Em termos junguianos, Bolsonaro representa a “sombra” do Brasil
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Em termos junguianos, Bolsonaro representa a “sombra” do Brasil

Morris Kachani

04 de junho de 2021 | 13h44

“O inconsciente brasileiro é um inconsciente que guarda a marca da violência. Não é à toa que elegemos Jair Bolsonaro.  Isso, em termos junguianos, diríamos que é a “sombra” do Brasil, a “sombra” coletiva. “Sombra” no sentido de uma força, porque ele foi legitimamente eleito nesse regime democrático e ele representa algo que a gente chamaria de “sombra”, algo que estava recalcado e que vem à tona.

Há questões no inconsciente brasileiro, alguns aspectos inevitáveis de nossa cultura que passam pela violência de nossa herança e origem, e que produz sintomas; racismo, violências contra as minorias e os povos originários, essas questões que estão tão em pauta nos dias de hoje”.

Assista à entrevista: https://youtu.be/qtPV3nKrhlo

O famoso conceito de inconsciente coletivo, criado pelo psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, e que dá nome a este blog, é feito de arquétipos e lida com uma perspectiva bastante ampla e universal. Jung tinha esse olhar, mais de antropólogo, para a religião, os mitos, as culturas. E o que ia chamando a atenção dele eram coisas que se repetiam e que ele achava muito semelhantes na sua estrutura.

Jung vai aventar em suas discussões que todos teríamos determinadas “pilastras”; formações inconscientes estruturais que dizem respeito ao humano, trazendo uma marca arquetípica nas nossas experiências humanas universais. São alguns temas que se repetem, como dependência materna, o famoso mito do herói e outros.

Há algo intermediário conectando estas bases arquetípicas mais universais com questões diretamente ligadas à cultura de um povo.

Qual seria o inconsciente coletivo e cultural brasileiro?

Santina Rodrigues é psicóloga clínica e arteterapeuta. Mestre pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro da IAJS – International Association for Jungian Studies.

“É uma profunda crise de valores que a gente vive. Eu acho que é uma crise de valores que vai refletir na cultura, sobretudo dependendo do desfecho desse momento que a gente está vivendo. Tudo aquilo que é temido demais se torna reprimido, a força com a qual o recalcado volta é sempre marcada pela violência.

“Tudo aquilo que é temido demais se torna reprimido, a força com a qual o recalcado volta é sempre marcada pela violência”

A Lei da Anistia eximiu a responsabilidade de todos, e o fantasma da ditadura voltou. Você pode notar que nos países vizinhos isso não acontece, porque houve um ajuste de contas, os torturadores foram punidos.

Se a gente não criar modos de modular a nossa relação com o que está constituído hoje no Brasil, eu penso que as consequências podem ser muito ruins”

“Acho que estamos falando de países muito diferentes, o da bossa nova e do Bolsonaro. Quando olhamos para a bossa nova podemos ter alguma esperança, e o que a gente consegue resgatar – não em um modo saudosista – é um país que já produziu beleza e então é capaz de produzir de novo”

“As experiências de nascer, crescer, se encantar pelo outro, amar, viver, morrer, lidar com desafios, são experiências arquetípicas. A pandemia traz um tanto desses arquétipos, e o principal deles é a morte. E claro, onde tem a morte tem também a vida. A luta pela sobrevivência ou o medo de perder a vida ou segurança.

Alguns pacientes têm uma relação com isso de profundo sofrimento. A maioria que está vivendo absolutamente sozinha este momento da pandemia – e acho que este já é outro momento, diferente do começo da pandemia –, está em um desalento enorme. É interessante porque eles não estão deprimidos, eles continuam trabalhando, produzindo, lendo, assistindo lives, mas tem neles um sentido de desesperança muito forte”

“Este inconsciente comparece nos sonhos? Totalmente. A ideia de estar preso em lugares, de não conseguir sair ou de estar angustiado na rua porque percebe estar sem máscara, são motivos oníricos muito presentes”

“O Brasil é esse país que fica “regurgitando coisas”, vamos dizer assim. Eu falo regurgitar porque me vem a ideia de um país ainda muito bebê, muito regredido. Embora a gente tenha 500 anos de história, dá a impressão de uma coisa que a gente não elabora.

Um complexo que eu acho que agora estamos tentando elaborar de um jeito diferente é o racismo. Acho que a gente nunca falou de um jeito tão claro, nunca enfrentou tão claramente o nosso racismo estrutural, essa marca racista que está dentro das nossas casas. Temos uma chance maior toda vez que a gente encara esses complexos de dar um passo adiante, mas a história é um processo lento”

“Eu acho que as redes sociais escancaram uma necessidade de pertencimento nosso e ao mesmo tempo de um narcisismo extremo”

“Eu acho que as redes sociais escancaram uma necessidade de pertencimento nosso e ao mesmo tempo de um narcisismo extremo. Acontece esse absurdo do Jacarezinho, no dia as pessoas choram e postam, mas no dia seguinte tá todo mundo postando coisas completamente narcisistas e individuais”

“A “persona” – para usar outro conceito junguiano -, a gente sempre enverniza ela no mundo social para se apresentar. E eu tenho medo de pessoas cordiais demais, acho que a cordialidade demais oculta coisas horrorosas”

“Hoje é difícil falar “oi, tudo bem?”, eu não consigo mais fazer essa pergunta para as pessoas, tenho medo até de ser inadequada fazendo essa pergunta.

“Eu vou  confessar que às vezes tenho medo de apertar o botão do Zoom, de atender [os pacientes]”

Eu vou  confessar que às vezes tenho medo de apertar o botão do Zoom, de atender [os pacientes], porque eu já abri a câmera e encontrei paciente meu gritando de desespero, gritando, por ter enterrado o pai e não ter tido tempo de ver o pai. Essa é a tônica do meu último ano, sobretudo do segundo semestre [de 2020], em que o clima estava pesadíssimo.

Eu atendo umas 7 pessoas por dia, mas tem demanda para muito mais. É que eu estabeleci um limite até pela minha saúde mental. Mas se eu quisesse trabalhar 16 horas por dia, conseguiria. Os meus colegas também estão sem agenda”.

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