Golden shower: manual de instruções
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Golden shower: manual de instruções

Morris Kachani

11 de março de 2019 | 10h43

Prática propagada por Jair Bolsonaro nas redes sociais não pode ser sempre considerada anormal e acontece entre quatro paredes com mais frequência do que imaginamos. Quanto ao vídeo, o problema não é a prática em si mas o fato de ter sido feita publicamente.

Mas então, o que afinal é o golden shower? Imbuído de um espírito moral e cívico, este blog foi procurar a resposta para a pergunta lançada pelo excelentíssimo senhor Presidente da República, no seu twitter.

A psiquiatra Carmita Abdo, professora da USP, detém um conhecimento bastante razoável acerca do tema. Ela é fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, onde todos tipos de transtornos são atendidos, e Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

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Queria repercutir aquele vídeo do golden shower postado pelo presidente, deixar às claras do que se trata golden shower, e indagar em que medida faz sentido divulgar estas imagens.

Na minha condição de psiquiatra e professora universitária, não cabe fazer julgamento do comportamento das pessoas que foram filmadas e tampouco da forma como o vídeo foi divulgado. Minha contribuição será mais efetiva para explicar o que é esse comportamento, como isso hoje é visto pela psiquiatria no âmbito mundial e pela Organização Mundial de Saúde. É um aspecto que merece ser conhecido pelas pessoas.

Então vamos lá.

As cenas apresentadas trazem um comportamento francamente erotizado e que têm no âmbito da psiquiatria denominação e condutas.

Melhor explicando, quando alguém durante uma relação sexual sente necessidade e prazer de urinar sobre outra pessoa, esse ato recebe o nome popular de golden shower, que no ponto de vista científico se chama urofilia.

Esse prazer está dentro de uma categoria de comportamento do qual fazem parte as chamadas parafilias. São atrações e práticas paralelas, o prazer por algo que é paralelo, que não é convencional.

Tipo o que?

Até há pouco tempo, na penúltima classificação psiquiátrica, todas as parafilias eram consideradas passíveis de tratamento ou seja, situações que mereciam que a pessoa fosse corrigi-las e modificasse sua forma de relacionar.

Dentro deste grupo entre outras está o fetichismo, o sadomasoquismo, a urofilia. Além disso a pedofilia, além do vouyerismo, do exibicionismo, do frotteurismo.

Frotteurismo?

Frotteurismo é friccionar o próprio corpo no corpo de outra pessoa, e terminar em ato sexual. Acontece geralmente em locais públicos de aglomeração como shows ou metrô lotado. É se esfregar em alguém sem que esse alguém esteja de fato em um contexto de relacionamento.

Ok, voltando à urofilia.

Os experts da psiquiatria se reúnem de tempos em tempos para revisar normas e guidelines de diagnóstico e tratamento, em sintonia com a condição do momento sócio-cultural e de todas condições de vida de nosso tempo.

Até a penúltima classificação dos distúrbios sexuais, todas as parafilias eram consideradas patologias que deveriam ser tratadas.

Ocorre que, na última classificação americana, de 2013, houve uma diferenciação e então ocorreu uma separação entre algumas parafilias que permaneceram como patólogicas, enquanto outras não.

Como assim?

Algumas delas foram classificadas como transtornos. Outras, não. O que as diferencia é o consenso. Se há consenso, não há por que nós psiquiatras nos colocarmos no meio da situação.

Para citar algumas das parafilias que foram despatologizadas, temos a urofilia, o fetichismo (uso de um objeto inanimado -o fetiche- ou de uma parte não genital do corpo como um meio preferido de produzir excitação sexual) e o sadomasoquismo.

São algumas formas mas existem milhares de outras para se excitar nas práticas mais diversas, desde que ambas as partes estejam de comum acordo, não sendo surpreendidas, importunadas ou desrespeitadas em sua liberdade.

Nesses casos em que há consenso, nada temos a fazer. É um assunto que só tem a ver com os envolvidos.

Às vezes estas pessoas buscam tratamento porque apesar de haver consenso, elas não estão satisfeitas, apresentam algum desconforto ou angústia. Aí vão buscar ajuda, querendo modificar.

E o que ficou sendo considerado patologia?

Foram consideradas como sempre patológicas aquelas parafilias que não ocorrem com consenso das pessoas envolvidas e que também estejam de certa forma agredindo a liberdade de terceiros.

Então a partir de agora só serão consideradas transtornos passíveis de abordagem terapêutica a pedofilia, o frotteurismo, o exibicionismo e o voyeurismo.

O exibicionismo por exemplo, é quando alguém exibe os órgãos genitais surpreendendo o outro.

Voyeur é espiar sem que outras pessoas envolvidas saibam, enquanto estão se desnudando ou em atitude sexual. É espiar por frestas, pelo buraco da fechadura, por lunetas, sem que a pessoa saiba que está sendo observada. O prazer está exatamente no fato do outro não saber o que você está fazendo.

Tem ainda o frotteur, que termina sua atividade sexual inclusive ejaculando.

E a quarta situação é pedofilia, entendendo-se criança como alguém menor que 13 anos.

Há algo comum nessas práticas. Em todas não há como obter consentimento.

Então dá para dizer que o golden shower não é mais considerado um distúrbio.

O golden shower foi despatologizado na última classificação psiquiátrica.

Desde que seja realizado com o consenso das partes envolvidas e também privacidade, é uma atividade que acontece, e que hoje pela psiquiatria não é considerada ato patológico. Algumas pessoas gostam de receber e outras de dar um golden shower. Se ambas estão de comum acordo em um contexto de privacidade e intimidade, isso diz respeito apenas aos envolvidos.

Porém no contexto do vídeo temos uma questão. Trata-se de um ato que deveria ser feito na intimidade com seu parceiro, e não publicamente.

Toda manifestação erótica sexual que foge daquilo que as pessoas possam receber sem que se sintam agredidas, já não é algo que se possa considerar como desejável.

Então o problema não é a prática em si mas o fato dela ter sido feita publicamente.

Mas aí é carnaval.

Pois é, mas veja, mesmo sendo carnaval. O carnaval é uma festa exuberante, bonita, que atrai turistas do mundo inteiro, e traduz a identidade brasileira de uma forma muito própria.

No meio de tudo isso muitas pessoas lançam mão de práticas não tão socialmente aceitas. Esse foi um vídeo que mostrou uma situação socialmente não aceita, tanto que repercutiu bastante.

É carnaval, mas a gente não gostaria que ele fosse lembrado e identificado assim.

Estamos em um país algo conservador, muitas pessoas não se sentem confortáveis diante de situações erotizadas, a gente tem que respeitar esta forma de ser das pessoas.

Para alguns, então se é carnaval, ‘ok, pode’. Só que depende, parece que a reação do brasileiro não é homogênea. Não são todos que aceitam.

Foi um momento de extrema liberalidade, não sei se as pessoas que participaram do ato estavam alcoolizadas ou drogadas, mas sei que não foi positivo para boa parcela da população, enquanto outra parcela simplesmente não se importou.

Quanto ao presidente ou qualquer outra pessoa manifestar sua opinião, é um direito. Apenas penso que não foi uma atitude muito positiva, levar o vídeo a ser viralizado, em um aspecto que não é dos melhores, de nosso carnaval. Não foi algo que o mundo acatou com simpatia.

Muita gente pratica golden shower?

Quem pratica e se sente bem com isso, não vai trazer esse dado para o consultório. Então fica difícil ter muita ideia.

Mas fizemos uma pesquisa sobre o comportamento sexual do brasileiro, perguntando sobre as mais diferentes parafilias.

E o que saiu?

No geral a gente imagina que as atitudes de comportamento sexual não-convencional são extremamente raras. Mas na verdade não são.

Diria que das parafilias que não são mais passíveis de diagnóstico e tratamento, a incidência está entre 4 e 5% da população, de forma mais regular. E isso acontece com 15% da população, em atos mais esporádicos. Este é o conjunto das parafilias. Agora, quanto à urofilia especificamente, fica difícil quantificar.

Você usou o termo ‘não-convencional’. É um termo feliz para o caso da urofilia.

Sim, não é algo tão raro mas também não é convencional. Só não pode dizer ‘anormal’. E digo ‘não-convencional’ baseada em estatísticas. Até porque o comportamento sexual é muito móvel e pode se transformar bastante em determinadas fases da vida.

É possível descrever que prazer uma pessoa sente com a urofilia? A diferença entre dar e receber o jato?

Há quem sinta essa satisfação durante o ato e necessite desta prática para se satisfazer: dando o jato, dando e recebendo o jato, ou recebendo o jato.

A urofilia acontece com homossexuais e heterossexuais. Há homens que têm prazer em ser urinados, e parceiras que têm prazer em urinar. E vice-versa.

Seria a urofilia uma perversão? Existe algum problema em querer vivê-la?

Freud, quando descreveu quadros desta natureza, os denominou de perversões sexuais (per- ao lado de; versão- regra). Esta denominação foi, com o tempo, substituída por parafilias, no sentido de lhe retirar a conotação de julgamento, que não cabe em diagnóstico médico, e que não era a intenção de Freud.

A prática da urofilia traz riscos à saúde?

Se a urina for isenta de qualquer doença, o máximo que vai acontecer é realmente molhar o outro que, claro, vai acabar se lavando mais cedo ou mais tarde porque a urina, mesmo sem bactérias, se ficar na superfície do corpo vai atraí-las.

Portanto, não havendo uma doença relacionada com urina, a urofilia será um ato que representará realmente um jato que foi recebido e deu prazer, seguido logicamente de um banho que a pessoa irá tomar.

O grande risco de fato é se a urina for contaminada com bactérias. Se tiver qualquer processo infeccioso na urina, poderá ser transmitido. Então esta questão é a que fica para se considerar.

Você em algum momento mencionou que o país é algo conservador. O país está mais conservador do que já esteve? Como faço para entender o carnaval no meio disso e essa licenciosidade toda?

Eu acho que o país é conservador comparativamente com outros povos. Nós não somos o povo mais conservador do mundo mas estamos longe de ser o mais liberal.

O que a gente assiste no carnaval parece que é uma explosão de várias situações que foram sendo controladas ao longo dos meses. Não só a explosão de liberar na sexualidade, mas também na forma de liberação de uma série de situações mal suportadas durante o restante do ano.

Então é a hora em que quero me acabar. Como se diz, ‘hoje vou botar pra quebrar’. Quando na verdade é apenas um momento em que é permitido, aceito, compreendido, que certos exageros possam acontecer.

Há uma série de atitudes jocosas e brincadeiras que ninguém faria em outras circunstâncias.

Não quer dizer que neste momento o país deixa de ser conservador.

Somos tradicionalmente conservadores. Estamos nos tornando um país mais aberto?

Acho que o contrário, pelo visto.

Se conservador é bom e liberal é ruim ou vice-versa, não importa. Só importa ter sempre em mente de não impedir o outro de ser como ele é.

Imagine um liberal que se une a um conservador. Temos aí uma difícil relação. Será preciso muita conversa para uma prática saudável e prazerosa para ambos.

Por isso as pessoas acabam se identificando e formando grupos do seu meio. Se você é liberal e vai assistir uma peça teatral que questiona hábitos mais conservadores de costume, ótimo, porque estará em contato com pessoas que dialogam com aquela situação.

O problema ocorre quando as atitudes podem soar agressivas para os outros, em locais públicos.

A psiquiatria procura estar alinhada com as mudanças sociais que estão acontecendo. Acertadamente, o que as pessoas fazem entre quatro paredes não agredindo a ninguém nem a si próprias, é algo que tem a ver apenas com elas. Nem sequer o médico está autorizado a se colocar no meio desta situação.

Dos 15% dos brasileiros que praticam ou praticaram alguma parafilia esporadicamente, e dos 4 ou 5% dos que o fazem com mais frequência, conforme apontado na pesquisa que mencionou. Existem conservadores que praticam parafilias apesar de condená-las no plano discursivo?

Não tenho como responder a esta sua pergunta, porque esta prática foi referida em questionário anônimo…

Temos um discurso ecoando, sobre o resgate dos valores cristãos da família, ou essa história de menino e menina vestindo cores específicas. Será que estas falas dialogam com o que a psiquiatria está propondo no momento atual?

É muito difícil para qualquer ser humano estar neutro. É preciso ficar o tempo todo treinando sua isenção e juízo de valor, com o cuidado de não impor a sua verdade para o outro.

O professor precisa ter a habilidade de fazer vir à tona a verdade de quem está educando. E o médico, especialmente o psiquiatra, de quem está tratando.

É muito difícil, requer um treino constante, porque a gente acha que a verdade é a nossa e não do outro. É preciso se colocar no lugar da pessoa que está falando e entender o contexto dela. As verdades são individuais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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