Fraudar ou não fraudar? O “cada um por si” na fila da vacina
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Fraudar ou não fraudar? O “cada um por si” na fila da vacina

Morris Kachani

03 de junho de 2021 | 10h55

“Eu acho interessante ter um critério em que se priorize pessoas que têm mais riscos, mas o da comorbidade é bastante questionável. O que eu penso que deve ser feito é debater esses critérios, que é uma coisa que não aconteceu pois foi tudo feito às pressas, e isso gerou no Brasil uma sensação de “cada um por si”. E essa sensação de “cada um por si” é justamente o contrário do que deve haver em uma estratégia de imunização. Estratégia de imunização é por definição coletiva, assim como estamos aprendendo a duras penas, que uma epidemia é uma patologia coletiva, é da sociedade. Se houvesse uma estratégia coletiva não estaríamos nesse desconforto”

Assista à entrevista: https://youtu.be/4RnZcJVFsbc

“A necessidade da fila de imunização nasce dessa escassez de vacinas. Ou seja, criam-se critérios sanitários e epidemiológicos. Os tais grupos prioritários têm uma razão de ser; aquelas pessoas que estão mais expostas, que têm mais chances de entrar em contato e se contaminar ou se contaminadas com mais riscos de adoecer gravemente, ter sequelas ou mortes. O que a gente pode questionar é se no caso brasileiro esses critérios são bons, e além disso, se eles têm sido de fato fiscalizados. Esse é um problema principal para o Brasil que não vimos em países europeus que também lidaram com a escassez de vacinas, poucos meses atrás”

“O turismo da vacina consiste em países que têm a vacina sobrando e que a adotam como estratégia para atrair turismo. Do ponto de vista individual me parece que é uma preocupação moral, mas a gente não cria política pública criando constrangimento moral – vai contar com a moral de cada um? Quem tem um sentido moral mais estrito não vai fraudar um atestado, mas um monte de gente vai lá e frauda pensando no “cada um por si”. Eu vejo o turismo da vacina em uma discussão ética entre os países. Os governos que estão adotando isso deveriam ter um certo constrangimento, eles querem fomentar o turismo através das vacinas sobrando, sendo que há no mundo muitos países que sequer têm vacina suficiente para a primeira dose, que nem profissional de saúde recebeu a primeira dose”

A base da ação política do governo Bolsonaro na pandemia foi a absurda imunidade de rebanho por contágio, a pretexto de “retomar a economia”. Foi para isso que boicotaram vacinas e inventaram o kit covid. É o que a CPI precisa mostrar para a sociedade, de acordo com Daniel Dourado, dico e advogado sanitarista, pesquisador do Institut Droit et Santé da Université de Paris e do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (Cepedisa/USP), atuante nas áreas de direito sanitário, saúde e biociências, políticas de saúde, direito administrativo / regulatório, saúde digital.

“Existe fila de vacina porque existe escassez de vacina. Nesse cenário de escassez, o Brasil está em uma situação particularmente crítica. O Brasil ficou no final da fila dos contratos.

É do governo federal a responsabilidade de comprar imunizantes. Quem tem historicamente a competência para adquirir vacinas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) é o governo federal, então é uma competência do Ministério da Saúde, que não fez ou fez de maneira muito ineficiente [a compra das vacinas]”

“Houve a opção do Brasil de entrar no consórcio da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Covax Facility, que abriu no mês de abril de 2020 e o Brasil foi o último país a manifestar interesse, lá no final de setembro, e só entrou efetivamente no consórcio no final do ano passado, optando pela cota mínima, que foi 10%. Ou seja, o Brasil chegou até o final do ano passado sem ter, sequer, um plano de vacinação

“O pessoal faz até essa brincadeira, o “sommelier” de vacinas, o sujeito que quer saber de qual marca é vacina etc. Isso não faz sentido porque a vacinação só é de fato efetiva quando a gente alcança um percentual da população vacinada.

O fato de eu estar vacinado e todo o meu entorno não estar não é uma vantagem suficiente para mim e esse pensar na coletividade é algo que foi desacreditado na estratégia do Brasil. Então temos essa sensação do ‘cada um por si’, do ‘poxa, mas eu não vou ser vacinado. Estou aqui esperando a minha vez’.

Não há outro caminho neste momento que não seja uma fila única pelo SUS”

“A gente tem visto um cenário muito complicado da pandemia, que é uma crise de dimensões gigantescas do mundo inteiro, uma crise sem paralelo, acho que nem no pós-guerra a humanidade viveu uma situação como essa e isso coincidiu no Brasil com um governo completamente omisso e sem nenhum interesse, aliás, que indica ter interesse oposto ao que deveria ter”

“Tenho dito sempre que a pandemia é em todos os países uma crise sanitária de maior ou menor dimensão, mas no Brasil a gente tem visto uma crise que é fundamentalmente política, porque são decisões de natureza política que levaram a crise no Brasil a ser dessa maneira”

“O Brasil era por todas as avaliações prévias considerado o país que teria uma das melhores respostas à pandemia do mundo, porque o Brasil tem um sistema universal e público de saúde com capilaridade, temos SUS nos 5.570 municípios com gente para aplicar a vacina. Claro que o SUS está em um momento de sucateamento nos últimos cinco anos, mas mesmo assim seria uma resposta muito melhor do que a gente tem visto”

“Em uma epidemia uma das principais respostas é uma comunicação clara e direta à população; você precisa ter um canal claro de comunicação com a população. A população não vai adotar medida de saúde pública como distanciamento físico, usar máscara o tempo todo, enfim, porque são medidas desconfortáveis, ninguém assume isso pelo simples apelo ao bom senso; precisa ter uma política pública para isso acontecer. Nenhum governo adota lockdown porque quer, adota porque precisa, porque não tem saída.

O lockdown tem que ser uma medida de política pública. O governo tem que se estruturar, tem que dar condições materiais para que as pessoas possam se proteger e não falar “fique em casa” sem dar a condição para isso acontecer. Nos países que seguiram esse protocolo, primeiro teve a mensagem clara e direta para a população do que precisa fazer e depois criou-se a condição para isso. O auxílio emergencial que temos de uma maneira muito “tímida” no Brasil, precisa ser um auxílio que realmente dê condições para as pessoas ficaram de quarentena e para fechar comércio também”

“Ainda por cima, em todas as oportunidades que tiveram, as autoridades e o Presidente da República falaram contra a vacina, botando dúvida em relação à vacina, boicotando”

“A gente percebe que os senadores que estão compondo a CPI perguntam muito sobre a imunidade de rebanho e para que serviriam as omissões do governo. Se a gente for analisar o discurso do governo até o final de 2020 – porque em 2021 eles modularam um pouco o discurso -, havia menções à imunidade de rebanho, de que “70% vão pegar”, “isso é uma chuva que todo mundo vai pegar, a gente tem que proteger só os idosos” e até inventaram um conceito que não existe que é o isolamento vertical – “vamos tirar os idosos de circulação”. O pretexto era sempre “a gente não pode parar porque a economia não pode parar”, eles usavam essa lógica que eu chamo de absurda”

“Lá no começo havia uma desconfiança científica, inclusive houve vários estudos para testar, mostrando que cloroquina não tem efeito. O Brasil apostou nisso [na cloroquina] e me parece que depois a usou como uma ferramenta. A gente viu isso muito claramente nos discursos das autoridades do governo federal dizendo que tem o “tratamento precoce”, ou seja, criando na população uma falsa sensação de segurança, com a ideia de que “vou ficar em casa e se sair tem um tratamento, um remédio que melhora”. Claro que esse discurso é muito mais cômodo para a população do que falar, “você vai ter que ficar em lockdown”. Então juntou essa omissão do governo para o lockdown, jogou tudo para Estados e municípios e se lançou mão desses “tratamentos” que ficaram estimulando isso”

“Não é à toa que Manaus está tão em evidência na CPI. Em Manaus houve rumores de que a cidade já havia “adquirido imunidade” e o governo foi para lá, fez lançamento de um aplicativo, tratamento precoce… Houve uma importante mudança de discurso do governo depois da tragédia de Manaus em relação a vacina”

“Várias normas jurídicas, leis e vetos que foram feitos pelo governo foram todos no sentido de espalhar mais o vírus, de espalhar o contágio. O governo federal falava em recuperar a economia, mas ao mesmo tempo o Bolsonaro vetou o Congresso quando aprovou a obrigatoriedade de usar máscara”

“A situação do Brasil está bem difícil ainda, a gente vê pelo pessoal que faz análise de dados que vê tendência de alta nas próximas semanas. É uma corrida contra o vírus, justamente porque o Brasil – tirando alguns municípios que tentaram ou fizeram por um período lockdown – não tem confinamento, então o vírus está circulando e a vacinação precisa ser mais rápida do que o vírus para controlar a epidemia – estou falando dos próximos meses”

“Vai chegar um momento em que vamos ter 60,70% da população vacinada e aí sim a epidemia vai ser controlada, mas está longe disso acontecer por falta de vacinas e porque a vacinação não está na velocidade que poderia. E sobretudo não está tendo controle para articular a vacinação com essa contenção do vírus”.

“Está longe de a gente dizer que a pandemia está controlada ou acabando, mesmo nos países ricos, porque enquanto ela não estiver controlada no mundo todo não estará controlada totalmente em nenhum país”.

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