Joice Hasselmann: “Bolsonaro é a mais execrável de todas as pessoas que conheço”
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Joice Hasselmann: “Bolsonaro é a mais execrável de todas as pessoas que conheço”

Morris Kachani

10 de setembro de 2021 | 14h58

Entrevista com Joice Hasselmann, deputada mais votada da história, ex-líder do governo na Câmara, ex-bolsonarista arrependida e hoje vítima campeã das campanhas de ódio nas redes sociais. 

“O principal de todos os defeitos é que Bolsonaro compactua com a corrupção, tem uma quadrilha ao seu lado, familiar. É corrupto por essência, por estar no DNA dele e isso era a única coisa que eu achava que ele não era. Porque eu sabia que ele era bruto, cavalão, grosseiro, isso todo mundo sabia. Mas achei que ele era um bruto grosseiro honesto.

Eu me sentia às vezes aquela mulher, aquela namorada que sabe que tá namorando um traste mas que não quer ver; aí você pensa assim: “não, eu vou mudar ele, eu vou mudar, eu vou mudar”. Eu acho que muitos de nós, mais ou menos, podemos fazer essa analogia: ‘não, ele vai aprender a dialogar, nós vamos assessorar o Presidente, ele vai mudar em alguma coisa’. Ele não mudou em nada, só mostrou mais as garras e os dentes”

“Acho que meu maior arrependimento é ter abraçado com tanta força em 2018 a campanha do atual Presidente da República. (…) Se nós tivéssemos enxergado que [o governo Bolsonaro] seria mais do mesmo, que nós teríamos um maluco insano na Presidência da República, um “Dilma de chinelão Rider” – porque é isso que nós temos lá, nós temos um “dilmão”, Bolsonaro é um “dilmão”, só que com as características de um discurso de golpe muito acirrado. Então me arrependo disso, porque se tivéssemos enxergado lá atrás daria tempo de termos apoiado, por exemplo, um Geraldo Alckmin da vida, ou João Amoedo.

Assista à entrevista: https://youtu.be/W-aWwirTJkA

Nós tínhamos opções no primeiro turno e por aquela coisa de estarmos embalados no Impeachment da Dilma, em tirar o PT do poder e aquela coisa muito acirrada de discurso nós – nós eu digo eu e os 57 milhões de brasileiros [que votaram no atual Presidente] – agarramos aquilo que achávamos que era o principal nome anti-PT, que era justamente o Bolsonaro.

Hoje eu acho que Dilma e ele são muito iguais na capacidade intelectual, quase nenhuma, e acho que o que muda é que o Bolsonaro é mais inconsequente, talvez ele se deixe assessorar menos. O Bolsonaro é a Dilma com uma inconsequência exponencial”

“Ele é realmente louco, desequilibrado, não consegue conviver com as diferenças, não consegue conviver com alguém que o confronte minimamente, com diferença de opiniões e nem com diferenças de sexo, de gênero. Não consegue, é demais para ele”

“Ele [Bolsonaro] tem uma caminha dentro do Palácio. Tem a sala dele da Presidência oficial, tem uma salinha do lado onde ele come, almoça, toma café e ele mandou botar uma cama num quartinho ao lado e fez um “quartinho de soneca”. Ele dorme! Ele dorme todo dia dentro do Palácio do Planalto. É um negócio surreal, se você pegar a agenda oficial dele e contar quantas horas ele desempenha o papel dele, além de ficar enchendo a paciência nas redes [sociais], dão no máximo duas horas por dia para decidir nada.

As reuniões são horríveis, são à base de grito com os ministros. Qualquer ministro que tivesse o mínimo de decência já teria saído de lá. Eles [ministros] viraram capachos, porque ele os xinga”

“Nunca foi fácil a convivência. O jeito que eles tratam [a gente] é uma coisa meio doentia, essa coisa familiar e essa mania de perseguição. Eles passam do amor ao ódio em dez segundos”

“Com relação aos filhos, não é uma coisa de sentimento de pai, de pai superprotetor, não é isso, é uma coisa, sei lá… Só Freud explica. Não sei se ele tem um sentimento de culpa por ter criado esses moleques que são bandidos, cada um em uma área, mas são todos criminosos. Ele realmente precisava de um tratamento psiquiátrico”

“Tudo que eu sofri teve a dupla tecla do machismo apertada, e não é porque eu rompi com o governo – é especialmente porque eu sou mulher. Isso causa um ódio, um ódio que se eles pudessem, eles literalmente me matavam”

Como todos sabem, Joice Hasselmann, deputada federal mais votada da história do Brasil, é uma bolsonarista arrependida. Foi líder do governo na Câmara e depois chefiou a Secretaria de Comunicação da Casa.

Hoje ela sente desgosto por ter vestido a camisa do governo Bolsonaro com convicção, e afirma ter ganho maturidade política. Paga um preço alto contudo, tendo se tornado alvo do gabinete do ódio nas redes sociais, expressão máxima da gordofobia e da misoginia.

Joice também reconhece que exagerou na dose na época do impeachment de Dilma, endossando memes e uma campanha de difamação que contribuíram por fim com a construção de uma cultura de polarização. Quem imaginaria que hoje, ao se referir ao PT, ela diria “que tem gente boa e gente ruim em todos os partidos”.

No dia 18 de julho, Hasselmann acordou ensanguentada em seu apartamento funcional em Brasília, com cinco fraturas no rosto e uma na costela. Após investigação, a Polícia Civil do Distrito Federal concluiu, no dia 13 de agosto, que a deputada federal caiu, possivelmente em decorrência de efeitos de remédio para dormir, segundo  nota divulgada pela corporação.

“Eu continuo com as mesmas bandeiras, os mesmos ideais, a mesma garra no combate à corrupção. Não mudou nada, teve um ajustezinho, mas mudou o tom. Vivendo lá dentro [no governo Bolsonaro] e vendo os erros que essa gestão cometeu e que aqueles com que eu estava em 2018 continuam cometendo, eu dei “um cavalo de pau”. Não é para aquilo que eu estava ali, eu não fui eleita para ser uma doida, uma maluca, ficar xingando todo mundo e exigir fechamento de Supremo e de Congresso.

Então quando o discurso daqueles que estavam comigo, do meu grupo, começou a ficar muito mais acirrado, eu dei um passo atrás”

“Se vendeu em 2018 uma grande mentira, foi um estelionato eleitoral. E eu pus “um muro” entre eu e aquele grupo, fui atacada e continuo sendo todos os dias, pago um preço alto por isso”

“Pesquisas mostram que eu fui, entre homens e mulheres, a candidata mais atacada da história nas redes sociais”

“Hoje eu me sento na mesa para conversar com deputados de qualquer ideologia, ainda que eu não concorde com uma vírgula do que o outro está falando, respeito e consigo ter um bom trânsito com parlamentares de todos os partidos. A maturidade política que ganhei acabou virando uma espécie de narrativa para críticas dos radicais dos dois lados, como se as pessoas não tivessem que evoluir.

Então esses dois anos e meio foram tão intensos, que me deram algo como se fossem 30 anos de experiência na política. Eu fui líder de um governo esquizofrênico, rompi com esse governo, virei principal alvo de toda essa tropa doida, fui líder do meu partido e depois deixei a liderança para virar chefe da Secom”

“Eu nunca tive um coração radical, mas os discursos se misturam muito. Quando você está do lado de uma pessoa que está falando alguma coisa muito radical, também é visto como alguém radical. Eu era muito dura, mas não radical”

“No meio do calor eleitoral e quando você entra com uma paixão muito grande, como aconteceu em 2018, a chance da paixão cegar seus olhos é muito grande. Parte dos meus olhos estavam cegos naquele momento [das eleições de 2018], mas agora as máscaras caíram e eu consigo enxergar perfeitamente”

“Essa é uma outra coisa que eu mudei, que consegui enxergar: você tem gente boa e ruim em todos os partidos. E no PT não é diferente. No meu partido, por exemplo, tem um bando de corrupto, tem um monte de sem-vergonhas. Se for pensar, metade eu tiraria para fora, porque são pessoas que compactuam com a corrupção – fecham os olhos e fazem um discurso contrário – ou atuam diretamente dentro do processo [de corrupção]”

“Com o Bolsonaro eu tinha convivência, mas não era muito “grude”. A gente decidia muita coisa por telefone, eu sendo muito objetiva, rapidamente indo até ele. Ele não é uma pessoa de diálogo fácil, nunca foi, então você tem que chegar com o “bolo meio pronto” para ele, porque se você não chegar com o “bolo pronto” e ele tiver uma ideia, lascou. Aí ele faz as lambanças que ele está fazendo hoje.

Eu acho que eu era, junto ali com uns dois ministros, a única que dizia “não” para ele, então a relação sempre teve um tensionamento”.

“Olha, as qualidades que eu achava que ele tinha e que ele perdeu ou está usando para o mal, era a coisa de ser muito aguerrido, determinado em alguma coisa. Se ele usasse a determinação que ele teve na campanha para fazer o bem para o Brasil, para tentar harmonizar e pacificar os poderes, para fazer uma grande junção com os governadores e prefeitos para passar por essa crise, nós realmente teríamos uma grande chance. Mas ele usou essa qualidade da determinação para estragar tudo, para esculhambar com o mínimo de harmonia entre os poderes”

“A gente vira piada internacional com as declarações dele. Bolsa em queda, dólar subindo. A imprensa mundial olhando para o Brasil com toda a desconfiança. Ele não aprendeu a estatura do cargo dele, o tamanho do cargo dele”

“O gabinete do ódio era uma coisa tratada meio que de maneira caricata dentro do Palácio. Então, Bolsonaro sempre tentou esconder, nunca falou comigo a respeito disso. Quem comandava isso era o Carlos e os meninos dele. De vez em quando algum ministro reclamava, então já ouvi reclamação do Onyx, do Santos Cruz, reclamação do tipo “ah, aquele maldito gabinete do ódio”.

Do jeito que eles falavam parecia que eram três maluquinhos da internet xingando os outros e não que era uma organização realmente montada. Eu só descobri isso quando fui investigar, quando passei a ser alvo de ataques dos mais absurdos”

“O Brasil é misógino? Parte do Brasil é. Mas quando você tem uma autoridade ou muitas autoridades repetindo isso, você estimula aqueles que são ou que não têm coragem de ser, porque muitos são, mas não admitem.

Eu era agredida [nas redes sociais] porque estava acima do peso, porque eu era gorda. O meu pecado era “ser gorda”. Um homem não é agredido porque ele está acima do peso ou porque ele é mais feio ou porque está com uma barriguinha, ele não é agredido politicamente [por isso]”

“Nada fará mais mal ao País do que ficar com o Bolsonaro até o final desse mandato. Se nós tivermos que ficar com esse “câncer” [Bolsonaro] até 2022, para só passar por essa “cirurgia” depois, é claro que o “corpo Brasil” estará mais machucado, porque o “câncer” vai ficar corroendo até outubro de 2022. Nesse caso a gente vai ter um pedaço maior desse organismo [Brasil] comido pelo câncer, que se chama Bolsonaro”

“Acho que devemos trabalhar muito por uma terceira via, o Brasil precisa disso. No dia 7 a gente viu tudo que aconteceu, na Câmara a coisa esquentou um pouco pela questão do Impeachment. A gente vê o Presidente da Casa [Arthur Lira] colocando “panos quentes” porque obviamente fez um acordo com o governo, todo mundo sabe disso. O Presidente entregou o Brasil para o Centrão e está pagando um “aluguel” para ficar ali no governo”.

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