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Igreja Universal planeja construir Museu do Holocausto no Templo de Salomão

Morris Kachani

05 de agosto de 2019 | 14h23

Agora é oficial: a assessoria de imprensa da Igreja Universal do Reino de Deus confirmou o interesse de construir um Museu do Holocausto dentro do complexo do Templo de Salomão, que fica no Brás, em São Paulo.

A Igreja Universal do Reino de Deus confirma que planeja criar um Museu do Holocausto. No momento, o projeto está em fase inicial de consultas junto a lideranças da comunidade judaica”, diz o sucinto comunicado.

Foi em uma visita guiada ao Templo de Salomão, feita há um mês, que estupefato descobri o plano da cúpula da igreja. Caminhávamos pela alameda das velhas oliveiras centenárias importadas de Israel, castigadas pela adaptação ao clima subtropical paulistano, em contraponto ao quente e temperado de Jerusalém.

Era o fim da visita, que percorreu um circuito cenográfico pelo Egito antigo, abertura do Mar Vermelho, 40 anos no deserto e finalmente, a chegada à Terra Prometida. A saga do povo judeu contada em projeções interativas, narração da voz de Deus em off, réplicas do tabernáculo e do altar de sacrifício, manequins de Moisés e Aarão…

Ao fim da jornada, com a impressionante fachada de 56 metros de altura do Templo de Salomão ao fundo, o sacerdote que conduziu a visita, vestido de túnica branca e sandálias bíblicas, com seu indisfarçável acento carioca, comentou enfim sobre o Museu do Holocausto. Entusiasmado, disse que os planos estavam avançados.

Tentei confirmar com a assessoria da Universal, e depois de um mês de idas e vindas, finalmente recebi a sinalização. 

Mais informações disponíveis, por enquanto não há. Entretanto, a notícia por si inspira um debate. Um não, vários.

É estranha a notícia? É, sob um certo aspecto parece uma manchete do Sensacionalista. Mas também não é. 

Pode-se falar sobre apropriação da cultura judaica, não apenas pelos templos neopentecostais, com Edir Macedo à frente vestindo o kipá e o xale sagrado, mas pelo núcleo duro de nossa presidência. Não são todos os judeus afinal, que se sentem à vontade com a bandeira de Israel tremulando enquanto Jair Bolsonaro faz seus discursos de improviso.

Mas com esta perspectiva de certa forma já estávamos familiarizados. 

Um Museu do Holocausto instalado dentro do Templo de Salomão amplia esta escalada. Ou extrapola os limites?

O que teria a ver o nazismo, os campos de extermínio e os horrores da Segunda Guerra com a narrativa religiosa de um templo neopentecostal? Como será contada essa história? E as novelas da TV Record?

Bolsonaro em abril cometeu a sandice de sair do Museu do Holocausto de Jerusalém dizendo que nazismo é de esquerda. Espera-se que Edir Macedo não pense assim. 

Tentando articular estes acontecimentos, decidi convidar o professor Michel Gherman para um bate-papo, e tive uma boa surpresa.

Michel lembrou que um Museu do Holocausto, afinal, é e deve ser bem-vindo em qualquer lugar, desde que sua curadoria seja séria. A esperança por assim dizer, seria de tirar o novo museu do foco divino e colocá-lo no campo da história.

Gherman é mestre em Antropologia e Sociologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, e doutor em História Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor e pesquisador, coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes na mesma universidade. É também colaborador do Ibi – Instituto Brasil Israel.

Ele está organizando um livro sobre usos judaicos do neopentecostalismo. Um dos pontos é o que ele chama de privatização da memória do holocausto. A mobilização em torno do tema envolve um encontro na Unicamp e uma conferência internacional na Universidade de Haifa, no futuro próximo.

Vocês estão fazendo um livro sobre usos judaicos do neopentecostalismo. Por que o interesse nesse tema?

Na verdade tenho me debruçado sobre o tema desde meu mestrado, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Nessa ocasião pesquisei o processo de abertura da Igreja Universal do Reino de Deus em Israel, na cidade de Jaffa. Nessa pesquisa, que tem trechos publicados no Brasil com o título de Deus e o Diabo na Terra Santa, eu já notava uma aproximação impressionante entre tradição judaica e as práticas religiosas da Igreja Universal. 

Na verdade, é simplificação falar somente em influência judaica nas práticas religiosas da Igreja Universal. O que há é maior, há uso de práticas judaicas nos rituais não somente da Igreja Universal, mas de várias igrejas evangélicas, ligadas principalmente à corrente neopentecostal.

Também é simplificador falar em uso do judaísmo somente na teologia dessas igrejas. Está claro, e estava já no momento que escrevia a pesquisa do mestrado, que a relação era também política. Estamos falando de igrejas com projetos políticos mais ou menos claros, então seria restrito demais achar que os interesses são apenas religiosos.

Estas práticas nada têm a ver com os ritos originais, são apropriações que surgem em outro ambiente, têm outra dinâmica e têm outros usos rituais. 

Há uso de símbolos judaicos? Há. De termos judaicos? Há. Isso  é judaísmo? Não. É a apropriação de um judaísmo imaginário e, da mesma forma, de uma Israel imaginária. E esse é o ponto, a apropriação é feita pela igreja e não pelos judeus.

Há por trás disso um projeto político que acabou ficando muito claro nas últimas eleições. Os valores da Israel imaginária, dos judeus imaginários e do judaísmo imaginário produziram uma comunidade política que acabou por estabelecer um modus operandi político. Essa dinâmica proporcionou votos e vetos a candidatos específicos. 

O que eu quero dizer é que cristãos evangélicos que se acham adeptos do judaísmo imaginário votaram em massa em um candidato específico. Esse não é um voto judaico, é um voto feito por membros de igrejas cristãs em nome do judaísmo imaginário. 

De repente, Israel e os judeus estão no centro de interesse de milhões de cristãos no Brasil. Não a Israel real (contraditória e cheia de quebras) mas uma Israel monolítica e uniforme. Isso tem que ser estudado a fundo.

De repente, Israel e os judeus estão no centro de interesse de milhões de cristãos no Brasil. Não a Israel real (contraditória e cheia de quebras) mas uma Israel monolítica e uniforme

Ao que parece, não dá pra entender a politica contemporânea do Brasil sem entender esses processos.

E por que esse interesse tão intenso deles por Israel?

De fato, no campo da teologia há, nos últimos anos, um reavivamento de uma perspectiva messiânica que vem do século XIX, o Dispensacionalismo. Ao contrário da teologia da substituição, que acreditava em  uma nova aliança entre Deus e os Cristãos, o que implicava a exclusão dos judeus através das Cruzadas e da Inquisição, a teologia do Dispensacionalismo crê que há uma função histórica para os judeus na volta de Cristo, e que ela não deveria se dar necessariamente através da conversão.

Mas eu não acredito que esses debates teológicos sejam fundamentais para responder essa sua pergunta sobre o interesse, até porque o estudo teológico não é exatamente o ponto forte das comunidades neopentecostais. A experiência e o sacrifício são a linguagem mais comuns nessas igrejas.

Israel é vista por esses grupos, portanto, como uma referência política e de valores, mais do que um debate teológico. Israel é vista como um modelo de sociedade religiosa, moral e armada. O que faz sentido para o modelo religioso e político de muitas dessas igrejas. Assim, em perspectiva escatológica, finalista, Israel é o destino.

Mas que Israel? A Israel exclusivamente judaica, religiosa e conservadora. A parada gay em Jerusalém não cabe nesse quadro. A esquerda israelense tampouco é visível para esses grupos. Mesmo muçulmanos cidadãos de Israel ou judeus seculares, que são maioria no país, não são entendidos. Essa Israel, imaginária e desconectada das disputas diárias, é o modelo não somente teológico mas político dessas igrejas.

É legítima toda essa teatralização em torno dos judeus, como a gente vê nas novelas da Record ou no próprio Templo de Salomão? Há algo de errado nisso?

Olha, o debate entre certo e errado é um debate moral que não me agrada. As pessoas adaptam suas crenças, estabelecem religiões e reutilizam outras práticas religiosas desde que o mundo é mundo

o debate entre certo e errado é um debate moral que não me agrada. As pessoas adaptam suas crenças, estabelecem religiões e reutilizam outras práticas religiosas desde que o mundo é mundo

Eu sei que há uma polêmica sobe apropriação cultural, que respeito mas tento não entrar. O que tem que estar claro é que a kipá do pastor não tem o mesmo uso que a kipá do rabino. Bispo Macedo pode se vestir como um sacerdote hebreu em seus cultos, mas isso não o transforma em um judeu. O que o transformaria em um judeu seria a conversão religiosa, o que não parece estar em jogo.

Discorra sobre algumas apropriações que já ocorrem.

Elas são muitíssimas, desde enfeites no púlpito, como candelabros e livros da Torá, até instrumentos religiosos usados e comercializados pelas igrejas, como o solidéu, o xale, a mezuzá, enfim, quase tudo. Algumas igrejas têm mais símbolos judaicos do que uma sinagoga. Mas tudo é legitimo, desde que fique claro que os usos são feitos pela tradição da igreja e não pelos usos originais. Claro, aqui falo como historiador, não como rabino. Imagino que a opinião de um líder religioso judeu seja diferente, aliás espero que seja…

Você fala sobre privatização da memória do holocausto. O que isso significa exatamente?

O genocídio dos judeus da Europa é um fenômeno político e humano. Produzido por homens e apoiado por homens, tudo no campo da política. A extrema direita alemã determinou em sua saga pelo poder nos anos 30, que estaria havendo uma degeneração racial no país. Ao subir ao poder, essa extrema direita iniciou um processo que havia sido construído desde os anos 20, o de limpeza racial da Alemanha. Assim, através de teorias conspiratórias e teses pseudocientíficas, convenceu seus seguidores da necessidade de abrir uma guerra contra os judeus. Iniciando-se em uma segregação legal, alongando-se para isolamento espacial e terminando em extermínio físico. Note bem: Auschwitz está na ponta desse processo. Quem explica o genocídio é o algoz, nunca sua vítima. 

Claro, as vítimas devem velar e homenagear seus mortos. Devem construir memoriais, museus, falar sobre as milhares de comunidades desaparecidas, mas não cabe transformar o debate sobre o Holocausto como algo excludente, que somente pertence aos judeus. Não haveria holocausto sem racismo, não haveria holocausto sem nazismo, não haveria holocausto sem xenofobia, não haveria holocausto sem militarismo, não haveria holocausto sem totalitarismo, enfim, olha o monte de coisas que o holocausto pode deixar de legado. 

A luta contra tudo isso deve ser o legado do holocausto. Quando se tira o fundo histórico, quando se exclui os processos, não se entende o que foi Auschwitz. Quando somente judeus, somente Israel ou suas vítimas diretas podem falar sobre Auschwitz, está se privatizando sua memória, transformando um fenômeno universal em um fenômeno particular, quase sagrado.

Quando somente judeus, somente Israel ou suas vítimas diretas podem falar sobre Auschwitz, está se privatizando sua memória, transformando um fenômeno universal em um fenômeno particular, quase sagrado

Quando alguém afirmar que não houve Holocausto, que o genocídio dos judeus da Europa não existiu, isso tem que produzir indignação também nos que não são descendentes diretos das vítimas. Assim como um candidato a presidente afirmar que a escravidão no Brasil foi produzida pelos negros e não pelo sistema de colonização europeu, isso tem que me indignar, mesmo que eu não seja negro. Outro exemplo, quando alguém disser que não houve ditadura no Brasil, isso tem que me indignar, mesmo que eu não seja vítima direta da ditadura.

Em tempos de negacionismos, como os que nós vivemos, devemos lutar pela universalização dos legados de tragédias fundacionais e não pelo isolamento das vítimas. Assim se cria a possiblidade de pedagogias libertadoras e críticas.

Que sentido faz montarem um Museu do Holocausto no Templo de Salomão?

Se você me fizesse essa pergunta antes de 2013 eu sequer entenderia. Por que um espaço religioso, que imagino que seja o caso, quereria fazer uma exposição sobre o holocausto? Não faz sentido, convenhamos. Mas seria conservador de minha parte hoje dizer que não cabe um museu em um espaço religioso. Logo eu que sou a favor de uma perspectiva universalista do Holocausto, por que seria contra um museu sobre o tema em uma igreja? O Brasil está se transformando, as igrejas são espaços de formação. Temos que entender isso.

seria conservador de minha parte hoje dizer que não cabe um museu em um espaço religioso. O Brasil está se transformando, as igrejas são espaços de formação. Temos que entender isso

Claro, tem questões nesse processo. Perguntas específicas devem ser feitas: Qual seria o interesse em fazer tal museu? Se o interesse for se aproximar ainda mais da narrativa judaica a partir da tragédia dos judeus, estamos falando em uma espécie de conversão política. Aqui teríamos dois problemas. O problema da privatização do Holocausto não seria resolvido e haveria ainda a questão da influência teológica em um tema eminentemente histórico. 

Convenhamos, não dá pra colocar Deus como juiz da história e retirar os debates sobre racismo e nazismo do genocídio. Auschwitz foi construída por homens e esses homens devem ser responsabilizados. Não Deus. Isso tem que estar claro. Mas temos que ter cuidado para não sermos preconceituosos. 

não dá pra colocar Deus como juiz da história e retirar os debates sobre racismo e nazismo do genocídio. Auschwitz foi construída por homens e esses homens devem ser responsabilizados. Não Deus

Prefiro esperar que uma igreja possa sim sacralizar a vida e não o Holocausto, e produzir assim um debate crítico sobre racismo e nazismo a partir da História do Holocausto, por que não? 

Prefiro esperar que uma igreja possa sim sacralizar a vida e não o Holocausto, e produzir assim um debate crítico sobre racismo e nazismo a partir da História do Holocausto, por que não? 

Isso seria genial. Fiéis discutindo os riscos do racismo na sua igreja. Imagina! Rei Salomão, o dono do templo, era muito sábio, acho que ele responderia isso…

A história do holocausto é muito cara ao povo judeu. Acho que não tem nada a ver expô-la em um espaço que se define religioso, e que nem judaico é. 

Acho que tem. Os judeus foram vítimas e não produtores do genocídio. As memórias do holocausto devem ser utilizadas para educar contra o racismo e a intolerância. Como judeu fico lisonjeado com isso. Não vejo problema. Tenho alguma desconfiança como historiador. Isto está sendo feito em uma igreja que tem uma relação muito específica com o judaísmo. Uma narrativa religiosa do Holocausto me incomodaria e muito, mas acho possível que não seja essa a perspectiva.

Inevitável a lembrança de nosso presidente, que ao sair do Museu do Holocausto de Jerusalém cometeu o desplante de dizer que nazismo é de esquerda.

Bolsonaro comunga de perspectivas anticientíficas. Dizer que o nazismo é de esquerda está no mesmo plano de dizer que a terra é plana, ou que não há aquecimento global. Nada disso é loucura, tudo tem a ver com interesses ideológicos e com projetos políticos. Bolsonaro tem um discurso xenófobo, militarista e  autoritário, não dá pra dizer que ele não comungue, em grande parte, da agenda da extrema direita europeia. 

O Holocausto, entretanto, o incomoda e incomoda os grupos que defendem agendas de extrema direita porque é indefensável. Em posicionamentos de extrema direita, é possível defender o militarsimo, o autoritarismo, é possível defender centralização do poder, é possível defender um discurso moralista e conservador contra as minorias, enfim, é possível defender uma agenda autoritária de extrema direita hoje. O problema é o genocídio dos judeus. Isso não dá para defender. Entende? 

O negacionista clássico do holocausto diria que o genocídio dos judeus simplesmente não existiu. Diria que foi uma invenção política, uma conspiração. Hoje isso é inviável, universidades europeias e americanas expulsam negacionistas, livros são proibidos, enfim, negar o Holocausto não é mais legítimo. 

Como a extrema direita europeia lida com o Holocausto hoje?

Ela diz que o nazismo foi de esquerda. Pronto. Assim, nessa narrativa, o Holocausto foi produto de movimentos de esquerda. Não de extrema direita.  

A extrema direita que nega o Holocausto virou muito periférica, quase cômica. Esotérica e sem importância.  

A nova extrema direita, simplesmente afirma todas as posições dos fascismos europeus (anti-comunismo, autoritarismo, discursos morais etc), mas se afasta do antissemitismo e do genocídio, típicos do nazismo. Daí a importância de afirmar o nazismo como um movimento de esquerda

A nova extrema direita, simplesmente afirma todas as posições dos fascismos europeus (anti-comunismo, autoritarismo, discursos morais etc), mas se afasta do antissemitismo e do genocídio, típicos do nazismo. Daí a importância de afirmar o nazismo como um movimento de esquerda. As novas extremas direitas americanas e europeias fazem isso, e isso não é casual. Bolsonaro e forças ideológicas que o apoiam também fazem assim

Bolsonaro, assim, joga o nazismo no colo da esquerda. O que ele quer com isso? Ele está dizendo o seguinte: a extrema direita é boa. O nazismo é que é ruim, então o nazismo é de esquerda. É uma lógica típica do negacionismo histórico. A crença ideológica supera qualquer analise crítica.

O Yad Vashem (o Museu do Holocausto de Israel) tem uma narrativa muito clara, começa com a subida da extrema direita ao poder na Alemanha e termina com o genocídio dos Judeus da Europa. Mas Bolsonaro já entrou no Museu com uma tese pronta, se ele ficasse lá uma semana ele, ainda assim, diria que o Nazismo é de esquerda. 

Criar um Museu do Holocausto dentro de um templo da Universal faz parte do mesmo contexto? A natureza do interesse de Bolsonaro pelo tema não seria a mesma da Universal e por tabela, da TV Record?

Eu acho que não. Ambos podem estar, hoje, no mesmo campo político. Ambos podem compartilhar do amor por Israel e pelo judaísmo imaginário, mas Bolsonaro está muito mais próximo de uma extrema direita raivosa do que a Igreja Universal.

Não imagino que o Templo de Salomão produza uma narrativa de que o nazismo é de esquerda, por exemplo. Isso seria um escândalo e não acho que seja a perspectiva da Universal.

Não imagino que o Templo de Salomão produza uma narrativa de que o nazismo é de esquerda

Novamente, eles estão hoje no mesmo campo político mas não são do mesmo grupo político.  Compartilham de valores e de uma agenda moral, mas não são a mesma coisa.

Minha preocupação, no caso de um museu no interior de uma Igreja ou de um templo, é com uma possível perspectiva religiosa que possa perpassar e exposição

Onde entra a TV Record nisso?

Em termos estratégicos a TV Record promove o conceito de Israel imaginário para milhões de pessoas. Suas novelas levam a ideia do Israel bíblico como referências de valores e civilização. Em termos políticos esta é uma das bases de sustentação de um governo de extrema direita. 

Acredito, entretanto, que estejamos falando de dois atores políticos diferentes.  A Igreja Universal é mais pragmática e tem base social mais ampla, o governo Bolsonaro é exclusivamente ideológico e dialoga apenas com a extrema direita. A eleição de 2018 juntou os dois grupos, mas não acho que seja caso de casamento católico. Se as condições políticas mudarem pode haver divórcio.

O comunicado diz que o projeto está em fase inicial de consultas junto a lideranças da comunidade judaica. 

Espero que haja historiadores envolvidos, não consigo imaginar a construção de um museu sem a participação de historiadores. Para parte considerável da liderança judaica, a Igreja Universal é importante aliada. Acho que isso é natural quando se fala da pequena política.

O que tem que ficar claro, e não está, é que quando pastores e bispos falam de judeus eles não estão se referindo aos judeus seculares paulistanos, mas de judeus bíblicos que não circulam pela cidade. Quando eles falam de Israel, eles não estão imaginando Tel Aviv sexta à tarde, mas uma Israel imaginária que existe nas novelas da Record. 

Acho que as lideranças comunitárias têm que ficar atentas para não caírem na tentação de serem convertidas no judeu imaginário da Igreja Universal. Seja no cotidiano comunitário, seja no museu do Holocausto a ser construído no Templo de Salomão. No caso do Museu, acho justamente que são as lideranças da comunidade judaica que podem ajudar nesse projeto, tentando tirar o foco do plano divino e colocando-o no campo da história. Afinal, não foi Deus que criou teorias conspiratórias. Foram homens com agendas políticas muito específicas.

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