as pessoas a esses atos extremos.

E o que esperar das polícias neste momento?

 Tem que ver como cada governador vai se comportar.

Meu temor é outro, é que esse tipo de coisa sirva de pretexto para que o Bolsonaro radicalize as ações de GLO (Garantias da Lei e da Ordem), e acabe levando a um aumento do autoritarismo e do controle militar na sociedade. Ele já fez isso agora, com a MP em que reduz a resposta à lei de acesso a informação. É um escândalo autoritário, porque não tem nada a ver com essa emergência. Trata-se de um contrabando autoritário e oportunista, se aproveitando de uma crise. Ele não quer ser obrigado a dar informação para a população.

Então para mim o risco maior sempre está na figura do Bolsonaro. Na sua compulsão autoritária, e no fato de que tem muitos generais que a despeito de todo descalabro que ele já cometeu – todos absolutamente inaceitáveis, crimes de responsabilidade, ofensas a sociedade, inépcia etc -, os generais continuam apoiando e fazendo parte do governo. Isso que me preocupa.

Mas existe uma chance real de prosperar esse tipo de autoritarismo, ou o governo está ficando enfraquecido?

Acho que existe esse risco sim, e quanto mais fraco o governo e maior instabilidade social a gente tiver, mais aumenta o risco de que Bolsonaro tente uma coisa dessas. Pode ser que não consiga, mas com relação ao impulso autoritário dele eu não tenho dúvida nenhuma.

E a oposição?

O PT vive sua própria crise, dividido sobre o que fazer, depois de ter sofrido pancadas muito duras. Em partidos com lideranças fortes como o Lula, é relativamente normal que não se criem novas possibilidades. É quando o tamanho de uma liderança projeta uma sombra sobre as lideranças novas. Nem sei se isso é voluntário, mas é o que acontece.

De toda forma, temos uma esquerda completamente desarticulada, no Brasil e no mundo. Faltam propostas novas, estamos no século 21 e a esquerda parece continuar propondo ideias do século 20. É preciso se criar uma nova via progressista, redistributivista, igualitária e libertária. É preciso se libertar dos cânones da esquerda tradicional porque essas soluções não fazem mais sentido.

No caso brasileiro, vivemos uma situação sem uma oposição vocal forte, com proposta para catalisar essa insatisfação. Essa insatisfação portanto tende a ser mais desordenada, sem uma liderança.