“Doria leva no primeiro turno”

“Doria leva no primeiro turno”

Morris Kachani

27 Março 2018 | 16h21

Em meio ao efervescente cenário político, topei recentemente com a improvável figura de Daniel Braga, o marketeiro de João Doria e Marcelo Crivella que já trabalhou com Michel Temer, e é sobrinho de Adilson Monteiro Alves, um dos pais da Democracia Corinthiana.

Tínhamos muito a conversar – para ser mais preciso, ficamos umas quatro horas e meia na padaria Le Pain Quotidien, no shopping Higienópolis. Por vários momentos foi necessário desligar o gravador, por contas dos offs que escutei, dignos realmente de uma nova série para a Netflix (rs).

Mas grande parte da conversa foi gravada e aparece aqui editada. Deu pra entender um pouco melhor as perspectivas do marketing político nestes novos tempos. Falamos, claro, sobre Facebook, Cambridge Analytica, fake news, robôs e monitoramento das redes sociais.

Espantoso ouvir que uns 35% do que aparece na internet como notícia é fake, ou que em questão de segundos um bom hacker consegue acessar a câmera de meu celular mesmo que esteja desligado, que dizer sobre o gmail.

E claro, por horas, falamos sobre os acertos e tropeços de João Doria e como seu trabalho como coordenador de comunicação se entrelaça com a imagem que o postulante a governador construiu. Para Daniel, Doria leva a eleição no primeiro turno. O aumento do índice de reprovação nas pesquisas não significa menos votos, ele argumenta. Afora a força do interior paulista…

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“A campanha de 2016 do João deu de 10 na do Trump.”

Dentro do universo de eleitores dele que se sentiram traídos com sua decisão de se candidatar a governador, eu diria que de 15 a 20% disseram algo como “nunca mais vou votar em você”. Os demais podem até ter ficado chateados, mas não vão mudar o voto.”

“A queda (de interações no Facebook) do João se explica, porque não tem mais a novidade, agora é rotina. É igual ao BBB, na primeira edição a audiência deu tanto, mas hoje, já na 18° edição diminuiu, porque o formato é igual.”

“O padrão estético do João é a perfeição. Tipo TOC, ele não consegue ver alguma coisa desalinhada ou fora de ordem. Ele vai lá e arruma.”

“Diferente do João, Alckmin é uma pessoa que não gosta muito de comunicação, que nunca utilizou as ferramentas digitais, não é friendly a isso. Hoje, isso faz muita falta pra ele.”

“Crivella tem um discurso de orador de igreja, é mais prolixo, algo que a comunicação digital não permite. Você acaba deixando de passar a mensagem porque deu muita volta. Precisa de uma lapidação.”

“O grupo Globo tem uma cobrança muito grande. Acaba gerando um estresse de comunicação. É uma relação que não é saudável pra ninguém e precisa ser melhor construída.”

“Bolsonaro é o mais bem organizado nas redes sociais. Ele faz reverberar muito rápido tudo. Hoje, o que vende audiência é sangue. Porrada, falar, brigar, confronto. Ele é um cara assim.”

“O discurso de segurança será, pela primeira vez na história do Brasil, o que vai ditar a eleição.”

“O maior risco não é a fake news vinda apenas de detratores. O maior risco que a gente tem aqui é a fake news vinda de veículos tradicionais. A fake news vinda de um veículo tradicional mistura a mentira com a credibilidade vinda do veículo.”

“O futuro vai ser integrar todas as redes sociais. É um futuro muito próximo. A ferramenta que nós vamos colocar na campanha de 2018, acredito que vai revolucionar a comunicação digital mundial.”

“O marketing político tradicional está muito mais focado em tentar construir um personagem, do que em potencializar aquilo que um candidato tem. Não é pra fazer propaganda, mas sim uma prestação de contas em real time, um reality life da gestão pública…”

“Essa coisa da pesquisa tradicional de amostra científica é questionável. O cara ouve sete mil pessoas e fala quem vai ganhar a eleição. Eu tenho dois milhões de pessoas tagueadas – dentro dos mesmos critérios do IBGE – e eu sei o que elas estão falando, pensando, sentindo.”

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A minha primeira pergunta é a seguinte: qual o seu trabalho?

Nós trabalhamos com a comunicação pessoal do João Doria.

Primeiro, lá no começo, quando se candidatou à Prefeitura, nós disseminamos as ideias dele para dentro da militância do PSDB. Criamos diversos grupos de whatsapp com os delegados do partido que estavam esquecidos. E assim vencemos.

Na sequência, eu acabei fazendo para ele a parte de aprimoramento de discurso. Eu estava junto do João para entender e lapidar o que ele estava dizendo nas convenções, reuniões partidárias. Com os resultados positivos houve uma confiança grande para eu montar o time de comunicação que fez a campanha dele.

Você toca o digital?

No papel, sim. Mas eu auxilio muito o João na parte estratégica, criação de discursos, porque o digital dá insumo de monitoramento para a gente conseguir entender qual a leitura das pessoas do que está acontecendo com ele. Desta leitura do nosso software de monitoramento de rede, a gente continua lapidando até hoje todo o discurso.

Como funciona esse software de monitoramento de rede?

Nós desenvolvemos uma integradora de softwares. Jogamos vários softwares dentro e conseguimos fazer uma leitura completa, uma análise do que está sendo dito na rede, em todas as plataformas – whatsapp, facebook, instagram, google etc. A partir daí, criamos um discurso ou plano de ação. É o que a gente chama de monitorar, entender e agir; que seja pra blindar algo que está acontecendo de ruim, como por exemplo uma informação mentirosa, uma fake news.

E as pesquisas tradicionais?

A pesquisa tradicional – Ibope, Datafolha – serve pra fazer um trabalho de assessoria de imprensa e blindar possíveis erros de uma comunicação tradicional, que é colocada no jornal.

Agora, o monitoramento é infinitamente superior e mais eficiente do que uma pesquisa. Um bom software de monitoramento, que te dê uma leitura clara, tirando o que é lixo e colocando o que te interessa, é muito mais importante.

Vou te dar um exemplo da prévia da campanha para a Prefeitura. “O João é coxinha, o João não gosta de pobre, o João não vai para a periferia”. Isso daí era algo que conseguíamos enxergar como um futuro problema para ele. Então, imediatamente tínhamos que criar um trabalho em cima disso. Você não poderia falar que o João não era um coxinha. O que temos que fazer é o seguinte: o que é ser coxinha?

E como vocês combateram essa coisa do coxinha?

Tira um barato do coxinha. Cria um discurso que é o seguinte: o que é ser coxinha? É acordar cedo para trabalhar? É amar o que você faz? É trabalhar 18 horas por dia com o que você gosta? É ser bem-sucedido? Empregar pessoas? Isso é ser coxinha? Yes, nós somos coxinhas, e que o mundo inteiro vire coxinha, porque todos têm que ser assim.

A gente se preocupa com o eleitor do João, com quem possa vir a ser eleitor do João e com a população que usa o serviço.

Quem está criticando o serviço de transporte, por exemplo, é o usuário ou está vindo do Diário do Centro do Mundo, do Mídia Ninja, que são pessoas que compartilham dali de dentro?

Então, o software já faz uma análise para a gente de qual o perfil político da pessoa que está falando. Nós separamos por núcleo e temos um plano de ação para cada um. Ou então, nem reage.

Vocês que postam nas redes sociais, ou ele?

Nós e ele. O João é heavy user de internet, ele adora as ferramentas. Fica no celular respondendo, ele adora.

Essa coisa dele aparecer pondo a mão na massa, se vestindo de gari; vocês que inventaram isso?

O meu papel junto ao João, estrategicamente, sempre foi de entregar aquilo que a gente promete. Durante a campanha, nós prometemos o João trabalhador. No primeiro dia de gestão, a gente já tinha que entregar o João trabalhador.

Não é uma superexposição, é uma super transparência do João. Ele está trabalhando e está mostrando isso.

“Ah, é um abuso ele se vestir de gari”, criticam. Hoje, ele não usa mais isso, mas, naquele momento era necessário mostrar que ele estava na rua, estava fazendo.

E qual o cenário hoje em dia? Como está o nível de aceitação dele?

Quando você faz essa pergunta, remete muito a uma pesquisa tradicional – DataFolha, Ibope. Nós não acreditamos nesse formato. Eu respeito muito, mas não é o que pauta a nossa vida de trabalho. O nosso tipo de pesquisa, que é através de monitoramento, já faz o corte de tirar o sentimento político, o sentimento de pessoas com o viés para cá ou para lá. Se a pessoa acorda de mal humor, é abordada para fazer uma pesquisa e dá uma resposta atravessada, ela já virou estatística. Para a gente não. Eu faço uma leitura do que ela está dizendo nos últimos doze meses nas redes sociais dela e é a partir daí que eu extraio o que ela acha bom ou ruim.

Eu consigo entender, por exemplo, um eleitor do João Doria que aprova o que ele faz na saúde, na educação, no transporte, mas não aprova o decreto da segurança – aquele que ele colocou que ia ter segurança por um ano para ex-prefeitos. Eu consigo falar se ele mudou de ideia, se ele vai votar no João de novo; eu não preciso fazer uma pesquisa, eu já sei disso.

E então, ele está bem?

O João hoje, perto dos outros, está ótimo.

Você acha que ele ganha para governador?

Eu não tenho dúvidas. No primeiro turno.

E não estou falando isso porque trabalho com o João Doria. Estou falando baseado em leitura de mercado, em leitura de cenário.

Saiu uma matéria no site da Piauí, dizendo o seguinte: “De 7,8 milhões em março de 2017, as interações dos usuários com a página dele no Facebook caíram em fevereiro de 2018, para 458 mil. Segundo o Datafolha, os moradores da capital paulista que acham sua gestão ótima ou boa caíram de 44% para 29%, entre fevereiro e novembro de 2017. Ao mesmo tempo, os que a consideram ruim ou péssima triplicavam para 39%”.

Você vai perceber que são sempre as mesmas pessoas que reclamam. A queda do João se explica porque não tem mais a novidade, agora não tem mais curiosidade, agora é rotina. Pela primeira vez na história um líder mostrou dia a dia da gestão, isso virou rotina, então as interações passaram a diminuir. É igual ao BBB, na primeira edição a audiência deu tanto, mas hoje, já na 18° edição diminuiu, porque o formato é igual.

O que importa dizer é que menos interação não quer dizer que as intenções de voto caíram.

E as pesquisas de opinião?

Elas são uma fotografia de um momento especifico. Aprovar uma gestão ou não, nada tem a ver com a intenção de voto.

A saída dele da prefeitura queimou um pouco o filme, não?

É combustível para aqueles que querem detratar. Na rede funciona assim, se a pessoa quer bater, mas não tem motivo, acha qualquer pelo em ovo. A saída dele da prefeitura é extremamente explosiva, neste sentido.

Agora, dentro do eleitorado do João, é um número muito pequeno. Muitos reclamaram, claro: “eu não queria que você saísse”. Mas isso não quer dizer que não vão votar nele para governador.

Dentro do universo de eleitores dele que se manifestaram, eu diria que de 15 a 20% disseram algo como “nunca mais vou votar em você”. Fora a quantidade absurda de robôs que foram acionados, para detratar o João.

Outro ponto, uma coisa é a capital, a outra o interior. No interior teve uma imensa maioria que ficou feliz com a perspectiva de votar no João para governador.

Esta história de que ele se tornou candidato a pedido da militância, sinceramente, pareceu jogo de cena.

Desta vez, ao contrário das prévias para a Prefeitura – quando fiz uma super campanha-, não fui acionado para quase nada. O próprio partido se mobilizou, foram quase 1.800 dos 3 mil delegados que votam, pedindo pelo João. É óbvio que teve uma aceitação do João. Ele não estava resistente e também aceitou.

Agora, essa leitura de que o partido está rachado é superficial. Doria recebeu 80% dos votos; José Aníbal, um de seus concorrentes, que teve a pachorra de falar tão mal dele, de maneira só destrutiva, teve 5 ou 6%. Poxa, cara, larga o osso.

E o Alckmin?

Numa clara demonstração de que o palácio ficou contrariado, Alckmin não participou da festa de comemoração.

Do ponto de vista de marketing, quais você acha que foram os erros e acertos do João?

O maior acerto dele é a transparência. Inclusive quando erra: “errei, estou recuando, vamos em frente”. O problema não é errar, é não consertar o erro.

A prefeitura fez algumas coisas que a população não captou bem. Uma delas foi a farinata. O projeto em si era uma coisa muito bacana e interessante, mas que a oposição conseguiu – antes da prefeitura mostrar o que era -, colocar o que não deveria ser. E aí virou um erro de timing de comunicação a forma como foi divulgada pelo João e pela prefeitura.

E o vídeo da demissão da Soninha, não foi meio constrangedor?

Ele quis usar a rede dele pra conseguir valorizá-la. O João respeita e gosta da Soninha para caramba. Mas foi infeliz na execução.

E a questão do grafite?

Ele nunca foi contra o grafite. Desde que tenha uma autorização, em primeiro lugar, e, segundo, que não tenha a bagunça visual de pichação em cima.

O erro nessa história foi a falta de sensibilidade na condução da primeira ação, aquela na 23 de maio. Depois se resolveu fazendo o que deveria ter sido feito lá atrás: chamando eles todos para conversar. O projeto era para valorizar o grafite e tirar a pichação; a execução foi errada.

E a Cracolândia?

84% da população aprovou a ação na Cracolândia da forma como ela foi. Mas, quando o João falou: “A Cracolândia acabou”, ele quis dizer que tinha acabado fisicamente naquele local. A leitura foi errada.

Agora, a ação que a prefeitura fez foi muito aprovada. Nós tínhamos dados de que a população queria e aprovava uma ação efetiva. O que faltava era a realização dela. A mídia batia, mas a população o defendia.

O seu sistema de trabalho funciona um pouco como a Cambridge Analytica?

Não, a Cambridge tem robôs. Nossos softwares pegam quem é robô e tiram, é fácil de ser diagnosticado.

Tem muito robô no mercado?

Muito. 35% do conteúdo que está na rede eu diria queé robô. Eu garanto.

Robô significa o quê? Eu criar um perfil falso e mandar ele ser escroto o tempo todo?

Tem duas coisas. Tem MAV (militância ativa virtual), que é você contratar um cara que faz perfis falsos e fica detratando todo mundo; e tem o robô, que é uma máquina.

Quando você contrata um militante que usa o perfil dele pra fazer campanha, isso não é um problema. O problema é você contratar alguém para criar um perfil fake e ficar disseminando mentiras e destruindo as imagens de pessoas, e isso tem muito, é o MAV.

Quando se fala em robô, é um software que cria perfis falsos para disseminar informações falsas.

Essa eleição de 2018 será completamente diferente das passadas na área de política digital. Com ferramentas e forma de disseminação de conteúdo diferentes.

A eleição do Trump, ano passado, utilizou de algumas ferramentas, formas de abordagem e disseminação muito parecidas – e já defasadas – com as de 2016 do João. O Brasil é muito mais eficiente do que os Estados Unidos nisso. A campanha do Aécio deu de 10 na do Barack Obama. A campanha de 2016 do João deu de 10 na do Trump.

Quais os riscos das fake news?

O maior risco não é a fake news vinda apenas de detratores. O maior risco que a gente tem aqui é a fake news vinda de veículos tradicionais. Porque você pega um irresponsável de um jornalista que fala que estão acordando moradores de rua com jato d´água às seis horas da manhã no inverno de São Paulo; esse é o fake new perigoso.

Mas eu vi imagens. Isso não aconteceu?

Não aconteceu, é mentira. O agente da prefeitura pediu para o morador sair do lugar que estava ocupando, para limpar a praça. Apenas isso.

Tem que ter uma legislação mais rigorosa. É fácil descobrir quem disseminou, a gente mesmo descobre e passa. Só que não tem ação. A fake news vinda de um veículo tradicional mistura a mentira com a credibilidade vinda do veículo.

Durante muitos anos o veículo empurrava a comunicação e o poder público tinha que ficar quieto. Hoje, a comunicação é uma via de duas mãos: você fala e eu respondo. A opinião vai ser formada a partir de um juízo tomado.

Então, nós temos que combater todo tipo de fake news, principalmente a do mau jornalismo.

Qual o limite do marketing na democracia?

O limite é a prestação de contas. Se você está de fato realizando, tem que mostrar para a população. O cara não faz propaganda, mas sim uma prestação de contas em real time, um reality life da gestão pública…

Estamos falando de gestão. Mas, e em campanha?

Campanha é uma bagunça. Tem que ser mais bem regulamentada.

O que você está prevendo?

Esse ano acho que vai ser mais consciente. Os embates políticos vão ser mais focados em realizações factíveis: segurança pública, reforma da previdência; e não mais em quem vai dar mais dinheiro no bolsa família.

Mas não está muito animador né?

Temos um quadro hoje menos motivacional. Em 2014 tinha um PSBD vindo forte com o Aécio Neves e um PT forte com Dilma e Lula.

A minha visão é que temos dois extremos hoje com muita visibilidade, e um centro ainda em composição. Mas, na minha visão quem vai ganhar a eleição é o centro. Estou convicto disso.

Como é o João Doria pessoalmente?

Ele é encantador. É muito difícil ganhar a confiança do João. Ele sabe ouvir, gosta de aprender. Quando você tem uma novidade e ele pergunta, ele fica empolgado: “me fala mais”. Você sente que ele está ali te absorvendo. É um cara que trabalha muito, tem um nível de exigência absurdo.

Ele é um bom chefe?

Eu não tenho do que reclamar. Eu gosto muito. Para a gente ele é muito bom, porque eleva nosso padrão.

Ele é um cara mais conservador?

Não. Ele é uma pessoa muito agressiva nos objetivos e na forma de alcançá-los. Eu brinco que aprendi que na política ou você é trator, ou asfalto. E, para estar ao lado do João, todo mundo tem que ser trator e andar um ao lado do outro. Se você for asfalto, vai ser atropelado.

Vocês mexem na imagem pessoal dele também? Visual?

Não é que a gente mexe. Acabamos tendo uma relação pessoal e falamos: isso está legal, isso não está legal. Agora, ele naturalmente tem bom gosto.

Por que ele é tão odiado dentro no PSDB?

Não é tão odiado dentro do PSDB. Tem uma linha, um grupo do PSDB que não quer que o João cresça como ele cresceu.

Um partido político como o PSDB tem castas, tem donos de nichos. Quando o João chegou, despretensiosamente ele foi conquistando, e conquistou a base do partido, o militante que estava abandonado. Foi assim que ele ganhou nas prévias. Ele criou uma base tão sólida e tão grande que incomoda hoje todo mundo que acha que é dono do PSDB. E não há mais donos. O João não é dono de nada, o João encanta as pessoas.

Como você enxerga o Geraldo?

Ele é um cara muito competente. Ele tem um grupo político muito forte. Agora, diferente do João, ele é uma pessoa que não gosta muito de comunicação, que nunca utilizou as ferramentas digitais, não é friendly a ele isso. Hoje, isso faz muita falta para ele.

O Doria é impaciente?

Ele é impaciente com a mentira. Odeia injustiça, mentira, falta de competência e enrolação.

Ele gosta de plano de ação e plano de meta de execução. Ele não quer saber da parte burocrática, quer saber quem vai fazer e qual o tempo de entrega.

E o Cidade Linda? Por que Linda?

A visão dele de uma cidade linda é uma cidade eficiente, produtiva, onde as pessoas não sofram.

Esteticamente, o que é uma cidade linda para ele?

Organização. O padrão estético do João é a perfeição. Tipo TOC, ele não consegue ver alguma coisa desalinhada ou fora de ordem. Ele vai lá e arruma.

É um nível de exigência pessoal dele, e ele acha assim: se nós fomos contratados pela população para fazer uma cidade melhor, a gente tem que entregar. Se o padrão dele é esse nível de qualidade, ele vai exigir de todo mundo esse nível de qualidade.

Mas, uma Cidade Linda não está só associada a estética. Ele vê uma pessoa morando na rua e fica indignado. “Essa pessoa tem que ter um emprego. Vamos cuidar dela”.

E no Rio, o que tem a dizer sobre o Crivella?

É um desafio completamente diferente de São Paulo. Aqui, nós trabalhamos com o João do zero. Desde o início da gestão estávamos ao lado dele para conseguir entender e fazer. A gente chega em um Rio com uma imagem muito desgastada da prefeitura. Não houve um trabalho de inteligência de comunicação digital no início da gestão, e a prefeitura é alvo de detratores de todos os lados: dentro da política, da religião, da comunicação. Deixaram chegar em um desgaste tão grande, que o trabalho hoje é de resgate da imagem da prefeitura e de demonstração de realizações.

Qual o trabalho que você tem pela frente com o Crivella?

Conseguir reorganizar a comunicação digital dele, que tem uma deficiência muito grande de inteligência de dados para conseguir fazer a produção de conteúdo mais alinhado com as expectativas e com os problemas que vêm sendo tratados dentro da rede. Há uma desconexão entre o que vem sendo dito na rede social e do que está sendo postado na rede da prefeitura. As pessoas falam sobre maçã e a prefeitura está postando sobre banana. A resposta tem que ser numa linguagem adequada para a população.

Conseguir uma dinâmica mais rápida de realizações diárias. A prestação de contas diária da prefeitura dentro da rede.

Eles estão fazendo um bom trabalho na prefeitura do Rio?

Eles tiveram um problema de comunicação gigantesco no início da gestão até hoje. O Crivella trabalha das sete da manhã até as dez na noite. Mas, não mostram. As pessoas acham que ele não trabalha.

E o lance do carnaval?

Eu não estava lá, mas foi uma barbeiragem de comunicação total. Ele viajou a trabalho mesmo. Ele foi visitar as empresas de drone. Só que não soube comunicar isso antes de ir, e o fez de uma forma muito ineficiente. Aquele vídeo que ele gravou não tem uma linguagem, um sentimento, não tem liga com as pessoas.

A questão do carnaval, muito se diz sobre o corte do orçamento das escolas de samba. A leitura do carioca é completamente diferente da espuma que vem sendo feita na mídia. O carioca aprovou isso. Você tem uma cidade completamente deficitária financeiramente. A antiga gestão dobrou o orçamento do carnaval. Não é que o Crivella cortou, ele voltou para o que era antes. Aí você fala pra a população: você prefere colocar tantos milhões a mais no carnaval ou inaugurar mais não sei quantas creches?

E ele não estar no carnaval?

Eu não estava lá, comecei a trabalhar com ele depois do carnaval. A minha recomendação é que ele tem que participar. Pode gostar ou não gostar, mas é um evento importante para a cidade. Dentro da minha visão, a cidade do Rio de Janeiro está apta a aprovar um prefeito que faça o que for necessário para a cidade, deixando de lado qualquer tipo de interesse pessoal, religioso.

Falaram que ele não foi para o carnaval, porque a religião não permitia. Se essa fosse uma verdade absoluta, várias políticas aprovadas pela prefeitura sobre diversidade, minorias – que são desalinhavas com a religião dele, não seriam feitas. Então, o discurso religioso tem que ser tirado do papo dele.

Mas não existe essa questão religiosa?

O Rio de Janeiro tem um prefeito que está “prefeitando”. Mas, existe uma tentativa de uma polarização de discurso que não é de prefeitura, e cada vez mais temos que voltar para o centro da conversa, que é a prefeitura.

O carnaval aconteceu, foi o mais rentável dos últimos anos do ponto de vista de entrada de recursos do turismo. Ou seja, o carnaval do Rio, com a mexida financeira e a presença ou não do Crivella, pouco teve relação. Mas, querem transformar uma questão religiosa em política, e não pode.

Você não sente religião nenhuma?

Na gestão, não.

E na pessoa do Crivella?

São muitos anos pregando. Você conversa com ele e tem um discurso de uma pessoa religiosa, que fala “graças a Deus”. Mas, não existe uma pregação, é diferente. A equipe de gestão da prefeitura não é religiosa, as pessoas são técnicas.

E essa história dele de pintar a Rocinha porque a comunidade “está muito, muito feinha”. Teve um dedo seu?

Desastrosa esta fala… foi uma declaração que não foi bem colocada. Pelo amor de Deus, eu nem estava aqui no Rio.

Na ânsia de falar “vamos arrumar”, tirar os fios elétricos que comprometem a segurança das pessoas, ele falou a frase feinha. Foi uma passagem dele. Não é algo catastrófico. Ele precisa convidar mais jornalistas para caminhar a seu lado por lá. Ele conhece bem a comunidade, já foi umas 30 ou 40 vezes. E a comunidade gosta muito dele.

E comparando ele e o Doria…

Os problemas do Rio de Janeiro são muito diferentes dos problemas de São Paulo. As periferias são muito diferentes. No Rio, as pessoas são muito mais dependentes do poder público do que em São Paulo. A questão de saúde pública, crianças fora da creche, é muito maior lá.

O Crivella é um bom comunicador?

Ele é um excelente orador, tem muito conteúdo, muito inteligente, entende muito do Rio, Brasil, a necessidade das pessoas. Mas, precisa fazer um alinhamento desse discurso para conseguir ser mais dinâmico. Ele tem um discurso de orador de igreja, é mais prolixo, algo que a comunicação digital não permite. Você acaba deixando de passar a mensagem, porque deu muita volta. Precisa de uma lapidação.

Você acredita que o Brasil esteja passando por uma onda conservadora?

Não é uma linha conservadora, é o início do fim do populismo, e uma linha mais protetora dos seus valores de nação e dos seus valores morais e éticos nacionais. Então, essa onda que uns chamam de conservadora e que eu vou chamar de protecionista, se reflete nas pessoas também. Quando você olha essa linha de discurso do Bolsonaro, ela significa proteção das pessoas. Quando ele fala que vai dar um fuzil para cada um, não é porque ele é conservador, é que virou uma baderna esse negócio, ele está pensando na proteção familiar. O discurso de segurança será, pela primeira vez na história do Brasil, o que vai ditar a eleição. Não vai ser mais a habitação, saúde, educação; vai ser segurança.

Quando ele fala que a maioridade penal tem que ser com 12, 14 anos, isso não tem a ver com conservadorismo, tem a ver com a encheção de saco que a gente tem ao ligar a televisão e ver que um moleque de 14 anos matou alguém na rua e saiu pela porta da frente da delegacia. Isso não é conservadorismo, é uma linha de proteção familiar. O discurso dele faz sucesso nas redes sociais, porque está baseado naquilo que a população quer, e que está desconectado daquilo que a imprensa prega.

Aí eu volto para a Cracolândia. A imprensa fala que o Doria errou, mas a população bateu palmas.

Eu não acompanhei a campanha do Crivella. Ele recebeu muitos votos das Igrejas?

Muitos. Ele faz um trabalho dentro da igreja, da comunidade, e ali dentro sabem do valor do que ele faz. Só queaquilo ali é repreendido, principalmente em uma cidade onde o catolicismo é pregado pela maior emissora de televisão.

Como é a relação dele com a Globo?

O grupo Globo tem uma cobrança muito grande. Acaba gerando um estresse de comunicação. É uma relação que não é saudável pra ninguém e precisa ser melhor construída.

A imprensa tem o papel de fiscalizar e cobrar, só que na dose correta. Não dá para por só o lado ruim.

Você falou que o Bolsonaro trabalha bem o marketing digital?

Trabalha muito bem. As redes dele são… ele tem um time orgânico muito forte. São muito eficientes. Ele é o mais bem organizado nas redes sociais. Ele faz reverberar muito rápido tudo. Agora, ele não tem um discurso alinhado com o que, de fato, poderia o tornar presidente. O discurso dele é muito frágil.

Hoje, o que vende audiência é sangue. Porrada, falar, brigar, confronto. Ele é um cara assim.

Você vê com bons olhos esse mundo das redes sociais?

Eles vão ter que evoluir. Vão ter que coibir fake news, robô.

Essa coisa de eu só receber notícia do meu mundo…

O algoritmo. Eu acredito que vão ter novas ferramentas surgindo , e que vai ter uma mudança muito rápida vinda aí e que vai dar uma chacoalhada nessa história toda.

O que está matando o Facebook é a quantidade de informações mentirosas e destrutivas. A ferramenta de relacionamento só vai conseguir se eternizar se ela for construtiva.

O futuro vai ser integrar todas as redes sociais. É um futuro muito próximo. A ferramenta que nós vamos colocar na campanha de 2018, acredito que vai revolucionar a comunicação digital mundial.

E, mais uma vez, no Brasil as pessoas não dão valor para o que é feito aqui. Nós não criamos até hoje uma ferramenta, mas sabemos utilizar melhor do que quem criou.

O que tem a dizer sobre toda essa confusão de vazamentos de dados do Facebook?

Todo mundo já sabia, só não tinha sido comprovado. O Facebook virou terra de ninguém assim como quase toda a internet. Tudo é permitido. Este caso mostra a necessidade de que se faça um levantamento mais criterioso e controle de segurança. Mas o Zuckerberg é um cara esperto, acredito que a longo prazo ele vai conseguir proporcionar esta segurança.

Hoje em dia temos uma tal invasão de privacidade, que é possível invadirem seu celular, ouvirem nossa conversa, e assistirem com a tua câmera, mesmo com o aparelho desligado.

E-mail, então, nem se fala.

O que está na rede como um todo, nem se fala. É muito fácil invadir sua tela, ver o que você está vendo.

E as pessoas se vangloriam de fazer isso. Temos que coibir esse tipo de coisa, se não, se perde o limite.

Qual a diferença do marketing político tradicional e do novo marketing político?

O marketing político tradicional está acostumado a uma leitura de um momento, a pesquisa tradicional – que não vai refletir, de fato, o que as pessoas estão vivendo. Está muito mais focado em tentar construir um personagem, do que em potencializar aquilo que um candidato tem.

O que dia que entenderem a ferramenta monitoramento, e como ela consegue te colocar à frente, o meu trabalho vai passar a ser comum.

Essa coisa da pesquisa tradicional de amostra científica é questionável. O cara ouve sete mil pessoas e fala quem vai ganhar a eleição. Eu tenho dois milhões de pessoas tagueadas – dentro dos mesmos critérios do IBGE – e eu sei o que elas estão falando, pensando, sentindo.

Vocês falam muito em sentimento.

Sentimento é o reflexo do que as pessoas, de fato, falam.

Durante um debate, eu fico com o software de monitoramento ligado no meu celular, e a gente consegue saber em real time a reação de milhões de pessoas em relação à resposta do nosso ou do outro candidato. Se o discurso agradou, se o tom era o certo, se faltou algum detalhe. Só que não adianta só a tecnologia, tem que se ter a sensibilidade de ler isso em real time.

O antigo modelo de marketing quer criar um contexto novo. O que a gente faz é entender o contexto atual e trabalhar em cima dele. Exige agilidade, modernidade na linguagem, ferramentas integradas, um time de pensamento focado em cada área da comunicação. O monitoramento é necessário na campanha e também durante a gestão. O marketing político não termina depois da eleição. É colocar o ouvido no chão e ouvir o pulsar das pessoas.