Facundo Guerra: Metade dos negócios vão deixar de existir depois da pandemia
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Facundo Guerra: Metade dos negócios vão deixar de existir depois da pandemia

Isabella Marzolla

24 de julho de 2020 | 14h07

Crédito: Alex Batista

“A gente foi completamente dizimado”

Assista à entrevista: https://youtu.be/Jw6ZmTTVJL4

Como será o novo normal das baladas? Enquanto modelo de negócio as baladas passam por seu momento mais difícil, mas os paradigmas sociais também estão em transformação e talvez a velha fórmula do sucesso, feita de drogas, gente esquisita e música boa, também precise renascer em outro formato.

A verdade é que está mais fácil para os espaços virtuais como o Tinder e seus novos recursos se transformarem em “lugares”, do que os bares se digitalizarem. Já os cinemas tendem a se tornar vintage como a indústria do vinil.

“Provavelmente os negócios vão ser dizimados entre 40 e 50%. (…) A gente vai ver muito incremento do empreendedorismo alimentar, que é um jeito de sobreviver. E a quebra de cadeias de cinema e de restaurantes de fine dinning”.

Facundo está parado há 4 meses, manteve os funcionários de alto escalão com meio salário mas não conseguiu manter nenhum que trabalhava no “chão de fábrica”, nas operações de caixa. “As pessoas que trabalham como garçons dependiam muito da “caixinha” – que muitas vezes até triplica o salário – e não valeria a pena manter”.

“Eu não sei se as baladas vão voltar do jeito que eram antes ou se vão voltar com espaços ao ar livre, ou ilegais. Talvez casas de shows mais intimistas, menores. Restaurantes vão ficar mais baratos com menus mais enxutos, e talvez a gente não veja garçom no futuro, seja tudo pedido por aplicativo”.

“A balada é um ritual de passagem da adolescência para a vida adulta. É um lugar que gente usa como o playground de um jovem adulto, como por exemplo a formatura, a primeira viagem ao exterior. Talvez não seja tão mais importante como um ritual de passagem daqui alguns anos. Talvez não faça mais sentido no futuro. Talvez a gente se infantilize…”

“Já os drive ins não te entregam nada. Funciona no começo porque é novidade, mas não entrega socialização e a tela é ruim. Não fecha a conta financeiramente falando”.

“Qual é o maior concorrente do bar agora? O Tinder. Por outro lado, o bar sempre vai ser um lugar de encontro, de olho no olho. A gente sempre vai precisar de contato, se não todo mundo explode de depressão de ficar digitalizando tudo”.

Facundo Guerra, empreendedor visionário, mestre e doutor em ciências políticas, também conhecido como o rei da noite paulistana, é sócio fundador do grupo Vegas (nome da sua primeira casa noturna, fechada em 2012) e hoje dirige cerca de 10 negócios espalhados pela região central de São Paulo, como a balada alternativa Cine Joia, a pop Yacht, o bar Arcos no subsolo do Theatro Municipal, o bar de jazz Blue Note, a balada de gamers Arcade, a eletrônica Lions Nightclub, o Z Carniceria, o bar retrô Riviera e o Mirante Nove de Julho.

Todos eles estão de portas fechadas, à exceção do bar Arcos, que reabrirá com mesas ao ar livre, na calçada do Municipal com distanciamento entre elas, a partir de meados de setembro ou quando sentirem que é realmente seguro abrir.

“Sempre usei a balada como ferramenta para ressignificar lugares abandonados, para falar de algo maior. Sempre no Centro. Eu quero menos Borba Gato e mais Mário de Andrade. Por isso volto para o Centro. A cidade é uma ilusão coletiva. Aqui é meio Serra Pelada. Quando sua ambição ou sexualidade fica pequena demais na sua cidade você vem para São Paulo. Aqui é onde os sonhos nascem e morrem.”

Facundo lançou durante a pandemia um curso online chamado Empreendedorismo à prova de crise, “para dizer para o empresário que está tudo bem ele não fazer tanto dinheiro assim”.

“O Brasil é um dos lugares mais tóxicos do mundo para empreender, é muito burocrático, não tem crédito. Nossa formação é instrumentalizada para o emprego. Só que o emprego vai desaparecer. O negócio tem que ser uma forma de você se expressar”.

Facundo cutuca também as grandes corporações – “cada vez mais consumir vai ser politizado. Já estamos vendo um monte de empresa sendo “cancelada”, sofrendo um revés político, por não estarem conscientes com o espírito do nosso tempo, como a Havan, a Madero, a Bombril”.

“A gente cansa de falar em propósito e ver empresas que sabemos que só têm interesse em lucrar, mas que pagam de Madre Teresa de Calcutá. Sabemos que elas estão enganando a gente. Quem é realmente generoso, altruísta não fica falando isso toda hora”.

“Por mais que a Nike fale de black lives matter, nós sabemos que apenas 10 ou 15% são executivos negros ou executivas trans. Vamos começar a perceber uma dissociação entre discurso e ação, só o “propósito” não funciona, vai acabar”.

“As grandes empresas em geral são extrativistas, por mais que o discurso delas seja de “propósito”. As empresas mais plugadas no espírito do tempo falam disso – como que eu posso através dos meus produtos fazer você ser sua melhor versão?”.

Para Facundo, o vírus é o menor de nossos problemas: “Nem com 100 mil mortes a gente vai conseguir transformar nosso comportamento. Talvez com 1 milhão, 10 milhões, 100 milhões… Para o vírus a gente consegue em um esforço humano coletivo construir uma solução, visto que estamos fazendo uma vacina viável para daqui alguns meses. Agora, 4 graus de elevação na temperatura mundial a gente não vai conseguir consertar”.

“Temos fronteiras cada vez mais fechadas, a direita cresceu no mundo, o discurso do outro como inimigo está cada vez mais evidente e aumentou a recessão. O vírus poderia ser um evento catalisador para nos unirmos, mas isso não está acontecendo, estamos no movimento contrário. Cada um cuidando do próprio rabo.”

“A tal da democracia que acreditavam os gregos, ela virou uma miragem, porque a gente tem uma plutocracia. A democracia tem uma velocidade completamente diferente do mundo da banda larga de hoje. Os problemas acontecem na razão de gigas por segundo enquanto a democracia é um modem de 24.8 tentando fazer uma conexão com a internet, não dá.”

“A elite brasileira está além da salvação. Não dá para falar mais com eles. Se isolaram, se fecharam. Óbvio que há honrosas exceções, mas são exceções.”

“O mundo chegou onde chegou por causa de homens brancos cis hetero de classe média, com visão egocêntrica e individualista de sucesso, como eu. Eu sou fruto desta mentalidade extrativista. Lucro a qualquer preço e meritocracia é um discurso que não se sustenta. Acho que a existência de alguém com jatinho é pornográfica. O comportamento da elite reproduz o vírus”.

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