Eduardo Schenberg: Drogas psicodélicas podem salvar vidas
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Eduardo Schenberg: Drogas psicodélicas podem salvar vidas

Morris Kachani

22 de junho de 2021 | 12h15

A psicoterapia assistida por psicodélicos – MDMA, LSD, ayahuasca, cogumelos -, está chegando para ficar. E é bom levá-la a sério

No entroncamento entre os campos da psicologia, da psiquiatria e da neurociência, surge a psicoterapia assistida por psicodélicos.

O raciocínio por trás desse tratamento é que a substância ao modificar o estado de consciência permite que o paciente entre em contato com as suas emoções, com as coisas mais antigas, memórias da primeira infância, mecanismos reprimidos.

Isso afeta inclusive a personalidade, modifica os relacionamentos que esse paciente tem e ajuda a tirá-lo de uma condição de transtorno mental, seja o problema-chave um trauma porque houve abuso sexual ou uma depressão crônica que é algo que se arrasta pela sua vida.

Não são incomuns os relatos de “um ano de psicoterapia em uma única sessão”. Efeitos colaterais existem, bad trips idem, mas são residuais, principalmente quando comparados ao uso contínuo de determinados medicamentos psiquiátricos.

O que se visualiza daqui para frente serão centenas de clínicas espalhadas pelos EUA, fornecendo tratamentos com psicoterapia assistida por psicodélicos e isso vai ser disruptivo para uma indústria farmacêutica que hoje vende comprimidos antidepressivos e antipsicóticos para uso diário, lucra bilhões de dólares com isso, controla todo um setor de pesquisa, educação médica e científica.

Algumas empresas focadas especificamente em terapias psicodélicas lançaram ações na bolsa em Nova York e estão com seu valuation acima de 1 bilhão de dólares.

No Brasil, o Instituto Phaneros acaba de obter autorização para atender até 270 pacientes com diversos transtornos mentais relacionados à pandemia de Covid-19.

Eduardo Schenberg é mestre em psicofarmacologia (UNIFESP) doutor em neurociências (USP) com pós-doutorado no Imperial College London. Estuda e pesquisa substâncias psicodélicas como MDMA, ayahuasca, ibogaína e LSD. É diretor do Instituto Plantando Consciência, uma fundação sem fins lucrativos dedicada a realizar pesquisas científicas com estas substâncias no Brasil e Fundador e Diretor-Presidente do Instituto Phaneros.

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=jvnl-Lbkkq0

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“A situação que a gente se encontra hoje entre a psiquiatria, a psicologia e a neurociência é uma de tensões e grandes promessas de coisas novas, diferentes. A gente tem hoje um cenário de saúde mental no mundo que inegavelmente é bastante grave e preocupante. Muita gente sofrendo intensamente.

O Brasil sofre com níveis alarmantes de depressão, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade, vários tipos de sofrimentos psíquicos e a gente tem uma espécie de racha entre a psicologia e a psiquiatria, em que existe um distanciamento histórico e acadêmico. Esses profissionais trabalham em locais diferentes, basicamente seguindo abordagens e teorias diferentes”

“A psiquiatria hoje é dominada pelo que chamamos de “psiquiatria biológica” e ela tenta se colocar muito em neurociências, então a ideia que prevalece hoje entre os psiquiatras é que os transtornos psiquiátricos são fundamentalmente doenças do cérebro, são desajustes cerebrais e o tratamento psiquiátrico então acaba sendo feito com fármacos e algumas outras técnicas como eletroconvulsoterapia (ETC) ou estimulação magnética transcraniana. Do outro lado temos os psicólogos com as inúmeras escolas de psicoterapia, iniciando pelo Ocidente talvez com a psicanálise e que hoje se ramifica em uma diversidade espantosa.

O paciente fica entre esses dois mundos e em geral ele vai encontrar dois profissionais em dois endereços diferentes; um que vai receitar fármaco e vai fazer um monitoramento periódico e o outro com quem ele vai fazer psicoterapia”

“A neurociência não dá o embasamento que a psiquiatria gostaria. Existem inúmeras controvérsias. Há alguns anos o Instituto Nacional de Saúde Mental nos Estados Unidos [em inglês: National Institute of Mental Health, NIMH] entrou em desacordo frontal com a Associação de Psiquiatria Americana [American Psychiatric Association]. A Associação de Psiquiatria Americana tem o DSM [Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders] que é o livro dos diagnósticos psiquiátricos e o Instituto Nacional de Saúde Mental falou que não vai mais utilizar o DSM para orientar os diagnósticos nas pesquisas de psiquiatria e neurociências.

(…) E a gente tem dentro disso tudo um campo surgindo, que é o campo unificador, que estou me dedicando há alguns anos, que chamamos de psicoterapia assistida por psicodélicos. É disruptivo porque isso muda a prática de psiquiatras, muda a prática de psicólogos, muda a vida do paciente e o tratamento que vai ser oferecido traz à tona uma série de questões históricas, conceituais e teóricas importantes para esses três campos – psicoterapia, psiquiatra e neurociência”

“O termo “psicodélicos” foi cunhado por um psicólogo britânico em 1956, que o criou a partir de dois radicais gregos, “psi” e “delos”, que significa “manifestar a mente”. São substâncias psicoativas em particular, muito diferentes da Cannabis, dos opiáceos ou da cocaína.

O que acontece com as pessoas sob efeitos dessas substâncias psicodélicas não são alucinações de fato. As coisas que elas enxergam de olhos fechados são mais relacionadas a geometrias coloridas, memórias, cenas de vidas passadas, cenas de imaginação, um universo onírico parecido com o dos sonhos só que com a pessoa  totalmente desperta. Além disso essas substâncias desencadeiam uma série de alterações emocionais, intelectuais, cognitivas e sensoriais.

Uma experiência psicodélica é uma experiência muito longa, as substâncias podem modificar o estado de consciência de 5 a 12 horas dependendo da substância, da dose, do paciente, do contexto. As substâncias principais mais conhecidas são o LSD, a psilocibina (que existe em cogumelos), a mescalina (que existe em cactos como o São Pedro e o Peyote) – tanto os cogumelos quantos os cactos são de uso ancestral indígena – e por fim a DMT, que existe em centenas de plantas e a mais famosa é a uma das plantas que compõe o chá de ayahuasca”

“Na maioria dos estudos atuais a sessão inclui um único paciente. Só o paciente vai tomar a substância, que é bem diferente do universo ritualístico onde grupos tomam a substância juntos, como no caso da ayahuasca. O paciente passa pelas consultas de preparação e nessas consultas ele vai tirar todas as dúvidas que tem sobre as substâncias; se aquilo vicia, se mata neurônios, se pode enlouquecer, quais são os efeitos, quanto tempo dura, como que ele vai se sentir, o que ele pode enxergar, etc etc.

E na sessão psicodélica as substâncias são todas ativadas por via oral, então em geral o paciente vai tomar uma cápsula, um comprido ou um copo de chá (no caso da ayahuasca) e vai ser orientado a ficar quieto, sentado em uma poltrona confortável, monitorado por dois terapeutas que vão guiar o paciente por todo o processo escutando músicas instrumentais para ajudar a liberar e conduzir o fluxo de emoções que ele vai sentir.

Então a pessoa ingere o psicodélico, fecha o olho, muitas vezes oferecem aquelas máscaras de olho para ajudar o paciente a ficar introspectivo e toda vez que o paciente quiser interagir ou sentir a necessidade, pode tirar a máscara, o fone de ouvido e conversar com os terapeutas. Vão se alternando ciclos de introspecção, com ciclos de psicoterapia de fato”

“A psicoterapia assistida por MDMA para o transtorno de estresse pós-traumático, que a gente já iniciou no Brasil, é o que há de mais avançado, podendo ser aprovada nos EUA já no ano que vem como um tratamento psiquiátrico regulamentado. Depois vem a psilocibina para a depressão, mas isso não quer dizer que o MDMA não possa servir também para a depressão ou que a psilocibina não sirva para o transtorno de estresse pós-traumático”

“As experiências psicodélicas são, além de muito longas – com uma única dose você pode ficar 5 a 10 horas sentindo efeitos -, muito intensas e muito extraordinárias, fora do comum. Cerca de 70% de participantes de estudo com psilocibina classificam a experiência como uma das cinco experiências mais importantes das suas vidas, lado a lado com o dia do casamento, velório do pai ou da mãe, nascimento de filho, experiências que realmente marcam a vida de um ser humano.

É muito difícil você encontrar algum estudo psiquiátrico em que você escute declarações dessa natureza. E a quantidade dos insights, das ideias, das percepções que as pessoas passam a ter das suas vidas, das suas condições, dos seus transtornos, dos seus sintomas são tão impactantes que muitos trazem relatos desse tipo, que parece um ano de psicoterapia em uma sessão ou parece que eu fiz cinco anos de terapia em três meses”

“O risco que existe, e a gente ainda tem que considerar que é sim uma preocupação quando a gente projeta uma escalabilidade desses tratamentos nesses próximos anos, é o risco de surto psicótico ou despersonalização. Algumas pessoas passam de fato, sob efeitos dessas substâncias, por um processo muito difícil que pode deixar um certo transtorno psíquico em que elas deixam de se sentir como si mesmas e têm muita dificuldade de se recuperar após a sessão.
Hoje tem vários tipos de pesquisa tentando entender como prever isso e como evitar de oferecer esse tipo de tratamento para pacientes que tenham uma propensão maior a esse tipo de risco”

“Quando a gente fala de drogas, o contexto sempre importa, especialmente drogas psicoativas. Então o efeito da substância vai basicamente modificar o funcionamento cerebral. Os neurônios conversam entre si através das suas oscilações elétricas e dos neurotransmissores que emitem moléculas para outro neurônio, durante o tempo de ação da substância. O universo das drogas depende muito do contexto, da intenção de quem está usando, do propósito e de como que usa”

“Alguns pesquisadores propõem que essa busca por modificação da consciência é biologicamente tão importante quanto a busca por saciar a fome, a busca por sexo, por prazer e por conexão com outros indivíduos do grupo. Então o uso ritualístico de psicodélicos, em especial os que remontam às culturas indígenas, como a ayahuasca muito prevalente no Brasil e na América, o cactos São Pedro na América Andina, o Cactos Peyote na América do Norte e os cogumelos entre os indígenas principalmente do México, remontam a milênios atrás.

Existem estudos arqueológicos em que encontraram corpos mumificados com botões do Cactos Peyote também mumificados de 5 mil anos atrás, isso é antes da escrita, e nesses botões de Peyote os cientistas conseguiram identificar a mescalina preservada, ou seja, esse Peyote continha mescalina e provavelmente era venerado, foi mumificado com aquele líder ou aquela pessoa porque tinha uma importância ritualística”

“Eu acho que a ciência psicodélica é de fato a grande novidade. Há 3 anos atrás o investimento nessa área foi de 1 milhão de dólares e nesse primeiro semestre já foram investidos 300 milhões de dólares. Algumas empresas focadas especificamente em terapias psicodélicas lançaram ações na bolsa em Nova York e estão com seu valuation acima de 1 bilhão de dólares. Então já é um big business que não tem como ser ignorado”

“A gente tem no Instituto Phaneros hoje a aprovação de seis protocolos de pesquisa para atender até 270 pacientes com diversos transtornos mentais relacionados à pandemia de Covid-19. A gente prevê iniciar a triagem no segundo semestre deste ano e ficar em atendimento em diversas cidades do Brasil durante os próximos dois a três anos. Estamos treinando e educando profissionais de saúde para poderem utilizar o método para quando isso vier um dia a ser aprovado”.

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