Deus e o diabo na avenida Paulista
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Deus e o diabo na avenida Paulista

Morris Kachani

27 de maio de 2019 | 09h57

Foi importante descer às ruas na tarde deste bonito domingo outonal, rodar pela Paulista, em um esforço sincero de sondar as mentes e os corações de quem decidiu participar da manifestação contra, para retomar um bordão da campanha, “tudo que está aí”.

Caramba, 5 trios elétricos. Havia muita gente, e de muitos lugares diferentes. A primeira constatação é de que este governo, na sua versão mais raiz e aguerrida, conta com um contingente considerável de apoiadores. As estridentes redes sociais do presidente e seus filhos, mostrando sua cara.

Maia virou o vilão, símbolo máximo do Centrão, entidade do mal. STF merece CPI. E até o MBL, quem diria, emerge agora como golpista, ou “tchutchuca do Centrão”, como se lia em um cartaz.

Não há nuances, espaço para o meio termo. Se o movimento que até ontem ajudou a eleger este governo, decide retirar apoio a esta manifestação, propondo um pacto de governabilidade, ele já é visto como inimigo mortal.

“Quem não está comigo, está contra mim”. Isso é Mateus?

Nesta narrativa, justamente, Moro e Guedes são os heróis e o Brasil, ingovernável. Tinha gente circulando com a camiseta “Olavo tem razão”…

De fato, mais brancos do que a média. Gente honesta, estudantes, trabalhadores. Pais, mães, filhos pequenos, aposentados. Turmas de jovens. Evangélicos. Ricos, pobres. E talvez principalmente, uma classe achatada, nem tão rica, nem tão pobre, amedrontada com as questões de segurança, indignada com a burocracia que recai sobre quem empreende, insultada com a licitação da compra de lagosta, lutando por melhores serviços públicos que lhes custam os olhos da cara.

Esta uma pauta universal, de todo brasileiro que se preze. A diferença talvez, é de que para estes que ontem foram à Paulista, Bolsonaro é a solução. Bolsonaro é o mito. Tem Messias no seu nome.

O sentimento predominante era de indignação. A atmosfera, de ninguém muito a fim de abrir mão dos próprios princípios, mesmo que para isso fosse necessária a truculência.

Muita gente vestida de verde e de amarelo. A incômoda apropriação da bandeira nacional como símbolo do movimento. A camisa da seleção, sempre. Houve a cantoria do hino nacional. Como nos estádios da Copa, em 2014.

Penso no ano anterior, 2013, e em um artigo recente que li, dizendo que, por mais que a intenção fosse outra, foi dos protestos capitaneados pelo Movimento Passe Livre que nasceu o bolsonarismo mais renhido. Sempre achei que o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, também cumpriu esse roteiro. Transformou-se em herói para muita gente, e desconfio que José Padilha e Wagner Moura não imaginavam que fosse ser assim.

Falando em cinema, topei com duas cenas na Paulista impressionantes. A primeira me remeteu aos filmes de Glauber Rocha. De repente, devagar no seu andor cambaleante, passa um vulto queimando um cachimbo de crack, como um zumbi desfalecido, com o olhar vazio. Bem na frente do prédio do IMS, de onde se podia escutar, desde a calçada, uma animada roda de samba. Quanto contraste.

Alguns passos adiante, diante da igreja São Luís, uma roda de pessoas fazia uma oração a meio tom, com fervor. Jovens na maioria. Uma moça, envolta na bandeira do Brasil, agarrada às grades, parecia chorar. No meio do grupo havia um morador de rua, os pés descalços. Será que já não vi essa cena em algum filme do Cinema Novo?

E acima de todas as cabeças, em totens por toda a extensão da avenida, as fabulosas charges políticas e de costumes da Laerte e de Angeli, sugerindo em primeiro lugar a volta dos valores ultrapassados. E a lembrança sempre necessária, de que Deus e a bandeira, e também a pauta de indignação, pertencem não a este ou aquele movimento, mas a todos.

 

 

 

 

 

 

 

 

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