“Foi um recado a todas nós”

“Foi um recado a todas nós”

Morris Kachani

26 Março 2018 | 15h46

Pela primeira vez, a ativista Djamila Ribeiro fala sobre a morte brutal de Marielle Franco

Por Paula Forster

Pânico. Medo. Nervoso. Estes foram os sentimentos de uma das principais vozes da militância negra no Brasil, Djamila Ribeiro, ao saber do assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco, com quatro tiros na cabeça, na noite de quarta-feira, dia 14 de março.

“Esse assassinato brutal foi um misto de choque e de terror, uma sensação de insegurança para as ativistas. Foi completamente assustador. A execução gerou fragilidade contra nós – mulheres negras – que fazemos este tipo de denúncia que ela fazia”.

Sem sair de casa por alguns dias, a feminista, pesquisadora e mestre em filosofia política pela Unifesp, também optou por, em um primeiro momento, não atender os jornalistas. Esta é a primeira vez que Djamila fala à imprensa nacional sobre a execução da vereadora, que dominou os assuntos das redes sociais, dos noticiários, das ruas.

Reprodução página do Facebook de Djamila Ribeiro

Marielle era negra, feminista, nascida e criada no Complexo da Maré – Rio de Janeiro, graduada em sociologia e mestre em Administração Pública. Foi eleita vereadora pelo PSOL com 46,5 mil votos –a quinta mais votada na cidade-, e havia sido nomeada relatora da Comissão dos Vereadores que fiscaliza a intervenção militar no Estado carioca, diante da qual não se mostrava favorável.

Na conversa de cerca de trinta minutos que tive com Djamila, a ativista – que também foi secretária adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad – comentou sobre a intervenção do Rio como sendo uma proposta eleitoreira, que gera uma resposta imediatista, repreendendo a população da favela e criminalizando a pobreza.

A militante expôs seu conceito de “guerra dos pobres contra os pobres”, gerando uma falsa sensação de segurança às classes média e alta, e propagando a ideia de que a presença do exército nas comunidades é asolução para resolver o problema do tráfico, deixando o debate sobre a legalização das drogas em um segundo plano.

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Como você conheceu Marielle? Trabalharam juntas em algum momento?

Nunca trabalhamos juntas. Mas no ano passado, quando eu fui entrevistadora da temporada de Direitos Humanos do Programa Entrevistas do Canal Futura, a Marielle foi a minha primeira entrevistada. Foi assim que a conheci. Então, trocamos contatos e sempre nos falávamos. A gente se encontrava em eventos no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e também chegamos a gravar um documentário juntas. Marielle era uma mulher com uma presença muito forte, sempre preparada, você via que ela sabia o que estava falando. Ao mesmo tempo, era acolhedora. Ela unia a questão da força com a ternura. Por mais que ela fosse vereadora, não deixava o lado militante de lado. Estava sempre por perto das pessoas e dos movimentos sociais.

Como soube da morte da vereadora? Como foi isso para você?

Olha… foi uma quarta-feira à noite, né? Eu estava em um barzinho com meu namorado e eu recebi um Whatsapp da minha assessora – também minha amiga: ‘Você já viu isso?’, e estava lá o link da notícia. Quando eu vi, fiquei totalmente em choque. Fui embora para casa nervosa. Fiquei alguns dias sem sair de casa. Tive crise de pânico, tive medo. As pessoas começaram a me mandar muitas mensagens, tanto pessoas da mídia, que eu acabei não respondendo, porque estava tentando viver aquele afastamento, como companheiras que diziam sentir muito pelo acontecido. Esse assassinato brutal foi um misto de choque e de terror, uma sensação de insegurança para as ativistas.

E qual a sua convicção? Foi um assassinato político?

A convicção – não só minha, mas de muitas pessoas ligadas à militância – é de que foi uma morte ligada ao que Marielle representava, às ações e pautas que defendia. Ela era uma pessoa que denunciava a violência policial, que tinha um canal de denúncia entre a favela e a violência institucional. A gente entende como um recado a todas nós. Não foi mais uma vítima da violência. É claro que vivemos em um País, onde a população negra morre diariamente. Mas no caso dela tem uma questão política, tanto de quem ela era – uma mulher negra que veio da periferia – como das pautas que ela defendia.

É completamente assustador. Como se fosse um recado emitindo: “Olha, não adianta vocês se colocarem contra isso, aceitem as coisas como são”. É claro que o Brasil é um dos países da América Latina que mais mata ativista, mas Marielle era uma parlamentar também, e ser executada desta maneira gerou fragilidade contra nós – mulheres negras – que fazemos este tipo de denúncia que ela fazia. Não é comum parlamentares serem assassinados da forma como ela foi.

O que demonstra uma fragilidade de nossa democracia…

Extremamente frágil. Mas também temos que pensar que a população da favela nem vive a democracia, e a militarização – que vem acontecendo no Rio de Janeiro – está impedindo cada vez mais isso. Marielle era contra a militarização, contra as UPPs… Então isso mostra o quanto que a realidade desta população que vive nestas regiões está bem longe de ser democrática.

E qual a sua opinião, em relação a esta intervenção no Rio de Janeiro?

A gente – do movimento de ativistas da causa – é contra, por entender que isso não resolve o problema do Rio de Janeiro. Sabemos que a guerra é fomentada por não ter um debate sério sobre a legalização das drogas e há muitos interesses por trás disso.

Existe uma criminalização da pobreza no Brasil. Essa guerra nada mais é do que uma guerra à população negra, às pessoas da favela e a gente sabe dos interesses políticos que estão por trás disso. O Estado chega sempre nessas regiões de favela com repressão, nunca com inclusão social, com valorização da educação, da saúde. Só chega para reprimir. Não resolve. É preciso repensar o papel do Estado dentro desses lugares.

Entendemos – e tem vários especialistas, sobretudo da política brasileira, da plataforma de pesquisa e de várias organizações que estudam essa questão – que tem que ser feito um debate da legalização das drogas no Brasil, seguindo modelos de exemplos de outros países, onde há resultado da diminuição da violência. E o Estado não pode ser omisso nessas regiões. Precisa de fato ter investimento de saúde, educação, politicas públicas para que a população tenha oportunidade e possa viver com dignidade. O que acontece é que o Brasil é um país extremamente desigual. Ele não é um país pobre, mas tem uma concentração de renda muito grande na mão de poucas pessoas e é necessário fazer essa distribuição de renda de forma mais equalizada.

A intervenção seria uma resposta de curto prazo?

Na verdade a gente entende também como uma proposta eleitoreira que visa o imediatismo e coloca a intervenção militar como a solução. É criada uma ideia de que ela se faz necessária e a população, muitas vezes, acaba comprando essa falsa sensação de segurança, mas que na verdade é somente uma forma de controle social que recai sobre a população pobre, negra e moradora das comunidades do Rio de Janeiro. Faz com que as pessoas não reflitam sobre o que é a segurança pública, com que não saibam qual o real problema. A sociedade brasileira é extremamente desigual e o Estado é omisso. Não há de fato uma vontade de incluir essa população das favelas como cidadã.

Você acha que está se criando esse clima de segurança? Para mim, é o contrário…

Então, cria uma sensação de segurança para as classes altas e médias. Essa que é a questão: o discurso que é vendido para estas classes. É claro que gera um clima totalmente violento para as pessoas que estão sofrendo diretamente com essa intervenção militar, mas se você ouvir as pessoas da classe média de Copacabana, muitas vão apoiar a ação, porque acham que estão mais seguras. A opinião do brasileiro médio, geralmente, é de que está certo, que a polícia e o exército precisam estar lá, porque aquelas pessoas são bandidas. Há toda uma espetacularização disso, têm os programas de televisão que tratam as pessoas que moram lá como bandidas, ou que trazem a ideia de que se morreu, estava envolvido com o tráfico. A narrativa criada pela mídia hegemônica, pelos programas que fazem disso um espetáculo, é de que a intervenção é necessária para as pessoas andarem seguras. A violência está longe delas e as pessoas das comunidades são tratadas como o problema. O real problema não é mostrado.

E qual é esse real problema?

Ainda tem muito tabu no Brasil para falar das questões das drogas e a não-legalização é utilizada como justificativa para a violência contra as comunidades. Os moradores das favelas não são a causa do tráfico de drogas, muito pelo contrário. As pessoas querem respostas muito imediatas a estes problemas e não entendem que a gente está falando de um País que foi o último do Hemisfério Ocidental a acabar com a escravidão, que a formação do Brasil contribuiu para a desigualdade e, ainda hoje temos a aprovação de uma PEC que congela em 20 anos os gastos para a saúde e educação.

É preciso olhar para as reais causas das desigualdades e ver qual é a população que vai pagar o preço quando a gente tem uma violência generalizada no Brasil, porque ao mesmo tempo em que é um País onde estes jovens mais morrem, é também onde mais se matam policiais. É necessário pensar nisso também. E os policiais vêm das mesmas regiões onde eles estão matando. Enquanto o Estado financia uma guerra de pobres contra pobres dentro dessas comunidades, lucra com a violência, e apresenta uma resposta imediatista de repressão, sendo que o problema é muito mais profundo.

Com a sua experiência como secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo na gestão de Fernando Haddad, como define a questão dos direitos humanos? Pergunto por todas as postagens que colocam Marielle na posição de culpada por sua própria morte…

Existe todo um debate de senso comum de que “defender direitos humanos é defender bandido”. As pessoas não entendem que quando uma pessoa é presa, ela perde o direito de ir e vir, mas ela não perde os direitos humanos. A gente precisa entender o que é a Declaração dos Direitos Humanos, feito pela ONU, e, para, além disso, dos tratados internacionais de que o Brasil é signatário, eu acho que é importante pensar os direitos humanos como uma forma de incluir, de fato, os grupos que estão fora da condição humana.

Precisamos pensar que quando a gente tem um número grande em relação à violência de grupos negros e de mulheres, estes grupos não estão sendo tratados de forma humana. Dentro da minha experiência como secretaria adjunta, eu defendo um papel de escuta e não um trabalho feito de dentro do gabinete. Eu andei muito pelas favelas de São Paulo para entender as demandas mais urgentes. Entender que no Brasil existem “vidas que foram criadas para importar e vidas para não importar”, haja vista a não comoção dessa campanha difamatória contra a Marielle.

Como enxerga o cenário politico hoje brasileiro? Já tem algum voto?

Cenário de caos. Vivemos um momento politico extremamente preocupante no Brasil depois do fato da presidenta Dilma ter sofrido o impeachment. Acho que ainda com todas as críticas realizadas à gestão dela, a gente não acredita que foi um impeachment que deveria ter acontecido nos moldes como aconteceu e vivemos momentos de retrocesso… É um cenário desolador. Também acho que as esquerdas precisam se repensar dentro desse cenário e de fato promover debate com as bases, incluindo a questão de gênero racial, que ainda falta muito.

Eu ainda não tenho um voto, porque acho que está muito nebuloso. A gente vive um momento em que o Presidente Lula pode ser condenado a qualquer momento. Obviamente que eu sou do campo da esquerda e eu deva apoiar algum candidato deste campo. Mas ainda não dá para definir. É um momento de muita indefinição e também de preocupação, com a ascensão conservadora no País.

Quando você diz que a esquerda precisa se repensar, poderia aprofundar este ponto?

De fato, a esquerda não incorporou o debate racial e de gênero como deveria e são sempre os mesmos quadros. Uma parte da militância partidária da esquerda também está cansada das mesmas representações de jovens brancos de classe alta. É necessário fazer uma renovação que atenda aos anseios dessa população, que apesar de ser maioria, ainda tem invisibilidade no Brasil. Eles precisam ser incluídos de forma mais sincera e não com objetivo eleitoreiro.

Com o cenário brasileiro de hoje, você se sente representada por alguém?

Acho que é importante falar que existem alguns mandatos interessantes, como a da Áurea Carolina, a vereadora negra mais bem votada em Belo Horizonte, com um mandado coletivo construído pela base popular de movimentos de mulheres negras de BH… A Talíria Petrone, também jovem negra, em Niterói. Além disso, tem aparecido um quadro interessante de candidaturas com mulheres negras fazendo um papel de enfrentando, com o apoio de movimentos sociais, e que estão conseguindo se eleger apesar do pouco apoio dos partidos políticos.

Você acha que o movimento negro, olhando para trás, errou ou tem errado em algum aspecto?

Acho que é importante pensar que são vários movimentos negros no Brasil, que tem perspectivas ideológicas diferentes e que não necessariamente seguem as mesmas correntes. O problema é a falta de escuta. Mas a gente teve vários avanços importantes, como as politicas afirmativas – reivindicação histórica do movimento negro no Brasil – que viraram politicas institucionais, exemplo das cotas raciais.

O que é ser mulher negra na sociedade brasileira hoje?

Há uns meses dei uma entrevista para o Estadão e disse que é se sentir estrangeira no próprio País, e eu mantenho essa ideia aqui. Ao mesmo tempo em que somos maioria no Brasil, somos relegadas. Falamos e não somos escutadas. Mas carregamos todo o lado da força e da resistência, comprometidas em pautar a agenda nacional.

Quando pensa em futuro, o que enxerga na nossa sociedade?

Olha, eu nem sei o que dizer sobre o futuro. Eu não consigo pensar hoje, diante do cenário que a gente tem. A única certeza que eu tenho, é que vamos seguir lutando. Como dizem as mães argentinas da Praça de Maio: “A luta que se perde é a luta que se abandona”. A gente não tem outra opção a não ser seguir resistindo, lutando pelos ideais que acreditamos. Estamos mobilizadas, passado o choque da morte de Marielle, para descobrir quem foram os assassinos, e a gente entende que não podemos nos calar, temos que seguir.