Entre os militares e a utopia

Entre os militares e a utopia

Morris Kachani

02 Março 2018 | 10h57

O deputado Marcelo Freixo, estrela do PSOL carioca, falou ao blog das consequências da intervenção federal no Rio de Janeiro – “é muito mais grave e séria do que tudo que já vivemos” – e apontou o caminho para o que chama de “nova esquerda”

Por Karla Monteiro

No bangue-bangue das redes sociais, os lulistas o atacam: deslumbrado, fanfarrão, traidor da esquerda, esquerda zona sul, baba ovo de artista. O deputado Marcelo Freixo, que disputou o segundo turno nas eleições municipais do Rio de Janeiro, candidato a uma vaga na Câmara no pleito de outubro, pelo PSOL, virou a Geni dos petistas, acusado do crime capital: além de circular com artistas e frequentar o apartamento da Paula Lavigne, não seguir Lula, logo não defender o país do golpe. Ele não parece preocupado. A ideia que o domina é construir a “nova esquerda”, para que, em 2020, “uma frente progressista possa disputar as eleições, com alianças programáticas”.

“O problema é que certos setores do PT não conseguem lidar com a quebra da hegemonia dentro da esquerda”, diz.

No próximo sábado, dia 3, ele desembarca em São Paulo, acompanhado de nomes como Caetano Veloso, para o pré-lançamento de Guilherme Boulos, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), à presidência da República. A vice na chapa do PSOL será Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e ativista de projeção internacional.

“Nós queremos voto. Mas queremos também questionar o inquestionável. O Brasil não acaba em 2018”, disparou ele, numa manhã quente da primeira semana da intervenção federal no Rio de Janeiro.

Desde que o presidente Temer anunciou o desembarque dos militares no controle da segurança pública do Estado, Freixo batalha para organizar a resistência ao que considera uma “intervenção política”. Segurança pública, afinal, é a sua praia. Nascido no violento bairro do Fonseca, subúrbio de Niterói, onde viveu até os 40 anos, iniciou a militância dentro do sistema prisional, como professor, onde fora parar num estágio do curso de História, da UFF (Universidade Federal Fluminense). Em 2007, já no primeiro mandato de deputado estadual, protagonizou a CPI das Milícias, que resultou no indiciamento de 225 envolvidos e inspirou o personagem do deputado gente fina, defensor dos direitos humanos, do filme Tropa de Elite 2.

Segundo Freixo, o que está em discussão no Rio não é segurança pública. “É um debate sobre democracia”.

Antes de falarmos da chapa Boulos-Guajajara, gostaria de falar da intervenção. Desde que o governo anunciou a transferência do comando da segurança pública no Rio para os militares, a onda de pânico do avanço autoritário se avolumou nas redes. A democracia está em risco?

O que eu acho é que os movimentos de resistência não podem cometer o erro de brigar com os militares neste momento. Se a fala for contra os militares estamos errando. Eles estão cumprindo ordens absurdas. Os alvos são o Temer e o PMDB. É sempre ruim creditar à força militar qualquer solução na área de segurança. O que dá certo no mundo é o uso da inteligência, a prevenção, a participação cidadã. Quando você aplica a força e a força não resolve, só tem um caminho: mais força. Estamos dando um poder aos militares que eles não estão pedindo para ter.

Você vem defendendo que não vai resolver, então podemos esperar mais força?

Vamos imaginar que dê errado, que haja uma tragédia. A opinião pública muda rapidamente e o que importa ao Temer é deixar de ser uma margem de erro nas pesquisas. E aí? Qual a próxima medida dele? O governo não é legítimo e não tem crédito. Ele sabe que ao fim do mandato pode ser preso. Eu o acho capaz de tudo. Quem garante que, se este plano não gerar a sensação de segurança que se espera, ele não vá decretar o estado de emergência? O segundo passo na Constituição depois da intervenção é o estado de emergência. E, no estado de emergência, o presidente pode, por exemplo, suspender as eleições. Você pode afirmar que esta ideia está descartada?

O carioca está com medo, isso é um fato. Se não é a intervenção do Temer, qual a proposta? Parte da esquerda joga a culpa na imprensa, diz que é um medo inventado – ou pelo menos inflado.

A cobertura do carnaval foi evidentemente tendenciosa. Nos dois últimos carnavais da gestão do Eduardo Paes o número de ocorrências foi maior e não foi noticiado da mesma maneira. Mas não dá para desconsiderar e desqualificar o medo. É um medo real, que tem razão de ser. No mês de janeiro, só na cidade do Rio de Janeiro, tivemos 55 policiais baleados e 16 morreram. E 66 pessoas foram mortas pela polícia. Em qual lugar do mundo a polícia matou 66 pessoas em um mês? Talvez nem na Síria.

O Rio ocupa o décimo lugar no mapa da violência. Os três primeiros são Sergipe, Rio Grande do Norte e Alagoas.

O nordeste inteiro é mais violento. Pela lógica, se o Temer estivesse preocupado com a violência, começaria pelo Rio Grande do Norte. O que o Temer está fazendo é se apropriando do medo para criar um projeto político. Ele cria uma agenda positiva, sai da agenda das reformas, sai dos seus 3% de aceitação para ir para o ataque. Quando ele escolhe o Rio para começar, não é por acaso. Trata-se de uma ação marqueteira. Mas isso não significa que a violência no Rio esteja aceitável. O medo é concreto.

Você vem defendendo a ideia da intervenção política, que flutuara no vácuo do carnaval jacobino que tomou conta da cidade este ano. A intervenção começou em samba?

A intervenção é uma resposta de quem pensa politicamente. Os militares não planejaram isso. Acabei de assistir o pronunciamento do Braga Neto na televisão. O resumo da coletiva dele: vamos melhorar a sensação de segurança e contamos com a imprensa para isso. O plano é não ter plano. Uma loucura para salvar a pele do PMDB.

Saiu da cabeça do Moreira Franco?

O Moreira eu conheço de longa data. Foi prefeito de Niterói e faliu Niterói. Depois assumiu o governo do Rio dizendo que ia acabar com a violência em seis meses. Por trás de tudo, tem uma disputa de poder dele com a família Picciani. Depois que o Jorge Picciani (ex-presidente da ALERJ) foi preso, há uma briga pelo controle do PMDB no Rio.

Qual a sua avaliação do legado do PMDB?

O PMDB é o maior crime organizado do Rio de Janeiro. Não sou eu quem está dizendo, isto está na denúnccia contra o Cabral. A quadrilha pela qual ele responde à justiça é o próprio governo. O resultado da atuação criminosa do partido na cidade é a maior crise da nossa história. Não está localizada na segurança. Está na saúde, na educação, em todos os setores. O Rio precisa se livrar do PMDB.

Qual a sua avaliação da administração do Marcelo Crivella?

Nós tivemos uma disputa acirrada na eleição municipal. Ele foi eleito com 1, 7 milhão de votos. E eu fiquei com 1,2. Durante a campanha, enfrentamos uma política muito subterrânea, de redes de Whatsapp, movida pela estrutura da Universal e da Record. Campanha com práticas que não estávamos acostumados a enfrentar. Não era uma política de ideias, de programas. Assim como o Crivella não apresentou programa nenhum ele assumiu a prefeitura sem equipe. Loteou os cargos entre os que o apoiaram no segundo turno. E o Rio virou uma máquina improdutiva, incapaz de reagir aos seus problemas. O Crivella age de forma muito prejudicial para a democracia carioca. Por exemplo: o prefeito se ausentou da cidade durante o maior evento do Rio de Janeiro, o carnaval. Além do mais, é um trapalhão. Teve uma chuva em que morreram pessoas e ele fez piada. É despreparado para o cargo que ocupa.

Voltando ao medo, quais as suas propostas? Só se combate uma ideia ruim com uma ideia boa.

O Exército poderia contribuir muito para a segurança do Rio. Tem um jogo de palavras que eu gosto: a integração é mais eficaz do que a intervenção. Por exemplo: unir os serviços de inteligência do Exército, da Aeronáutica, da Marinha, das polícias estaduais e trabalhar em conjunto numa ação preventiva no tráfico de armas e munições. Já cessaria a violência armada pesada. Presidi a CPI do tráfico de armas e munições, temos dados impressionantes: 82% dos homicídios cometidos na Estado foram cometidos com armas que têm origem no mercado legal. Ou seja: falta articulação. Sempre defendi que as forças federais trabalhassem integradas no serviço de inteligência preventiva e fiscalizadora.

No seu dia a dia de deputado, como está sendo conviver com uma intervenção federal no comando das forças de segurança do Estado? Como afeta a democracia, já que você aponta o caminho autoritário?

Há dois governadores no Rio hoje. Brinco que é um governador que vai prender e outro que vai ser preso. Eu presido a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, mas não tenho a quem denunciar as violações. Por exemplo: houve o caso da Vila Kennedy, policiais fichando pessoas nas ruas. Completamente ilegal. Aí eu não podia convocar o interventor para se explicar. Poderia convocar o governador, mas o governador não tem ingerência sobre a área de segurança… Situação absurda.

Mas aí o que se faz?

Estamos vivendo uma intervenção política. Mas este ato político cria uma limitação democrática entre as instituições. ALERJ, Defensoria Pública e Ministério Público não podem exercer os seus papéis fiscalizadores na área de segurança porque está sobre intervenção. É muito mais grave e sério do que tudo que já vivemos no Rio. Não é um debate sobre segurança. É um debate sobre democracia. O próprio Temer disse que é uma “jogada de mestre”.

Quais os cenários que você enxerga para a intervenção, o pior e o melhor?

O Rio convive com a presença militar desde os anos 90. Já tivemos ocupações na Providência, no Alemão, na Maré, na Rocinha. Quais são os resultados? Como estão estes lugares hoje? Mais violentos, todos eles.

O PSOL lança no sábado a candidatura da chapa Boulos-Guajajara. Não é uma chapa demasiado utópica para um momento de tamanha radicalização, em que vemos o Bolsonaro crescer nas pesquisas?

Não é uma aliança entre partidos para mais tempo de TV. É uma aliança de experiências de luta, para inserir no debate político nacional ideias que não estão sendo debatidas. O rentismo não nos serve. Não serve para 99% da população. Este modelo de concentração de riqueza, concentração de terra, de dano ambiental, isso não serve mais. Não tem perspectiva. A ideia de uma sociedade de mercado rentista, com desemprego estrutural, é necessariamente uma sociedade violenta. Esta chapa é simbólica, uma chapa para discutir o modelo. Uma chapa anti-sistêmica.

E uma chapa anti-sistêmica serve para quê?

A chapa que vai para a disputa eleitoral com o único objetivo de ganhar voto pode ganhar a eleição e perder a política. Nós queremos voto. Mas queremos também questionar o inquestionável. A grande maioria da população não pode continuar vivendo com este modelo. Vamos em busca de voto, Boulos estará nos debates de TV. Mas queremos uma campanha que faça sentido. Queremos ganhar a política. O Brasil não acaba em 2018.

Você vê semelhanças entre o Guilherme Boulos de hoje e o Lula de 1989?

É muito diferente. Conhecendo o Lula e o Boulos, te digo que há muitas diferenças em relação à percepção política. Lula sempre foi mais conciliador de classes. A cabeça do Boulos não é a cabeça do Lula.

Eleição sem Lula é fraude?

O Lula cumpriu um papel muito importante na história. Tanto eu como o Boulos temos muito respeito pela história dele. E estamos imensamente solidários neste momento.

O que está acontecendo é uma aberração. Lula tinha que disputar as eleições. Não seria o meu candidato, eu não votaria nele. Mas tinha que disputar.

Nas redes sociais, o PSOL vem sendo chamado de esquerda limpinha ou esquerda Leblon. Como você responde a isso?

Limpinha? Ser limpo neste momento devia ser elogio. O problema é que certos setores do PT não conseguem lidar com a quebra da hegemonia dentro da esquerda. Acredito que algo muito maior do que o MTST ou PSOL vá nascer da chapa Boulos e Sônia.

Mas como governar sem fazer alianças?

Para governar, tem que ser com o PMDB? Cheguei ao segundo turno de eleição no Rio, derrotamos o PMDB, e o PT não estava com a gente. Dizer que não queremos ganhar é não reconhecer o tamanho hoje do PSOL no Rio. É maior do que o PT. O fato de não fazer aliança suja não é não querer governar. Falta capacidade de autocrítica. Esta forma de governar deu no que deu: afundou o país num golpe.

O que você espera de concreto da eleição de 2018?

Vai nos dar condição de em 2020 fazer uma frente progressista, com alianças programáticas.

Você tem fama de deslumbrado entre os lulistas, por circular com artistas como Gregório Duvivier e Wagner Moura, frequentar o apartamento da Paula Lavigne. Você é deslumbrado?

Deslumbrado? Quem me chama de deslumbrado não sabe de onde eu vim. Venho de um lugar que não tem deslumbramento. O nosso trabalho é de base e está crescendo. No segundo turno das eleições no Rio, a cada 10 votos que tive, 5 votos eram da zona norte, 3, zona oeste, e 2, zona sul. Onde está o PSOL Leblon? Eu acho ótimo ter apoio dos artistas. O que eu não posso é flexibilizar as minhas propostas para ter o apoio destes artistas.