Diário de Barão de Cocais
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Diário de Barão de Cocais

Morris Kachani

30 de maio de 2019 | 17h27

Como integrante do pequenino staff do único periódico local, o Diário de Barão, o jornalista Felipe Jacome, de 30 anos, vem cobrindo in loco e desde o início, os sinistros acontecimentos em Barão de Cocais, município mineiro cuja existência está ameaçada pelo risco iminente de rompimento da barragem da mina de Gongo Soco.

Felipe é natural de Itabira, terra natal não só do poeta Carlos Drummond de Andrade, como também da própria Vale, que nasceu e cresceu da exploração de suas reservas ferríferas, para depois expandir a atividade por toda a região – Itabira está a 70 km de Barão de Cocais.

Foto: Felipe Jacome

O ensaísta José Miguel Wisnik, autor de livro acerca das relações da obra de Drummond e a atividade mineradora, comentou em entrevista recente:

“Para Drummond, a companhia fazia questão de ignorar a sua dívida de origem com o lugar que explorava. Em poemas, crônicas e artigos polêmicos, dizia que a Vale primava por ignorar programaticamente os danos que provocava”.

“Drummond dizia que os lucros crescentes da empresa em plena expansão não retornavam minimamente em benefício da cidade. Que, se a companhia era responsável por 70% dos empregos de Itabira, as jazidas de Itabira eram responsáveis por 100 % da riqueza da Vale”.

“Que a mineração, além de destruir modos de vida, era uma ‘indústria ladra’ que tira sem repor, que devasta e abandona os lugares que explora, partindo sempre para novos alvos num processo incessante de ‘destruição criativa da terra’”.

Por um lado, o objetivo desta entrevista foi de tentar capturar a atmosfera de ansiedade e apreensão, para não dizer desespero, entre a população local de Barão de Cocais. O “inconsciente coletivo” propriamente. Felipe tem interagido diariamente com inúmeras situações de limite.

Mas havia um outro interesse também, de relatar como a Vale tem gerido este momento complexo. Se as coisas mudaram dos tempos de Drummond para cá. Se as lições de Mariana e Brumadinho foram aprendidas.

Afinal, em Barão de Cocais, pode se dizer que a empresa se antecipou com relação à tragédia. Já é alguma coisa.

Mas em que medida estaria ela oferecendo suporte à comunidade?

Nos manuais de governança corporativa, existe um termo em inglês atualmente tratado como se fosse regra de ouro. É o compliance. A grosso modo, significaria o comprometimento de uma corporação com relação às normas éticas de conduta, tanto no âmbito interno como externo. Uma proposta de conformidade, de transparência.

Vejamos pois, o que Felipe tem a dizer sobre a Vale neste contexto. Acompanham a entrevista algumas fotos feitas por ele próprio ao longo destes meses todos de cobertura jornalística.

E antes de seguir adiante, o blog manifesta aqui o desejo de ouvir a própria Vale a todo esse respeito. O espaço para o diálogo está aberto.

***

Você está vendo in loco as coisas.

Eu estou acompanhando desde o primeiro alarme. Desde o dia 8 de fevereiro, quando foi tocada a sirene e pegou o pessoal de surpresa, no meio da madrugada, no meio da noite.

Você é de Itabira, terra do Drummond.

É, ele era… é ainda um dos maiores críticos, porque eu acho que até hoje ninguém ainda conseguiu superar ele nesse sentido. Usar a poesia para criticar a mineração.

O seu olhar também é crítico?

Sim. Principalmente porque, desde que isso tudo começou a acontecer, a Vale só se pronuncia através de notas. Não existe um diálogo com a imprensa, com as pessoas que levam a informação. Por exemplo, no jornal local a gente fala com a comunidade aqui de Barão de Cocais já tem 6 anos. É o único veículo de comunicação diário que existe na cidade e simplesmente não existe diálogo da Vale conosco nesse sentido. Tudo o que chega, só chega por meio de nota. E é assim com todos os jornalistas.

Não existe diálogo da Vale. Tudo o que chega, só chega por meio de nota. É assim com todos os jornalistas.

Eu convivo com a Vale desde que nasci, porque a cidade que eu moro é praticamente uma mina a céu aberto. Desde sempre eu percebo essa característica da empresa.

Como se dá essa comunicação através de notas?

Quando dá a informação, a empresa dá de forma errada. Por exemplo, a Vale divulgou uma informação dizendo que o talude (parede de contenção) tinha um prazo para cair. Depois de dois, três dias, eles mudaram esse prazo de queda. Depois que acabou o prazo que eles deram, aí já se fala agora que não vai cair, que vai se acomodar. Então, assim, é uma luta na verdade para a população.

A Vale, estritamente, como está sendo a relação dela com a comunidade? Como ela está atendendo, o que ela está entregando?

Há dois tipos de atingidos: aqueles que saíram primeiro do entorno da mina, que saíram de suas casas. São cerca de 450 pessoas e algumas ainda estão em hotéis, desde o dia 8 de fevereiro. A Vale se comprometeu a ressarcir essas pessoas, esses incômodos e tudo o mais, conseguindo colocar algumas em casas alugadas, mas até o momento não existe nada de concreto.

Existe um plano de ação?

Não tem ainda algo de efetivo. Por exemplo, na comunidade do Socorro, as pessoas criavam, eram produtoras rurais, viviam daquela terra. Apicultores, tinham muitos na região. Inclusive a gente teve informação de gente que precisava colher mel, mas não pôde entrar porque estava na área de risco e a única coisa que a Vale fez foi pagar uma indenização de pouco mais de 400 reais por mês, além das moradias. Ou seja, pessoas que tinham um nível de vida bem melhor, estão passando por esse problema de estar sem condições de ter aquilo que elas tinham.

E o outro tipo de atingidos?

O segundo grupo de pessoas a ser atingido em um caso de rompimento, são as pessoas que estão em áreas secundárias, mais próximas da região central da cidade. Salvo engano, são seis ou sete bairros atingidos em um total de 6054 pessoas. Essas pessoas estão vivendo o terror da lama invisível, porque sofrem todos os impactos psicológicos. São os ribeirinhos que moram às margens do rio. Algumas pessoas não estão conseguindo desenvolver suas atividades normalmente. Uma das derradeiras matérias que eu fiz foi justamente falando do alto índice de atendimento psicológico porque as pessoas realmente estão tendo um nível de angústia e ansiedade muito grande.

São seis ou sete bairros atingidos em um total de 6054 pessoas. Essas pessoas estão vivendo o terror da lama invisível.

Essas pessoas correm risco de vida ou é o rio que acabaria?

Elas correm risco de vida porque no caso de um rompimento da barragem, elas têm que evacuar, têm que sair de casa. Terão uma hora e dez minutos para isso. A determinação é essa.

Então tem que estar todo mundo o tempo todo esperto.

Todo mundo o tempo todo ligado. Tem gente que está dizendo que não dorme, tem gente que está mudando da cidade, mudando de bairro… é um clima que até para a gente, jornalista… eu por exemplo, não tenho família aqui, estou trabalhando há pelo menos nove meses, até eu tenho sentido esse impacto psicológico, essa pressão. É muito tenso, é um thriller mesmo, sabe? Todo momento é gente procurando notícia, é gente querendo informação, querendo saber o que vai acontecer…

Você pode dar um exemplo? Contar um ou dois casos?

Quando eu fui entrevistar a secretária de saúde do município, e a secretária de assistência social, elas relataram para a gente casos, por exemplo, de crianças precisando tomar medicação. Pais e mães de família com alto índice de angústia e ansiedade. Até a própria equipe de assistência social e da secretaria de saúde está em níveis de pressão tão grande, que também está tendo irritação, angústia, ansiedade, tristeza. Tá um clima, assim, muito forte nesse sentido.

Primeiro simulado, em 25 de março. Uma mãe chega ao ponto de encontro com filha de dois meses no colo. Foto: Felipe Jacome

Tivemos tentativas de suicídio no município. Uma inclusive registrada no dia do segundo simulado da Defesa Civil. Mas tanto a Polícia Militar, quanto a Defesa Civil, descartou relação nessa tentativa de suicídio com o caso do rompimento da barragem. No entanto, a avaliação que a gente faz é que tudo isso é um gatilho para essas coisas. Mesmo que não tenha uma ligação direta, a cidade está em um nível de tensão tão grande que… vou dar outro exemplo, a Polícia Militar não utiliza mais a sirene dos carros das viaturas nos atendimentos de ocorrência para não alarmar as pessoas.

A PM não utiliza mais a sirene dos carros das viaturas nos atendimentos de ocorrência para não alarmar as pessoas.

As pessoas correm risco de vida.

Na verdade não se sabe. O que a Defesa Civil fala para a imprensa e para as pessoas é que está trabalhando com o pior cenário. E o que seria esse pior cenário? Uma chuva decamilenar, um nível de chuva muito grande que faria a barragem vir abaixo. Mas eles trabalham também com o estudo de vir menos de 70% do que está dentro da barragem. Outra coisa que eles falam é da topografia do terreno, que a lama espalha, então assim, é aquilo que eu já disse. É a falta de informação concreta por parte da empresa para compartilhar estudos técnicos detalhados, que comprovem realmente, com exatidão, qual é o tamanho do estrago, qual é a velocidade da lama.

Você me fez uma pergunta: “existe a possibilidade de devastar?”. Existe, mas existe também a possibilidade de não ocorrer isso. Então é preferível que as pessoas realmente estejam mais apreensivas, porque nesse caso, qualquer coisa que acontecer, elas sairiam correndo. Melhor do que se tranquilizarem demais e acabarem se tornando vítimas.

Eu queria entender melhor o papel da Vale, se alguma lição foi aprendida depois de Brumadinho, de Mariana, ou a gente está vendo uma repetição de padrão?

Não posso te dizer com tanta propriedade, porque eu não acompanhei de perto da mesma forma que estou acompanhando a situação de Barão de Cocais. É diferente, são coisas distintas, Barão não teve o acidente, não teve a ruptura da barragem…

Mas a empresa está dando suporte para a população?

Não está. E não está dando suporte nem para o Poder Público. Por exemplo, a Prefeitura solicitou para a empresa que ela fornecesse assistente social, psicólogo, médico. Teve um aumento de seis mil atendimentos em relação ao ano anterior, 60% a mais, e a Vale não mandou um profissional até agora.

A Vale não deu suporte algum para essas 6000 pessoas?

Não, na verdade o que ela fez foi pagar hotel e pagar o aluguel de alguns residentes, entre aqueles 450 que foram evacuados no dia 8 de fevereiro. Das 6054 pessoas que estão aqui, algumas foram selecionadas – as pessoas com dificuldade de locomoção, acamadas, adoentadas. Com elas, a Vale fez a remoção. Primeiramente para um hotel e em um segundo momento para residências alugadas. Mas somente para essas pessoas que se enquadram nesse perfil.

Nada além disso? Nenhum comunicado? A empresa não se comunica com a população?

Pelo que eu vejo, não. Para a imprensa, apenas notas.

E nunca concederam entrevistas?

Até hoje eu vi uma só entrevista, para a Globo. Foi uma vez, quando veio um representante da empresa de uma superintendência de respostas rápidas, imediatas, alguma coisa desse tipo. Depois, não vi a Vale falando com mais ninguém, não.

Em outra ocasião, a Vale se fez presente diante da comunidade, para poder explicar como seria construído um muro de contenção. Mas foi amplamente vaiada, foi uma confusão a reunião.

E foi a única?

A única vez que eu vi a Vale ir diretamente à comunidade foi essa vez.

Foto: Felipe Jacome

E a prefeitura, como está?

O prefeito está literalmente desesperado. Teve uma reunião da CPI de Brumadinho aqui, feita pela Câmara dos Deputados, e o prefeito literalmente se ajoelhou na frente dos parlamentares e falou: “estamos sozinhos”. É o que eu explicava, a situação de Barão de Cocais é única, graças a Deus não teve morte, e tomara que não tenha. Mas as pessoas estão vivendo um clima de terror muito grande.

E entre a população, o que estão achando da Vale?

Desde quando a gente começou a cobrir essa história, a Vale é a que mais apanha, com razão. Toda a vez que a gente posta alguma coisa com relação a isso, a população cai matando. Reclama justamente dessa falta de responsabilidade da empresa com os moradores, com os comerciantes, com a prefeitura, está um nível muito grande de negligência, mesmo, por parte da empresa com relação a moradores, empresários e poder público, isto é evidente.

Qual o papel do jornal junto à população?

A gente agora está querendo mostrar também um outro lado da cidade. Os moradores estão muito incomodados com o sensacionalismo, então estamos tentando resgatar a auto-estima da população com um projeto de fotos que ilustram a cidade. Mostrar que a cidade não parou, que as pessoas têm fé, que continuam se movendo.

Qual sua impressão sobre a cidade?

Eu tenho a visão de quem não é daqui e eu digo que é um povo muito receptivo, um povo educado. A impressão que as pessoas têm de mineiro, dele ser fechado, não é errada, mas os daqui, ao contrário dos da minha cidade de origem, são mais abertos, são pessoas mais receptivas, bem humoradas, pessoas que têm um nível de abertura interessante.

De outubro a dezembro de 2018, foram feitos 11 mil atendimentos médicos e psicológicos na cidade. De janeiro até maio o hospital foram 17 mil atendimentos. Nem com a estrutura de atendimento psicológico a Vale ajuda?

A Vale faz atendimento emergencial. Quem pega o atendimento psicológico, mesmo, é a prefeitura. No dia do segundo simulado de emergência no município, a gente teve 38 atendimentos psicossociais, durante o simulado. A Vale faz esse atendimento emergencial. Mas o acompanhamento, o dia a dia, que dá muito mais trabalho, quem proporciona é o município.

Qual é a queixa mais corrente?

Angústia, ansiedade, insônia, pânico, depressão e alguns casos de tentativa de suicídio.

Pelo menos pela primeira vez estão identificando o problema antes… isso é uma coisa positiva, não?

É. É. Com certeza. Mas depende do ponto de vista. A Vale poderia ter evitado a queda do talude. Isso poderia ter sido evitado, todo esse pânico que foi causado na cidade. Se a empresa tivesse agido e percebido no tempo certo, seria diferente. Ela perdeu a chance, o tempo, de ter feito um trabalho técnico para poder evitar a queda do talude. Ela poderia ter feito a queda do talude de uma forma coordenada, em segurança, quando ele estava com menos velocidade, menos pressão.

No que consiste o talude?

A mina fica a 1,5km atrás da barragem. A cava da mina tem paredes formadas pela escavação. São rochas grandes, mesmo. Pesadas. Se o talude cai, está sujeito a gerar um abalo sísmico. Dependendo da proporção desse abalo, coloca em risco a barragem que já está num nível 3 de impacto, de nível de segurança, então o grande problema é o talude colocando em risco a barragem. Só que agora eles já estão dando uma previsão de que não haverá mais a queda brusca, de que o talude vai se acomodar.

Você chegou a visitar a mina?

Não, lá está bloqueado. O que torna nosso trabalho de reportagem mais difícil é falar de algo que a gente não vê, não conhece.

Tirando o fato da Vale ter identificado o problema antes de uma tragédia acontecer, no que a empresa acertou?

É difícil falar isso, não é que não esteja querendo amenizar para a Vale, mas vamos dizer assim, que a Vale simplesmente abandonou a mina aqui. Se ela tivesse acompanhado tudo, o mais provável era que poderia ter conseguido deixar a casa em ordem antes de ir embora.

A relação da população com a extração de minério de ferro, é de amor e ódio.

Ninguém melhor do que o Drummond para definir como funciona essa relação. Quem trabalha na empresa, a defende com unhas e dentes.

 

  • A Compensação Financeira por Extração Mineral (CFEM) varia entre 1,5% e 3,5%. Até 2015, quando a Vale anunciou o fechamento da mina de Gongo Soco, a arrecadação de Barão de Cocais girava em torno de R$ 95 milhões, segundo a prefeitura.
  • Desde então, a Vale destinou 100 milhões de reais a dez municípios mineiros impactados pela paralisação de minas afetadas pelo risco de rompimento de barragens. Deste total, Barão de Cocais ficou com apenas R$ 2 milhões.
  • Para a Vale descomissionar a barragem ou seja, secar a água e retirar o rejeito, o prazo é de dois a três anos.

 

 

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