Guilherme Boulos: “Se Jesus vivesse no Brasil de 2020, ele ia ser apedrejado”
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Guilherme Boulos: “Se Jesus vivesse no Brasil de 2020, ele ia ser apedrejado”

Morris Kachani

29 de setembro de 2020 | 14h32

Eixo da campanha do psolista à prefeitura da capital, que conta com Luiza Erundina como vice, é a desigualdade social; “maior desafio destas eleições é derrotar o bolsonarismo e o projeto atrasado do PSDB”

Assista à entrevista: https://youtu.be/_ADBs_YzKlk

Inaugurando a série “Cosmovisão”, na qual os principais postulantes ao cargo de prefeito de nossa cidade serão entrevistados, compartilhando, para além de suas propostas, também a sua visão de mundo e seus valores, recebemos em nossa sala virtual o candidato Guilherme Boulos, do PSOL.
Nesta conversa, com um toque mais intimista, ele explica como decidiu trocar, na juventude, a vida de classe média alta em Pinheiros, pela moradia em acampamentos de sem teto e depois, um sobrado no bairro de Campo Limpo na zona sul, onde divide o teto com a companheira Natalia e as duas filhas do
casal.

“Quando eu nasci a gente [família] morava em um prédio em Pinheiros, em uma travessa da Teodoro Sampaio. Nunca me faltou nada, tive uma boa infância. Tive as oportunidades que a maioria das pessoas não têm, de ter um bom estudo, uma boa família”

“A cidade de São Paulo tem dois mundos. Do ponto de vista da vivência cotidiana, tem muita mistificação de que a periferia é violenta, perigosa. Eu fui assaltado duas vezes no centro expandido, uma em Pinheiros e outra na Praça da Sé. Moro na periferia há quase 20 anos e nunca fui assaltado.

Na periferia tem uma coisa que no centro se perdeu, um pouco da raiz comunitária, conhecer o vizinho, pedir ajuda para o vizinho, conversar na calçada, conhecer todo mundo do bairro. E a dinâmica urbana cria cada vez mais gente sozinha; São Paulo é um amontoado de gente sozinha na multidão”

Encabeçando a chapa composta com a ex-prefeita Luiza Erundina, Boulos é hoje aos 38 anos, uma das lideranças mais notáveis do campo progressista. Filho de um casal de médicos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, formado em filosofia, especializado em psicologia clínica e mestre em
psiquiatria pela USP. Foi candidato à Presidência da República também pelo PSOL, tendo obtido 0,58% dos votos (617.115 votos).

Na última pesquisa DataFolha, Boulos apareceu em terceiro lugar, com 9% da preferência do eleitorado, atrás de Russomano e Covas, e à frente de França e Tatto.

“Se você morar em uma cidade como São Paulo, não tem como a gente não ver. A realidade entra por todos os lados. É você andar na rua e ver alguém jogado na calçada, dormindo. É você parar o carro e ver uma criança pedindo dinheiro no semáforo. Eu tenho para mim que todo mundo, em um primeiro momento, se sensibiliza com essa realidade. O problema é que muitas vezes a gente não sabe o que fazer com esse sentimento, um sentimento de compaixão, de indignação, de revolta. E a maioria das pessoas, até para conseguir seguir sua vida e não desabar, vai abstraindo e naturalizado. O problema é que isso desagua em uma baita indiferença, em que isso vira parte da paisagem”

“Eu acho que existe amor em São Paulo, mas existe muito ódio também. As pessoas são humilhadas, mal tratadas, têm o reconhecimento de seu valor negado pelo Estado. (…) Já vivi
cenas lindas de solidariedade e encontro, de gente se ajudando”

“A expectativa de vida em Moema e nos Jardins é de 80 anos. Em Cidade Tiradentes, 57 anos, e no Jardim Ângela, 58. Por que quando alguém nasce a 30 km de distância de um lugar, conta com 20, 30 anos a menos de vida?”

“De todos os bairros de São Paulo, os vinte com mais mortes na pandemia foram na periferia. No Hospital Tide Setubal, em São Miguel, 90% das pessoas que entraram na UTI com covid-19 morreram; no Einstein e no Sírio-Libanês, em média, 85% sobreviveram”

“Hoje tem essa coisa de dizer que os evangélicos estão com Bolsonaro; a religião virou uma defensora do conservadorismo. Agora você pega, qual o exemplo histórico de Jesus Cristo? Acolher necessitados, tolerância em relação a aqueles que sofriam, defesa da igualdade e da justiça, dividir o pão e os peixes. Eu fico imaginando se Jesus vivesse no Brasil de 2020. Ele ia ser apedrejado por boa parte dos que se dizem cristãos. O que tem de falso profeta, de vendilhão do tempo, de fariseu, gente que usa o cristianismo para poder explorar a fé das pessoas e fazer política em cima disso… Como é que o Bolsonaro vem falar de valores cristãos, um cara que só prega ódio, a morte, detesta a vida, a diversidade? Morrem 140 mil e ele diz que não tá nem aí, que não é coveiro”

“O trabalho com a população em situação de rua é muito criminalizado, atacado, tem pessoas que se acostumaram a tratar essas pessoas como se não fossem gente, como se fossem “sub-gente”. Então pessoas como o padre Julio Lancelotti, que tentam acolher, garantir os direitos do morador de rua,
incomodam. Outro dia na Mooca, uma parte dos moradores do condomínio do entorno fizeram um abaixo assinado contra o padre Julio porque achavam que ele atrai moradores de rua para aquela região e desvaloriza os apartamentos”.

“Mudou o perfil da população em situação de rua. Por muito tempo era composta de homens; agora são famílias inteiras. Na pandemia piorou muito, porque é gente que não conseguiu pagar aluguel porque ficou desempregada, foi despejada e foi para a rua. E sem nenhuma política consistente de acolhimento”

“Uma coisa que me preocupa muito é o que vai ser feito de São Paulo e do Brasil no pós-pandemia. Vai ter um rastro de destruição no país, de desemprego, de pequenos comércios que faliram, de gente jogada na informalidade. Podemos chegar no primeiro semestre do ano que vem, a 25 milhões de
desempregados e 60 milhões na informalidade. Isso significa metade do Brasil desempregado e fazendo bico para sobreviver”

“Pensando em distopia e nessa febre de ódio alucinado que o Brasil vive, me vem à mente aquela cena do saque de supermercado em São Gonçalo (RJ), ou da fila em São Paulo para pegar a carne do caminhão que virou. Se não tiver medidas ousadas e contundentes, nós vamos viver um cenário de caos social, de convulsão social no Brasil. (…) Por isso, já conversei com a Erundina, um dos centros da nossa campanha aqui em São Paulo vai ser a defesa de uma renda básica para ser implementada. Não é possível que em um cenário como esse, seja discutido reduzir o auxílio para 300 reais e cortar a partir de janeiro. Que na cidade mais rica do Brasil e da América Latina, a prefeitura não tenha nenhum gesto para garantir renda para as pessoas não revirarem o lixo pra comer”

“O auxílio emergencial foi uma conquista da oposição. Bolsonaro queria 200 reais, foi uma batalha da oposição para conseguir 600 reais. (…) Se não fosse o auxílio emergencial, a gente já estaria vivendo um cenário de convulsão social (…) é a família no fundão da periferia em que a mãe e o pai estão sem emprego, a criança pedindo para almoçar e não tem arroz no armário. Isso dá numa desagregação social, isso dá numa revolta. Estamos falando de uma sociedade que não é capaz de garantir a sobrevivência de milhões de pessoas. É isso que pode acontecer”

“Estou convencido que combater a desigualdade é bom para a cidade como um todo, inclusive para a classe média que às vezes pensa com a cabeça da elite, se vê como a elite. A classe média às vezes tem medo de parar o carro no semáforo e ser assaltada, está em condomínio com cerca elétrica para se proteger, não consegue usufruir do espaço público porque tem medo. O combate à desigualdade não é bom apenas só para quem se beneficia das políticas sociais, de uma renda solidária. Ele é bom para a cidade toda. Agora, a cidade funciona mantendo privilégio de uma minoria de bilionários, muitos dos quais inclusive têm esquema com o poder público.

É notório, a máfia do transporte, máfia das empresas de lixo, das empreiteiras, imobiliárias. É um conjunto de grandes interesses econômicos que sequestrou o poder público e que usa o dinheiro
público para os seus interesses individuais, com a conivência eventual e muitas vezes a participação dos gestores de plantão. Para fazer uma política pública de verdade que combata a desigualdade de São Paulo, tem que ter coragem de botar o dedo nesse esquema e acabar com ele. Nossa proposta é secar essa torneira dos esquemas para garantir que o dinheiro público vá para políticas sociais”

“Há 40 mil imóveis abandonados só no centro expandido. Não são a casa de ninguém, não são os apartamentos que a pessoa vai alugar; são imóveis largados e com o IPTU atrasado. A lei – que é desapropriar eles, isso está no Plano Diretor, no Estatuto da Cidade -, precisa ser cumprida”

“As pesquisas têm mostrado o potencial de nossa candidatura, de catalisar todo esse sentimento de indignação e de esperança, de pessoas que estão cansadas com o ‘bolsodoria’, aliança perversa que governa SP e o Brasil desde 2018. O bolsonarismo com essa política do ódio, da violência, rançosa, e o Doria, que é a política do PSDB, que governa de costas para periferia, uma política elitista que vê a cidade como um negócio e só. Esta aliança está representada por seus candidatos, Russomano e
Covas”

“Quem está declarando voto pra gente é o eleitorado jovem, menos de 25 anos, e o eleitorado com maior escolaridade, com ensino superior em São Paulo. Neste segmento, estou empatado em primeiro lugar com o Bruno Covas, com 18, 19%”

“Doria foi mais vezes pra Bahia do que para o Capão Redondo”

“Celso Russomano é uma fraude perigosa. Ele constrói sua trajetória em cima da ideia de que era defensor do direito dos consumidores. (…) Ele está sendo investigado por corrupção, por
caixa 2 a partir de delatores da Odebrecht. Eu acho que a gente precisa de uma pessoa que nos defenda de um candidato como o Russomano. Ele faz o figurino que for preciso para tentar ganhar,
e se agora a forma mais viável é tentar o apoio do Bolsonaro, é por aí que ele vai. Tivemos a tragédia de Crivella no Rio, São Paulo tem um exemplo de caminho a não seguir”

“A gestão Bruno Covas não deixou nenhuma expressão relevante para SP. O legado do PSDB combina o que tem de pior, que é elitismo com roubalheira. As pessoas estão cansadas desse projeto e do legado que já dura 20 anos”.

“O maior desafio destas eleições é derrotar o bolsonarismo e o projeto atrasado do PSDB. O ideal seria a unidade do campo progressista, mas isso não foi possível”

“(com relação a Jilmar Tatto) Eu respeito candidatos que estão na oposição ao Bolsonaro. Não pretendo nessa campanha tratar como inimigos aqueles que também não estão no jogo do ‘bolsodoria’, por mais que eu tenha diferenças”

“Houve uma falência sistêmica da política brasileira. A operação Lava Jato apressou todo esse processo, com todos seus vícios, importante de dizer, que hoje a gente pode ver pelo retrovisor.
Não tem como negar que tiraram Lula, para em 2018 eleger o Bolsonaro. Todo mundo sabe”

“Evidente que houve valores e conquistas sociais importantes no combate à miséria, mas os governos do PT cometeram erros. Um dos erros básicos é não ter ido até o fim na reforma política e ter
governado com as mesmas oligarquias que governam o país há 500 anos, em nome de uma governabilidade”

“Bolsonaro é ladrão de galinha desde sempre e só não está envolvido em esquemas maiores porque o passe dele era baixo. Rachadinha, assessores fantasmas – tudo que está aparecendo aos montes, ele faz há 28 anos”.

“Dizer que ninguém presta atenção na política, essa é a parte fácil. Com muita razão as pessoas estão descrentes no sistema, porque ele é capturado pelas esquerdas, pelas máfias, por uma relação  promíscua ligada a financiamento de campanha eleitoral. A forma de combater isso é por dentro da política”

“É preciso tomar cuidado com a estigmatização. Se tornou muito comum em lugares acadêmicos ou na própria esquerda se referir aos evangélicos como se eles fossem o maior problema da nação. Não são. A gente não pode medir os milhões pela régua de um oportunista como o Silas Malafaia. Existem muitas diversidades de evangélicos. Nem todos estão nesta cartilha. Claro que existem determinados valores que são constitutivos, tem que tomar cuidado com eles. Tem que respeitar o que as pessoas acreditam e construir pontes, faltou essa humildade por parte da esquerda, no trato com os evangélicos”

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