Direita, esquerda, e até o centrão: a neurociência explica
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Direita, esquerda, e até o centrão: a neurociência explica

Isabella Marzolla

09 de setembro de 2020 | 13h50

Experimentos trazendo distintas reações ao nojo e preferências pessoais com relação à escolha de um pet sinalizam 5 perfis de eleitor e seus 8 anseios principais; especialista enxerga Bolsonaro bem colocado em 2022

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=jSiS9SQBV1c

Valendo-se de estudos, pesquisas e testes cruzados de neurociência, Luis Hanns, psicólogo pela USP e administrador de empresas pela FGV, com mestrado e doutorado pela PUC, afirma ser possível traçar os perfis do eleitor brasileiro (seriam 5 perfis distintos), com base nos anseios mais comuns da população (que são 8).

A partir deles, Hanns arrisca alguns prognósticos sobre as atitudes e valores que circulam pelo Brasil de hoje, e o que esperar das eleições de 2022.

“São cinco aspectos que as pesquisas têm mostrado que caracterizam melhor e permitem uma análise desses perfis psicogenéticos e culturais. O primeiro deles é referente à relação que o sujeito tem com a compaixão, com o altruísmo”, afirma.

“Eleitores mais à direita tendem a aplicar a sua compaixão e o seu altruísmo ao seu grupo de referência e têm uma grande prevalência da indignação ou raiva a aquele supostamente hostil ou que maltrata seu grupo. Os de esquerda são o inverso, eles tendem a ter uma compaixão que atravessa a classe social, atravessa a religião, atravessa a etnia, é mais generalizada, é uma compaixão que não é tão restrita ao seu grupo de referência”.

“A segunda camada é a noção de justiça e injustiça. Os eleitores mais à direita tendem a enxergar a justiça como uma questão de meritocracia e os mais à esquerda em como equalizar as vantagens e desvantagens”

“Um terceiro aspecto é a questão do pertencimento. Os eleitores mais à direita privilegiam a identificação com o seu candidato. O eleitor mais à esquerda é mais aberto a diferença, ele tem mais abertura para com o outro”

“Um quarto nível é a relação que o sujeito tem com a ordem, hierárquica. O eleitor mais à direita se sente mais confortável com um ambiente ordenado, organizado e estável. O eleitor de esquerda se sente mais confortável com um ambiente mais inovador, mais democrático, com menos hierarquia, mais participativo, mas também menos organizado”

“E por último o eleitor mais à direita tende a privilegiar uma ideia de virtude e pureza, então ele entende que a disciplina, a harmonia do grupo e os tabus são uma conquista social de autodisciplina que deve ser preservada. E os de esquerda são mais tolerantes ao hedoísmo, ao prazer, a menos regras de usos e costumes”

“Você vê isso em testes, neuroimagem. Há testes com cachorros, sensação de nojo e neuroimagem. Quando você oferece para a pessoa dois tipos de cão, um cão de guarda, mais bravo, mais leal e um outro cachorro mais brincalhão, mais desmiolado e divertido. A tendência dos eleitores de direita é escolherem o cão mais bravo e leal, e os de esquerda o mais brincalhão. É uma tendência”

“Uma outra coisa é a relação com o nojo. Os eleitores mais à direita tendem a sentir mais nojo de cheiros e gosmas do que os de esquerda, é um ‘pré-conceito’, um fechamento maior ao novo/diferente”

A partir dos perfis dos eleitores traçados, Hanns listou o que chama de anseios principais: “o partido que conseguir representar melhor o maior número de anseios principais é o que ganha uma eleição”

Hanns lista quais são estes anseios:

“Tem o anseio moralizante – “vamos acabar com a corrupção”. Depois vem o anseio tradicionalista – que é o daquele que não quer mudar os costumes, está chocado com o aborto, ter um Estado muito laico, etc – esse grupo tradicionalista corresponde a 20-25% do eleitorado permanentemente”

“O terceiro anseio é sobre qualidade de vida e sustentabilidade – em geral aquele eleitorado urbano, universitário, preocupado com a floresta amazônica”

“O quarto anseio é o eficientista – que vai falar da economia eficientista, como o Meirelles, o Doria. O quinto anseio é o nacionalista – anti-imperialista, em parte a esquerda pega esse anseio, mas Bolsonaro com o exército ao seu lado, e os símbolos nacionais, capturou essa vertente”

“O sexto anseio é o sindical – do funcionário público e de um Estado que faz a função capitalista; em sétimo o anseio anticapitalista – o Boulos, o PSOL, o PT incorporou isso mas não como sua primeira bandeira”

“E por último, o oitavo anseio que é o assistencialista – começou com o Sarney, com o “Programa do Leve Leite”, depois com os programas do FHC, com o Lula que renovou esses programas e agora com o Bolsonaro”

Algumas conclusões de Hanns:

“O Bolsonaro conseguiu representar o anseio eficientista via Paulo Guedes, o moralista via Moro, o tradicionalista com ele mesmo e com os evangélicos, o nacionalista com os militares. Agora capturou para si o anseio assistencialista; está se desligando um pouco da vertente eficientista e pegando a vertente sindical”

“A maior preocupação do brasileiro é com emprego, renda e segurança, escola está lá embaixo”

“Nesse momento, podemos dizer que a esquerda perdeu suas pautas. Houve um desgaste por diversos motivos, por desastres econômicos, por perder a pauta da moralidade porque se mostrou corrupta, a pauta também com relação ao Nacionalismo”

“O Centrão, como é altamente flexível e amorfo, tende a capturar a pauta prevalente no momento e se adequar a isso. Por exemplo, se eles percebem que em uma certa região o anseio principal é o assistencialismo, eles vão ser os campeões em assistencialismo”

“Nós não conseguimos no Brasil fazer um pacto social distributivo, que é definir quem vai perder e quem vai ganhar. Uma coisa que a Alemanha e o Japão fizeram”

“Todos os partidos têm a constante dificuldade de esbarrar no “curto-prazismo”, no “pensamento mágico”, na negação da frustração e em uma baixa-autoestima”

“Os quatro algoritmos que os países bem-sucedidos têm: melhores práticas, longo prazo com uma ambição elevada, uma capacidade muito grande de frustrar e poder fazer um pacto social e um entendimento de que a ‘galinha de ovos de ouro’ é o empreendedorismo”

“Esses perfis, de esquerda e direita, eles são muito importantes na alternância. Há momentos em que a sociedade vai se beneficiar de mais ordem, harmonia social e mais pertencimento ao grupo de referência, e há momentos em que a sociedade vai precisar do contrário, ou seja, de mais abertura ao novo, menos ordem, menos meritocracia e mais assistência e bem-estar social”

“Steven Levitsky tinha a convicção, o tempo dirá se ele está certo ou não, que o Bolsonaro tem o perfil dos políticos que no primeiro mandato se manteriam dentro dos parâmetros democráticos, mas já dando certos encantos e sinais pelo autoritarismo. E que no segundo mandato tentaria ter um controle maior do judiciário, se infiltrar mais fortemente no exército e dominar mais o legislativo”

“Aparentemente, nesse momento, o jogo está muito favorável a esse governo para as eleições de 2022”.

Links de referência: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/artihttps://www.cell.com/trends/genetics/https://www.cell.com/current-biology/https://www.penguinrandomhouse.com/bo

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