E se Brasília praticasse o Kippur por um dia?

E se Brasília praticasse o Kippur por um dia?

Morris Kachani

28 de setembro de 2017 | 08h41

“Não adianta pedir perdão pra Deus, se sua ofensa foi a um homem. Primeiro é preciso acertar as contas aqui na Terra”, lembra o rabino Michel Schlesinger. “Assim como todos somos vítimas, todos somos responsáveis”, ele acrescenta.

O Yom Kippur (Dia do Perdão) se aproxima, acontece da noite desta sexta-feira (29) para a de sábado. É quando todas as sinagogas do mundo se enchem de fiéis, que praticam um jejum de 25 horas. Quando Deus sentencia se seus nomes devem ou não entrar no Livro da Vida.

Mas por que o Perdão? O que há para ser perdoado? Perdão a si mesmo ou ao outro? Perdão pressupõe culpa? Como viver o perdão no delicado momento político que o país atravessa?

Em tempos de polarização ideológica e extremismos, o blog decidiu conversar com uma das lideranças judaicas mais ponderadas dos tempos atuais, o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista. Casado com a antropóloga Juliana Portenoy Shlesinger, pai de Tamar e Naomi, Michel tem 40 anos, é bacharel de direito pela USP e realizou seus estudos rabínicos e seu trabalho de mestrado em Jerusalém.

Qual seria basicamente o significado do Kippur?

Mitologicamente ou historicamente, Kippur remonta ao dia em que Moisés desceu pela segunda vez do monte Sinai trazendo as tábuas da lei. Isso representou que o povo tinha sido perdoado pelo pecado do bezerro de ouro.

É que da primeira vez que Moisés desceu, o povo tinha substituído o culto a Deus pelo culto ao bezerro de ouro. Moisés quebra as tábuas da lei, volta ao monte Sinai, fica 40 dias lá em cima, e daí volta. As novas tábuas representam uma nova chance.

Aquele que foi considerado o grande pecado, foi perdoado.

Ao longo dos séculos o Kippur se transformou no que é hoje, Dia do Perdão. Todo judeu é convidado 40 dias antes, a iniciar esse processo de avaliação e análise de seu próprio comportamento, uma reflexão profunda.

Surge então a esperança de sermos perdoados por nossos erros e falhas.

O que seria o perdão em essência?

Entendo isso como um grande símbolo, de um exercício verdadeiro com a gente mesmo. De tempos em tempos, é preciso olhar com coragem pra dentro da gente, e avaliar se a vida que levamos e nossas atitudes são coerentes com o que acreditamos. É um convite para a auto-análise, uma maneira ritual de se recordar, de olhar pra dentro de si.

Penso que o julgamento mais importante é da gente mesmo, nada é mais compensador do que dormir com a cabeça tranquila no travesseiro.

Este blog se chama “inconsciente coletivo”. Em que medida o perdão se entrelaça com nosso inconsciente coletivo?

O país todo passa por um momento de reflexão muito doída. Sou otimista, acredito que seja para nos levar a um lugar melhor, acredito que tudo que estamos passando, tenha o potencial para nos levar a uma democracia mais consolidada, uma consciência mais republicana de pensar no coletivo, um potencial muito bacana de subir a régua.

Pensar no coletivo seria o ponto central?

É um ponto muito importante. Note que as rezas são evocadas em sua maioria no plural, e o objetivo é convidar a gente a entender que somos responsáveis uns pelos outros. Um convite ao olhar comunitário.

E acho que a crise ética que estamos vivendo se conecta com a incapacidade daqueles que deveriam abdicar do individualismo para praticar o bem comum, abdicar do interesse próprio por vezes criminoso.

A questão é perdoar ao outro ou a si mesmo?

Não adianta pedir perdão pra Deus, se sua ofensa foi a um homem. Primeiro é preciso acertar as contas aqui na Terra, antes de pedir perdão pra Deus. O perdão pra Deus não pode servir como atalho para não resolver assuntos terrenos. No caso do Brasil, teremos que passar por muitos acertos de contas – judiciais, condenações etc – para então entrarmos em uma próxima fase, de esperança.

Como perdoar um político bandidão?

Nesse caso estamos falando de um prejuízo difuso. Estamos falando sobre alguém que não fez especificamente algo contra mim, mas que fez algo contra o Brasil e também me atingiu.

Acho que esse perdão tem que ser em relação ao Brasil, coletivamente precisamos dar a chance de perdoar nosso país.

Não chegamos a esta situação por acaso. Assim como todos somos vítimas, somos também responsáveis. E assumir é importante. Elegemos estas pessoas e fomos condescendentes por muito tempo com um comportamento que agora estamos recriminando.

Este é o significado de Kippur: antes de perdoar, é preciso assumir responsabilidade.

Então você acha que seria bom se Brasília praticasse o Kippur por um dia?

Acho que um dia não vai ser suficiente (risos). Acho a mensagem do Kippur mais que essencial para o momento, temos que ter a coragem necessária para olhar nossas atitudes bonitas e feias, pedir perdão, eventualmente pagar uma pena, e então perdoar, perdoar.

Por que o jejum?

Está prescrito na Bíblia hebraica – “e castigarás tua alma…”. O que foi interpretado pelos sábios como o jejum. Abandonar as necessidades materiais basicamente para poder se dedicar à reflexão e olhar para o espírito e a alma. Deixar de lado as necessidades físicas, ou ainda se solidarizar com quem não tem as mesmas condições de comer que você tem.

E Moisés, nos 40 dias que ficou no Sinai, não comeu e não bebeu, então a ideia é também de evocar esta memória.

O perdão não remeteria à culpa, tão comumente associada à cultura judaica?

Existe uma questão judaico-cristã ligada à culpa, e o judaísmo lidou no caso com humor e auto-ironia. Se é algo exagerado, fica difícil falar, eu acho que isso é a gente (risos). Acho que a culpa foi uma maneira do povo judeu lidar com dificuldades históricas. Foi uma ferramenta.

De toda forma, não vejo o judeu do século 21 vivendo uma culpa excessiva.

Nesta época do ano se rezam as “selichot”, que significam as “desculpas”. Se reza que fomos todos auto-destrutivos, que roubamos, que traímos. Não seria exagerado?

Você deve estar falando do “Vidui”. “Fizemos isso, fizemos aquilo”. Se trata de uma confissão coletiva de crimes e pecados em ordem alfabética. Vejo tudo isso de forma simbólica. A liturgia não foi feita para ser lida de forma literal, mas como ferramenta de reflexão. Você pode seguir fielmente o livro de rezas ou encará-lo mais como uma reflexão…

Que bom saber disso… (risos). Desde quando se reza o “Vidui”?

É uma questão de costume. O “Vidui” começa a ser feito na última semana antes do ano novo, entre os judeus ashkenazis (de origem europeia). Entre os sefaradim (de origem oriental e da Península Ibérica), um mês antes. A brincadeira é que os sefaradim fizeram mais pecados. (risos)

E a “capará”?

A “capará” é um ritual que precede o Kippur. Antigamente era feita com uma galinha morta girando em torno da cabeça. Você transferia seus pecados para a coitada da galinha. Hoje se usa um envelope com dinheiro para uma entidade beneficente, ao invés da galinha.

E o “tahlich”?

O “tahlich” acontece no primeiro dia de Rosh Hashaná (ano novo, celebrado sempre dez dias antes do Kippur). Aqui, o costume é ir na beira do rio e jogar simbolicamente seus pecados, esvaziando as migalhas de pão dos bolsos. Em um rio de água corrente que tenha vida de preferência.

Seria esta uma época de se ir ao “mikvé”?

Nesta época existe um costume bem forte de se entrar na mikvé, que é o banho ritual com águas da chuva. Tem que estar totalmente imerso, com água envolta em seu corpo todo. São três ou sete mergulhos. Temos estas piscinas nas sinagogas.

Por que se faz?

Para reproduzir simbolicamente seu nascimento. Você fica em posição fetal totalmente envolto em água, como estava na barriga da mamãe. É como se estivesse renascendo. Pode ser com água da chuva, no lago, no rio ou no mar.

Por que se usa o “shofar” nesta época?

O “shofar” é uma espécie de despertador da alma, ajuda nesse trabalho de reflexão. Ele é feito de chifre de carneiro, ou de qualquer animal kosher. É um instrumento musical, um dos mais antigos de que se tem notícia. Também era usado para convocar a comunidade a diversas coisas. Como os soldados para uma guerra ou comunicar um falecimento. Em Israel, até hoje, quando um novo presidente é empossado, se toca o “shofar”.

Por que essa proximidade de 10 dias, entre o ano novo e o Kippur?

No ano novo a gente é julgado por Deus, e no Kippur esse julgamento é confirmado. Os 10 dias são de “apelação para o STF”. E quando chega o Kippur é dada a sentença. Esta pode ser revisitada por Deus nestes 10 dias, caso você faça um exercício intenso de auto-reflexão.

Como funciona esse julgamento?

Deus não tem uma balança, separando os pratos com suas boas e más atitudes. Nesta época do ano se costuma desejar “hatimá tová”, uma boa assinatura. Por que? Porque precisamos ser inscritos no Livro da Vida no ano novo e confirmados no Kippur.

E se não formos?

Daí você vai cair no lugar errado…

Existem outros livros? São 5, não?

Apenas um, o Livro da Vida. Você deve estar confundindo com os 5 livros da Bíblia hebraica. Minha prédica deste ano, a propósito, será sobre o judaísmo pediátrico.

No que consiste o judaísmo pediátrico?

Uma visão infantilizada do judaísmo, que você adquiriu quando criança e não revisitou quando virou adulto.

Nada é por acaso… (risos). Estudei em um colégio religioso judaico, mas fazem 30 anos que não jejuo.

Eventualmente as pessoas aprendem sobre judaísmo na escola ou quando fazem bat ou bar mitzvá. Mas não voltam de forma madura e adulta, a se confrontar com essa tradição. O judeu contemporâneo exige o melhor da cultura e da arte, mas com a religião reproduz os padrões de quando tinha 10 anos, sem revisitá-la, sem ler a respeito, sem fazer um curso.

Duas coisas que me incomodam nas sinagogas são os dispositivos de segurança como câmeras e revista na entrada, e o hábito de se pagar por um assento para acompanhar as preces.

O que te incomoda também me incomoda. O dispositivo de segurança, com portas reforçadas e câmeras filmando quem entra, se relaciona com uma preocupação grande sobre atentados. Na Argentina foram dois na década de 90. Nossa fronteira não é a mais impermeável do mundo, então existe um esforço da comunidade para se proteger. É o contrário do que gostaríamos de passar, quem quiser chegar é bem vindo, mas reconheço que existe uma antipatia física na porta das instituições.

Já sobre os assentos, esta foi uma maneira que as sinagogas do mundo inteiro encontraram para cobrir uma parte de seu orçamento. Este é um dos principais momentos de arrecadação no ano. Mas é só para quem tem condições. Quem não puder, a gente vai encontrar uma solução.

Neste Rosh Hashaná se comemorou a passagem do ano 5778. É desde Adão e Eva?

Exatamente. Se vivos estivessem, estariam com 5778 anos.

Seria esta uma figura de linguagem?

Acredito que a Bíblia hebraica não é um livro de história e arqueologia, e sim um livro de ética. Se você tentar resolver a questão científica, abandona uma oportunidade e perde a mensagem moral que está nas entrelinhas. É preciso revisitar este texto de uma maneira mais complexa.

Culpa, perdão… Esse Deus não é muito punitivo?

Você deve estar se referindo a um Deus que recompensa e castiga. Não é o meu Deus. O meu Deus não é punitivo. É o Deus da inspiração, que entregou para a gente um conjunto de valores e nos inspira para que possamos caminhar o mais próximo de nossos valores. Viver a vida é coisa pra profissional.

Mas reconheço, que existem várias visões teológicas legítimas dentro do judaísmo. É como na piada do filme “Violinista no Telhado”. Dois judeus discutindo, vem um rabino e diz que ambos têm razão. Entra um terceiro contestando o rabino, que lhe diz, “você também tem razão”. A ideia é de que várias razões coexistem, esta é a maior beleza do judaísmo na minha opinião.

Como o “Zohar” (Cabala) é praticado no Yom Kippur?

O “Zohar” é mais uma maneira de ler a Bíblia hebraica com a ótica da mística. Consiste na sabedoria que procura nas entrelinhas do texto bíblico, ensinamentos sobre o espírito, sobre depois da morte, sobre o campo do sobrenatural. No Yom Kippur, acontece o “Itzkor” (“Lembrança”). Homenageamos as pessoas próximas que partiram, nos inspirando.

Que achou do Bolsonaro participando de um evento na Hebraica?

Quando a Hebraica de São Paulo repensou o convite que havia feito, eu disse que apoiava a decisão. Não fazia sentido chamar um candidato fora do contexto de um debate com outros candidatos.

Ainda mais se tratando de alguém que usa o espaço pra falar de maneira discriminatória, xenófoba.

Que achou da decisão do STF, de autorizar que aulas de religião em escolas públicas sigam um único credo?

Acho que o Estado laico é uma conquista muito grande em especial para as minorias religiosas. Uma conquista de nossa democracia que precisa ser preservada. Permitir o ensino confessional de determinada religião, qualquer que seja ela, em escolas públicas, significa caminhar na contramão do fortalecimento da separação entre religião e Estado em nosso país. Defendo o ensino de valores como ética e justiça, comum a todas as religiões. No entanto, o ensino de uma tradição religiosa específica por um sacerdote daquela tradição deveria, ao meu ver, ficar restrito aos templos e escolas religiosas.