Gregório Duvivier: “Quando você se depara com esse assassinato em massa, é muito difícil fazer poesia, ou piada. A sua vontade é de apenas gritar, assassino!”
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Gregório Duvivier: “Quando você se depara com esse assassinato em massa, é muito difícil fazer poesia, ou piada. A sua vontade é de apenas gritar, assassino!”

Morris Kachani

15 de abril de 2021 | 19h17

“A gente não está mais chateado, a gente não está mais revoltado, a gente não está mais puto, a gente já passou por tudo isso, a gente já está meio que “pós-puto”, a gente está meio amortecido. Eu acho que é uma coisa que aconteceu, sabe? É um pouco como o personagem Pedro que de tanto gritar ‘lobo’, já ninguém acredita nele. Eu tenho medo que os artistas estejam amortecidos de tanto gritar ‘lobo’”.

A arte na pandemia e no pandemônio, de acordo com Gregório Duvivier. Ator, humorista, roteirista e escritor, co-criador do canal Porta dos Fundos, e apresentador do Greg News, na HBO, que acaba de estrear a quinta temporada.

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=nYjPX31m99E

“Eu acho que o Brasil é essa tensão entre um conservadorismo muito ferrenho e o carnaval. O Brasil do Bolsonaro é contra a brasilidade, ele odeia tudo que é sinônimo de brasilidade, ele odeia o carnaval, as nações indígenas, a natureza pujante, tudo que é a brasilidade não-institucional. O Brasil que ele louva, Duque de Caxias, é um Brasil que é contra o Brasil. O Duque de Caxias matou um monte de brasileiros. Nosso exército, desde a Guerra do Paraguai, só mata brasileiro. É um Brasil que é anti-brasilidade. Esse Brasil que tenta sufocar essa brasilidade sempre existiu”

“Acho que tanto na ditadura como agora o governo sequestrou os símbolos nacionais e passou a usá-los com sinônimos de si mesmo, então a gente se sente estrangeiro dentro do nosso próprio País. O bolsonarismo se traveste de Brasil, ele se veste de verde e amarelo e sua música é o hino nacional.

Em algum lugar você passar a sentir uma rejeição muito nociva, uma rejeição aos símbolos do seu País. Eu adorava o hino nacional, me remetia aos jogos do Brasil. Quando o Bolsonaro foi eleito o meu vizinho botou o hino do Brasil e eu chorei por perdê-lo”

“Tem uma letargia na classe artística de modo geral, que tem a ver com a gente sentir que não está conseguindo comunicar, até por não ter mais o encontro físico. Eu sou um ator de teatro, eu faço coisas com a plateia. Até o programa que eu faço para a TV era com plateia e agora estou fazendo sem plateia.

E não estou fazendo teatro há mais de um ano, ninguém está fazendo teatro há mais de um ano, e os artistas também não estão fazendo mais shows.

Eu acho que o reflexo disso na nossa vida de um modo geral é que o artista não se sente mais comunicando, ele não tem mais a resposta do público, ele não tem mais a resposta real e imediata que ele tinha. O artista a cada apresentação recebia ali um feedback e aquilo alimentava, você sabia com quem estava falando. Hoje não, você tem as métricas do Youtube, do Twitter. Não é a mesma coisa. A gente vive do calor do público e isso nos motiva a continuar”

“A impressão que a gente tem é que o nosso campo é muito pequeno, porque não está na rua. Então você vê aquelas inaugurações da loja Havan com um milhão de pessoas, você vê a direita, o bolsonarismo indo às ruas. Só eles estão aparecendo, a impressão que dá é que só existem eles”

“Eu penso muito sobre isso. Sobre qual é a função nossa nesse naufrágio, até escrevi sobre isso semana passada, que eu estava no Titanic e eu era o violinista. Mas na verdade eu não sou nem o violinista, porque o violinista é um músico que combina com o naufrágio. Agora, um pandeirista no naufrágio ou um tocador de cuíca no naufrágio, ele não é muito bem-quisto, as pessoas vão dar um tabefe, ‘cara, o barco tá afundando, para de tocar essa cuíca’. Eu acho que a tragédia combina com a arte de modo geral, mas com a arte que eu faço, que é o humor, ela é especialmente difícil. Fazer humor de uma carnificina é realmente muito ruim”

“Eu acho que a arte na tragédia política a gente está mais acostumado, é mais normal. O problema agora é que a gente tem uma tragédia sanitária e que é também política, então é uma tragédia sanitária por causa da política”

“Um livro que eu gosto muito é “Se é isto um homem?”, do Primo Levi. Uma das imagens que eu mais gosto é do bibliotecário de Auschwitz. Tinha um bibliotecário lá que ao ver a escalada do nazismo, ao ver que as pessoas estavam indo para campos de concentração, ele começou a decorar todos os livros da biblioteca. Ao ir para um campo de concentração, levou muitos livros na cabeça e lá as pessoas perguntavam a ele, “o que você tem aí?”, e ele respondia, “ah, eu tenho Macbeth…o que você quer?”. Ele era uma biblioteca em forma humana. Eu acho que isso é uma função da arte também, que é guardar dentro da gente também funções disponíveis para algum tipo de escape”

“Eu acho absurdo esses nomes de centro que não são o centro. Para mim o Lula é centro, o Lula sempre foi de centro, ele nunca se disse socialista, marxista. Ele é um cara a favor da distribuição de renda, mas também da economia de mercado. Eu gosto muito do Boulos, adorei o que ele fez nas eleições de São Paulo.

O Luciano Huck é o tradicional candidato de direita, mas o nosso centro está tão quebrado por causa do Bolsonaro, que o Huck hoje se diz de centro. Se ele fosse de centro, entre Haddad e Bolsonaro ele tinha cravado Haddad”

“Acho que é um barato se o Danilo Gentili se candidatar, porque ele vai tirar votos do Bolsonaro. Aho que tem muita gente da juventude que votaria nele. Eu acho muito melhor que votem nele do que no Bolsonaro”

“Acho que pode mandar o Presidente tomar no cu, eu só penso nisso. O meu problema com ele é que não tem nenhuma interlocução possível, ele não tem escuta, ele não tem leitura de mundo. É um sujeito que acorda de manhã e se informa pelo Facebook e a partir daí toma decisões.

Eu acho que a arte poderia transformá-lo, mas eu acho que é tarde demais. Se ele não tivesse estudado em escolas justamente tão ruins. Ele fala que Paulo Freire acabou com a educação, mas se ele tivesse tido contato com Paulo Freire ele não seria essa pessoa. Ele claramente era uma pessoa oprimida que passou a ser um opressor. Acho que faltou ele ter uma educação libertadora, que ensinasse ele a não ser como o pai dele foi com ele, o pai que impediu ele de ser jogador de futebol e realizar o próprio sonho”.

“Quando você se depara com esse assassinato em massa, é muito difícil você fazer poesia sobre isso, ou uma piada sobre isso. A sua vontade é de apenas gritar, assassino!

Então quando a gente tem uma situação tão flagrante como a que está acontecendo agora, é muito difícil, tem muito pouco espaço para a linguagem poética, criativa.

A sua única vontade é denunciar, é berrar. A denúncia e o berro não estão na contramão da arte. A arte pode conter uma denúncia, mas ela precisa de uma decantação”

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