De olho na Banalização do Mal
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De olho na Banalização do Mal

Morris Kachani

31 de janeiro de 2020 | 14h15

Em que medida o vídeo de Roberto Alvim dialoga com o conceito de Banalização do Mal evocado pela pensadora alemã Hannah Arendt?

Uma conversa com Michel Gherman, mestre em Antropologia e Sociologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, doutor em História Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro

“O mal mais perigoso é mais banal do que perverso”.

“Antes de Alvim sair do armário fazendo um discurso nazista, devemos lembrar que ele foi escolhido pelo discurso que tinha. Ou seja, sair do armário foi o problema, e não o de ser nazista. Ser nazista o gabaritou para o cargo de secretário da cultura. Alvim não é um solitário no governo. Ele é a cara do governo. Só é um pouco menos cuidadoso que os outros”.

“Bolsonaro não consegue homenagear a memória do Holocausto sem vinculá-la ao sionismo ou qualquer coisa ligada a Israel. O legado do Holocausto é o legado dos direitos humanos, que Bolsonaro despreza, da Multilateralidade, que Bolsonaro despreza, da Paz, que incomoda Bolsonaro. O próprio Estado de Israel vem no bojo dessas conquistas”.

“Esses governos (do Brasil, dos EUA, da Hungria etc) apoiam uma Israel imaginária, que é ideologicamente adequada a suas agendas. Uma Israel muito diferente da Israel que existe de fato. Enfim, acho que o apoio desses grupos a Israel pode custar claro”.

“Não é casual que em países governados pela extrema direita supostamente filo-semita haja surto de antissemitismo. O judeu é vítima constante dessas conspirações, sempre foi, e a aproximação desses grupos com os judeus se dá a partir da percepção que eles têm dos judeus. O judeu real atrapalha e por isso tem que ser perseguido”.

“Não enxergar essa oposição que se repetiu no “ele não”, com grupos judaicos no Rio e em São Paulo, ou na porta da Hebraica, no Rio, é uma decisão política. Acho que o Emicida devia entender que não foi de boa, não”.

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O impacto do vídeo de Roberto Alvim, ex-secretário da cultura, obviamente não se esgotou com sua demissão. A encenação protagonizada por este engenhoso diretor de teatro, remetendo a Goebbels, assustou não apenas a classe artística, mas o povo em geral – e a comunidade judaica em particular.

Que foi grotesco, não há dúvida. A questão simbolicamente, é até que ponto a representação de Alvim expõe justamente um pensamento reinante. Regina Duarte, com o tempo, poderá nos dar uma resposta.

Tempos atrás, Bolsonaro visitou o Museu do Holocausto em Jerusalém, e saiu dizendo que nazismo é de esquerda.

Interpretar os sinais é tarefa complexa. Estes dias assisti um belo documentário sobre Hannah Arendt, em cartaz no Philos.

Foi importante revisitar o conceito de banalização do mal, proposto por ela. E a pergunta que surgiu foi, existiria um espectro da banalização do mal, entre nós, hoje em dia?

Citando Arendt: “O mal é um fenômeno superficial. Quanto mais superficial a pessoa é, mais suscetível para ceder ao mal. Esta é a banalidade do mal. Um indício dessa superficialidade foi o uso de clichês”.

E mais: “Os movimentos totalitários criaram um falso mundo ideológico inconsistente, mais condizente com as necessidades da mente humana do que com a realidade. As massas se recusam a reconhecer a natureza aleatória da realidade. Elas estão predispostas a todas as ideologias porque elas explicam os fatos como meras leis e eliminam as coincidências e a espontaneidade inventando uma onipotência geral. Prosperam com a fuga da realidade para a ficção e da coincidência para a coerência. A lógica é seu cerne”.

Decidi procurar novamente – já é a terceira vez que o entrevisto -, o professor Michel Gherman, mestre em Antropologia e Sociologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, doutor em História Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e colaborador do IBI – Instituto Brasil Israel, para um bate-papo que pudesse elucidar estas questões.

Como se sentiu ao ver o vídeo?

Olha, ver um sujeito citando frases inteiras do ministro da propaganda nazista ao som de Wagner me deixou perturbado. Muito perturbado. Quase não consegui dormir. Mas, isso é importante, devemos ter clareza, o sujeito sempre deixou claras suas posições. Era de extrema- direita e ultra conservador. Tinha discursos denuncistas e era conspiratório. Daí a incorporar Goebbels foi um pulo.

Acho que ninguém interpreta o Goebbels assim sem ser perturbado. Mas isso não importa muito. O que importa é entender se essa é ou não a ponta de um iceberg. Vejamos, o sujeito flerta com posições ultra conservadoras faz tempo, tem um discurso de controle da arte e da cultura faz tempo, chegou até a agredir a Fernanda Montenegro, é um cara que denuncia conspirações do tipo de Marxismo Cultural, denuncia artistas como degenerados e tudo mais – e nada disso o fez ser preterido para o cargo.

Ao contrário, tudo isso o gabaritou para ser secretário nacional de cultura. Aliás, o presidente chegou a dizer que “agora temos um verdadeiro secretário de cultura”.

Mas, antes de ele sair do armário fazendo um discurso nazista, devemos lembrar que ele foi escolhido pelo discurso que tinha. Ou seja, sair do armário foi o problema, e não o de ser nazista. Ser nazista o gabaritou para o cargo de secretário da cultura. Ele falava em arte degenerada antes de ser cross-play do Goebels. Alvim não é um solitário no governo. Ele é a cara do governo. Só é um pouco menos cuidadoso que os outros.

Aliás, você se lembra do discurso de que o nazismo é de esquerda? Então, sempre defendi que ele era uma nova forma de negacionismo. Acho que esse caso provou que tinha razão. O sujeito pode ser isso tudo, ultra conservador, conspirativo, racista, mas como o nazismo é de esquerda, nazista ele não é. Alvim provou (é engraçado isso) que o nazismo é de extrema direita. E, importante notar, ele não está sozinho nesse governo.

Emicida escreveu no seu twitter (comente, please): “Candidato a presidência tem sua campanha lançada por neo nazistas. A policia encontra na casa d um nazista uma carta do candidato. O candidato é convidado a ir no clube hebraica e usa da oportunidade pra comparar pretos a animais inúteis. Todos riem nesse clube.

O candidato vence a eleição, afinal, valia td pra tirar o partido q ja havia saido 2 anos antes. Encorajados, nazistas vestem suásticas e são vistos por ai normalmente. Num dá nada. Ministro evoca signos notoriamente nazistas em video oficial. Sério que ficou estranho só agora?”

Interessante que a história da palestra da Hebraica foi desencavada agora. Claro que seria, e vai ser de novo, várias vezes. Vamos começar do início, o que o Bolsonaro falou na Hebraica é o que ele falou em vários lugares. Ele fez uma cruzada de ódio pelo Brasil todo. Foi em vários clubes de classe média e disse coisas parecidas. Foi à televisão e disse, em cadeia nacional, que a escravidão não existe. Nada aconteceu.

O que foi diferente na Hebraica é que teve uma tremenda reação na porta do clube. Jovens judeus foram até lá e quase não deixaram as pessoas entrarem. Deu polícia. Gente cantando em hebraico “fora”, o grito era “judeu sionista não apoia fascista”.

Mas as pessoas não percebem nada disso. Dizem que foi de boa. De boa? Essa história da Hebraica causou um racha histórico na comunidade judaica do Rio. Do Brasil, aliás, pois antes tentaram levar ele pra Hebraica de São Paulo e não deixaram. Esses meninos e essas meninas da porta da Hebraica deveriam virar um símbolo contra o Bolsonaro, um símbolo da luta contra o bolsonarismo.

Por que as pessoas somente se lembram do que estava acontecendo dentro, se do lado de fora tinha mais gente? Acho que o Emicida devia entender que não foi de boa não. Eu estava na porta, foi emocionante. Foi uma das primeiras reações contra o sujeito. Falem de fora da Hebraica.

Mas, acontece que as pessoas preferem cobrar dos judeus posições de consciência histórica. 50 milhões de brasileiros votaram no Bolsonaro. Negros votaram no Bolsonaro, apesar do discurso sobre a escravidão não existir, gays votaram no Bolsonaro apesar da homofobia, mulheres votaram no Bolsonaro apesar do machismo dele. Claro, judeus votaram no Bolsonaro apesar da proximidade com a extrema-direita.

Isso quer dizer que história não basta pra ensinar nada, que temos que entender que o compromisso tem que ser com o cotidiano. Com os valores. Auschwitz não é escola de cidadania. Um genocídio desse não ensina as vítimas e a seus descendentes direitos humanos, às vezes até o contrário.

Além disso tem o corte de classe e cor. Faça uma análise sobre o perfil de voto da classe média branca brasileira. Os judeus são de classe média branca, por que eles votariam diferente de seus vizinhos?  Por causa do Holocausto? Pera lá, é acreditar demais em aprendizado histórico, em um país que elege um sujeito que elogia torturador.

O mais interessante é que, segundo a Datafolha, 40% dos judeus votaram no Haddad, o que é maior do que o número de brancos de classe média que votaram no candidato do PT. Mais ainda, em um momento em que Bolsonaro ainda era um deputado medíocre, centenas de jovens foram vaiá-lo na porta de um clube judaico. Jovens judeus, com roupas de movimentos juvenis sionistas, que cantavam musica em hebraico.

Não enxergar essa oposição que se repetiu no “ele não”, com grupos judaicos no Rio em São Paulo, é uma decisão política.

Tem uma curiosa coincidência, em novembro do ano passado, saiu uma reportagem chamando o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, de “Goebbels do Planalto”. Tinha um trecho que fala em “manipulação da colônia judaica”. Muita gente da colônia justamente, ficou chocada e falou em antissemitismo.

Você acha que o envolvimento de uma parcela da comunidade judaica no governo pode estimular um sentimento de antissemitismo?

Claro que pode. Principalmente entre aqueles que já têm esse tendência. Veja só, Wajngarten é ligado a uma área super problemática, que é a comunicação. Há uma tentativa do governo Bolsonaro em controlar as críticas, em perseguir jornais, em silenciar jornalistas.

Veja como o presidente lida com a mídia. Será que faz sentido falar de manipulação judaica? As manipulações ocorrem e são feitas por uma nova lógica de noticias falsas. Assim, falar de manipulação da colônia judaica é só antissemitismo. Um tipo bem conhecido de antissemitismo, aliás.

Claro, houve empresários judeus que apoiaram o Bolsonaro. Houve alguns que tentaram passar a impressão de que essa era uma tendência comunitária. Mas, e os outros empresários que não eram judeus? Quem eles apoiaram? Mattar é Judeu? Skaf é judeu? Por que não há outras “conspirações” denunciadas pela revista? Estamos testemunhando Antissemitismo. Ao tratar uma comunidade tão diversa a partir de lógicas monolíticas, estão traçando uma lógica de classificação comunitária. Uma comunidade inteira sendo classificada por 2, 10 ou 100 indivíduos. Cabe à mídia ter o talento de entender que há uma tentativa política de se cacifar politicamente, por parte de quem fala. Não?

Saiu um artigo interessante dizendo que insistir na ideia de que judeus brasileiros apoiam Bolsonaro é equivocado e interessa apenas ao próprio presidente. Que para desconstruir a acusação de afinidade com a ideologia nazista, ele justamente exibiu a adesão das maiores vítimas do nazismo a sua candidatura. Como isso te soa?

Acho que faz sentido. Você deve estar se referindo ao artigo de Daniel Douek, que fala sobre a tentativa de Bolsonaro “higienizar” sua imagem se aproximando dos judeus. Acho que é isso também. Mas o presidente se aproximou dos judeus por eles representarem um artefato cultural, junto com Israel, perante grande parte do público neopentecostal, eleitores importantes dele. Mais uma vez, são judeus imaginários e Israel imaginário. Tem mais a ver com os valores do Bolsonaro e dos evangélicos bolsonaristas do que propriamente dos valores judaicos. Desculpa citar novamente os jovens na frente da Hebraica, mas será que eles seriam judeus nessa perspectiva bolsonarista? Seriam, a meu ver, menos judeus do que os evangélicos que apoiam a Israel imaginária. Por isso imagino que a questão da higienização de sua imagem venha junto de um calculo eleitoreiro mesmo.

O embaixador de Israel intercedeu, e parece que sua intervenção foi decisiva para que Alvim fosse demitido.

Yossi Shelley é amigo de Bolsonaro, eles já foram juntos a jogos de futebol e eventos evangélicos, pelo que li na Monica Bergamo. Israel se tornou um grande aliado do regime de Bolsonaro. E a pergunta é, como te soa o apoio de Israel a um governo que já fez vídeo remetendo a Goebbels, e diz que nazismo é de esquerda?

Sou cidadão de Israel. Pra mim é duplamente trágico. Não apenas por Goebbels. O racismo já devia ter estabelecido esse afastamento. O apoio à ditadura já devia ter produzido esse afastamento. O nazismo não pode pertencer aos judeus, mas o representante do Estado de Israel, por suas características históricas, tem que ser sensível a um governo que ofende minorias. O caso do Goebbels já devia ter encontrado o embaixador longe de Bolsonaro. A pergunta não tem que ser o que ele fez no caso do Alvim, mas por que ele ainda estava lá, próximo a um governo desses..

O presidente de Israel se colocou sobre esse assunto. Falando de apoios específicos que o governo de Israel dá a governos ultra reacionários. O presidente Reuven Rivlim disse, que o governo em Israel é parlamentarista, que o apoio de governos específicos  ao Estado de Israel não deve cegar seus representantes frente a excessos autoritários. Ao contrário. Governos autoritários e reacionários não falam em nome de Israel. E isso tem que ficar claro.

Mas veja, esses governos (do Brasil, dos EUA, da Hungria etc) apoiam uma Israel imaginária, que é ideologicamente adequada a suas agendas. Uma Israel muito diferente da Israel que existe de fato. Enfim, acho que o apoio desse grupos a Israel pode custar claro.

O embaixador israelense representa os interesses da comunidade judaica no Brasil? Como se dá (ou não) essa relação?

Não devia. É um representante de um Estado soberano. Os judeus são cidadão brasileiros que vivem e amam o país. Essa confusão prejudica ambos os grupos.

Este foi o tweet de Bolsonaro, no dia internacional de memória do Holocausto (75 anos da libertação de Auscwitz):

– Brasil constrói amizade sem precedentes com Israel e com o povo judeu.
– Trabalhamos para combater o anti-semitismo que, muitas vezes, se esconde por trás do anti-sionismo.
– Assim honramos a memória das vítimas do holocausto e contribuímos para a esperança da paz.

Algo a comentar sobre?

Perceba, Bolsonaro não consegue homenagear a memória do Holocausto sem vinculá-la ao sionismo ou qualquer coisa ligada a Israel. O legado do Holocausto é o legado dos direitos humanos, que Bolsonaro despreza, da Multilateralidade, que Bolsonaro despreza, da Paz, que incomoda Bolsonaro. O próprio Estado de Israel vem no bojo dessas conquistas. Mas o presidente prefere desviar e olhar para uma perspectiva exclusivamente nacional e pobremente ideológica. Mais uma vez, ele está olhando para a Israel imaginária, que tem a ver com os valores conservadores que propaga. Essa Israel, esse sionismo, sobre os quais Bolsonaro fala, tem pouquíssima relação com as bandeiras de Israel que os jovens levaram na frente da Hebraica. Aquelas homenageiam a memória do Holocausto. Essa fala sobre o sionismo ideologiza e aliena a memória do genocídio judeu.

Ontem, assistindo um documentário sobre a Hannah Arendt, apareceu esse texto: “O mal é um fenômeno superficial. Quanto mais superficial a pessoa é, mais suscetível para ceder ao mal. Esta é a banalidade do mal. Um indício dessa superficialidade foi o uso de clichês”. Será que estamos testemunhando um processo de banalização do mal tropicalizado?

Arendt dizia que o mal é banal. Mais banal do que perverso. Ao analisar Eichman ela vê um funcionário, medíocre e mediano, que se arvorava em dizer que cumpria ordens.

Elegemos um sujeito que disse que não entendia de economia e de política internacional mas que sabia matar. Seu vizinho que brinca com sua filha no elevador votou nesse sujeito. O mal mais perigoso é mais banal do que perverso.

Ainda Arendt: “Os movimentos totalitários criaram um falso mundo ideológico inconsistente, mais condizente com as necessidades da mente humana do que com a realidade. As massas se recusam a reconhecer a natureza aleatória da realidade. Elas estão predispostas a todas as ideologias porque elas explicam os fatos como meras leis e eliminam as coincidências e a espontaneidade inventando uma onipotência geral. Prosperam com a fuga da realidade para a ficção e da coincidência para a coerência. A lógica é seu cerne”. Existe algum aspecto atual do zeitgeist, que guardasse alguma semelhança ao nazismo?

 Sim, e não só no Brasil. Essa realidade autônoma da qual Arendt fala, é produzida a partir de teorias conspiratórias. O nazismo de esquerda, o marxismo cultural, a ideia de ameaçarem as minorias, Soros, enfim, uma penca de instrumentos ideológicos que não explicam nada mas que denunciam culpados e criam ódios contra grupos específicos, sejam judeus, comunistas ou ciclistas. A propósito, não é casual que em países governados pela extrema direita supostamente filo-semita haja surto de antissemitismo. O judeu é vítima constante dessas conspirações, sempre foi, e a aproximação desses grupos com os judeus se dá a partir da percepção que eles têm dos judeus. O judeu real atrapalha e por isso tem que ser perseguido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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