“Estamos em luto, mas vamos continuar”
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“Estamos em luto, mas vamos continuar”

Morris Kachani

08 de fevereiro de 2019 | 17h16

A notícia recente sobre o suicídio da ativista Sabrina Bittencourt chamou a atenção de todos e buscando repercuti-la, decidi entrar em contato com a Vana Lopes. Vana tem 58 anos, vive em Portugal, é antes de mais nada mãe, avó e esposa, como fez questão de se apresentar. Estilista de profissão, Vana é, também, uma das vítimas conhecidas de Roger Abdelmassih.

Estupro: “Eu acordei e ele estava em cima de mim”, após sedativos.

A citação vem de um livro a respeito que Vana escreveu, conjuntamente com os jornalistas Claudio Tognolli e Malu Magalhães, em que narra também seu protagonismo na caçada a Abdelmassih, no tempo em que este ficou foragido.

O livro, “Bem-vindo ao inferno”, é prefaciado por Sergio Moro e sua esposa, Rosângela.

“Fazer justiça com as próprias mãos é a clássica metáfora de irresignação à lei. Vana é a mãe espiritual de uma nova prática. Trata-se, agora, de fazer justiça com o próprio mouse, em que a cidadania conectada é a maior arma da Justiça vigente: as redes sociais responsivas e responsáveis”, escreveu nosso atual ministro.

Em 2011, Vana fundou o movimento Vítimas Unidas, que agrega 100 mil pessoas em um grupo fechado na internet. Este movimento dá suporte jurídico e psicológico para vítimas de abusos, principalmente abusos sexuais.

São centenas de casos pelo Brasil, nas esferas mais variadas…

Como se sabe, a notícia sobre o suicídio de Sabrina continua em suspenso, sem confirmação oficial. Sabrina foi protagonista central na articulação das denúncias contra João de Deus. E também das investigações que levaram à prisão de seu filho, Sandro Teixeira de Oliveira.

Tantas foram as denúncias que ela recebeu inicialmente, que decidiu procurar Vana Lopes e Maria do Carmo, que preside o Vítimas Unidas, para firmar uma parceria. Desde então, as três se dividiram entre o trabalho de checagem das denúncias, acolhimento das vítimas e orientação jurídica.

O engajamento criou amizades e inimizades e hoje, nas redes sociais, o trio é execrado em determinadas arenas virtuais, sem limites.

Isso tudo às vésperas da estreia da série “Assédio” na Globo, inspirada livremente no caso Abdelmassih, a partir do livro “A Clínica: a Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”, escrito pelo jornalista Vicente Vilardaga.

*

Primeiro deixa eu só te explicar minha condição atual. Eu não tô muito bem, você me desculpe. Há dias que estou sob efeito de remédios porque é muito chocante o que a gente está passando. Hoje estou melhor, me diga querido, qual tua pergunta?

Eu talvez quisesse começar falando sobre o que é o trabalho do Vítimas Unidas.

O grupo surgiu na caçada que fiz a Roger Abdelmassih, que ajudei a localizar. Na época o grupo se chamava Vítimas de Roger, mas foram surgindo vítimas de outros, então montei este outro grupo.

Chegou a bater 130 mil pessoas, mas tinha muita gente que não era vítima, era espiã. Tinha muita gente infiltrada, fake, que entrava para ver o que a gente estava fazendo.

Então, fechamos e limpamos o grupo. Confirmamos a identidade das pessoas, dos simpatizantes, vítimas e familiares.

Na verdade, o grupo é um endereço online. Lá se encontram a nós, psicólogos, advogados, outras vítimas, e autoridades que nos ajudam. Somos formiguinhas, organizadinhas.

Vocês recebem muitas denúncias?

Muitas, não estamos dando conta, porque lançamos um aplicativo agora que recebe denúncias variadas. O grupo uniu vitimas de tudo, temos vítimas de erro médico, de maus tratos a idosos…

O que aparece de nosso trabalho são os casos famosos, mas temos muitas vítimas de criminosos menos notórios. Como por exemplo, das crianças que são vítimas de pedofilia dos traficantes em Angra dos Reis. É difícil a gente entrar nessa briga também, ninguém quer saber.

Como funciona o Vítimas Unidas?

Quando você começa uma denúncia, é um caminho sem volta. Nosso trabalho é de fortalecer melhor esta arma que é a denúncia, porque assim você ajuda as outras.

Inicialmente, a gente pede à vítima um relato sobre o que aconteceu exatamente nas palavras dela, para entender o acontecido.

Eu sou um radar. As pessoas me procuram. Porque como fui vítima elas se identificam comigo, confiam em mim mais até do que no familiar, até porque às vezes são violentadas pela própria família. Eu falo o vitimês, que é um idioma diferente do português. Só que não sou psicóloga, então o que faço é dar um colo, carinho, ouvir.

Como é o idioma vitimês?

É a língua do aconchego. O que a vítima quer é ser ouvida.  É diferente da delegacia, onde tem aquela inquisição toda. É empatia, carinho. E a confiança que a vítima tem, de que aquilo que contou é sigiloso. Esses segredos são guardados. Vitimês é isso, cuidar da segurança.

E depois?

Depois eu encaminho a vítima a uma psicóloga pra buscarmos um caminho de tratamento. Entramos também em contato com advogados para ver se o crime está ou não prescrito. Estando, nós nos informamos se há alguma denúncia atual do mesmo criminoso para que essa vítima mais antiga consiga pelo menos entrar como vítima testemunha.

Porque quem abusa, nunca abusa uma vez só. Cai sempre na reincidência.

Vocês são uma ONG mesmo?

Não. Somos um grupo de pessoas voluntárias, altruístas; não recebemos um centavo de ninguém, justamente pra não ter nenhum tipo de rabo preso.

Nossas denúncias passam por um crivo. Só denuncio coisa verdadeira. Temos um trabalho de checagem, justamente para evitar de criar vítimas de alguma denúncia caluniosa, como foi na Escola Base, por exemplo.

Qual o status do abuso sexual no Brasil?

O abuso sexual é uma questão de poder. O violentador quer ter poder sobre a vítima. O estupro é uma relação de poder, ele quer subjugar a pessoa. Acontece em todos os Estados, em todas as profissões, em todas religiões, infelizmente.

O que é importante de ser colocado: não existe médico violentador, o que existe é um violentador que virou médico para ter acesso a pacientes. Não existe padre pedófilo, o que existe é um pedófilo que se tornou padre.

Há criminosos que se infiltraram nesses meios. Além de acabarem com a classe, pegam a vítima em estado de vulnerabilidade.

Existe um traço tipicamente brasileiro nisso?

Algo tipicamente brasileiro é a injustiça. Não haver punição, todo o descaso. Foi o que eu sofri, porque existem também delegados muito bons e delegados assediadores.

Agora mesmo estou denunciando um delegado assediador de São José do Rio Preto, Dr. José Mauro Venturelli. Ele assediou moralmente e sexualmente dez funcionárias. Já está na corregedoria, mas você sabe como é o corporativismo. Comprei a briga porque conheço as dez vítimas; todas funcionárias, todas policiais. Temos um delegado assediando, você sabe o que é isso? O primeiro lugar que a vítima tem que ir é na delegacia… Temos que tirar essa pessoa de lá.

Para além de uma mudança de governo, existe uma mudança de cultura acontecendo por aqui…

É uma ruptura de paradigma.

Mas eu não falo de política. Minha bandeira é a da dor. Qualquer pessoa que foi violentada, eu atendo, independente de credo, religião, partido.

Cada vítima tem sua opinião política. Eu seria contra a democracia se eu contestasse suas posições politicas.

E sobre feminismo?

Nessa semana um senhor postou sobre violência contra o homem, no grupo. E aí foi uma discussão danada, porque as feministas argumentaram que homem não sofre esse tipo de violência, estatística isso ou aquilo. Mas o crime não é uma questão de estatística. Aquele única pessoa que sofreu uma violência, precisa ser defendida. Muitos homens são vítimas de alienação parental. Existem homens que precisam ser defendidos, e eu defendo alguns.

Você tem muitos casos?

É muita coisa! Não dá nem pra ficar numerando.

Há os casos mais midiáticos, que a imprensa gosta, como o caso do João de Deus; Eliza Samudio e Bruninho; Omar Castro – que foi preso agora em Santa Catarina, e nós defendemos 13 vítimas dele. Mas tenho muitos outros casos. Agora com o aplicativo, eu virei uma fonte de denúncia mesmo.

É um crime difícil de provar.

 

Exatamente, sem provas e sem crédito. E mesmo assim quando consegue, como aconteceu comigo, com o Roger condenado, ainda hoje tem quem duvide que sou vítima. O violentador sempre vai negar, é típico do criminoso.

As pessoas têm muito medo de denunciar?

Muito. Todas temem tanto o violentador quanto a opinião pública.

Conversar com vocês jornalistas e ter a vida toda exposta, e conversar com delegado. E eu entendo isso, porque eu também senti medo quando fui pela primeira vez na delegacia. Quando a gente entra, parece que somos nós as criminosas. É tanta pergunta que fazem, é uma inquisição. Você se sente como se tivesse feito a coisa errada.

Fora isso, o medo do agressor. Você tinha me perguntado a diferença daqui pra outros países e eu te disse injustiça, não é? Ou o cara é solto porque consegue habeas corpus, ou fica lá da cadeia ameaçando a vítima. Então, imagina, como você vai denunciar sabendo que o cara pode sair por bom comportamento, pelo induto de Natal? Elas têm medo.

E às vezes também leva um tempo o processo para você entender que está sendo vítima de um abuso, imagino.

Sim. Como disse, o abusador é um serial, ele não violenta uma pessoa só. Há um modus operandi, vai chegando daquele jeito, descobre o ponto fraco; quando é da religião, vai pela fé; no meu caso com Roger, pelo desejo de ter filhos. Ele promete coisas e você vai baixando a guarda, né?

No caso de João de Deus, prometia a cura do familiar. Era assim – a filha ia com o pai pra morrer, ele prometia que o pai ia ficar bom e adquiria confiança da vítima.

Os abusadores são caçadores de vítimas.

O caso João de Deus é uma quadrilha. Eu acompanho todas as denúncias, protegemos algumas vítimas. O filho dele foi preso por ameaçar as vítimas. Elas são muito corajosas. Todas morrem de medo, mas se fortaleceram muito conosco e conseguiram fazer a denúncia. E nisso Sabrina entra.

Sabrina não era do Vítimas Unidas, ela era uma parceira.

E qual foi o papel da Sabrina no caso João de Deus?

Ela foi fundamental, porque foi por intermédio dela que tomamos conhecimento das denúncias. Ela também tinha feito um trabalho com o Prem Baba, e começou a receber denúncias contra o João de Deus.

Ela nos procurou porque não estava dando conta do número de denúncias que estava recebendo. Quero esclarecer que nós não conhecemos sua vida pessoal, conhecemos a Sabrina ativista, as denúncias contra João de Deus, que são verdadeiras.

Há muita corrupção nesse caso, eles estão tentando coagir testemunhas. Nessa luta toda, Sabrina foi muito corajosa. E nós estamos dando a cara a bater e sofrendo consequências, sofrendo uma campanha de desmoralização.

Sabrina cometeu suicídio e nós recebemos essa notícia da família, do ex-marido e do filho. Agora, a imprensa me pergunta onde está o corpo, onde é o enterro, e eu não sei. Eu fiquei chocada. Estou há dias sob efeito de remédios.

O que a gente pode imaginar que a teria levado a cometer suicídio?

Seja o que for, ela simplesmente não existe mais pra gente, porque ela declarou que ia morrer, o marido falou que morreu, e o filho também falou. Provar, eu não sei como, realmente.

Minha dúvida não é essa, e sim quais estavam sendo seus desgostos.

O desgosto da Sabrina é o meu.

As ativistas também somos todas machucadas. A gente ainda tem a consequência de outros traumas que sofremos. Mas quem cuida da gente? Estou muito fragilizada.

E não vou dizer que vou me matar, porque já tentei o suicídio. E eu jurei pra mim mesma que nunca mais vou fazer isso. Mas às vezes senti vontade, porque a perseguição é tanta, tanta. A gente teme por nossas famílias.

Ninguém sabia onde eu morava, descobriram o restaurante que frequento. Você tem uma página no Facebook, de repente um cara da Al Qaeda te descobre, e começa a te seguir. Aí, daqui a pouco outro da Al Qaeda também. Você não ficaria preocupado?

Então, começou assim. Um fake começou a ver os lugares que eu frequento – eu moro numa cidade com 3 mil habitantes. A adicionar meus amigos pessoais.

Começou a entrar na sua vida pessoal de fato.

E de pessoas que não tem a ver, família e amigos.

A última conversa com Sabrina foi antes do filho de João de Deus ter sido preso, quando descobrimos que alguns matadores lá daquela região começaram a seguir a gente. Aí ela começou a ficar preocupada com o filho dela.

Descobriram onde o menino estava, no sul do Brasil, e junto com autoridades, ela conseguiu tirá-lo do país. Ele foi ficar com a mãe.

Mesmo assim, em nossa última conversa ela estava muito desgostosa, muito cansada. Sabrina estava muito preocupada, tinham descoberto o último lugar que ela estava. Ela estava muito aflita, com muito medo pelos familiares.

Nas redes sociais estão questionando a morte de Sabrina e dizendo que nós somos cúmplices, que nós escondemos Sabrina, que armamos tudo isso. Mas eu estou é de luto por Sabrina. Estou muito triste mesmo.

Pra mim ela morreu. Se o marido e o filho falaram que morreu, eu entendo que morreu. Agora, se não morreu, lá na frente a gente vai saber; mas eu não imagino uma pessoa que faça isso, invente uma morte.

Nós não temos nada a ver com isso, nossa luta é muito séria. Não sabemos se os ataques que estamos sofrendo têm a ver com o Roger Abdelmassih, ou com a turma do João de Deus; só sei que resolveram nos atacar e que tem bandidos dos dois nos perseguindo.

Qual o papel da internet nisso tudo?

O país está sendo vítima de ódio. Antigamente, para se publicar uma notícia tinha que ser jornalista. Hoje em dia, qualquer pessoa é jornalista, põe na internet e o negócio viraliza. E a internet virou um planeta sem lei, onde ninguém mede as consequências. As pessoas acham que não vai dar em nada e falam mesmo o que querem, xingam. Virou um canteiro de ódio, onde a palavra justiça não tem sido respeitada.

Nós somos um grupo de vítimas que consegue um pouco de coragem diante de todas as dores, e nos levantamos pra ajudar outras vítimas. Apenas isso. Não somos nem mais, nem menos. Apenas um grito. E estão tentando abafar esse grito.

A Sabrina tinha feito outras denúncias com vocês?

Sim, nós também acompanhamos o caso do Gê Marques, do Reino do Sol. Ele está preso, denunciado por 15 vítimas.

O que mais sabe da Sabrina?

O que a gente sabe é o que tudo mundo sabe.

O trabalho dela como ativista é conhecido. Ela foi vítima de abuso.

Sabrina recebia muitas denúncias, mas muitas mesmo. Por isso que quando chegou o caso de João de Deus ela nos procurou, porque não conseguia dar conta. O foco dela era em denúncias de religião. E ela recebia de todas, uma coisa impressionante.

Ela notificava a Justiça direto e mandava com cópia para mim. Eu lia, respondia, discutia; via os contatos que ela precisava. É muito trabalho. Pra prender esse filho dele deu muito trabalho. Eu posso dizer que graças a Sabrina, Maria do Carmo e eu, o filho de João de Deus está preso. E graças a nós João de Deus está preso.

Agora, quem tinha que fazer todo esse trabalho eram as autoridades.

No mesmo momento que o filho de João de Deus foi preso, veio essa notícia do suicídio da Sabrina. Uma coisa impressionante.

Uma hora nós vamos ter uma resposta sobre o que aconteceu, como ela morreu. Agora, eu não sei. Atualmente, eu não sei. Atualmente eu estou em luto, porque nós perdemos uma companheira nessa batalha e ficamos no meio da história, porque ainda tem muita coisa pra desvendar. Estamos recolhidas em luto nesse momento, mas vamos continuar.