“Em muitos países, a primeira vítima da pandemia do coronavírus tem sido a verdade”
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“Em muitos países, a primeira vítima da pandemia do coronavírus tem sido a verdade”

Morris Kachani

17 de março de 2020 | 16h58

Por Isabella Marzolla

Reprodução: One Free Press – “Vozes para jornalistas corajosos cuja liberdade de imprensa está sob ameaça”

Entrevista com Courtney Radsch, diretora da Comittee to Protect Journalists, que monitora a situação da imprensa e da liberdade de expressão ao redor do mundo.

“Continuamos profundamente preocupados com a difusa censura e retaliação na China e
instamos as autoridades do mundo todo a garantir que a imprensa possa relatar de
forma livre e segura sobre a questão global mais importante do nosso tempo. Nunca foi
tão evidente a importância do jornalismo independente.
Da China, que expulsou três repórteres do Wall Street Journal por uma manchete de
opinião sobre o coronavírus no mês passado, pouco tempo depois que o blogueiro Chen
Qiushi, que vinha cobrindo o assunto em Wuhan, desapareceu, à Tailândia, onde o
primeiro-ministro ameaçou prender qualquer jornalista que divulgasse “fake news” sobre
o vírus”.

A Comittee to Protect Journalists, junto com a One Free Press, divulgou no começo deste mês, dia 2 de março, um levantamento listando os dez casos mais graves de jornalistas ameaçados no mundo.

No top 3, temos em primeiro lugar o jornalista chinês Chen Qiushi, que filmou alguns
problemas no sistema de saúde da China no combate à pandemia caótica do
coronavírus. Em seus vídeos, no epicentro de Wuhan, Chen Qiushi mostrou que faltavam
máscaras, roupas para proteção, material médico e sobretudo – o mais importante – kits
de diagnóstico. Qiushi disse, “sem isso é impossível verificar se você está doente. A
única coisa que você pode fazer é se colocar em quarentena por conta própria” – o que
supostamente não agradou o governo chinês. Desde 6 de fevereiro não se teve mais
notícias dele.

O segundo, é do jornalista Daler Sharifov, do Tajiquistão que foi preso pouco antes das
eleições presidenciais – que aconteceram no dia 1 de março de 2019 – do país por seu
livro, Mohammed and Terrorism, que incluía citações das obras do teólogo egípcio Yusuf
al-Qaradawi e Sayyid Qutb, fundadores da Irmandade Muçulmana, organização proibida
no país.

E em terceiro lugar, a repórter da Folha de S. Paulo que expôs o esquema ilegal de
disparo de “propagandas eleitorais” a favor do atual presidente via Whatsapp, Patrícia
Campos Mello.

De acordo com Courtney Radsch, jornalista e Phd em relações internacionais, “o
Brasil é um dos piores países do mundo para ser jornalista, hoje em dia”.

“Não podemos censurar ou insultar jornalistas porque não concordamos ou não gostamos
do que foi publicado, ainda mais se isso estiver partindo de um poder tão alto, como o de
um presidente”, diz Radsch sobre a situação da imprensa brasileira.

Na terça-feira passada (10/03) , a ABERT (Associação Brasileira de Difusores de Rádio
e Televisão) divulgou um relatório sobre a situação da liberdade de expressão no Brasil. E
não é bom.

A cada 7 minutos jornalistas brasileiros são atacados nas redes sociais. Em 2019, o
presidente Jair Bolsonaro publicou em suas redes 432 postagens criticando ou
desqualificando profissionais da imprensa, especialmente jornalistas mulheres.

O sentimento compartilhado é de que ao redor do mundo governos fechados, como os da
Rússia, China e agora Brasil, prejudicam ou dificultam o trabalho jornalístico.

“Quando o governo se recusa a falar com a mídia é claro que existem outros meios –
como através do jornalismo investigativo – de conseguir informações, mas são meios que
exigem muito mais trabalho e podem colocar o jornalista em situação de risco”, diz
Radsch.

Um outro caso que recebeu bastante atenção mundial e ocupa o sétimo lugar na lista, é
do jornalista Jamal Khashoggi. No dia 14 de fevereiro deste ano completou 500 dias de
seu assassinato no Consulado da Arábia Saudita em Istambul. O caso permanece até
hoje sem resolução.

“O jornalismo é essencial para a democracia – ainda mais em momentos de crise, de
coronavírus e de incertezas políticas – e está constantemente sob ataque, tentando se
provar ‘oficial’, diante de governos que tentam a todo custo tirar sua credibilidade e
confiabilidade”.

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