Drauzio Varella: Mais Médicos está sob ameaça

Drauzio Varella: Mais Médicos está sob ameaça

Morris Kachani

30 Novembro 2018 | 12h19

Pessoalmente, fiquei horrorizado quando soube que metade do contingente dos profissionais do programa Mais Médicos, algo como 8 mil médicos, do total de 16 mil, abandonariam suas funções em questão de semanas. Menos pelo viés político – a mim pouco importa se são cubanos, iranianos ou lituanos -, e mais pela população desassistida.

As áreas mais vulneráveis do país são as mais atingidas: região Norte, semiárido nordestino, cidades com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), saúde indígena e periferias de grandes centros urbanos.

Depois veio a notícia que mais de 90% das vagas descobertas haviam sido preenchidas por médicos brasileiros, que o Ministério da Saúde recebera 1 milhão de acessos simultâneos no momento da abertura do sistema para a inscrição.

Em contrapartida, a constatação de que em um concurso para médicos brasileiros realizado no ano passado pelo Ministério da Saúde, 30% dos que foram selecionados deixaram as localidades antes de um ano.

Sou daqueles que confiam no bom senso e na lucidez de Drauzio Varella quando o assunto é gestão de saúde pública. Com ele venho desenvolvendo um projeto audiovisual sobre o SUS, parceria da Prodigo Films com a Uzumaki.

Posso ter minhas críticas ao governo Bolsonaro mas a esta altura dos acontecimentos, só consigo mesmo, torcer para que dê certo. Com as razões que lhe são próprias, sem dúvida nosso novo presidente subiu um tom ou vários, com Havana. Por outro lado, Havana também não mostrou o menor senso humanitário ao ordenar a saída imediata de seu contingente de profissionais.

Como sempre, sobrou para o povo. Foi o que intuí a partir desta nossa conversa…

*

Qual é sua visão geral sobre o Mais Médicos?

O Mais Médicos foi o programa de interiorização de maior alcance e duração. Então nunca houve um programa que alcançasse tantas pessoas em território nacional e que durasse tanto tempo; já houve muitas outras tentativas.

Acho que o defeito foi de ter deixado o programa na mão do governo de Cuba, porque podiam a qualquer momento romper o acordo como de fato aconteceu. E daí você tem mais de 8 mil médicos para substituir.

Substituir 8 mil coisas, seja o que for, é difícil. 8.500 carros, ou 8.500 maçãs na feira. Imagina só 8.500 pessoas.

Primeiro, surgiu essa situação com as declarações do presidente dizendo que os médicos eram ruins, que o programa era só para dar dinheiro para Cuba. E então, tiraram todo mundo de uma vez. Eles não podiam ter pego a gente de “calça curta”, como ocorreu.

Então foi aberto o concurso, se preencheram aproximadamente 90% das vagas, e acham que foi um sucesso a substituição.

Só que muitos médicos fazem o concurso, se apresentam, fazem inscrição e depois não vão. Ou não gostam da cidade para a qual foram designados e uma série de outros problemas.

Outros já trabalham no programa Estratégia Saúde da Família e largam ele para ter um salário melhor, o que acaba desfalcando o Saúde da Família.

Precisamos entender que entre fazer inscrição num programa e realmente conseguir ser designado para começar a trabalhar, tem muito chão.

A solução de trazer médicos de Cuba foi inteligente?

Deixando de lado a parte política e a questão sobre se está certo você mandar dinheiro para Cuba ou não, acho que foi uma solução possível. Porque nós não tínhamos médicos nesses lugares e passamos a ter em muitos deles.

Mas quando o programa foi lançado, em 2013, já não havia um número de médicos brasileiros suficiente para cobrir esses lugares?

Nós temos um contingente de médicos brasileiros suficiente para atender o país inteiro, temos quase 500 mil médicos no Brasil. Mas o problema é a concentração. Eles estão concentrados em São Paulo, Rio e nos grandes centros (Nas localidades com até 20 mil moradores, que correspondem a 68,3% das cidades brasileiras, há menos de 0,40 médico por mil habitantes. Nas 42 cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes, a taxa é bem maior, de 4,33 profissionais por mil moradores).

Bolsonaro colocou em questão a qualidade do médico cubano. Ele era capacitado para trabalhar aqui?

Em Cuba tem um curso de 4 anos e pelo meu entender, é um curso que prepara para as coisas básicas. Para dar cuidados básicos para a população você precisa ter um médico com formação em clínica médica e saúde da família, que é o que falta aqui. Nós não temos médicos preparados nessa área porque o pessoal não se interessa, eles querem fazer especialidade.

O fato é que não tínhamos esses 8 mil médicos brasileiros dispostos a ir para esses lugares, o programa sempre esteve aberto aos médicos brasileiros, eles que não se interessavam.

Mas agora eles subitamente se interessam?

Quantas faculdades de medicina nós abrimos nos últimos anos, desde o início do Mais Médicos? É um número muito grande de faculdades de medicina. Atualmente nós formamos 20 mil médicos por ano. Nós vamos formar mais 18 mil nos próximos 6 anos, serão 38 mil médicos por ano. Você tem agora muito mais gente pra concorrer às vagas, ainda mais com o salário de 11 mil reais em meio a essa crise, que não é um salário baixo.

A questão hoje é que a maioria das faculdades de medicina é particular e a maioria dos estudantes são mulheres, isso quer dizer que o perfil mudou. Tem faculdades que custam 8, 10, até 15 mil reais por mês. Quem está cursando essas faculdades é no mínimo classe média alta, alunos que se formam gastando esse dinheirão. Você acha que essas pessoas de classe média alta vão querer ir para esses lugares? Você tem uma filha, paga caro na faculdade dela, você quer que ela se forme para trabalhar no sertão de Alagoas?

Essa substituição vai ter problemas, muitos irão para esses lugares, e vão desistir. O que acontecia com os cubanos é que Cuba é pobre, e eles já são formados com essa perspectiva, o pessoal se submete a ficar lá em uma cidadezinha pequena, muitos deles vêm do interior de Cuba também, de um alojamento simples, uma casa simples. O daqui, que fez faculdade paga, dificilmente vai se submeter a essa condição.

Os cursos são bons no Brasil?

Não. É isso que eu acho engraçado, eles ficam falando da formação dos cubanos mas não falam da formação dos brasileiros. Essas faculdades estão abrindo por interesses econômicos. Você sabe que quando uma universidade oferece o curso de medicina, o valor econômico dela é aumentado em 400 milhões de reais.

O Revalida (exame nacional de revalidação de diplomas médicos) ajuda? É uma régua?

Os cubanos que prestaram o Revalida tiveram o mesmo índice de aprovação que os não cubanos. Então não é muito uma questão do nível dos médicos, é uma questão dos médicos brasileiros quererem se espalhar pelo Brasil.

Como você reagiu quando recebeu a notícia sobre a saída dos médicos cubanos?

Eu achei muito grave. Não basta ter o médico pra você fazer assistência médica, você tem que ter condições mínimas de trabalho. Mas sem médicos você não faz assistência médica de jeito nenhum.

Pense o seguinte, essas pessoas que estão sendo atendidas com doenças crônicas, que são muito frequentes no Brasil. Pessoas que têm pressão alta e recebem o remédio gratuitamente, que precisam levar a receita, mas agora não têm médicos, o que eles vão fazer? Parar de levar a receita e comprar na farmácia?

A gente não imagina o drama que isso causa nessas famílias. Se tiver o remédio na cidade vizinha, pra gente é fácil pegar o carro e ir 30 km ao lado, mas pra população do sertão não é, ficam dependendo de ambulâncias para ir.

Cidades como essas que eu vejo por aí, onde o homem diz que você tem que votar no prefeito porque se tiver um problema de saúde não consegue ambulância pra prestar socorro. É esse o Brasilzão de verdade.

Você acha que o Mais Médicos está ameaçado?

Acho. Um programa de interiorização em que de repente você tira 8 mil médicos de um dia para outro, é o início de um drama. Ninguém estava preparado, não havia nada planejado.

Se fosse pra ser bem feito, teria que ter um planejamento.

Lógico. E também tem a sacanagem do governo de Cuba, que não pode ser eximidos dessa responsabilidade. Eles não precisavam fazer isso de uma dia para o outro. Eles precisavam ter dado um prazo para tentar organizar melhor as coisas. Isso mostra que eles não estavam interessados na saúde do povo brasileiro.

Eles sabiam os problemas que iam causar, poderiam ter esperado dia primeiro de janeiro, que é quando o novo presidente assume. Os médicos cubanos relataram que receberam a notícia de que no dia seguinte não atenderiam mais. De repente eles perceberam que as coisas estavam desorganizadas, que mudou o presidente da república, que ele falou coisas que não deveria ter falado e tomaram a atitude de tirar todo mundo daqui, imediatamente.

Mas você acha que teve uma inviabilidade do presidente novo?

Sem dúvida. Os cubanos poderiam ter dito que não se dariam bem com o presidente, que não haveria possibilidade de entendimento. Mas deveriam ter pensado nas pessoas que estão sendo atendidas. Ter fixado uma data, não 24 horas.

O povo foi tratado como massa de manobra.

Exatamente. Como massa de manobra.

Também tinha essa questão dos cubanos não receberem o salário integral, de ficar uma grande parte do salário deles com o governo de seu país, e dos familiares não poderem vir para o Brasil.

Cuba é uma ditadura. Eu acho que essa discussão da parte política já estava acertada, isso é outra discussão, outro ponto. Se era injusto com os médicos, se não tinha cabimento… mas o fato é que fizeram, agora estamos dentro dessa situação.

Recentemente foi nomeado o novo ministro da saúde. É o sexto ministro em cinco anos. Como você vê essa troca?

É um absurdo. A última vez que chequei esse dado, dava 10,4 meses por ministro. É por isso que o Brasil ainda não tem política de saúde. Não dá pra ficar trocando as pessoas desse jeito, o governo não consegue colocar as coisas em prática.

E que pessoas são essas? Os ministros anteriores quem foram?

O atual ministro era presidente da Caixa Econômica Federal, saiu de lá pra ir pro ministério da saúde. O ministério hoje é feudo do PP (um dos partidos mais envolvidos em investigações da Lava Jato e do Mensalão), não tem cabimento um ministério com essa importância, com esse impacto na vida da população, estar nas mãos de um feudo de um partido político.

Você conhece o ministro que o Bolsonaro escolheu?

Não conheço. Ele fez uma declaração sobre a AIDS que desgostou muito o pessoal da área, ele começou mal (O novo ministro, Luiz Mandetta, disse descrer da eficiência de campanhas de prevenção contra HIV realizadas em escolas e Unidades Básicas de Saúde). Mas devemos aguardar pois ele nem assumiu ainda.

Você tem algum recado para o novo ministro da saúde?

Ouvir os técnicos. Tem gente muito bem preparada dentro do ministério da saúde. Muitas vezes já aconteceu de eu estar gravando uma série e querer fazer uma entrevista com uma pessoa que entende sobre um assunto, um técnico do ministério, mas vem o chefe dele para a entrevista e você percebe que ele está completamente por fora do assunto, toda hora ele fica perguntando para aquele que sabe.

Imagina a pessoa preparada que está ali, que fez pós graduação, tem mestrado, doutorado no exterior, fez estágio na organização mundial da saúde e de repente vem um jejuno na área para chefiar.

O problema não é que troca o ministro, é que troca o ministro e mais um bando de gente. Trocam os diretores de autarquia, diretores de hospitais, trocam diretores de programas, fazem uma salada que desarticula todo o sistema e precisa começar tudo outra vez. Esse é realmente o problema da politização do ministério.