“Está em marcha uma revolução de mudança das vivências trans”
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“Está em marcha uma revolução de mudança das vivências trans”

Morris Kachani

01 de julho de 2021 | 09h49

O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo – a expectativa de vida para esta população, é de 35 anos. Ao mesmo tempo, é o país que mais consome pornografia trans. Neste cenário sombrio, ao menos algumas conquistas legítimas se consolidam, entre as quais os direitos adquiridos e algum certo reconhecimento social.

O psiquiatra Alexandre Saadeh é fundador e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas – SP. 

Assista à entrevista: https://youtu.be/aFUgGxvn2DY

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

“A transexualidade começa na infância. A história já vem desde os três, quatro anos de idade e isso gera questões na família. Todos nós nascemos, em grande maioria, em famílias cis-heteronormativas”

“No início a gente ainda recebia algumas famílias que vinham para a gente pedindo para “consertar” os filhos. Hoje é uma raridade absoluta uma família que venha pedir para “consertar” as crianças e os adolescentes. A grande maioria vem pedindo ajuda para facilitar a trajetória de vida dessa criança/adolescente”

“A população já adulta é uma população muito sofrida, não ouvida, não validada, não reconhecida.

Então está em marcha uma revolução de mudança dessas vivências trans. A população mais jovem é uma população que você não ouve mais falar que é “monstruosa, uma bizarrice, que têm alguma coisa de errado”, é uma população que se reconhece e que está tranquila com quem é. Essa população trans de adolescentes para adultos hoje já tem alguns direitos garantidos – faltam muitos, mas já tem alguns garantidos e isso garante algum reconhecimento social. É um tema que não termina, são pequenas batalhas cotidianas”

SUICÍDIOS

“Os comportamentos suicidas são muito comuns na população trans. Tem estudos que falam que os adolescentes e os adultos, cometem entre 5 a 8, e 10 vezes respectivamente, mais suicídio do que a população mundial. Isso pode estar ligado tanto às questões subjetivas quanto ao que chamamos de stress de minoria, onde você por ser minoria sofre um stress e vai internalizando ou vivendo determinadas situações em que se questiona. O quanto ser transgênero carrega em si algo que pode ser uma questão ligada à questão da saúde mental ou o quanto ser transgênero remete a uma visão da sociedade que pode gerar problemas na saúde mental dessas pessoas?”

“Sempre existiu [pessoas transgêneros]. Em algumas culturas, em algumas sociedades foi mais aceito e em outras foi completamente reprimido e essas pessoas tiveram que sobreviver na obscuridade, mas sempre existiu. Na realidade, ser trans faz parte da variabilidade, da diversidade em termos de expressão sexuais que a nossa espécie tem. Sempre existiu e vai continuar existindo”

“É menos de 1% da população mundial que vai ter essa vivência de incongruência de gênero”

“A identidade de gênero vai se dar em qualquer indivíduo da nossa espécie, a questão é se vai ser aceito socialmente ou não, se vai ter essa inserção social ou não”

BRASIL

“Eu acho o nosso País uma preciosidade em tudo. A gente é um caldo de cultura aonde todas as expressões podem existir, mas a gente aprende desde pequeno que uma coisa é o que você mostra para os outros e outra coisa é o que você vive na sua particularidade. Esse é o paradoxo que ser brasileiro carrega, e isso tem a ver com o País que mais mata transexuais e travestis, ao mesmo tempo que é o País que mais consome pornografia trans. A gente é muito moralista, a gente comenta da vida de todo mundo – “o que o outro têm de errado?”. Mas a gente não revela o que a gente tem de errado; é fácil falar dos outros, a gente não cuida do nosso quintal, a gente fica cuidando do quintal dos outros”

“No Brasil, e na América Latina de modo geral, tem esse jogo de aparências. É um País que no carnaval os homens heterossexuais cisgêneros se vestem de mulher mas não respeitam as mulheres, são super machistas e essa vivência identitária de outras pessoas provoca reações muito violentas”

“São Paulo é a cidade de maior aceitação trans dentro do Brasil e olha que está longe de ser o ideal, mas ainda é uma cidade que nos últimos 25 anos se tornou muito inclusiva para a população trans. São Paulo não é um retrato desse Brasil profundo”

ESPECTRO AUTISTA

“Tem estudos que falam que o espectro autista é muito comum nessa população. Você vê uma significância de indivíduos que têm conjuntamente o diagnóstico de incongruência de gênero e transtorno de espectro autista. Acho importante falar aqui que “diagnóstico” não significa necessariamente doença, ou transtorno mental por exemplo. A transexualidade é um diagnóstico médico porque é importante para permitir as intervenções médicas que algum indivíduo trans possa requisitar e aí só perante diagnóstico que eu como médico posso fazer uma intervenção hormonal ou cirúrgica”

“Você se percebe diferente, você não pertence à maioria e isso te causa uma sensação de estranheza. Você não faz parte do meio como um todo. Eu já ouvi situações em que a aceitação familiar foi super importante para ter uma vida tranquila, adequada, para saber se posicionar, se colocar, e já ouvi histórias trágicas de violência dentro da família, na cidade, no meio em que a pessoa vivia”

“Imagina você nascer em um corpo de homem e a sua identidade [de gênero] ser completamente feminina. Isso é um drama, uma coisa complexa para a nossa cultura, para a nossa sociedade e para o indivíduo que está imerso nisso”

AMBULATÓRIO

“As pessoas têm acesso ao Ambulatório via um email, marcam uma triagem e na triagem a gente faz uma hipótese diagnóstica, depois é agendada uma avaliação pediátrica e psiquiátrica no ambulatório e a partir disso é feita outra hipótese diagnóstica, que tem a ver com o que foi feito na triagem e aí é proposto um acompanhamento que a gente chama de longitudinal, ao longo do tempo.

Então por exemplo, se é uma criança pequena que chega ao ambulatório a gente tem muito tempo para acompanhar essa criança e essa família no sentido de favorecer essa criança a ser quem ela é, não o que a sociedade ou alguém gostaria que ela fosse. A mesma coisa com os adolescentes”

“Quando chega perto da puberdade a grande questão é a mudança corporal e aí a gente conversa com esse adolescente e com a família e juntos pensamos se vai ter indicação de bloqueio de puberdade ou não, que é uma atitude completamente reversível e só se faz dentro de um projeto de pesquisa aqui no Brasil. Não é feito corriqueiramente, não é feito no SUS.

Aos 16 anos a gente pode entrar com hormonioterapia cruzada, que tem a ver com identidade de gênero daquele adolescente. Cirurgia [de mudança de sexo] hoje no Brasil é só depois dos 18 anos”

“Tem muita “alta” no ambulatório porque nem todo mundo que chega no ambulatório vai [precisar] seguir esse processo. Em muitas crianças percebemos que apesar de terem um comportamento expresso cross-gender (de outro gênero), não tem uma questão identitária. Não é alguém que necessite de um acompanhamento”

“A gente está falando de uma população [trans] que sofre, que está exposta no meio social à repressão, a uma pressão muito grande. As crianças e adolescentes estão suscetíveis ao bullying, muitos adolescentes abandonam a escola pela mudança corporal, pelo bullying que sofrem, muitos fazem autolesão, pensam em suicídio, tem muita tentativa de suicídio e muito suicídio.

A gente não está brincando com essa população, a gente leva muito a sério, a gente não é uma fábrica de mudança corporal. Só vai para a mudança corporal, com os recursos que a gente tem hoje em dia, quem tem indicação, quem os pais concordam e quem o adolescente aprova também. Nós não estamos falando de vontade e desejo, estamos falando de uma noção de quem a pessoa é, a identidade dela”

Nós não estamos falando de vontade e desejo, estamos falando de uma noção de quem a pessoa é, a identidade dela”

PANDEMIA

“Para a maior parte dessa juventude trans a internet tem sido um recurso muito interessante e importante de contato. Agora, se alguém tem alguma questão psiquiátrica, psicológica, tem algum transtorno de conduta, aí é muito complicada a vivência de isolamento da pandemia. Porque já estava isolado e fica mais difícil porque a pessoa é mais isolada ainda. Às vezes inclusive em uma convivência forçada com parentes que não aceitam suas escolhas.

Então essa pandemia tem sido muito complexa para essa população, até porque fica distante dos amigos e das amigas quanto tem, e quando não tem fica mais solitário ainda. Eu acho que a pandemia vai ter uma repercussão na vida das crianças e desses adolescentes que a gente vai ver daqui alguns anos, porque levou uma parte da infância e da juventude dessas pessoas”.

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